domingo, 11 de setembro de 2011

SEU ROBERTO E DONA CELINA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Diezm que é psosível edeetnnr o sdnetio de uma fsare msemo que as lraets de cdaa parlava etajsem ebhrlaaadams — ddsee que a prireima e a úlmita learts eetjasm em sua psoição crtroea.

Se for assim, então o leitor talvez consiga compreender corretamente esta crônica que, devido à minha situação em relação ao assunto, tende a ser um tanto quanto confusa. Afinal, que posso eu — um sujeito que já casou e descasou pelo menos uma vez — dizer sobre um casal que está completando Bodas de Ouro? Que são meus parcos anos de experiência matrimonial — nem tão bem resolvida assim — diante de 50 anos vividos por este casal a que me coube a tarefa de homenagear? Não seria mais correto que Seu Roberto e Dona Celina fizessem uma crônica para mim, explicando — bem explicadinho, por favor — como é que se consegue passar tanto tempo junto com outra pessoa?

Em vez disso, chamaram um calouro para fazer o discurso da colação de grau. Convidaram um papagaio para orador. Convocaram o bobo da corte para conduzir a cerimônia real. Que os súditos tenham paciência — e mais ainda o Rei e a Rainha — com este subalterno espírito encarregado de tão soberana incumbência.
*

Da união de Seu Roberto e Dona Celina, eu só sei o começo e o final — aliás, não propriamente o final, porque pensar assim seria lançar um mau augúrio, provocar um encurtamento de uma vida em comum que eu desejo que dure ainda por muitos e muitos anos. Então, desse valoroso casamento, só sei o começo — há pouco mais de 50 anos — e o próximo passo, que será dado em alguns dias. O resto se embaralha em minha cabeça feito o matrimônio do crioulo doido, uma mistura de Romeu e Julieta, Cyrano e Roxanne, Tarzan e Jane, Clark Kent e Lois Lane, Dirceu e Marília, Pedro Missioneiro e Ana Terra, Bentinho e Capitu — e por aí o leitor já pode deduzir o quanto tem por desembaralhar nesta crônica...

Conheceram-se, Roberto e Celina, em um galinheiro. Não, leitor, eu não invento. Do começo, eu tenho certeza, já disse. Não vou chegar ao ponto de afirmar que vi com meus próprios olhos, pois estava longe de pensar em nascer, mas quem me informou foi fonte segura, inquestionável. Por que todo amor deveria começar em praças, jardins e castelos? O próprio Amor Encarnado não nasceu numa estrebaria? Então, o amor de Roberto e Celina rebentou num galinheiro. É como diz o italiano ditado: Gallo magro e gallina grassa fanno buon matrimonio, que eu traduzo livremente assim: galinha carnuda e galo macilento produzem um bom casamento.

Os dois, ainda jovens, foram comprar galinhas. E Roberto resolveu ciscar e cacarejar um pouco:
— Bom dia, moça. Como se chama?
— Celina.
— Bonito nome.
— Obrigada.
— Eu sou Roberto. Você sabe escolher uma boa ave?
— Minha mãe me ensinou.
— Pode me indicar alguma?
— Aquelas ali parecem boas.
— Obrigado.
— Por nada.
— Só mais uma coisinha...
— Pois não...
— Você não estaria interessada num franguinho de 18 anos?

Enquanto Celina para para pensar, eu pergunto ao leitor o que acha de tal cantada?

Horrorosa?! Que é isso, caro leitor, os tempos eram outros e o ambiente era aquele mesmo: penas e ovos e milho e titica... Para mim, a cantada foi brilhante e certeira. Para Celina, também. Já saíram de lá juntos, e juntos estão até hoje.

Não, não vá o leitor contar com o ovo no monossílabo tônico da galinha. Quem já casou sabe que é possível ser felizes para sempre, mas, como canta o Oswaldo Montenegro, "sempre não é todo dia". Basta se lembrar do ódio entre as famílias de Romeu e Julieta, da incomunicabilidade entre Cyrano e Roxanne, dos segredos entre Clark e Lois, das desconfianças entre Bentinho e Capitu, da distância entre Dirceu e Marília... O amor é feito também de implicâncias, desentendimentos, amolações, afastamentos, birras, suspeitas... pra não falar de filhos ("melhor não tê-los, mas se não os temos...").

De todo modo, é como se diz lá na Itália: La gallina che sta nel pollaio, è segno che vuol bene al gallo, a galinha no galinheiro é sinal de amor ao galo. E convenhamos que tudo aquilo que acontece depois do foram felizes para sempre é da intimidade do casal e não nos cabe bisbilhotar o leito matrimonial alheio. Quem se ama, se bica — aqui e ali — e atire o primeiro caroço de milho quem nunca gorou um ovinho que seja.

Enquanto nós estamos aqui pelejando por umas bodinhas de algodão, renda, louça, prata que seja, Seu Roberto e Dona Celina se preparam para viajar para a Itália, onde — bodados a ouro — comemorarão, no próximo dia 23 de setembro de 2011, seus 50 anos de núpcias. Não sei detalhes da programação — mas que leitor curioso! A renovada lua-de-mel deverá ser à moda antiga, como foi há 50 anos, sem transmissão simultânea via satélite, Youtube, Twitter e Facebook. Holofotes não combinam com um casalzinho aconchegado em seu poleiro...


*

Esta, caro leitor, foi a crônica-homenagem que pude fazer, pintinho amarelinho que sou nesse galináceo assunto que é o amor. Esta, Seu Roberto e Dona Celina, foi a crônica-afago que me pediu seu filhote, também Roberto e também casado com uma guria cujo nome começa com C e termina com A. Dizem que a árvore se conhece pelos frutos; os pais, pelos filhos. Então imagino vocês dois cheios de graça, de força e de generosidade.

E que o aomr etjsea aaenps cmoeçadno...



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8 comentários:

Anônimo disse...

Eduardo,
Ainda bem que o nosso galinheiro foi sua fonte de inspiração. E nossa também. Acabamos de ler a sua crônica homenagem, aqui na casa do nosso filho e nora e, estamos emocionados com a surpresa e o seu conteúdo. De fato, para manter 50 anos, há que se ter muito conluio, cumplicidade e parceria. Baixar a cabeça quando há atrito, relevar muitas coisas de ambas as partes e viver a vida como o Padre diz "na saúde, na doença, na pobresa e na riqueza e até que a morte os separe."

Obrigado pela linda crônica.

Roberto e Celina

Claudia Letti disse...

Eduardo querido, tiramos até foto da cara dos sogros lendo a tua crônica -- e que bela homenagem ficou! Te agradecemos demais poe esta alegria proporcionada. Beijo grande!

albir disse...

Parabéns, Edu, pela crônica brilhante.
Parabéns ao Seu Roberto e à Dona Celina.
E parabéns ao filho Roberto e à guria que começa com C e termina com A.

Marilza disse...

Bela crônica. Com certeza, Seu Roberto e Dona Celina merecem.

Alba Mircia disse...

Que alegria de comemoração. Que as bençãos divinas sejam sempre o guia de toda a família!

Marisa Nascimento disse...

É...viver é fácil, o difícil é conviver. Que os homenageados possam sempre ler entre as letras desordenadas e continuar a escrever esta linda história, não só de amor, mas de vida!

fernanda disse...

Eduardo, sem dúvidas, uma de suas crônicas mais lindas. Como pintinho amarelinho você se saiu um ótimo Galo Carijó. Parece entender mais do que diz sobre o assunto.
Agora, fiquei curiosa pra saber porque na Itália tem tantos ditados galináceos...rs
Bjos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Roberto e Celina, que bom que gostaram. E grato pelos sábios conselhos. :)

Claudia, manda pra mim essa foto histórica. :)

Albir, o brilho vem do ouro das bodas dos homenageados. :) Grato.

Fernanda, acho que você vai ter que ir lá na Itália pra saber, porque são mais de 30 (isso mesmo!) os ditados galináceos por lá. :)

Grato a todos os demais amigos por se juntarem nesse coro de parabéns ao casal homenageado.