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ACHISMOS
OU COMO PERDEMOS TEMPO PENSANDO
NO QUE OS OUTROS ESTÃO PENSANDO
>> Fernanda Pinho



Cada vez estou mais certa de que o câncer dos relacionamentos é o achismo. A moça que não convida o moço para sair porque acha que ele irá julgá-la atirada. A amiga que fica chateada com a outra porque achou que ela teve má vontade para fazer um favor. O cara que termina com a menina porque acha que ela poderá traí-lo um dia. A mãe que repreende o filho porque acha que ele está mentindo.

A terapia já havia me alertado sobre isso. Quando, há algum tempo, frequentei o divã da Fátima, a ouvi dizer, mais de uma vez, que a maior parte da energia que nós desperdiçamos é aquela empregada na estúpida mania de deduzir o que os outros estão pensando. E na maioria esmagadora das vezes, dizia ela, estamos errados.

Decorei, mas não aprendi. Se eu não havia aprendido quando me explicaram didaticamente, a vida meu deu várias chances de tentar entender por outros caminhos. Filmes e os livros que várias vezes me fizeram refletir sobre o assunto. O mais recente deles, "Um Dia", que terminei de ler há duas semanas, me tocou muito nesse aspecto. É basicamente uma história de desencontros em que dois amigos passam 20 anos desencorajando seus sentimentos por não fazerem ideia da importância que tinham um na vida do outro.

E pra não restar dúvidas de que especular é tão eficiente quanto tentar se enxugar com uma toalha encharcada, existe a vida. Ratificando a terapia e a arte. A vida que, um dia depois de eu ter terminado de ler "Um Dia", colocou em minha frente uma pessoa que eu passei os últimos meses tendo a certeza de que me odiava. Havia um motivo, afinal. Ou melhor, eu achava que havia um motivo. Eu achava ter ofendido ao reagir a uma situação que não me agradou. Eu achava que a situação que não me agradou havia sido uma atitude deliberada, só para me chatear. E teria passado o resto da vida achando tudo errado se não houvesse um encontro ao acaso e um pedido de desculpas que, naturalmente, não partiu de mim. Lamento. E lamento mais ainda saber que, embora aliviante, esse caso foi uma exceção.

No fim das contas, a maioria das coisas que achei equivocadamente permanecerão intocadas e sem perdão.

Imagem: www.sxc.hu

Comentários

Fernanda, "acho" que com essa crônica você já desfez equívocos e promoveu perdões. :)
perfeito Ferdi, eu já filosofei essa questão, mas, nunca consegui colocar em prática. ACHO (rs) ainda que quanto mais insegura a pessoa for, mais ela acha e menos faz, age. Mas inseguranças todos temos e por isso dificilmente nos livramos dos achismos, porque ACHAMOS que vamos errar e isso será imperdoável!
Jujú disse…
Pois é...sempre achamos o que não devemos. Sofremos por antecedência, julgamos sem saber e acabamos por nos frustrar e nos decepcionar demais, às vezes até sem motivo de ser!

Quase sempre sabemos o que é certo, e também o que é errado. Mas é bem difícil colocar em prática...Como quase tudo nessa vida, aliás!

Beijoca
Fernanda Arruda disse…
Fer, eu acredito muito na vida e na verdade acima de tudo. Acho que por mais que a gente se precipite e saia por aí concluindo coisas com base no achismo, se for pra ser, será. Se for uma relação de verdade a vida logo dá um jeito de desatar estes nós, que damos por aí, só por achar...

Obs: além dos nossos nomes iguais, nossas terapeutas também o tem :)
Marilza disse…
Fernanda, como sempre perfeita a sua crônica. Todos achamos e o que é pior, julgamos. Não há nada mais dolorido do que o julgar por achar algo que só existe em nossa cabeça.
Bjs
albir disse…
Fernanda,
acho muito boa sua crônica e acho também que não tenho evoluído muito nessa coisa de parar de achar. E acho que nem sempre acerto como acertei em relação à sua crônica.
Pois saiba que eu disse hoje mesmo pra Regina, minha psicóloga, que tenho defeitos dos quais não abro mão. Meu pior achismo é achar que as coisas devem ter começo, meio e fim. Não sossego sem ponto final, mas tem hora que o máximo que a vida te oferece são reticências, algumas exclamações e filas de interrogações.

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