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Mostrando postagens de Abril, 2019

para alguém que não nasceu >>> branco

ainda me lembro
daquela tarde de quarta feira
sol forte
- muito quente -
mas a noite veio rápida
e com ela o vento
e com o vento

o sangue

e com o sangue
o entrar no carro
correr para o hospital
e chegar ao hospital
e preencher fichas
e responder perguntas

e não chorar

e disfarçar sentimentos
- sempre disfarçar -

ainda me lembro
eu
na sala de espera
- depois -
uma fuga pelos corredores
vendo pela fresta da porta
meu doce anjo
na cama - recostada -

esperando

o não saber
o nada a ser feito
- sem remédio -
mas a certeza que o pior era a realidade
os médicos
as enfermeiras
os aparelhos

meu doce anjo

assustada

eu

assustado

engraçado
como poucos minutos
podem acabar
com 3 meses de esperança

ainda me lembro
não houve choro
- apenas -
o silêncio na volta para a casa
só o vazio
por uma pequena criatura
cujo nome não sei qual seria







DITADOR >> Fred Fogaça

Sentado na sala de jantar, pés pra cima, dia pelo fim, meio a uma típica crônica triste pro domingo; o vento pra lá e pra cá não trazia som, a vizinhança dormia, nada mais que típica. O cursor, ora piscando e inerte, ora cuspindo letras, soava devagar conforme as teclas. Um par de orelhas pontudas, - Lenin, a saber - barulhou devagar pelo corredor e vendo uma das minhas mãos pendentes no colo, acomodou a cabeça em baixo, apoiando-a na cadeira, e me olhou. 
Daí um pensamento. 
Afaguei-o, mexendo em suas orelhas e, sem reservas, porque não há ridículo quando para agradar um neném desses, fazia vozinha, fabulando suas eventuais respostas enternecidas e infantis ao que eu achava - e na visão dele - que seriam bondades. Seu linguajar, na minha invenção inconsciente, sempre foi problemática. Troca sem motivos as consoantes e igualmente adiciona vogais no fins das palavras - babai - fora uma incapacidade terminal de manter uma sequencia lógica de frases e um terrível pedantismo. Era como se…

SEXTA-FEIRA SANTA >> Sergio Geia

Ouvia-a tão nítida que chegou até mim, acreditem, a voz afinada de Silvia Mariotto, de Bia, de Nazinha, de Dona Sinfa, de minha mãe, das tias Dayse e Marilia. O velho cântico tão conhecido no mundo religioso despertava eternidades: 
“Pela Virgem Dolorosa, Vossa Mãe tão piedosa, perdoai, ó meu Jesus, perdoai, ó meu Jesus”.
Hoje é Sexta-Feira Santa. Eu caminho no início da manhã pela Santa Teresinha. 
Mas não foram apenas o dia e o local que despertaram em mim tão boas lembranças. 
O céu é tão azul quanto aquela manhã de 1987. Parece recém-pintado, como sempre ouço Caio dizer, de tão limpo, de tão forte e tamanho brilho esse azul. Há uma leve brisa que vez em quando toca o rosto. É bom sentir tudo isso outra vez. E há silêncio, como se o mundo inteiro congelasse à espera da voz sempre grave do narrador. 
Mas não é só isso. 
Há um pequeno grupo de jovens na frente da igreja. Eles conversam animadamente. Aos poucos, vão chegando outros jovens e o grupo vai crescendo. 
Eu não era um bom at…

ELES SÃO PODEROSOS >> Whisner Fraga

Tripas de parafusos, cilindros, eixos, rolamentos e engrenagens fermentam uma dissonância de combustíveis e mastigam asfaltos lambidos pelo sol, pela chuva e pelo caos.
Bocas de aço cospem o poder de bielas.
Poder injetado em nano-orifícios em mega-velocidades. As transmissões se ajeitam como podem e disseminam torques insaciáveis.
O poder rasga as artérias do tempo e alcança o espírito das cilindradas.
As cerdas do poder fazem cócegas na consciência e todos riem do diesel explodindo a carcaça da justiça e outras vezes da lógica.
Os sulcos de borracha afastam a indesejável ameaça do voo e agarram o piche como se parasitassem o sumo das coisas.
Poder é veneno que se compra aos quilos em feiras de vaidades.
A máquina sequestra a carne, matura a carne, entrega ao mundo a carne triturada, quase caldo.
Todos querem a máquina e a máquina responde e há sangue nos tubos inorgânicos, que também apodrecerão, discretamente, na poeira do ódio.
Todos querem pisar, repisar o direito alheio. Todos …

NÃO GOSTO DA POESIA >> Carla Dias

Não gosto da poesia, do seu cheiro ou do seu rancor. Desagradam-me as suas rebeldias, extasiadas diante da dor. Descabeladas pelos ventos do desejo esbaforido e redentor. 
Ela é dona de um labirinto alimentado por dilemas, onde desaguam infinitos, tempestades e canções serenas. Age como se tudo coubesse, nas dobras das suas reticências.
Eu não gosto da poesia, de como ela escorre pelas línguas dos déspotas, dos sinceros e dos pesarosos, das crianças embrutecidas. De como ela se enrosca ao desalento, concedendo a ele honrarias. E a ele se oferece, com descaramento em agonia, alegando fazê-lo por pura falta de saída.
Ela é de mastigar a morte, enquanto gargalha abundantes rimas. Tem nada que a poesia não corte com a lâmina da vida. Ela gosta de dar fôlego à boa sorte e de conduzir a sinfonia das solidões implacáveis, do reviver despedidas. 
Há dias em que sim, em outros, não. Há quando talvez, volte mais tarde. A poesia se afoga em vieses, debate-se em diversidade. Aprisiona sentimento…

OLHARES ATENTOS >> Clara Braga

Lá estava eu querendo apenas conseguir terminar meu lanche. Tinha ido tomar um café e levei meu filho. Como de costume, dei primeiro o lanche dele para ele e depois comecei a comer o meu. Também como de costume, antes que eu terminasse ele foi ficando impaciente, queria correr, brincar, enfim, queria fazer qualquer coisa que não fosse ficar sentado me assistindo comer.
Deixava ele andar um pouco e, entre uma corrida e outra, conseguia tomar um gole de café. Lá pelas tantas, já cansada e ainda com fome, decidi pegar o celular e colocar uns vídeos para ele assistir enquanto eu terminava de comer.
Na mesa ao lado pude ver uma mulher me observando e, infelizmente, as mesas eram perto o suficiente para ouvir partes de sua conversa com a outra moça que também observava. Elas aparentemente não aprovavam o fato de um bebê de menos de dois anos já estar com a cara em um celular assistindo vídeos.
Preferi não prestar atenção, tanto para não ser igualmente indelicada quanto para não ficar me se…

PAI, PERDOA-LHES! - Primeira parte >> Albir José Inácio da Silva

Da janela Dona Rute viu Amâncio se estatelar de costas no chão bem na frente da birosca do Zé Maria. O filho tinha ido só comprar pão, mas reagiu às humilhações e acabou agredido mais uma vez.
- Da próxima vez tu leva um tiro, ô saci-pererê! – gritou o comerciante.
- Tu só se garante no três oitão, ô cangaceiro. Mas o Brasil tá mudando. Não é só bandido que vai ter arma, não. – reagiu Amâncio, limpando o sangue do nariz com as costas da mão. – A tua vez vai chegar!
Dona Rute correu a socorrer o filho e levá-lo pra casa. Não suportava mais a humilhação e o sofrimento do filho que acompanhou desde que ele era uma criança. Mas sentia-se impotente. Só Deus!
Zé Maria chegou ali fugido de algum crime.Apesar de proibido o assunto, dizia-se que na mocidade tocou terror lá pras bandas do Sergipe. Tentava enterrar o passado, levando vida pacata a frente do negócio adquirido com o dinheiro que trouxe numa mala há alguns anos. Evitava pendengas com traficantes e policiais corruptos, a quem pagav…

ABACATE >> Analu Faria

"Abacate é 'o rei das frutas'", me disse uma vez uma nutricionista, informação confirmada por outra (outra nutricionista, não outra fruta, até porque frutas não falam). Isso na época em que eu fazia dieta. “Você compra vários, tira a polpa, congela, faz estoque”, me disseram também as duas profissionais, mais ou menos nessas palavras, em épocas e clínicas diferentes. Estocar comida sempre me fazia pensar em tragédia. Talvez por isso as dietas não tenham vingado. É possível que meu inconsciente interpretasse o armazenamento de polpas de abacate como uma preparação para o Armagedon e reagisse boicotando a redução de calorias, impelindo-me irresistivelmente a manter a rotina de gordices. De qualquer forma, mantive o hábito de comprar abacates.
O problema é comê-los. Vou ao supermercado toda semana, parto direto para os hortifruti, encontro os abacates, escolho – primeiro pelo aspecto visual, depois apalpo – coloco no carrinho, pago, levo para casa, coloco na geladeira.…

ERIÇAR-SE >> Carla Dias >>

Mesmo ela passando um corretivo no moleque, enquanto ele explica os fatos à moleca, há apreço ali, pode acreditar. Ele está no tom que torna as palavras duras uma lição exigida pela situação vigente, não uma violência. Uma urgência no ensinamento, para que aquelas crianças, que passaram do limite, compreendam que suas escolhas farão diferença logo mais, quando as brincadeiras forem substituídas por buscas, projetos, desejos, conquistas e desapontamentos. 

Os desapontamentos pontuam tudo, especialmente o aprendizado, na multiplicidade de suas camadas.
A cara carrancuda, a voz encrespada, as palavras agrupadas na construção de um discurso formal. Ela ajeita o coque, porque tem horror ao que está fora do lugar. Ajeita a saia, passa as mãos na barra do casaco, desfazendo uma dobra inadequada. Há quem pague muito para poder escutá-la desfiar impressões sobre o assunto. Há quem a considere uma conhecedora profunda do apreço. O que não sabem é que ela raramente o vivencia, que nela mora um …

TRAGÉDIAS ANUNCIADAS >> Clara Braga

Ano passado assistimos atônitos às seis horas de incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um museu que tinha 200 anos e um acervo histórico importantíssimo. Vi várias pessoas lamentando o ocorrido e outras tantas que foram tomar conhecimento do museu e de sua importância para a identidade brasileira só depois que grande parte do acervo já havia sido perdido.
Ontem voltamos a assistir um novo incêndio que entristeceu todo mundo. Catedral de Notre Dame ficou em chamas por duas horas e perdeu parte dos seus 800 anos de história. Mais uma vez as pessoas lamentaram, aqueles que já tiveram a oportunidade de conhecer essa construção maravilhosa encheram as redes sociais de fotos e aqueles que nunca foram se mostraram igualmente comovidos já que, diferente do Museu Nacional do Rio, é difícil alguém nunca ter ouvido falar dessa Catedral, nem que tenha sido só quando criança assistindo ao filme da Disney.
Eu também lamentei, fiquei triste e pensei que esse ano de 2019 podia acabar hoje e …

bittersweet >>> branco

estou sentado embaixo da árvore grande
- vocês sabem -
gosto de observar o movimento
mas hoje
não existem muitas coisas
a serem observadas
é apenas mais uma manhã tranquila
de uma quarta-feira qualquer

vento suave e repentino me faz lembrar

vejo um rosto sorridente
- a dona deste rosto tão lindo tem 17 -
viajo
não estou mais sob a copa da árvore grande
estou no campo
e olhando para essa vida tão jovem
que sem se saber observada
brinca e dança entre os galhinhos
sobre sua cabeça
- e sob o céu azul -
pássaros voam para algum lugar
enquanto ela abre os braços
- e fecha os olhos -
só pelo prazer de sentir o vento

agora outra paisagem
praia
vejo-a correr pela areia
e brincar com as marolas
que teimam em molhar seus pés
ela corre - e sobe - para as pedras
no canto da praia
enquanto sobre sua cabeça
- e sob o céu azul -
gaivotas voam para algum lugar
ela abre os braços
 - e fecha os olhos -
só pelo prazer de fazer amor com o vento

um cachorro late
trazendo-me de volta para debaixo da árvore g…

GAVETAS >> Fred Fogaça

Buenos Aires, 2014.
Quero dizer uma coisa num repente, aproveitar o não dormir pra adiar o sol, pois nas horas avançadas é qu'eu me sinto livre, preferindo demais postergar quaisquer problemas apesar de, eu sei, deveria constar as últimas relevâncias, mas a plena sexta à noite não confunde problemas: semana como antro de desgraças: desgraças como forma de vida, mas quiçá, o proletariado oprime as escolhas e as classes (sociais) de vanguarda só trabalham com tradições e eu - lhes juro - nunca refleti faculdades até os dezessete, veja, já na boca de saída pro mundo cão, expelido a todo jato pra me colidir com uma série de consequências que se sustentaram até aqui, agora, sem parar, e eu sem tempo, irmão, na estica de disposição pra contemplar inquietações a - metafóricos - papel e caneta, porque sabe-se lá também que remédios há, mesmo pretendendo me livrar dessas amarras, ainda estou preso à meia-cidade apenas - denúncia do meu conto preferido - apegado demais pra deixar o ofício, …

FOFUCHO >> Sergio Geia

O cartório estava em absoluto silêncio. Era tanto, que se ouviam estalar de dedos, respirações profundas, suspiros suspeitos, passarinhos cantando. Se todos apurassem os ouvidos, seria possível ouvir o desfile suave de nuvens no céu. 
Atendia-a como sempre faço, com cordialidade e educação. Depois de consultas e verificações no meu computador, digitei o teor do documento que ela tanto esperava. 
Em poucos minutos, o silêncio de que falei era rasgado pelo ruído da impressão e seu desejo estava materializado numa simples folha amarela de papel reciclado, a que os burocratas de plantão dão o nome de certidão. 
Entreguei o documento e, muito simpática, ela agradeceu com essas palavrinhas mágicas:
— Já ficou pronta? Nossa, que rápido, querido! Você é um fofucho, viu? Obrigada! 
E saiu saltitante, feliz da vida, de posse de um simples documento. 
Eu também saí, não tão saltitante assim, e voltei para a minha cadeira, envolto no mesmo silêncio, agora, digamos, preocupante. 
Você aí, querido…

PROVÉRBIOS ESMIUÇADOS >> Paulo Meireles Barguil

 A Humanidade construiu em múltiplos espaços-tempos interpretações para o vivido, as quais ambicionam facilitar a sua caminhada: seja para atrair o que deseja, seja para repelir o que detesta. A abrangência dos adágios é variável: local, regional, nacional ou universal (terral me parece mais apropriado...). Os falados, conhecidos como ditadospopulares, expressam de forma singela e direta uma explicação para a complexa e tortuosa vida, motivo pelo qual a sua adequabilidade depende da situação. Necessário, pois, que os provérbios sejam, com razoável frequência, submetidos a um escâner 3D, que oferecem uma qualidade satisfatória, o que não é o caso dos riscos vindouros. Cada macaco no seu galho. Essa máxima aparentemente propaga a igualdade, mas, além de ser falaciosa, pois sabemos que há poucos macacos com grande quantidade de galhos e muitos macacos sem galhos, ela é segregacionista porque não prestigia a famosa solidariedade dos primatas, uma vez que é bastante  frequente mais de um …

ELES OUVEM TIROS >> Whisner Fraga

Os fins justificam os meios, eles recitam, embrutecidos.
Eles dizem isso quando justificam que fizeram aquilo porque era o melhor para todos. Porque era o que tinha de ser feito.
O bem geral, cantarolam.
Eles defendem os meios e bebem porque gostam de se embebedar e a insônia é um preço justo para a adrenalina. 
Adrenalina, eles esbravejam, deslumbrados.
O diálogo que prezam é o da bala despedaçando a carne.
Eles não estão sós.
Os fins justificam os meios, eles cacarejam, adestrados.
Eles precisam acreditar que os fins justificam os meios, porque eles não sabem se, de verdade, os fins justificam os meios. 
Eles esticam o indicador como se apontassem a verdade a um sobressalto do tiro.
Eles gostam de atirar e os alvos estão cada dia mais ariscos.
Eles gostam de atirar.
Os fins justificam os meios, eles rezam, dedicados.
E os meios são frágeis, senão por que precisariam de tanta bala para serem defendidos?
Os fins estão na cabeça deles e lá são os melhores possíveis.
Os meios justifica…

DISCURSO INADEQUADO >> Carla Dias >>

Dane-se você, meu caro, que sai de casa para o trabalho, acreditando no receber pelo oferecido, na fada da justiça, no conto do vigário que é a equidade. Dane-se a sua insistência em defender identidade, em exigir o que acredita ser justo, ou o que algum regulamento inoportuno reza ser seu por direito. 
É tudo bobagem, não vê?
Dane-se cada desejo seu, que mora na labuta dedicada a parir realização, e cada um daqueles que você ama porque ama e ponto. Amor feito o seu não enche barriga, não adquire imóveis, não beneficia quem deveria, não concorre à herança. É profundo, mas e daí? Profundidade não justifica o injustificável, ele devidamente aplicado, a fim de se alcançar o benefício do poder.
Poder importa, meu caro.
O que você tem a dizer, que permaneça nas mensagens mal redigidas que troca com suas aventuras eventuais. Não há espaço para você aqui, entre nós outros, nesse lugar que não aceita destempero verbalizado com vulgar vocabulário, que se esmera em requintes que jamais farão p…

ABORDAGEM >> Albir José Inácio da Silva

- Responder eu respondo, moça, mas já respondi muito disso. Vocês perdem esse papel, é?
- Dasdô.
- É, Maria das Dores.
- De quê, eu não sei não. Antigamente eu sabia, quando eu tinha certidão e alguém lia, tinha mais nome. Mas agora eu não sei mais não. A bolsa de documento foi na enchente. Documento e retrato.
- Viemos de longe, viemos fugido, eu mais o finado. Eu se perdi com ele. Meu pai quase me aleijou e queria matar o Serafim. A gente veio pro Rio.
- Chegamos ali pra cima, olha, aonde tem aquele mirante. A senhora consegue ver com esse óculos preto? Agora é um clube, mas na época só tinha barraco. Aí disseram que tinha dono aquela pirambeira, que tava escrito no cartório. Depois que a gente foi expulso, nunca mais voltei lá. Diz que agora tem que pagar pra olhar lá de cima.
- Serafim morreu de tiro. Procurou trabalho a vida inteira. Fazia biscate, catava lata, home bom, não fumava nem bebia. Um dia mandaram ele trazer coisa no carrinho. Ele disse que não porque se a polícia peg…

PERDIDA EM FRANCÊS >> Cristiana Moura

Mal acabara a aula e logo saí da Aliança Francesa, sem me dar conta de que sentido eu deveria seguir. Objetivo: andar e conhecer a cidade. Caminhei um bocado sem saber onde estava ou mesmo em que direção seguia. Desfrutei de um prazer inefável em desconhecer o norte — é uma tal liberdade! Porventura, quando me dei conta, estava defronte ao Museu de Belas Artes de Lyon. Adentrei. Dentre tantas obras me apercebi enternecida diante às esculturas de Étienne-Martin. Perdida, encontrei-me.
Reencontro um silêncio em mim mesma que há algum tempo não saboreava. Sim, silêncio tem gosto, tem cheiro, tem, inclusive, som de silêncio. Experimento tal quietude graças ao meu parco francês a refrear a incontinência verbal que, em muitos momentos, manifesto.
Que eu possa ganhar palavras, verbos e frases em francês, a cada dia, sem perder o silêncio no qual consigo respirar melhor!

AMARRAÇÃO DE AMOR - 2a parte >> Zoraya Cesar

Leia aqui a íntegra da 1a parte de amarração de amor - Isaldinha temia que, por falta de sexo, seu casamento naufragasse e desse com os costados no píer da vizinha gostosona Marinalva. No capítulo anterior vimos que os planos para atrair seu marido, Oscar, para os enlaces do amor deram mais elado que os do Cebolinha para delotar a Monica.
Enquanto Oscar convalescia dos efeitos deletérios da superdosagem do viagra, Isaldinha estudava meios de despertar o interesse do marido, sedenta que estava por um sexo animal, romântico, gótico, qualquercoisapelAmordeDeus. Por que ele, sessentão, mais feio que mentir pra mãe, não poderia ter desejo por ela? Uma mulher de carne, muita carne, e osso? E daí que já não fosse jovem nem se parecesse com a Scarlet Johanson? Na hora do vamuvê, a bacurinha não negaria fogo!

Plano 4 – quando ‘manter a chama do amor acesa’ é mais difícil do que parece
Strip tease, viagra, álcool, nada dera certo. Isaldinha partiu para o sobrenatural. Sua manicure garantira que a …

PARA TEMPOS DIFÍCEIS >>Analu Faria

São tempos difíceis: vacinas não funcionam (ao contrário - nos deixam doentes); a terra é plana; 64 não foi golpe; nazismo de esquerda, o holocausto é uma ficção... vou parar por aqui, o leitor já entendeu. Em épocas como a nossa, fica difícil refutar a crença de que a humanidade deu muito errado. Sabe a música do Louis Armstrong "What a wonderful world!"? Digo pra mim mesma que "wonderful" só se for na época dele. 
Com esse pensamento, toco a vida no sábado chuvoso. Chego à escola de idiomas e minha colega de sala, uma menina de uns 13, 14 anos, que também chega atrasada como eu, me cumprimenta em francês. Depois me pergunta como estou, não sem antes hesitar. Faz esforço para "pensar em francês" e praticar fora da aula. Tem cara de estudiosa, usa uns óculos de armação grande e diz que quer cursar Relações Internacionais no futuro. Carrega um livrão e pergunto do que se trata. "É 'Os Miseráveis'", de Vitor Hugo." Ela ri quando perg…

CANÇÕES DE AMOR SÃO UMA DROGA >> Carla Dias >>

Que de amor já se fartou. 
Agora, efemeridade é pré-requisito para relacionamento. Nada de benquerer até faltar o ar, de quando dói a ausência do outro ou sua presença se assemelha ao frenesi causado por uma realização que se mostra impossível. 
Ele sabe: amor é coisa de louco. 
De loucura de quem tem a mente desarranjada mesmo.
Curou-se de vez do último amor que amou. Ele que quase chacinou a capacidade dele de raciocinar. 
Começou ignorando canções de amor. Aquele sofrimento todo, com um desfecho besta, de felicidade insossa ou um rompante, que, até parece alentador, mas é enganação pura.
Não quer mais sentir o estômago se negar a receber alimento, só porque a alma está faminta pelo o quê? 
Amor. 
Desapontado consigo por ter pensado a respeito, devolve o disco à sua capa e o esconde dentro da estante. Elvis Presley não sabia o que cantava. 
Sai de casa, e ao fechar a porta atrás de si, solta a voz, tão sem querer, tão afinado:
love me tender, love me true, all my dreams fulfilled...…

PREGANDO PEÇA >> Clara Braga

Marinete é uma jovem apaixonada. Apaixonada por si, pela vida, pelas sutilezas e, por muito tempo, foi também apaixonada pelo Zé.
Marinete e Zé estão juntos há 5 anos, mas para Marinete algo mudou. Ela até gostaria de ter uma explicação, mas eles não brigam, Zé nunca a tratou mal, eles sempre tiveram o que os outros costumam chamar de relacionamento dos sonhos, mas Marinete tem sonhado mais alto.
Justamente por não ter uma explicação para a mudança de seus sentimentos, Marinete não encontra forma de terminar seu relacionamento, mas sabe que precisa pensar logo em alguma coisa, pois do jeito que está logo Zé propõe casamento.
Um belo dia Zé chama Marinete para jantar no restaurante predileto dela. Marinete sua frio, se ele fizer o pedido ela terá que recusar e irá magoar uma das pessoas que mais admira no mundo, mas por quem não é mais apaixonada. Não tem como ser fácil.
Lá foram eles para o tal jantar. Marinete percebe que não é a única nervosa e prefere começar logo o assunto: 
- Se…

preludio para o alvorecer >>> branco

a criança brinca no chão da praça
com sua boneca quebrada
a cabeça está amassada e falta-lhe uma perna
brinquedo dado - brinquedo resto -
mas a criança brinca
alheia aos olhares de nojo desprezo ou indiferença
que os transeuntes lançam para sua mãe
sentada no meio fio com a mão estendida
- a pedinte indesejada
enfeando a paisagem -
para quem uma ou outra alma
joga uma dispensável moeda enquanto segue seu caminho
a vida segue - preciso seguir -
mas a criança brincando no chão da praça com a sua boneca quebrada
me faz ficar

agora ela usa trapinhos para fazer o vestido
tentando embelezar sua boneca
ela sorri e aprova o próprio serviço
continua alheia
ao vento em seus cabelos encaracolados - ao fato de ainda existir uma praça -
repentinamente ela vira o rosto
posso ver seus olhos e neles
a inocência
a docura
a felicidade
e um pedaço do céu azul
sinto um aperto no peito
me levanto do banco de cimento e coloco algumas moedas
na mão ainda estendida
sigo meu caminho com passos firmes
e um sor…