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Mostrando postagens de Novembro, 2020

AS FÚRIAS NÃO PERDOAM - 2a parte >> Zoraya Cesar

Oréstia envelhecia. Suas artimanhas para provocar discórdias e cizânias ainda eram eficazes; porém, ela desejava ardentemente um último grande golpe antes de morrer.  E eis que o Destino (esse Senhor inescrutável e surpreendente) lhe dá uma neta. Oréstia aboletou-se na casa da filha, sob a desculpa de ajudá-la a cuidar da criança. Que seria criada para ser maleável à sua influência - a última, de uma sucessão de vítimas inocentes, enganadas pela máscara perfeita de ser angelical que Oréstia tecia com a solércia de um Iago.  Oréstia estava feliz como há muito não se sentia. O gozo em desgraçar a vida da mãe, induzir o pai ao suicídio, matar o marido e fazer da vida da filha e do genro um inferno, sem que percebessem, estava distante e apagado. Precisava imolar uma nova vítima em seu altar de atrocidades. Gaia, a neta, seria seu grand finale .  A Pitonisa revira os olhos, serena, sabedora que é das leis da vida e da morte. Nesse mundo ou no Tártaro, os crimes sempre são pesados, medidos

FUNDAMENTOS >> Whisner Fraga

é quarta e maradona morreu.  também quarenta ou mais em algo catastrófico numa rodovia. é quarta e amanhã outros infortúnios serão manchete. um facho relanceia essas dores indecifráveis. a menina me pede para mudar o canal. o que é hellsing? bleach? neon genesis? a menina e a moda da hora: anime. posso assistir a uma série de quatorze anos? me explica como funciona esse sistema de classificação indicativa? por que mataram aquele moço no carrefour? a menina embaralha curiosidades, tristezas e indignações. e ainda é só uma criança. desligo a televisão e começo a explicar.

COHAB >> Fred Fogaça

  Toda hora o sol se põe. Quanto cômodo tem pra gente brigar? Faz calor nos carros velhos e crianças de shorts. Você sabia da precisão do qu'eu pedi. A quitanda vende faltas básicas, os três por dez, o balançar de cabeça devagarinho dizendo opa com o canto dos olhos, mas não litrão, eu esqueci, por favor, umas a mais só. As cadeiras não pertencem se não às calçadas, os portões assim destrancados que a gente confia, os rumores rondam mais fácil. Para de gritar, os vizinhos vão te ouvir. Requintes baratos e quiçá medíocres e te digo: é uma bênção. Você não para de gastar dinheiro à toa. A casa branquinha, branquinha. Asseada. As panelas areadas no esmero de um hobby - porque é mesmo - uma toalha de galinhas de atravessado na mesa de vidro: eu encostado na cozinha, ela sentada lá na sala que também é uma copa, bem na frente na geladeira. A gente não tem tempo pra isso.   Obs.: essa e outras imagens usadas nas minhas crônicas são do meu instagram

A GARÇA E A ENGUIA >> Sergio Geia

  Não sei se você viu. Se não viu, corra, ainda há tempo.    A notícia estava em destaque no portal UOL: “Enguia perfura estômago de garça ao ser engolida e se salva nos EUA”.    Sam Davis, fotógrafo amador, engenheiro de Maryland, nos Estados Unidos, estava na floresta à cata de boas fotos. De repente, percebeu um movimento estranho. No céu, havia duas águias a seguir uma garça, talvez, prevendo boa refeição. Em terra, uma raposa buliçosa também imaginava o mesmo, e mantinha a atenção voltada para as aves.    Segundo a notícia, “inicialmente, Sam pensou que a garça havia sido mordida no pescoço por uma cobra ou enguia. Mas ao chegar em casa para editar as fotos, ele viu que a cena era mais admirável: a enguia estava viva e perfurou o estômago da garça para se livrar da morte”.    A foto está em bom tamanho no UOL, e dá pra perceber o pânico da garça em seu pávido olhar. Acabara de comer o alimento do dia. De repente, esse alimento traiçoeiro, vivo, rompe o seu estômago e pula pra fo

ESCREVER OU NÃO ESCREVER? >> Paulo Meireles Barguil

Escrevo, mas não me considero escritor. Embora as palavras sejam objetos do meu trabalho, não sou tão íntimo delas para assim me declarar. Temos uma relação, na maioria das vezes, cordial e amistosa. Ocasionalmente, ela é turbulenta e ruidosa. A escrita substitui, precariamente, o que não falo. Quanto ao que calo, continuo escondendo. A escrita revela, razoavelmente, o que sonho. Quanto ao que esqueço, permaneço ignorando. A escrita expressa, satisfatoriamente, o que penso. Quanto ao que vislumbro, sigo digerindo. Escrevo porque estou vivo. Escrevo para continuar vivo.

A MULHER DA ÁRVORE - Parte 3 >>> Nádia Coldebella

Anteriormente... Depois de Domênico sonhar vários dias com Vilma, Odete sonhou também. O mesmo sonho.  Na delegacia, soube que ela desaparecera e que tudo era muito estranho. Então, Odete decidiu que o marido precisava ir a Rio da Fortuna. Plec, plec, plec. A chuva continuava caindo. Uma menininha, de três ou quatro anos, estava sentada na área do fundo da casa, bem a beira da calçada, observando as gotinhas caírem nas poças e formarem pequenas ondas. Seus cabelos eram cacheados, da cor do ouro, e contrastavam com o vermelhão brilhante da calçada e com as paredes muito brancas da casa. Alguns respingos marrons macularam a parede e, no chão a frente, o que não era lama era terra vermelha que afundava ao menor toque. Atraída por um barulho, ela arregalou os olhos azuis quando viu o matagal se mexer. Seus olhinhos ficaram ainda maiores quando um sapato muito grande tentou pisar sobre uma pedrinha para evitar a água, enquanto o outro, desavisadamente, enterrava-se na lama. Levantou os olhi

PROVEDORA DE ALEGRIAS INCONTESTÁVEIS >> Carla Dias >>

Acordou com a necessidade esquisita de expandir. Expandir o quê? Levantou-se da cama sem detectar novidades: sonolento, como se não dormisse há vinte anos; apesar de ter dormido profundamente, por horas corridas.  É preciso alongar o espírito esportivo, antes de encarar os imbróglios da realidade. Ele acredita nisso, mas com certa elasticidade, que não nasceu para inflexibilidade.  Avesso a dilatar verdade para disfarçar mentira, nunca será capaz de ampliar seu círculo de amigos. Tem dois... Um e meio. Aquele ser estranho no qual ele confia completamente, a ponto de liberar umas confidências, e o cachorro que se deita aos seus pés, enquanto lê o jornal. A hora e meia que antecede a saída dele da casa é para prolongar a despedida com o recinto e o ser humano presente. Encompridaram o caminho até o trabalho, o que tirou dele o direito a um trio de meias horas, distendendo a o seu já tão parco entusiasmo para praticar a profissão. Observa a filha deitada no tapete, olhando para o teto. El

EU TEMO, TU TEMES, ELES NÃO TEMEM >> Clara Braga

Em março, todos estavam perdidos, mas muitos tinham mais receio de ter os filhos em casa por duas semanas do que de pegar alguma doença! Em abril, o desespero era maior, pois todos perceberam que não teriam as crianças em casa apenas por duas semanas. Mas, embora as máscaras estivessem esgotadas em todas as farmácias, quem usava ainda era chamado de alarmista por alguns! Em maio tudo já estava cancelado, as máscaras já estavam incorporadas ao look do dia e, quem podia, já estava se reinventando do jeito que dava! Em junho, quem ainda não tinha assistido à uma live não estava fazendo quarentena direito! Em julho, quem não estava de saco cheio das lives não estava fazendo quarentena direito! Em agosto, era pequeno o número de pessoas que ainda confundiam quarentena com férias. Seria bom afirmar que isso aconteceu por consciência, mas aconteceu por causa do número de mortos! E também por causa do número de pessoas doentes e depressivas por consequência do distanciamento! Setembro foi o mê

BABÁ DOS BEATLES >> Albir José Inácio da Silva

  Lando baixou os olhos do suplemento esportivo e viu que uma das guias estava frouxa. Amassou de susto o jornal, pegou a alça em baixo da perna e puxou as cordas com força. Três cães latiram, reclamando porque foram esfregados nos galhos do arbusto. Mas onde estava Ringo?   Lando correu até a borda do canal e olhou a água até onde a vista alcançou, olhou em volta e viu que ele desaparecera. Logo o Ringo!   Dona Honorina tinha duas grandes paixões na vida: os Beatles, mortos ou vivos, e os cães. Não qualquer cão — os seus  cães:  John, Paul, George e Ringo. Quanto aos Beatles, ouvia-os durante todo o dia e não lhe davam trabalho, a não ser apertar o play. Mas com os cães era mais complicado.   Na entrevista de emprego com Dona Honorina, Lando jurou paixão pelos animais, chorou ao lembrar seu gato falecido e disse que sempre sonhou com esse trabalho. A velha ficou encantada.   —Seu Lando, sei que o senhor tem amor pelos bichos, mas cuidado principalmente com Ringo. Além

PRONOMES >> Sandra Modesto

  Ela chegou sem calcinha, disposta a conquistar desejos insanos, era nua a decisão, foi direto ao ponto. Mostrando dedos molhados, lábios de cima a baixo.    Ele? Chegou meio sem jeito, com um nó no peito.    A despeito de encontrá-la tão diferente, pensou em desistir de tudo, mas...    Tudo era absurdo ao lado de alguém, e o alguém estava ali.    Ela se fez toda ela. Disse de tudo, do mais profano ao profundo, do mais modesto ao insolente.    Meio sonso ele colocou-a no colo, beijou-a por todos os lados, quis por inteiro, o que sempre o deixou exausto de prazer. Fez dela o desejo guardado.    Murmúrios, gritos, gozos. O amanhecer gemeu.    Um olhou para o outro e fizeram mais. Suaram mais.    Bobagens ao pé do ouvido, lambidas atrás da orelha, enfiadas, aberturas, cenas filmadas que dariam um filme pornô.    Nada mais interessava. A vida descruzada com o tempo? O amor refeito após tantos anos? Tantos fatos?    Ele abriu o espumante, ela encarou a taça.    Naquele momento, ele se le

AS FÚRIAS NÃO PERDOAM - 1ª parte >> Zoraya Cesar

Oréstia era a pessoa mais gentil e bondosa do mundo. Pelo menos, assim pensavam as pessoas do seu mundo.  Mal ela entrara na adolescência, o pai descobriu que a esposa o traía reiterada e desavergonhadamente. Expulsou-a de casa com uma mão na frente, outra só com as marcas das cintadas que lhe dera. O pobre homem, depois desse destempero contra uma esposa que, até então, idolatrava, entrou em depressão profunda, e só não se matou porque tinha Oréstia, a filha amada, para tomar conta.  Se bem que imediatamente os papéis se inverteram e quem passou a tomar conta de tudo era Oréstia. Nunca deixou o pai sem assistência - cozinhava, lavava, passava, a perfeita dona de casa. Aos poucos, o pai foi dependendo dela para tudo. E tudo ela resolvia. Os remédios que ele tomava, as contas a pagar, tudo. Uma trabalheira insana, da qual nunca se queixava. Vizinhos e amigos a tinham por verdadeiro anjo caído dos céus. Esse anjo merecia que algo de bom lhe acontecesse. E aconteceu! Aos 45 minutos do 2º

SERENIDADE >> Whisner Fraga

a menina cisma a sintaxe do tabuleiro, eu, encantoado no quarto, sussurro um alvoroço, é complexa a agitação introvertida, a menina alinha as peças e me convoca: vamos jogar?, eu soslaio um desumor, uma impaciência, mas reconheço a luminância dessa interrupção, a hora da companhia, do afeto, a exumação de fantasmas inomináveis, a sombra íntima escavando ansiedades taciturnas: vamos jogar, as torres, os bispos, os peões querem nos contar, querem, em agilidades desiguais, nosso silêncio, e a menina sabe que o silêncio, às vezes, é uma gentileza, como um abraço.

MEDITAÇÃO >> Carla Dias >>

  Há esse eu vivendo dentro de mim, só que meio estrangeirado, que eu não entendia o que o tal dizia, ele que vivia encolhido num canto do mapa do meu pensamento, nos arrabaldes do meu espírito. Houve tempo que desejei conhecê-lo, como se ele fosse aquele artista de quem se gosta tanto, mas de um tanto, que se sente o desejo pungente de encontrá-lo pela manhã e pedir para que confesse seus sonhos, assim, entre um gole de café e uma mordida no croissant. Meu cárcere é público Uma vitrine de dolências Onde me reviro até alcançar o avesso E nem sempre é o meu Percebe? Como se percebe um quadro torto Numa parede torta Trazendo à tona Sentimentos tão tortos quanto o quando Só que ele fala em dialeto por mim desconhecido, às vezes até berra as palavras que soam feito urgências, mas quais? Não é apenas o fato de não me entender com ele, ou entendê-lo, ou ser capaz de olhar em seus olhos e fisgar ajustes, em vez de delegar ao destino o direito de impor ao meu eu forasteiro a solidão. Há mais p

BELAS HISTÓRIAS, FALHAS MEMÓRIAS >> Clara Braga

Formei na faculdade no ano de 2012, ou seja, tem um tempinho. Lá no meio do curso tive uma professora daquelas que marcam a gente! Ela sempre tinha uma referência para dar, um livro para indicar, uma ajuda para oferecer! Me encantei pela forma como ela ministrava as aulas e me encantei inclusive pela sua ementa, pois ela não indicava só livros técnicos da área de artes, mas também livros de literatura pois a literatura ensina tanto quanto ou até mais que um livro técnico! Suas aulas aconteciam duas vezes por semana, mas um dia ela avisou que não poderia estar presente em um dos dias, então deixaria um filme para que a gente assistisse, pois filmes podem ensinar tanto quanto ou até mais que um livro de literatura ou um livro técnico. Eu adorava aulas com filmes, e essa então foi especial! Ela passou um filme super poético, belíssimo, daqueles que merecem ser assistidos várias e várias vezes! Mas eu cometi um erro que, vergonhosamente, cometo até hoje: não anotei o nome do filme confiand

AGENDA MÉDICA

  Ando preocupado.   Outro dia examinava arquivos. (Isso é bom. Um bom começo. Arquivos. Em outros tempos diria papéis. Disse arquivos. Muito bom. E direto do meu note. Ah, melhor ainda).    De modo algum isso representa alguma espécie de medo, imagina.    Então abri a agenda médica — Sim! Óbvio que tenho uma, não tens? — e percebi que a pandemia provocou uma hecatombe na rotina de minhas consultas. Cardiologista, urologista, dermatologista, oftalmo, otorrino, dentista, tudo atrasado. Sem contar exames, colonoscopia, que faço com frequência, sangue, esteira, eco, ultrassom, credo.    Cardiologista porque todo cinquentão morre de medo de morrer do coração. Sem contar a hipertensão, que carrego comigo desde os 32. Dermatologista porque verrugas brotam mais que inço. Oftalmo porque tenho a impressão que a cada dia enxergo menos. Urologista. Otorrino pra despachar a cera do ouvido. Dentista porque os dentes não têm mais a força de antes. Aff!    Se já era difícil organizar-me com toda e

CUIDADO COM AS MÁSCARAS! >> Paulo Meireles Barguil

Na Antiguidade, de modo especial na Grécia e em Roma, as(os) atrizes(atores) usavam máscaras para enfatizar os papéis assumidos na história. As máscaras cobriam todo o rosto (deixando buracos para os olhos, as narinas do nariz e a boca) ou a parte superior dele (com frestas para os olhos e as narinas do nariz). Desde então, em múltiplos espaços-tempos, elas foram incorporadas a diversões rituais, sendo o Carnaval um bom exemplo. No contexto italiano, o vocábulo persona (derivado do latim  per sonare , que significa "soar através de") é um tipo de máscara que, além de dar a aparência desejada do papel de uma(um) atriz(ator), possibilita que as suas falas sejam ouvidas pela plateia. Até pouco tempo, psicólogos, de modo especial Carl Jung, nos explicavam que todas as pessoas usam máscaras para (tentar) evitar demonstrar o que estão sentindo e pensando, bem como para revelar algo que não é verdadeiro. As situações e os motivos para essa simulação amplamente vivenciada são diverso

PASSOS PARA TRÁS >> Carla Dias >>

Ele não é assim tão complexo. Veja as rugas que mapeiam seu rosto, quando é atingido por dúvidas. O olhar desviado, a cada tentativa de nublar a verdade. Percebe-se a voz dele mudar de tom, a cada vez que é preciso dizer algo com o qual não está completamente de acordo. Sempre que se sente pressionado: insiste, distancia-se ou escolhe acreditar que não há nada mais ali a ser observado, compreendido, nutrido. Quando dói: respira fundo, como raramente o faz. Quando alivia: sorri largo e sonoro, em uma cadência diferente daquela que enfeita o seu cotidiano. Quando se sente contrariado: silencia, profundamente. A rotina controlável é o que o mantém no lugar de sempre. Cerca-se, então, do que é seguro e conhecido. Há nada de errado nisso. Mas sou eu aqui, a narradora intrometida, só que em dia de pá virada, de par com uma melancolia dos infernos. Sou eu quem tem de narrar, meu caro leitor... desatento?, o que se passa com essa pessoa vestida de personagem. Todos os dias o mesmo do mesmo. Qu