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Mostrando postagens de Março, 2016

AS PERGUNTAS QUE EU SEMPRE QUIS FAZER
>> Mariana Scherma

Xuxa, quantas vezes na vida você usou Monange de verdade? Ah, as gravações para os comerciais não contam.

Redes gigantes de fast food, nunca sentiram um peso na consciência por oferecer a batata gigante ou o refrigerante maior?

Fulano que acabou de cruzar o caminho (e nem é tão seu amigo assim), você quer mesmo saber se eu estou bem ou acha que oi-tudo-bem é o novo oi?

Pessoa que só reclama, você tem visto a situação trágica das pessoas de Mariana, MG? Acha que pode seguir reclamando do chefe só por conta de um estressezinho?

Manifestantes de redes sociais cansados de corrupção, vocês ficam só na manchete ou leem todo o jornal? Ah, qual site vocês acreditam ser mais confiável?

Quantas vezes você falou obrigado por um favor que lhe prestaram? Não vai dizer que achou que os outros têm obrigação de satisfazê-lo...

Mãe, você sente todo esse orgulho de mim mesmo? E quando foi que você cansou de mim? (Por favor, diga nunca pra essa pergunta.)

Pai, você me acha muito burrinha? Pode falar a v…

O TEORIZADOR >> Carla Dias >>

Para quase tudo: teoria. Reconhecendo o valor de pensar a respeito, elaborar jornadas, vitalizar possibilidades, tornou-se teórico de primeira, daqueles de fazer inveja aos que não querem se dar ao trabalho de aperfeiçoar-se na arte.

Teorizar pede por talento com o qual poucos são abençoados. Esqueça-se dos teorizadores eventuais, que não se aprofundam no tema, têm preguiça infinita de se debruçarem sobre aquela listinha básica do pode-ser-que-sim-pode-ser-que-não e dos resultados de pesquisas.

Chegou à conclusão, após dormir quase vinte e quatro horas seguidas, depois de um turno absurdo de três dias acordado, que teoria é a coisa mais insana — e divertida — desse mundo. Pense bem... Há teoria para tudo nessa vida.

As pessoas adoram escutá-lo discursar sobre qualquer teoria, que ele domina o verbalizar probabilidades. De uma forma mais complexa do que deveria ser, ele teoriza como se, na prática, praticasse o teorizado.

Sim... É meio confuso.

Por isso, ninguém entende o que acontece…

NÃO DÁ NEM PARA AJUDAR >> Clara Braga

Chegando em casa, ao estacionar o carro, ela foi abordada por um senhor. Ele precisava de dinheiro para completar o valor necessário para comprar uma bombinha de asmático. Sabendo da gravidade do problema, já que ela também era asmática, não demorou para responder: eu não tenho o dinheiro para te dar, mas eu tenho a bombinha em casa, espera um minuto aqui que eu vou pegar para você. Ao voltar com o remédio o cara tinha sumido, a bombinha nada mais era do que uma desculpa plausível.

Um outro rapaz foi abordado por um outro senhor que precisava urgente de um remédio para o filho. O remédio era caro, não estava disponível na rede pública e ele, recém-desempregado, não tinha dinheiro para comprar. Sabendo que saúde é assunto sério e, provavelmente se colocando na mesma situação, o rapaz levantou da mesa de bar onde estava e se ofereceu para ir até a farmácia comprar o remédio para o senhor. Após levantar, se virou para seguir para a farmácia que ficava ao lado, quando foi falar com o senh…

LIÇÃO DE CASA >> André Ferrer

─ Fui estragado para a política. Tudo o que os meus pais ensinaram, tantos valores, em todos aqueles anos, impossibilita-me a candidatura. Eis o motivo ─ alertou o rapaz na frente dos quatro senhores. ─ Diz respeito a não mexer nas coisas dos outros, a não prometer o impossível, a não enganar as pessoas, a nunca mentir. Peço desculpas aos senhores. Obrigado. Sinto-me honrado, mas não aceito.

Ele apoiou os cotovelos na mesa e descansou um braço no outro. Assim, encarou cada um dos quatro homens e, em três deles, pelo menos, descobriu uma vontade contida, mas notória, de empregar o qualificativo “moleque”. Charles era o mais novo naquela sala.

─ Estimado rapaz, a ideia foi minha. Tenho certeza de que você fará a diferença.

O presidente do partido estava nervoso, mas era um desses homens conciliadores. Apesar da surpresa, conservava o semblante tranquilo. Seus olhos vagavam ligeiramente de pessoa em pessoa como se assim pudessem construir pontes entre elas. O homem prosseguiu. Dirigia-se…

SÃO SÓ TRÊS TAMPINHAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Entrance os dedos das suas mãos, mas deixe os polegares livres. Apoie os polegares, perpendicularmente, no chão ou em alguma outra superfície plana. Você tem as traves. Libere um dos dedos indicadores, de modo que ele também encoste no chão e possa se movimentar para um lado e para o outro. Você tem o goleiro.

O outro jogador está sentado de frente para você. Ele tem os demais atletas: três tampinhas de garrafa, plásticas ou de metal, dispostas em um triângulo. O jogo pode começar.

O outro jogador, usando o dedo indicador, dá um peteleco em uma das tampinhas, de modo que ela passe entre as outras duas. Se a tampinha não passar entre as outras, ou se bater em uma das outras, o outro jogador perde a vez e entrega as tampinhas para você. Você desmonta a sua trave e ele monta a trave dele. É a sua vez de atacar.

Você move a tampinha entre as outras duas tampas, procurando se aproximar da trave do outro jogador. Você pode usar uma das mãos como anteparo para fazer uma tabela e facilitar a p…

A TARTARUGA >> Sergio Geia

Comprei uma tartaruga. De carapaça marrom, com bolas avermelhadas dispostas em forma linear. A cabeça não é alaranjada, nem marrom-avermelhada. É verde. E com grandes olhos negros. Não tem pescoço. Pelo menos não o vejo. O que vejo são quatro pernas grossas e fortes. E um rabo.

Nessa minha vida já vi muitas tartarugas andando por aí. Normalmente, a tartaruga é um animal lento, macambúzio, desanimado da vida. Tem ritmo próprio, e devemos respeitar. É certo que quase sempre dá preguiça apreciar uma tartaruga comendo ou andando; pelo menos assim são os relatos que me chegam de vez em quando, de amigos meus que já viveram a experiência.

Pois a minha tartaruga é bem diferente dessas. É alegre. Eu nunca tinha visto uma tartaruga alegre. A minha é. Ela chega até a sorrir. É bem verdade que quando a comprei, as suas irmãs também pareciam ter a mesma alegria, o mesmo entusiasmo com a vida. Decerto é coisa de genética.

Ela fica paradinha na sala fazendo não sei o quê. Eu passo de um lado, e el…

UMA PRAÇA, UM HOMEM, UM JORNAL E O DESTINO
>> Zoraya Cesar

Há um homem sentado numa praça lendo um jornal.


A praça é suja e arenosa; pedaços esparsos de grama ressequida pareciam sujeiras não varridas, e os chafarizes estavam tão depredados que suas antigas formas estavam, agora, indistintas. Quem a visse jamais desconfiaria que, num passado não muito distante, ela fora famosa, lugar para crianças brincarem, velhos descansarem, amantes e enamorados trocarem juras de amor eterno. 
Apenas os bancos de ferro, indiferentes à deterioração que um dia atinge a todos os seres e coisas, permaneciam tais quais eram. Aquele, no qual estava sentado o homem que lia o jornal, tinha pés em formato de garras, que lhe davam um aspecto de força e perenidade. Um banco sem frescuras ou tremeliques, feito para durar além do tempo dos homens. Não como esses bancos de madeira, desprezíveis em sua decomposição. Não. Um banco sólido e confiável, capaz de presenciar acontecimentos sem deles dizer palavra.
O local, outrora freqüentado por famílias, há muito estava abandon…

ENTRE COXINHAS E MORTADELAS>> Analu Faria

Não gosto de coxinhas nem de mortadelas. Aliás, sou vegetariana.

Não sou nem #teammoro nem #teamlula. Ando sendo #teamdeboche.
Não consigo me imaginar apoiando qualquer dos lados, porque isso endossa a falcatrua do lado apoiado e há MUITA sujeira dos dois lados.
Não consigo parar de pensar que essa crise política está fazendo aflorar o pior de nós. Alguns xingamentos fariam Derci Gonçalves parecer um Ursinho Carinhoso. Há opiniões beirando a insanidade, de gente que sempre me pareceu muito sã.
Não estou nem aí para quem exige que eu "saia de cima do muro". Lembro-me de Groucho Marx: "Humour is reason gone mad." Em tradução livre: "O humor é a razão enlouquecida". Se eu for perder cabeça, que seja pelas ótimas piadas que aqui no muro a gente anda fazendo com esse imbróglio todo.


PÉS SOBRE A MESA DE CENTRO >> Carla Dias >>

Não se preocupe, sou ninguém. Não vou atrapalhar os seus planos ou sonhos, tampouco desorganizar a sua organização tão precisa. Não colocarei pés sobre a sua mesa de centro, até porque ela é sua, não minha. Na minha, eu confesso, coloco mesmo e por puro desejo de me sentir confortável.

Se um dia se sentir rebelde, coloque os pés sobre a sua mesa de centro, e bem em dia de assistir a um filme preferido, e pela sabe-se lá qual vez. Prometo que não tem nada a ver com deselegância. Lembre-se: conforto pró-apreciação de filme preferido.

Porém, que fique registrado o meu interesse pelo o que você sente e pensa e faz. Não sou indiferente a você, só porque você acredita que não saberei me comportar diante das suas certezas, porque já nasci equivocado. Pode até ser que eu tenha mesmo nascido assim, meio torto. Mas nem de longe isso me incomoda, que a retidão, sobre a qual meu avô costumava discursar, durante o café da manhã, aquela sempre me pareceu frágil, mas ainda assim, ela me convenceu. …

MEU PRIMEIRO PÓDIO... OPS, PASSOU!
>> Clara Braga

Brasília, domingo, dia 13 de março de 2016, para ser mais exata. Não sei dar a hora certa, mas sei que não passava das dez da manhã.

Após uma corrida que acontecia no setor de embaixadas, começou a famosa entrega dos prêmios. Primeiro, como de costume, a premiação dos finalistas gerais, normalmente apelidados de quenianos, mesmo não sendo. Depois, a premiação por faixa etária, ou seja, premiação dos quase mortais.

Quando chegou a premiação da faixa dos 17 aos 29 anos, aconteceu o inesperado. O cara chamou: "Primeiro lugar, Clara Braga, inscrição número 274! Clara Braga? A Clara não está ai gente? Bom, então vamos seguir."

Como podem ver, a história não passa de uma livre interpretação, afinal essa é a história de como eu perdi a medalha do meu primeiro e talvez único pódio. Fui embora feliz, tinha conseguido diminuir dois minutos do meu tempo, estava morta, acabada, assisti à premiação da treinadora da equipe, segundo lugar geral, ou seja, queniana, e fui embora, afinal a ún…

VERTIGEM, EDUCAÇÃO E AS PALAVRAS DE CECÍLIA
>> Cristiana Moura

Ando atordoada nesses últimos dias. Sim, refiro-me ao cenário político, econômico e, por que não dizer, afetivo do nosso país. São momentos tensos, vertiginosos, de pouca tolerância, com a dificuldade de conviver com as diferenças que faz do mundo um lugar difícil de habitar.

Vivi infância em tempos de ditadura, sem internet, redes sociais, onde os livros de história para crianças contavam histórias outras que não a que vivíamos. Livros que mencionavam negros e indígenas apenas na parte intitulada folclore. O mundo ia passando e eu não o sabia. Hoje acordei assim, tonta de memórias e do presente parecendo visto por véus.  Fui, então, surpreendida pelas palavras de Cecília em sua redação intitulada "Por que a Educação é um Tesouro Valioso?". Cecília tem onze anos e nos disse sobre o que vê:

"É difícil dizer se o mundo está melhorando, piorando ou andando no mesmo caminho, mas de uma coisa ninguém pode discordar: mais bocas estão se abrindo para falar".

Respirei.

GASTRITE NÍVEL: ENGOLI BRASÍLIA
>> Mariana Scherma

O trabalho não é o que define a gente. Não é só o que define a gente, eu diria. A vida fora da empresa também conta. Então, por que estresse com o emprego? Por que a gente traz tanto problema pra casa e fica mais esgotado ainda do que deveria? Que eu saiba ninguém ganha adicional por estresse. Pelas trezentas vezes que você sentiu uma gastrite parecida com a sensação de engolir o caos político de Brasília, eu sugiro: ligue o foda-se.

Esse botão específico do foda-se não é o do trabalhe mal, faça tudo meia boca, entre nas suas redes sociais enquanto relatórios o esperam, não, isso não. Fazer o trabalho bem feito é pré-requisito pra dormir bem, pra contar piada na mesa de amigos e levar a vida mais leve. Faça seu trabalho bem feito durante o período em que você é pago (ou mal pago, eita crise) pra isso. Não desconte suas frustrações nos colegas, não faça um boneco de vudu do chefe (ou faça, só não poste no Instagram). Trabalhe de uma forma que, ao fim do dia, você pense: fiz meu melhor,…

GAROTOS >> Carla Dias >>

Assisti a um filme e gostei. Tudo bem que, neste momento, talvez você esteja interessado em ler sobre outros assuntos. Mas é que realmente gostei do filme, e estou tão zonza com os assuntos que estão em destaque, que acho que melhor mesmo é falar sobre o filme.

Vou começar protestando... Isso mesmo! Protestando, mais uma vez, pelo título brasileiro. As pessoas assistem ao filme antes de dar a eles títulos ou se baseiam no trailer e na sinopse? Bom, considerando que até mesmo a classificação anda capenga — o que já assisti de comédia que não é comédia —, Histórias de Amor (Liberal Arts/2012) pode até ter história de amor, mas não é o romance o tema principal, e sim o condutor da grande questão: a passagem do tempo. A arte de envelhecer. A faculdade como cenário.

Jesse Fisher (Josh Radnor) tem trinta e cinco anos e uma vida bem pacata. São os livros, pelos quais é apaixonado, que dão certa cor a sua realidade. Quando seu professor da época da faculdade, Peter Hoberg (Richard Jenkins), …

ACABOU O AMOR? >> Clara Braga

Ter ciúmes faz parte de amar?

Amar é sofrer independente do amor ser correspondido ou platônico?

Amor e ódio são sentimentos próximos ou opostos?

A paixão acaba quando o amor começa, como se a paixão fosse uma etapa para o amor?

Amar é um sentimento exclusivo de uma pessoa para outra ou é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

O amor está mais para a tranquilidade da rotina ou para borboletas no estômago?

Existe amor eterno ou só é mesmo eterno enquanto dura?

Só é feliz quem ama?

Você só conhece mesmo a pessoa quando deixa de amar?

Quando a questão é o amor, muitas são as perguntas e poucas as respostas. Mas o que não falta são tentativas de definir esse tal desse amor, nunca vi, as pessoas tem necessidade de explicar tudo, deve ser um jeito de se sentirem no controle, como se não entender algo fosse estar muito vulnerável.

Essa semana, Brasília parou por causa de um crime que chocou todo mundo. Um jovem de 19 anos assassinou sua ex-namorada por não aceitar o término do rela…

A GRANDILOQUÊNCIA >> André Ferrer

Para Don DeLillo (1936- ), o grande romance americano é um mito. DeLillo é um daqueles escritores que constroem verdadeiros painéis sobre a política e a sociedade do seu país. Como Philip Roth (nascido em 1933 e aposentado em 2012), John Updike (1932-2009), Saul Bellow (1915-2005) e Norman Mailer (1923-2007), DeLillo não parece ter feito outra coisa nos seus mais de 50 anos de carreira a não ser perseguir um tipo de romance capaz de dissecar e explicar a América.

Negar essa corrida do ouro, com uma pitada de humor e sarcasmo, parece fazer parte do jogo nos EUA. Toda a elite literária costuma fazer piada a respeito disso. Em público, o que move os escritores é a distração dos olhos desse ponto crucial. Agora, em seus escritórios, dada a qualidade do produto acabado, a conversa parece ser bem diferente.

O grande romance americano é um ideal mais ou menos inconfessável, mas que tem cumprido a função de ideal. Pode até ser um mito, contudo é um mito que eleva o padrão da literatura, aque…

DIÁRIO DE DOMINGO >> Sergio Geia

No final da oitava volta, encontrei tio Milton saindo da igreja. Como sempre, perguntou de minha mãe, que luta contra um câncer, das crianças, e, por último, de mim. Tio Milton também não anda bem. Disse-me que é problema de intestino. Outro dia fez exames. Come pouco, mais cozidos, algum legume, vegetais “brócolis não”, nada de gordura ou abusos. Disse-me que no geral vai indo. Depois acrescentou: “como Deus quer”.

Tio Milton é o mais velho dos irmãos de meu pai. Ou seria tia Dayse a mais velha? Acho que sim. Tia Dayse era a mais velha dos irmãos de meu pai. Tio Milton veio depois. Viúvo, é meu vizinho aqui na JK. Lembro-me dos Natais na casa da minha avó, na professor Moreira. Tio Milton nos presenteava com uma caixa de Bis embrulhada em papel de presente. Todos os anos o presente não falhava. De tudo que ganhava, de brinquedinhos e badulaques, camisas e cuecas, era o Bis do tio Milton o presente que mais gostava.

Sua esposa sucumbiu ao câncer. Ele tinha experiência nesse tipo de b…

NOITE NOIR >> Zoraya Cesar

Kairós - em grego antigo: o momento oportuno, perfeito ou crucial, o acerto fugaz entre tempo e espaço que cria uma atmosfera propícia para ação.
A rua estava mal e mal iluminada por um único poste, cuja luz, baça e amarelenta, era sugada pelo beco, que mais parecia um buraco negro. Era uma noite de inverno sem lua, e o frio seco, que o vento espalhava aleatoriamente para todos os lados, gelava os ossos mais duros. Os ossos mais duros, pensou Raymond, também sentem dor.
Encostado ao poste carcomido pela ferrugem, ele acendeu um cigarro, que, por breves instantes, brilhou como um vaga-lume de vida curta. Aspirou a fumaça, aquecendo os pulmões, e soltou-a lentamente, seus pensamentos acompanhando os desenhos que se desenrolavam no ar. Tragou o cigarro mais uma vez; tragou algumas lembranças também, a garganta apertada e ardida. Ele bem queria que as memórias se esvanecessem na noite, junto com a fumaça. Ele bem queria esquecer os momentos de terror que passara há alguns anos, numa noite b…

O MELHOR LUGAR DO MUNDO >> Analu Faria

A maior agonia do ansioso é o silêncio. E também o menos. A casa sem móveis. O interlocutor de poucos gestos. A folha em branco. No meu caso, a falta de palavras (não necessariamente silêncio) é o mais assustador.

Desde que voltei a meditar, porém, tenho me contentado com sensações mais que com excesso de discurso. Aliás, discurso bom é discurso pouco. Na hora certa, do jeito certo. Chego a pensar até que se não for palavra de impacto, não vale sair do corpo.

No filme “Pegando Fogo”, o personagem principal, um chef de cozinha, diz a alguém: “Quero fazer comida tão boa que faça as pessoas quererem parar de comer.”

Da minha parte, quero que o espaço entre as palavras possa me abraçar. Já seria um feito e tanto.

DELICADO >> Carla Dias >>

Tudo tão delicado...

Não de delicadeza de olhar fascinado. Não de delicadeza das manhãs em que se acorda antes da rotina e se amanhece junto com o dia. É delicado nevrálgico, de dor latente, de palavra ferindo fundo, como ferem alguns tons do silêncio.

Estratégicas amarras vestem-se de liberdade, somente para acossá-la. Quando a prisão cai na passarela da vida travestida de liberdade, o abismo parece multicolor, em um primeiro olhar.

Delicado de jeito que melhor é conter a língua, essa doida que anda doida para soltar palavras que reverberem o descabido. Mas desde quando descaber é pecado ou crime?

Delicado, mas não de delicadeza oriunda das emoções esbaforidas, das que transitam pelo corpo, em segredo, apenas para apreciar prazer na solidão de si mesmo. Não da delicadeza do sorriso desarmado, do toque parido para o puro ato de entretenimento da tez do outro.

Delicado que tem na mágoa o alimento, e propaga desconexão no pensamento e na alma. E impacienta, melindra, reverbera ofensas …

DAS COISAS BÁSICAS DA VIDA >> CLARA BRAGA

Quando o despertador toca começa a rotina. Levantar, escolher qual roupa limpinha vou usar, ir ao banheiro e ter sempre papel higiênico. Depois do café é só escovar os dentes com a escova nova, com o tubo de pasta cheio. E se for dias de glória, na gaveta sempre tem um absorvente novinho em folha para segurar o dia. Aliás, se o dia for muito longo, na bolsa vai outro também limpinho, junto com um creme de mão e um álcool em gel para garantir a higiene caso vá fazer uma refeição fora de casa.

Pasta e escova de dentes, papel higiênico, creme, absorvente, desodorante, perfume, álcool, todos objetos tão comuns e tão básicos no nosso dia a dia que ninguém para e fica refletindo muito a respeito deles, a não ser quando falta.

Ninguém pensa no quão importante é o papel higiênico até ele acabar e você ainda estar lá, sentadinho no trono. Ou no quão importante os absorventes são na vida da mulher, até ele vazar te deixando suja e o pacote da gaveta estar vazio! Ou ainda aquele jantar surpresa …

LÁ — UMA CRÔNICA SOBRE O TEMPO
>> Cristiana Moura

Fim de tarde. Fizemos um castelo de areia. Assistíamos ao mar desfazendo nosso feito. Filmávamos. A mulher que há algum tempo nos mirava se aproximou com olhar e voz curiosos:

— O que vocês estão fazendo?
— Um vídeo- arte.
— Ah, vocês são estudantes de arte?
—  Eu estudei artes visuais, aquele é meu filho que estuda música e a namorada dele que é dá comunicação.
Nem sei porque dei estas referencias acadêmicas, mas enfim, as dei.
— Filho? Quantos anos você tem?
— 43.
— Nossa, não parece. Eu quero chegar lá assim.

Lá? O tempo parou. O som do mar cessou. Eu fiquei ali, num tempo duradouro entre a inspiração e a expiração. Lá, como assim lá? Lá — advérbio de lugar que na afirmação da desconhecida designa tempo. O lá do futuro vindouro no qual ela quer chegar é aqui onde eu estou. Uma leve vertigem me tomou o corpo como se me perdesse entre o tempo passado e o que está por vir. Dar-me conta de estar neste tempo lá, me acordou dores no corpo que há dez ou quinze anos eram desconhecidas.

Ent…

VOO >> Paulo Meireles Barguil

Richard Bach relata, em Fernão Capelo Gaivota, obra adaptada para o cinema, as peripécias de uma gaivota que não queria ser igual às demais.
Por ser uma obra de arte, qualquer tentativa de descrevê-la é insuficiente, motivo pelo qual a única atitude que avalio sensata é sugerir a degustação, seja com letras, seja com imagens e sons. 
Foi em Floriano, há 3 décadas, em pleno Carnaval, que meu primo Joaquim me convidou para assistir ao filme.
Da época, pouco me lembro dos diálogos, e, em medida inferior, da compreensão que tive dos mesmos.
Uma imagem marcante é ela andando sozinha na neve...
Tive a oportunidade de revê-lo algumas vezes.
É sempre impactante.
Mais ainda, tentar revivê-lo.  A nossa porção animal nos impele, primariamente, à satisfação carnal em três modalidades: alimento, descanso e sexo.
Ultrapassar essa parcela e se relacionar, numa perspectiva cuidadora,  com as variadas manifestações da natureza, incorporando aspectos do humano, é um grande desafio.
Tornar-se um doad…

VELHICE E CHATICE >> Mariana Scherma

Vai ser inevitável ficar velho. Ceder espaço aos cabelos brancos. Aceitar as rugas. Trocar o nome de todo mundo. Acrescentar uma ou outra mania à minha lista de tantas já. A idade chega. Mas uma coisa é certa: você pode optar por encarar seus mais de 70 anos como essas pessoas que acham que sabem tudo só porque são mais velhas e reclamam de tudo também ou você pode aceitar a velhice como Keith Richards e Mick Jagger. Depois de vê-los ao vivo, foi inevitável pensar sobre ficar velho.

E aí você diz: eles são ricos. Eles trabalham com o que gostam. Eles viajam um monte. Eles tiram folga quando bem entendem. Eles são muito ricos. Não dá pra refutar isso. Dinheiro, folga e viagem ajudam bem. Imagino. Mas a cabeça e o estado de espírito podem fazer milagres. Pelo menos acredito nisso.

Olha só. No mesmo horário em que faço natação, tem aula de hidroginástica — e não precisa nem dizer: é a aula da terceira/melhor idade. Enquanto estou no vestiário, já vi todo tipo de senhora: as que reclamam …

CONEXÃO >> Carla Dias >>

Ela se desloca daqui para ali da cidade, ônibus abarrotado de autores de histórias que poucos historiadores apreciariam contestar ou contar, que acabam veiculadas em telejornais ou conversas de vizinhos. Ela gosta de escutar o que esses autores dizem, mesmo quando calados, as histórias saltando de seus olhos. Ela mesma tem a sua história, que se equilibra nesse fio invisível que liga o daqui ao ali.

No daqui, ela é mãe de duas meninas espoletas, porém educadíssimas, que filhas dela não nasceram para dar exemplo ruim. No ali, ela se veste diferente da dona de casa que faz bolo para vender, nas horas vagas: uniforme elegantíssimo, que é trocado, antes de desbotar. Sapato com salto que, apesar de não tão alto, prejudica-lhe os pés, que ela tem de escaldar diariamente, quando de volta para casa. Cabelos devem ser penteados em coque, do jeito que lhe foi ensinado. Um fio fora do lugar pode estragar o dia do patrão.

Funcionário nenhum se atreveria a estragar o dia do patrão.

Particularment…