Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Setembro, 2011

ARGUMENTOS PARA FILMES DE TERROR
>> Zoraya Cesar

Cena um: Concentrada na delicada operação de expor as vísceras de um paciente, a médica demorou a notar a repentina inquietação da equipe. A instrumentadora remexia-se, o anestesista tinha sobressaltos, e ao zumbido dos aparelhos juntava-se o murmurinho das enfermeiras assistentes. Irritada, finalmente levantou os olhos, era impossível continuar uma operação daquele jeito.

O susto foi paralisante. Incontáveis insetos sobrevoavam a equipe e a mesa de operações, mantidos à distância pelos abanos agora frenéticos das assistentes.

Ela também, perdendo o controle, começou a gritar histericamente ao baixar os olhos e ver a barriga aberta do paciente coberta por enormes moscas verdes.

Cena dois: O paciente gritava alucinadamente, contorcendo-se na cama, o sangue saindo pelo nariz, os olhos esgazeados, apavorados, pedindo socorro. Levou dois dias para que um residente, resolvido a pôr fim àquela barulheira que incomodava os outros internos, sedasse-o. E em nome de algum resquício de humanidad…

EDREDOM, CHEETOS & ROCK'N'ROLL
>> Fernanda Pinho

Era só eu manifestar meu desejo de trocar um prato de comida por um pacote de Cheetos que minha mãe avisava: "Quando você crescer, você vai saber o que é bom e nunca mais vai querer essas porcarias com cheiro de chulé". Cresci, até muito, me tornei adulta e nada mudou em relação a isso. O que aguça meu paladar infantil continua sendo Cheetos, pipoca, Toddynho, algodão doce, minichicken da Turma da Mônica e congêneres. Talvez esse tenha sido o único aviso da minha mãe que falhou e, certamente, também foi meu único gosto que permaneceu intacto ao passar do tempo. Fora isso, muito pouco do que me levava ao delírio antigamente ainda me apetece.

Cheguei a essa conclusão assistindo, pela televisão, aos shows do Rock in Rio do fim de semana. Ficar horas de pé, enfrentar fila, se esmagar na multidão, ter que fazer xixi na roupa devido à impossibilidade de deslocamento, aguentar gente suada se esfregando em você, levar cutucão e cotovelada de tudo que é canto, passar fome, sede, fri…

O PÁSSARO >> Carla Dias >>

Há um pássaro que há dias mora na antena da minha televisão. Não sei que pássaro é, pois faltei às aulas que me formariam uma ótima taxonomista. Minha melhor amiga se desapontou com a minha inabilidade em reconhecer um pássaro, mas apenas para fugir da questão: também ela não sabe que pássaro é este que mora na antena da minha televisão.
A tristeza da minha amiga durou pouco, somente até ela perceber que sou uma colecionadora e tanto de pássaros de origami, além de mestra em desejar enveredar pelo aeromodelismo. Mas o que realmente me encanta é observar barquinhos de papel a navegarem na banheira.

Eles não afundam... Transformam-se. Misturam-se à água morna de um mar dos que sentem tremenda falta de sal, de sol, de céu. E que, cansado da brincadeira da menina, esgueira-se pelo ralo.
O pássaro parece até um dos bibelôs que enfeitam a minha estante. Imóvel, altivo e silencioso. Pouco canta o tal, respeitando o silêncio como poucos o fariam. Mas aqui embaixo, contemplando o telhado, olho…

COISA DE CRIANÇA >> Clara Braga

Ultimamente tem se ouvido muita gente falando que a infância de hoje está perdida. Os filmes que são considerados infantis não são lá tão infantis assim, as músicas para crianças são terríveis, não se vê mais crianças brincando na rua, como tinha na época em que era divertido jogar amarelinha, pique-esconde, pique-pega e outras brincadeiras que juntavam as pessoas e facilitavam esse processo de fazer amizades novas.

Hoje em dia as escolas se tornaram lugares onde as crianças sofrem com o tal do bullying, que sempre existiu, mas que antigamente era chamado de brincadeira de criança. Afinal, quem nunca estudou com o “cabeça” ou com o “boca”? As arminhas de brinquedo que a gente levava para a escola para colocar água dentro, e fazer guerrinha de água no recreio, viraram armas de verdade que matam alunos e professores.

Tenho certeza de que armas não são coisa de criança, assim como também não são coisa de adultos, mas por mais perdida que essa infância esteja, o que é, afinal, coisa de c…

O DONO DA BOLA >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou me sentindo o "dono da bola". E para que o leitor — e principalmente a leitora distante do mundo futebolístico — não pense que estou me pavoneando, explico o sentido da expressão àqueles que são alheios às peladas de rua, às partidas de futebol da infância, disputadas em ruas sem asfalto ou calçamento, terrenos irregulares de terra batida.

"Dono da bola" é aquele menino que chega ao campinho improvisado com o mundo debaixo do braço. O jogo, no final de tarde, não começa sem ela — a bola — nem sem ele — o dono da bola. As traves, de cada lado do campinho, são feitas de qualquer coisa: pau, pedra, tijolo. As linhas são traçadas por qualquer pé descalço ou por uma chinela de borracha. Mas a bola não se improvisa. Se o menino é o dono da bola, a bola é a dona do jogo.

O dono, normalmente, tem como único talento a própria bola. Por ironia do destino — ou mesmo por sua inerente lógica — aquele que possui a matéria é desprovido de energia. O dono da bola só tem à bo…

O LIVRO [Debora Bottcher]

Hoje acontece, em Belo Horizonte, o primeiro lançamento do livro 'Acaba Não, Mundo', que, como vocês - leitores diários ou eventuais - já sabem, é a coletânea de 13 anos de crônicas desse espaço.

Um frio me percorre a espinha quando penso na ocasião e só não invejo os autores que lá estão, porque daqui a quinze dias passarei por esse prazer. Um pouco de dúvida me assolou esses dias, quando li e reli meu apanhado de crônicas: será que escolhi mesmo os melhores textos que escrevi? Confesso que acho que não, mas agora só posso esperar complacência dos leitores.

E aí peguei-me pensando nos (des)caminhos que um projeto percorre até se ver assim, pronto, do jeito que foi idealizado, desejado e, especialmente, muito trabalhado.

Pensei na ousadia maior de Eduardo Loureiro, que em nenhum momento titubeou, apesar dos tropeços, dificuldades e marés do avesso - e se pensou em desistir, logo aprumou-se de novo, valente e determinado a não deixar nenhum revés lhe roubar o sonho.

Que fique regi…

POEMAS NEGROS >> Leonardo Marona

“sem verbo, sem adjetivo”

para Miles Davis

ainda não de todo corpo a verdade,
sem verbo ainda a pele do processo,
acima de tudo, um deslize adjetivo,
dentes e areia nos olhos da penumbra,
miles de minha infância, aleluia, sim!
escultura de metal com molas, prego
no caminho em música, cavalgadas
de paz como feitiço, chapéu da noite
dentro dos ossos, escola da exigência,
frequência de rua, tempo de gueto,
pulso da abstração, catarata on/off,
agulhas de mel no topo do sentido,
um dia, talvez, elegância da margem,
dança com dois punhos de algodão,
órgãos em drama de semi-esperança,
assim já não, nunca mais, agora outro
deserto memória da agonia em pêlos,
sem um verbo, desta vez sem adjetivo,
prazer de íris, maná, dilatação do susto,
culhão de maremoto, show das raças,
verbo transe da massa, óculos de raio,
colisão de vara verde na escola do tédio.

“rebordosa”

é preciso saber esperar,
meia hora e nada mais,
um banho e quem sabe
uma saudável inclinação.

sincero consigo mesmo,
este deve ser o mantra,
penar diante de si me…

OS INESQUECÍVEIS 27 >> Fernanda Pinho

Domingo faço 28 anos. Se der tudo certo nos próximos três dias, não terei sucumbido ao Clube dos 27. O que é absolutamente normal, já que eu não uso drogas nem sou uma estrela da música mundial. O que não é normal é a raça com que essa idade, meus 27 anos, se instalou na minha vida. Nunca vi tanta disposição para ser uma idade inesquecível. O que você pretendia? Que eu passasse minha vida toda lembrando "ah, isso aconteceu quando eu tinha 27?". Talvez você tenha conseguido. Talvez. Não posso garantir que as emoções dos próximos anos não venham a te ofuscar, meus 27 anos. Mas comparando aos seus antecessores, você se sobressaiu, reconheço.
Se sobressaiu porque me fez lidar com a perda, de modo que eu nunca havia lidado antes. Ainda não estou preparada para fazer o discurso de "foi um grande momento de crescimento pessoal e blablablá". Aliás, não sei se estarei preparada para assumir isso um dia. A verdade é que ninguém gosta de sofrer - ops, quase ninguém! Retrato-…

O EXTRAORDINÁRIO >> Carla Dias >>

Acordei com o coração meio apertado. Sabe os dias em que nos levantamos e parece que, apesar de muitas coisas estarem fora do lugar, o que é perfeitamente normal, há essa coisa que não sabemos localizar ou reconhecer, e que tem um peso a mais? E certamente tem mãos, ainda que imaginadas, porque nos aperta o coração ao mesmo tempo em que o afaga.
E me veio à cabeça um pensamento que já é antigo, porque eu costumava tê-lo quando ainda era uma menina. Depois ele adormeceu, e deu de hoje acordar. O pensamento que inquiria: qual foi a última coisa extraordinária que você fez?
A diferença é que, desta vez, eu fiquei em silêncio.
Lembro-me de responder a essa pergunta com as armas que tinha: quem eu era, as situações que vivia. Como quando cuidava da casa para que, quando chegasse, minha mãe não precisasse superar o cansaço que acumulara durante o dia para lidar com os nossos, e pudesse se deitar mais cedo, preparar-se para o dia seguinte, para a suntuosa repetição do árduo. Eu tinha lá meus…

LIÇÕES DE CACHORRO >> Clara Braga

Para quem tem o costume de me ler aqui às terças-feiras, já notou que eu tenho certa adoração por tudo que se trata de cachorros. Seja filme, música, foto, vídeo, enfim, tudo que está relacionado a cachorros mexe um pouco comigo.

A última de cachorros que eu vi foi um e-mail. Um e-mail lindo, mas sem ser apelativo como muitos dos filmes que já me fizeram chorar.

O e-mail tinha uma foto lindíssima de um cachorro e a seguinte frase: “Se um cachorro fosse professor, você aprenderia coisas assim...”

Antes de continuar a ler, eu mesma parei para pensar nas coisas que meu cachorro me ensinou quando vivo, e aqui faço um convite a todos os leitores para que parem e pensem no que vocês acham que a gente poderia aprender com cachorros...

Para quem não gosta muito de cachorros, com certeza não há muitas coisas boas das quais a gente pode tirar proveito, afinal, cachorros fazem xixi no tapete da sala, furam nossas meias, ocupam nosso lugar na cama quando estamos dormindo e nos exigem muito tempo…

A PEQUENA MAIS VELHA >> Kika Coutinho

Foi assim, de um dia para o outro.

Saí de casa rumo a maternidade e deixei um bebê à minha espera. Uma menina de 1 ano e 7 meses que era um bebê...

Eu a abracei forte antes de entrar no carro, carregando minha malinha: “Filha, a mamãe vai sair com o papai para buscarmos a Olivia. Quando a gente voltar, traz a sua irmãzinha junto, está bem?”. Ela me olhou, desconfiada, encostou a mão na minha barriga de nove meses, fazendo uma referência à tal irmã, de que tanto falávamos. Senti meu coração apertar, um misto de preocupação e susto me invadiram, e meus olhos ficaram quentes num instante, quando dei mais um abraço naquela que, até então, era minha filha única.

Como tinha sido diferente da primeira vez... Quando ela estava para nascer, eu não deixara nada para trás. Ninguém me esperava em casa, ninguém gritava por mim à noite, ninguém erguia os bracinhos na minha direção quando se machucava, ninguém gargalhava com qualquer bobagem que eu fazia. Ninguém. A vida era de uma leveza tão grande qu…

AO PERÍNEO >> Eduardo Loureiro Jr.

Meu caro amigo Períneo,

Vou direto ao assunto porque, entre amigos de longa data, não cabem cerimônias.

Semana que vem, tenho compromisso importante e você, como sempre, se fará presente. Mas, pedido de amigo, não estrague a festa, Períneo. Você sabe do que estou falando...

O acontecimento é de regozijo, estarei acompanhado de esposa, família e amigos. O clima é de celebração, não venha com as suas. Você é bem-vindo, Períneo, mas maneire.

Eu sei que o imprevisto troça de qualquer planejamento, que a Lei de Murphy impera, que o pop não poupa ninguém e que quem tem cu, tem medo. Mas não inventa de fazer tempestade em copo d'água, Períneo.

Essa sua mania de cerrar-se em si mesmo é dose! Baixa a guarda, macho! Nem tudo na vida é exame de próstata, tem também biodança. Relaxa, Períneo! Relaxa...

Não tenha medo de perder o controle, deixa que eu mantenho o domínio. Não dá pra sorrir nem curtir o festejo com você amuado, contraído em seu canto. Desenrola, Períneo.

Quando você se soltar,…

CONURBAÇÕES E PREOCUPAÇÕES
[Heloisa Reis]

Morar perto de áreas mais verdes, escutar um pouco de silêncio, ver alguns pássaros mais frequentemente era um sonho que a vida me fez realizar, e que me traz um agudo sentido de gratidão todos os dias ao chegar e sair de casa.

A sensação de opressão das ruas com o excesso de movimento, e a de insegurança gerada pelas notícias diárias parece que se desvanecem na “ilha condomínio” onde muitos de nós moramos.

Ilusória imagem!

As cidades que percorro todos os dias estão crescendo - conurbando-se, como se diz em Geografia - encontrando-se e interpenetrando-se, gerando mil problemas administrativos que um município diz ser prioridade do outro cuidar.

Mas quem mora num município muitas vezes trabalha em outro e, provavelmente, faz suas compras e diverte-se em outro. Assim, vivemos uma vida agitada, correndo de um lugar a outro, enchendo as estradas de movimento - e de problemas...

No entanto, a cidade sadia é fruto do trabalho de toda a sociedade, de sua história e das relações de integra…

SENTADO À BEIRA DO CAIS >> Zoraya Cesar

Sitting on the dock of the bay, wasting time ahhh ahhh (Otis Redding - Steve Cropper)

Você encontra um banco no lugar ideal: à meia-sombra - debaixo de uma árvore que, a cada suspiro da brisa amena, derrama-se em aromas sutis; à meia-luz, iluminado pelo Sol que, generosamente, insiste em permanecer no céu e aquecer o frescor do dia que se vai.

E de frente para o cais.

A leveza do momento é tão imensa que o silêncio não é quebrado, mas preenchido, pelo grasnar dos patos e pela voz infantil que brinca na casa quase ao lado. Seu coração começa a bater no mesmo ritmo suave do marolar nas pedras da praia, e você se sente feliz. Sittin' in the mornin' sun, I'll be sittin' when the evenin' come… / Watching the tide roll away, Ooo, I'm just sittin' on the dock of the bay, Wastin' time…

De seu posto privilegiado, você acompanha – mais com o espírito do que com a consciência – o navegar dos poucos barcos que enfeitam a paisagem.  Cada um seguindo para seu porto,…

CAIR EM SI >> Carla Dias >>

Enveredou no seu sorriso a nitidez da sinceridade. Dizer não se é verdade, por que deveria me ferir? Mas fere, apunhala devagar, como se cavasse meus poros em busca de novidades, o desfecho da canção triste, orquestrada pelo silêncio, salientada pelos riscos da lâmina do desacerto. Valeu-me um sorriso de partida depois do cumprimento: até mais ver.
Desde então, pouco eu vi, e não foi a cara da rua ou a dos irmãos, das irmãs, dos primos, da prole dizimada pela conquista dos seus próprios espaços, nos quais reinam sem a permissão dos padrões, patrões infiltrados na pseudo-hierarquia da liberdade. O que eu vi veio de dentro das vestes, além, do dentro da carne, aquém, da infertilidade da eternidade, do som quase mudo do sangue a pulsar em veias saltadas. Enxerguei através do espelho e enxertei na minha realidade a companhia sublimar da matemática ao somar a cada dia a espera pelo seguinte, e a subtrair a ansiedade tresloucada.
Não que eu estivesse alimentando a comilança do falatório sobre…

ESPERANDO >> Clara Braga

As coisas são mais ou menos assim...

Esperamos o ano inteiro por 24 horas de aniversário.

Esperamos um mês inteiro por um salário que raramente dura o mês todo.

Esperamos horas e horas em pé na fila daquele show do nosso cantor predileto, que faz um show de, no máximo, duas horas.

Esperamos semanas, às vezes meses, pelo lançamento daquele filme que queremos muito ver, e que dura no máximo duas horas e meia; ou aquele CD que queremos muito ouvir e que tem só 80 minutos.

Esperamos o dia inteiro para ver aquela pessoa que só pode ficar com a gente por uns 10 minutos.

Esperamos horas na sala de espera do médico, mesmo tendo hora marcada e, quando chega a nossa consulta, demoramos apenas 5 minutos.

Esperamos cinco meses trabalhando, e estudando, por um mês de férias

Esperamos, no mínimo, uns 4 anos estudando para festejarmos um dia de formatura.

Esperamos por volta de uma hora o almoço ficar pronto, e comemos em 20 minutos.

Esperamos, ansiosamente, por aquela viagem de uma semana, que já e…

O FIM DOS GORDOS >> Kika Coutinho

Está decretado. A proliferação da cirurgia bariátrica não me deixa mentir. A capa da Veja, falando de um remédio que produz emagrecimento milagroso, só veio ratificar o que estamos vendo: os gordos vão acabar. Como vão acabar os óculos e os aparelhos metalizados.

Aparelhos metalizados quase não existem mais. É um tal de aparelho invisível, transparente, de porcelana ou de vidro, chega a me dar saudades quando lembro dos sorrisos adolescentes do colégio, os lábios que riam fechados, relutando em abrir-se, envergonhados pela chuva de prata que era a nossa boca de menina. E a fase em que gostávamos. Sempre tinha um jeca que queria mais era pôr o tal aparelho. Conheci um que tentou colar papel laminado nos dentes da frente, um desejo louco de sorrir prateado, como os outros. Hoje, acho que não se faz mais papel laminado. Para nada.

Os dentes tortos também andam meio sumidos. E os dentes amarelados? Aproveitem para vê-los agora porque, em breve, todos terão sorrisos brancos e ofuscantes c…

SEU ROBERTO E DONA CELINA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Diezm que é psosível edeetnnr o sdnetio de uma fsare msemo que as lraets de cdaa parlava etajsem ebhrlaaadams — ddsee que a prireima e a úlmita learts eetjasm em sua psoição crtroea.

Se for assim, então o leitor talvez consiga compreender corretamente esta crônica que, devido à minha situação em relação ao assunto, tende a ser um tanto quanto confusa. Afinal, que posso eu — um sujeito que já casou e descasou pelo menos uma vez — dizer sobre um casal que está completando Bodas de Ouro? Que são meus parcos anos de experiência matrimonial — nem tão bem resolvida assim — diante de 50 anos vividos por este casal a que me coube a tarefa de homenagear? Não seria mais correto que Seu Roberto e Dona Celina fizessem uma crônica para mim, explicando — bem explicadinho, por favor — como é que se consegue passar tanto tempo junto com outra pessoa?

Em vez disso, chamaram um calouro para fazer o discurso da colação de grau. Convidaram um papagaio para orador. Convocaram o bobo da cor…

O DIA T [Debora Bottcher]

"A tragédia começa quando os dois lados têm razão..." (William Shakespeare)

Eu não queria escrever sobre isso, mas pareceu-me inevitável: nos últimos dez dias, não se ouve falar de outra coisa. Os quatro cantos do mundo oferecem sua parcela de comentários, imagens, reportagens, entrevistas, histórias que nos lembram - como se fosse possível esquecer - que há dez anos o mundo mudou (e não foi pra melhor).

Naquela manhã, a humanidade amanheceu assistindo, atônita, ao ataque terrorista aos EUA. No dia seguinte, a América chorava suas perdas, tentando juntar os cacos, se recompor, buscando, desesperadamente, o rosto do inimigo. O pesadelo, no entanto, continuava com novas ameaças - em cada parte do Universo...

Os objetivos de paz mundial esbarram em questões políticas e econômicas que precisam ser resolvidas antes dos movimentos pacifistas. Na globalização, os desiguais somam números gigantescos, tornando impossível o interagir - uma vez que os ricos ficam mais ricos e os pobres…

TODO O PESO DO MUNDO >> Leonardo Marona

Foi muito bom ter descoberto a história do primeiro casamento de Ernest Hemingway. Foi encorajador. Ele tinha apenas vinte e um anos e se casou com Hadley, que tinha vinte e nove, e era virgem. Aquilo jogava por terra a minha ideia de que um bom escritor precisa se envolver, necessariamente, com uma mulher intrigante, vivida, malévola, para sofrer na pele a evolução forçosa da vida, o que, no fim das contas, o impulsionaria a ser um bom escritor. Ernie tinha seus problemas, eu tinha os meus, mas, acima de tudo, eu o idolatrava, e aquela informação serviu para que eu vestisse minha casaca de poeta, prateada, gasta, mas que me causava boa impressão, de um desleixo intelectual e impertinente,e que me dava coragem justamente por ser estranha e fora de moda.

E eu havia tido as mulheres que, eu acreditava, determinavam a cartilha do “bom escritor”: histéricas, estúpidas e competitivas, das que ameaçam com facas, com os olhos fora de órbita e, no entanto, charmosas e intensas, justamente po…

ACHISMOS
OU COMO PERDEMOS TEMPO PENSANDO
NO QUE OS OUTROS ESTÃO PENSANDO
>> Fernanda Pinho

Cada vez estou mais certa de que o câncer dos relacionamentos é o achismo. A moça que não convida o moço para sair porque acha que ele irá julgá-la atirada. A amiga que fica chateada com a outra porque achou que ela teve má vontade para fazer um favor. O cara que termina com a menina porque acha que ela poderá traí-lo um dia. A mãe que repreende o filho porque acha que ele está mentindo.

A terapia já havia me alertado sobre isso. Quando, há algum tempo, frequentei o divã da Fátima, a ouvi dizer, mais de uma vez, que a maior parte da energia que nós desperdiçamos é aquela empregada na estúpida mania de deduzir o que os outros estão pensando. E na maioria esmagadora das vezes, dizia ela, estamos errados.

Decorei, mas não aprendi. Se eu não havia aprendido quando me explicaram didaticamente, a vida meu deu várias chances de tentar entender por outros caminhos. Filmes e os livros que várias vezes me fizeram refletir sobre o assunto. O mais recente deles, "Um Dia", que terminei …

IN DEPENDÊNCIA >> Carla Dias >>

Hoje, no dia em que comemoramos a Independência do Brasil - e os aniversários da Vera e da Maria -, decidi escrever sobre como dependemos. Ao menos eu dependo... E muito.

Dependemos de nós mesmos, a princípio, para sairmos da cama e começarmos o dia. Neste momento, não é tão importante saber o que ele traz no cardápio. Quando os olhos ainda estão se acostumando à claridade, dependemos somente do show das pálpebras despindo o olhar. Porém, o que parece simples, ainda às margens do rio da sonolência, torna-se uma aventura com duração de horas e mais horas.

Sendo assim, dependemos do temperamento do tempo, da sua cadência, para estabelecermos a nossa. Se o tempo fechou, o trânsito engrossa. Se o tempo está aberto, o trânsito engrossa um pouquinho mais tarde, e com cara mais feliz. Se o tempo passa e nos deixa em filas, certamente terminaremos o dia com saldo positivo para a exaustão... A não ser que conheçamos alguém bacana na fila e o papo seja tão interessante que o tempo acaba é passan…