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Mostrando postagens de Outubro, 2012

SOLITÁRIOS DISTRAÍDOS EM VARANDAS
>> Carla Dias >>

Fim de semana. Vizinho dela há anos, ele a observa quando a moça decide tomar sol na varanda, sentando-se em uma confortável poltrona para observar horizonte. Ela não sabe o que ele faz da vida, mas sim que o moço gosta de ler, porque sempre que o vê, ele está em companhia de um livro.

Nunca se falaram, trocaram olhares uma vez, a primeira em que foram até a varanda ao mesmo tempo. Depois disso, aprenderam a se ignorar, melhor remédio quando se deseja estar a sós, mas a varanda é colada à do vizinho.

Ela se acha uma pessoa de sorte, porque seu vizinho é silencioso, raramente tem companhia, não a importuna com problemas de seu apartamento. Ele acha que ganhou na loteria, porque sua vizinha gosta de música, mas o gosto deles é parecido, então ele não se incomoda quando ela extrapola. Até abre a porta que dá para a varanda, para escutar melhor a trilha sonora do dia.

Ela janta às sete, todos os dias, sem margem para atraso. Às nove já está na cama, porque acorda às cinco para se arrumar…

VOCÊ NÃO VAI COM A MINHA CARA? >> Clara Braga

Sempre apreciei uma boa viagem, e para a minha idade, me considero até uma pessoa viajada. Já conheci belíssimos lugares, tanto dentro quanto fora do Brasil, mas sempre soube apreciar o momento de voltar para a minha linda cidade, que é Brasília.

Há um tempo, tinha medo de conhecer São Paulo. Tudo acontece em São Paulo, todos os shows vão para São Paulo, a maioria dos festivais de música acontecem lá, a bienal de arte está lá também, musicais que eu tenho vontade de assistir? Estão lá também! Enfim, é muita coisa que faz a grande cidade me parecer um tanto tentadora. Já fui a São Paulo umas duas ou três vezes, e essas vezes serviram para que eu não tivesse mais medo de nada. Adorei a cidade, e é bem provável que algum dia eu queira ir para lá ficar uma temporada, fazer um curso, quem sabe? Mas morar? Não, morar não dá, se as vezes eu já considero Brasília muito cheia e com um trânsito insuportável, imagine São Paulo! Não ia dar certo...

Outro momento crítico foi quando eu fui passar 5…

CIFRÃO TATUADO NO BRAÇO >> André Ferrer

Tão logo apaguei o fogo e a fervura da água cessou na chaleira, eu reconheci a sobreposição de ruídos que, aprisionados entre os edifícios da orla, distraía-me particularmente naquelas madrugadas insones. Da cozinha, percebi a primeira camada de ruídos: alguém que batia uma porta, que acionava ou desligava um alarme, que fazia um motor funcionar. A outra camada de sons — delicada como uma renda — vinha do mar: era o barulho das ondas. Em Balneário Camboriú, a arquitetura constitui uma verdadeira caixa de ressonância em alguns pontos. O lugar onde eu morava em 1998 tinha essa qualidade acústica. Da minha sacada, eu podia ver outros insones. Homens e mulheres que ficavam lá fora, sentados em cadeiras de praia iguais à minha, inseguros e reticentes, por terem perdido o sono. Alguns cigarros depois, entravam. À distância, eu observava as suas decididas silhuetas e sentia inveja de tanta coragem enquanto aquelas pessoas, uma a uma, retornavam para um tipo de luta que eu já considerava inúti…

DA LOUCURA - que nos espreita... [Debora Bottcher]

Minha mãe vive num condomínio em Campinas, aos pés de uma colina que abriga um Hospital Psiquiátrico. Eu morei por lá muitos anos - não no hospital, mas com meus pais, que fique claro.

Durante as tardes, nos finais de semana, os pacientes são liberados para um passeio livre e circulam pelas ruas de 'fronteira fechada'. Eles riem e brincam com as crianças e os animais; desenham na areia, conversam com as flores, sentam-se no gramado para admirar o por do sol, silenciosos e com indecifráveis fisionomias.

Muitas vezes, ao observá-los ocasionalmente, peguei-me questionando se os loucos são os que vivem internos ou os que caminham entre nós. Afinal, quem são os ensandecidos? Uma versão de pessoas como eu e você - talvez mais verdadeiras, corajosas, excêntricas e destemidas...

Vejamos: você se lembra daquela vez em que mentiu com prazer, de ter mudado uma situação, contando-a de outro jeito, sem arrepender-se? E de sentir seu coração transformando-se em gelo, magoando indiscriminad…

INCOERÊNCIAS >> Zoraya Cesar

Um dos grandes desafios a que se propõe um ser humano em busca de evolução espiritual é andar na estrada estreita da coerência. Afinar o discurso com a prática e não deixar que seus impulsos mais primitivos ditem o seu comportamento exigem certa dose de sacrifício e exercícios diários. Alguns anos de prática, vigilância constante e oração permanente acabam por demonstrar que, na verdade, é muito mais fácil você fazer as escolhas certas e viver de acordo com elas, mas o fato é que nem sempre, e nem todos nós, conseguimos nos manter firmes no caminhar da estrada reta do ser quem se é, sem máscaras.

E a inconstância da qual somos feitos todos acaba por alimentar o lado escuro da Força, e olha nós aí de novo caindo em tentação. Pensamos que nos conhecemos muito bem, ou àquela melhor amiga, colega de trabalho, vizinho, e de repente somos apresentados a comportamentos totalmente diversos daqueles que esperávamos. E, como o vento que sopra lá também sacode o coqueiro daqui, pode acontecer d…

CASAR OU COMPRAR UMA BICICLETA? >> Fernanda Pinho

A IMPORTÂNCIA DESSE OLHAR >> Carla Dias >>

É isso: pessoas nascem, vivem e morrem, às vezes deixam um legado a ser apreciado pela humanidade, em outras passam pela vida ao toque da tranquilidade escolhida. E muitos também deixam marcas que se tornam cicatrizes não somente imputadas às pessoas que viveram a situação, mas também à história do seu povo.
Há quem insista que a vida é somente aquela que vive, criando muros que delimitam o alcance da sua existência. Essas pessoas chamam isso de segurança, como a que oferecem a porta do barraco ou as câmeras do condomínio. Frágil segurança, não?
Viver ligado somente ao que compreende e atende às necessidades, às pessoas que vivem no mesmo ambiente, fechar-se ao que acontece a nossa volta não é, e nunca foi, a melhor maneira de se escrever a própria história, quiçá a de um país. E não insinuo que devam abrir as portas de seus barracos ou desligar as câmeras de segurança do condomínio. Falo sobre abrir os olhos, apenas isso, porque o resultado pode ser gratificante para o indivíduo e d…

NÃO - 2ª parte >> Albir José Inácio da Silva

(Conceição chegou da fábrica e contou pra mãe que uma colega estava sendo assediada pelo encarregado. A mãe desconfiou que não fosse uma colega, e contou a história de uma ancestral, Filisbina, que nasceu num navio negreiro, cresceu numa fazenda e despertou a cobiça do filho do patrão).

Os tempos estavam mudados. Padre se metia em tudo que acontecia na Fazenda, rezava missa na senzala e batizava negrinho que nascia. Os abolicionistas botavam as garras de fora, berrando contra castigo em cativo preguiçoso. Era preciso ir devagar, na conversa, sem escândalo. Por isso patrãozinho ofereceu dois metros de tecido e um papagaio. Prometeu ainda tirar o irmão de Filisbina do eito e botar pra cuidar dos cavalos, que era o sonho de qualquer escravo. Mas Filisbina disse não.

Não, primeiro porque tinha nojo daquele sinhozinho que fazia questão de açoitar pessoalmente, só de maldade, só pra ver a pessoa gritando. E não, porque andava de rabicho com um capoeirinha que vivia rondando a Casa Grande p…

ACABOU?! QUE PENA... >> Sílvia Tibo

É o que digo a mim mesma sempre que termino a leitura de um bom livro. Ou quando, ao final de um excelente filme, as luzes do cinema se acendem e sou obrigada a me despedir da trama e me retirar do recinto.

É que costumo me apaixonar perdidamente por alguns personagens e às vezes é difícil aceitar o fim do relacionamento (de horas ou dias) que estabeleço com eles.

Vivo sempre esse duro dilema: ao mesmo tempo em que devoro a obra ou as cenas do filme, ansiosa por descobrir o final do enredo, temo pelo fim da existência daqueles personagens, com os quais, a essa altura, já guardo profunda intimidade. E torço para que eles retornem em breve ao meu cotidiano, num segundo volume da obra, quem sabe...

Por mais completo e sublime que seja o desfecho apresentado pelo autor, custo a me conformar com o fim da existência dos personagens mais queridos. Não raro me pego pensando neles, ainda por um bom tempo, imaginando que rumo tomaram suas vidas (reais ou fictícias).

Estranho?! Talvez. Mas tenho l…

OS LIVROS DE MEU PAI [ANA GONZÁLEZ]

É possível ler pessoas através dos seus livros. Eles dizem quem é seu dono, quase falam em seu nome. Recentemente desmontei um apartamento de família lidando com várias camadas: os móveis, a infinidade de trecos de cozinha e de louças, as roupas e enfim, as últimas tranqueiras dentro dos armários.

Houve também a vez dos livros - que eram muitos. Meu pai formou uma imensa biblioteca que herdei em pedaços, o primeiro tendo sido aquele com assuntos jurídicos e espiritualistas, de ciências ocultas e de teosofia. Chegara a vez das estantes, grandes e cheias de cor e brilho, que tinham lugar perto da sala de visitas.

Destas estantes, uns quatrocentos livros foram levados pelo meu sobrinho.  Sobraram outros quatrocentos, quiçá quinhentos.  Encaixotá-los para trazer para minha casa foi trabalho de Hércules. Toquei em cada um, observando nome e assunto. Em meio ao pó, procurei adivinhar o que eles guardavam. Isso foi me abrindo um mundo imenso. Como se além dessa materialidade aparente, eu pud…

SOBRE MÚSICA E GAVETAS FECHADAS >> Mariana Scherma

De todos os poderes que a música tem, o meu preferido é o fato de ela nos transportar pra uma época pela qual já passamos e a que muito provavelmente deixamos pra trás por descuido, pressa ou esquecimento mesmo. É como se algumas canções em especial tivessem o poder de abrir gavetas de sentimentos que a gente mal lembrava que tinha fechado. Sim, este texto tem uma dose ou outra de melancolia. Mas é uma melancolia gostosinha.
Essa semana passei por algum carro que tocava Always do Bon Jovi, o que acordou em mim uma adolescente de 14 ou 15 anos que dormia em sono meio profundo. Explico: eu sou filhote dos anos 90. Foi nessa década que deixei de ser criança e virei adolescente. E, como não podia ser de outro jeito, sou filhote dos anos 90 musicalmente também. Bon Jovi embalou minhas primeiras paixões e as promessas de primeiras paixões. Alanis Morissette virou quase minha melhor amiga imaginária quando as primeiras paixões se provaram um barco furado nível Titanic, só ela entendia minhas …

O QUE EU QUERO >> Carla Dias >>

O que eu quero tem dias que é distante. É um mistério desvendado e outro adquirido, uma conspiração de desaforos do destino. Há quem diga que o que eu quero mora em outro mundo, e que às vezes até consigo transitar entre este e aquele universo, como se fosse um fantasma procurando abrigo.


Não se iluda... Haverá sempre alguém para lhe apontar o dedo e dizer que o que você quer é um despropósito, porque merecimento não é coisa para qualquer um feito você. Mesmo sem a menor noção do que você deseja, esse alguém desfiará um rosário de porquês para explicar que você não merece essa oferenda.
A oferenda do destino.
A oferenda doce e benevolente.
A oferenda que é o prazer de conseguir o que se quer, mesmo que em uma versão diferente do imaginado.
Sorte minha que não nasci com medo de dedos em riste e previsões que não agradam nem mesmo ao meu paladar criativo. E não me aborrece escutá-los dizendo as mesmas frases feitas de quem tem medo de querer. Porque o que eu quero é muito mais profundo …

ESTRANHOS DIÁLOGOS >> Clara Braga

Na sala do médico fazendo exame para renovação da carteira de habilitação, esperando ele terminar de assinar toda a papelada necessária para liberar minha renovação. Então o médico começa aqueles diálogos estranhos, mas necessário, só para não ficar um silêncio incômodo.

- Então Clara, o que você faz da vida?
- Sou estudante, curso Artes Plásticas na UnB.
- Ah, bacana (com cara de quem não acha bacana)... Quem na globo fez Artes Plásticas?
- Oi?! (perguntei não porque eu não entendi o que ele perguntou, mas porque eu não entendi o que ele quis dizer com isso... será que ele estava dizendo que eu só tinha escolhido esse curso porque alguém na globo escolheu?)
- É, quem na globo fez Artes Plásticas como formação acadêmica?
- Não sei, acho que ninguém... (ainda sem entender)
- Como ninguém? Claro que alguém fez!
- É... alguém deve ter feito e eu não sei quem foi... (preferi responder assim para não alongar muito o assunto)
(... alguns minutos de silêncio depois...)
- Artes Plásticas não…

UM POUCO ACIMA DAS CUMEEIRAS >> André Ferrer

A verdadeira evolução da espécie acontece quando aprendemos a fazer parte da multidão sem que percamos a individualidade. Ser só individualista é ruim. Mais uma ovelha no rebanho, péssimo. Encontrar o equilíbrio entre o coletivo e o individual, entretanto, não tem sido uma tarefa simples para o ser humano. A começar, é claro, pelo abandono do maniqueísmo que impossibilita este achado. Sem equilíbrio, como é ordinário acontecer, ou nos tornamos egoístas ou nos transformamos em gado. A arte do meio-termo, infelizmente, não se acha nos manuais técnicos. Há manuais, decerto, e muitos datam de séculos. Alguns, aliás, desapareceram. Outros quase não chegaram às gerações futuras e, se ocorreu, estão distorcidos pela oralidade. Marcados na rocha e nos pergaminhos, apesar de sagrados - e da incontestável autoridade -, pouco trazem de pragmático no que se refere ao domínio humano do necessário equilíbrio entre o eu e os outros. Para que servem tais instruções? Para dominar mediante a fascinação e…

ÁRVORES EM EXTINÇÃO >> Whisner Fraga

É claro que eu tomava o cuidado de chamar o estabelecimento de “mercearia”, enquanto outros, sem a mesma sensibilidade, sustentavam que se tratava de um bar. Na verdade era um bar também, na medida em que ali se serviam bebidas alcoólicas e que era frequentado por bêbados e pedintes de toda espécie. O fato é que ficava numa esquina da rua 14 e tinha um banquinho do lado de fora, que usávamos para os encontros entre amigos.

Em frente havia um terreno vazio. Bom, afirmar que estava “vazio” era meio complicado. Só não havia nada construído nele, nenhuma casa, nenhum sobrado ou prédio. Outro dia passei em frente e, honestamente, não me lembro se vi uma construção ali. Minha memória é estranha, parece que existe só para me envergonhar. De qualquer maneira, naquela época, jogavam entulhos e outros lixos na propriedade. Os vizinhos, para não conviver com a possibilidade de alguma doença, retiravam periodicamente os objetos, limpando o local.

Um pé de tamarindo, enorme, sadio, chamava a atenção…

O PODEROSO E A MARMOTA
[Carla Cintia Conteiro]

Dizem por aí que se você realmente quiser conhecer um homem, é preciso dar-lhe poder e se você quiser saber quem é uma mulher, basta separar-se dela. Maldade! Há mulheres poderosíssimas sem noção e muitos homens mal-amados. De qualquer forma, como o que determina as ações e reações de um ser humano é a sua capacidade de resiliência e sua autoestima, aí estão as situações em que uma pessoa vai se mostrar integralmente.  Pois não é alguém com o auto-conceito bem avacalhado que sentirá prazer em pisar em outro ser humano? Do que é capaz quem carece dos instrumentos psicológicos para seguir em frente depois de uma rasteira amorosa?
Fair play e classe atestam o bom berço. Elegância quando se está ganhando ou perdendo também pode ser a parte visível de quem teve a sorte de encontrar algum bom mestre pelo caminho em algum momento na vida. Sobretudo, distinção e dignidade nos momentos de glória ou miséria fazem parte daquilo que temos de mais íntimo, aquilo que alguns chamam de caráter. É is…

AS COISAS DO PAPA E OUTRAS VIAGENS
>> Zoraya Cesar

Cada pessoa tem seu modo particular de viajar. Há os que planejam minuciosamente cada detalhe, os que nada planejam e, das mil maneiras de viajar, a melhor é aquela que se adapta à sua personalidade.

Mas, de qualquer maneira, é aconselhável saber onde está e a importância do lugar visitado, se não pelo aspecto histórico e cultural, que seja para não desperdiçar tempo e dinheiro. E, se não for muito esforço, aprender algumas frases e palavras básicas, ou por cortesia, ou, ao menos, para evitar situações constrangedoras. E, pelo amor de Deus, exercitar algumas regras simples de respeito ao próximo (de onde tiramos nós, brasileiros, essa mania horrenda de falar tão alto que podem nos ouvir a mais de 20 metros de distância?).

No entanto, nem todos pensam assim e, como disse, cada um viaja à sua maneira. Querem ver?

Perdidas – Se é para ficar perdido, que seja no Forum Romano, que é mais elegante. Estávamos procurando no mapa o templo de Júpiter, quando duas brasileiras se aproximam e per…