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Mostrando postagens de Novembro, 2008

CARTA ANÔNIMA >> Eduardo Loureiro Jr.

No gramado aqui perto de casa, vi uma bola de papel amassada: ponto branco sobre a página verde. Sem saber bem qual o motivo de minha atitude, fui até a bola, tomei-a em minhas mãos e desamassei o papel. Era uma carta. O destinatário não estava explícito. E a carta não estava assinada. Reproduzo aqui, caso algum leitor saiba de que se trata e possa me dizer.



Querido,

Sei que você quer entender, então resolvi deixar por escrito.

Sabe quando você acorda, depois do sono depois do almoço, com vontade de comer alguma coisa doce? Antes mesmo que você acorde completamente, eu me aproximo e lhe ofereço um doce diferente de qualquer doce que você já tenha provado. Talvez lhe pareça estranho, pois não tem o gosto nem a cor do chocolate, talvez nem lhe pareça bom. Você pode mesmo pensar que preferiria ter comido o chocolate, você pode até comer o chocolate, mas antes mesmo de você acordar com vontade de doce, o doce que lhe trago já está esperando por você, e um dia você vai preferir esse doce a tu…

TANGO NA MADRUGADA [Sandra Paes]

Noite fria. O inverno prenuncia sua chegada de forma mansa e firme. Gosto desse clima, ar mais refinado, como se minh’alma se afinasse com essa tonalidade. Respiro melhor, me sinto mais leve e mais entregue de forma geral. Passeio na madrugada pelas ruas vazias e sinto a força da liberdade que esse gesto envolve. Aperto um botão e entra o Tango de Piazola para me acompanhar. Os acordes do bandoneon tocam com requinte meu sentimento de tristeza e paixão.

Para mim o tango é isso: a via mais curta entre um sentimento e outro. Quem o faz e concebe sabe dessa ternura louca que habita as ruas nas madrugadas, e é capaz de vibrar por qualquer coisa em silêncio, apenas no arfar de uma respiração intensa, soltando o fog que encobre o próprio ser. E nesse contexto me pego sorrindo, cúmplice única do piantal revelado na canção. O louco que carrega uma bandeirola nas mãos, como um táxi livre, a correr pelas ruas.

A melodia e a voz de Amelita Baltar se mesclam perfeitamente e me vejo pelas ruas de Bu…

LEONARDO MARTINELLI (1971-2008) >> Leonardo Marona

Mais um poeta se matou. Por que essa frase parece tão cômica e eu não consigo rir? – a cara torta se engana diante do espelho. A morte do poeta é o próprio mito da contradição de viver. A busca do poeta, o verdadeiro poeta, que é só poeta e mais nada, portanto sendo nada, a busca do poeta é sempre a morte, o andar cambaleante de quem espera um cataclismo, a direção do poeta é sempre a resolução inevitável do que se funde fátuo, mas muitos poetas, como quase eu muitas vezes ou anteontem, não admitem que na busca da morte se encontre a vida bruta, sem regras, inacessível porque dispersa e cheia, sem arestas. E para isso serve o poeta: ensinar sobre a vida com a própria morte. Não falo aqui de apologias ou bustos erguidos de pedra. Falo da presença eterna dos vultos, dos signos insondáveis que regem vagas potências, falo aqui da necessidade violenta de se olhar fundo a morte nos olhos, assim frente a frente, oferecer a ela um pirulito, mas há que se voltar, isso muitos poetas se esquecem…

DETALHES TÃO PEQUENOS DE NÓS DOIS (OU MAIS) >> Ana Coutinho >>

É incrível como é por pequenas coisas que nosso coração se infla.

Ouvi certa vez que uma pesquisa, feita com pessoas que passaram pela tal quase-morte, dizia que, na hora da partida, as imagens que lhes vinham à mente eram de coisas pequeninas, afetos quase invisíveis do cotidiano. Um jeito de olhar do amigo, um programa de televisão inocente, uma gargalhada numa noite de calor, o avental de cozinha, sempre precisando lavar. A unha do pé torta de seu companheiro, a mão fria na mão quente do seu amor, um vento gelado e um nariz pingando, a voz fina de sua irmã, o beliscão firme de sua mãe.

Talvez, se um dia eu morrer (é que ainda não tenho muita certeza disso), no meu filme de lembranças afetivas tenha uma meia suja que sempre uso em casa, o espirro exagerado de meu pai, a alça do sutien caindo da minha mãe, a gargalhada solta da minha sobrinha. Talvez me lembre apenas de coisas pequeninas e tolas como as noites em que assistia ao Amaury Jr. abraçada ao meu marido, ou o raspar dos pães q…

NOTÍCIA BOA >> Carla Dias >>

Eu tenho uma notícia boa, mas vou guardá-la por mais um tempo. Sempre fui guardadora de notícias boas, de ficar ruminando a dita até onde fosse possível.

A notícia boa chegou numa hora não tão boa, então tudo ficou mais leve. Notícia boa tem esse poder, não? Além do mais, ontem troquei de canal e assisti pela sei lá quantésima vez o mesmo episódio do seriado Friends, ao invés de assistir ao canal de notícias. As notícias por lá andam tão ruins que me deu vontade de rir à toa, só para lembrar como é isso. Friends me faz rir à toa... Não me canso de assistir.

Vocês já assistiram Alice, série brasileira da HBO? É boa... Muito boa.

Mas hoje não estou aqui pra falar sobre séries de televisão (mas me deu vontade, viu?). Estou aqui porque tenho uma notícia boa que dividi somente com poucos amigos, porque tenho medo de que ela evapore. E ela não é boa só porque é e pronto!

É boa porque chegou numa hora em que tudo só me escapava. Fosse criança, minhas irmãs diriam que ando com a mão furada. Já f…

A SINA DOS SINAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

A vida avisa. Improvisos têm provisões. Chama tem chamado. Pele tem apelo. Pavor tem pavio. No começo, são só dois pontos, distantes, desconexos, invisíveis a um só olhar. Depois multiplicam-se os pontos — intermediários — chamando a atenção. O olhar, então, começa a ligá-los. Adivinha-se a figura. A sina tem sinais...

Quando era para ter sido a última vez em que eu a veria, eu lhe disse no ouvido, feito segredo: "Que pena. Logo agora..." — providente improviso. Invisível traço entre o meu ponto e o dela. Joelhos e cabeça curvados ao destino.

Quando nascemos, estamos nus. Nudez é companheira dos nascimentos. Quando durmo nu, já sei que planto inícios, aviso à vida.

No dia seguinte, acordei tarde demais para surpreender o sol na praia. Fui surpreendido por ele. Olho do sol em mim, aviso de calor feito motor de carro que se liga para a viagem. E então ela. Esperança do que não se espera. Seu corpo feito marcador de livro na minha história. Livro aberto, enredo esquecido, história…

PASSOS [Maria Rita Lemos]

Eu já estava a caminho do trabalho quando o celular tocou. Era Ana, uma amiga querida, avó como eu de dois netos e uma neta. Ela ligou-me exultante, e na manhã nublada que começava eu vi um sol em suas palavras; sorrindo pela voz, ela me contou que ontem, aos 11 meses, seu neto caçula começou a andar: na verdade, deu três ou quatro passos pela sala, em direção à mãe dele, filha de Ana. A alegria foi geral, e se espalhou pela manhã de quinta feira, à medida que minha amiga contava a notícia à família, amigas e amigos próximos. Tive certeza dessa sua euforia quando, poucas horas depois, ao ligar o computador, recebi uma mensagem emocionante de minha amiga, dizendo dos primeiros passos de seu netinho num cartão virtual cheio de ternura.

Muito trabalho me esperava, mas não pude deixar de me lembrar de Ana e dos primeiros passos de Luca, seu netinho, durante alguns minutos de meu dia. Meu pensar perdeu-se no passado, bem passado mesmo, uma vez que Ana e eu estudamos juntas no mesmo Colégio,…

UM BLUE >> Leonardo Marona

Então a música feita de fuligem se instalou provisoriamente por dentro das redomas do cérebro, e ele num piscar de olhos, muitos olhos em volta e por entre as moitas de calças arriadas, não estava mais ali, diante de máquinas feitas para não serem percebidas e sim eficientes na sua eficácia, mas ele não era de repente mais uma dessas máquinas e podia ouvir cordas, chocalhos grudados aos pés em choque violento com uma poesia analfabeta, a seqüência pulsante de que se precisa para suportar as esporas nas costas, o cavalo que suava pelas narinas, o povo de boca aberta, os pescoços vermelhos tilintando sob o sol, e ele não era mais máquina olhando para máquina apenas, havia na atmosfera algo que parecia espremer as existências para um canto sem oxigênio, havia o óleo quente e o cheiro de galinha frita, alguma risada desafinada e a lembrança de que somos todos feios em essência, de que, incompletos, arquejamos e esperamos ansiosamente pelo fim alheio, de que somos feitos de poeira cósmica …

O INIMIGO >> Ana Coutinho >>

Existe alguém aqui dentro. Logo aqui, dentro de mim, alguém que está contra mim. Não sei quem é, não sei bem o que quer, mas existe alguém aqui que está boicotando tudo. Falo baixo para não acordá-lo, ando na ponta dos pés, principalmente se estou feliz, porque ele – ou será ela? – esse ser que habita em mim, não pode ver uma idéia boa, um sorriso tonto, que logo vem atrapalhar tudo.

É o inimigo. Ah você achou que não tinha inimigos? Que caso fosse assassinada, um dia, sua vizinha de porta apareceria pesarosa no Jornal Nacional: “Nossa, mas ela não tinha inimigos...” Pois você tem, bem aí, dentro de você. E é melhor conhecê-lo do que deixá-lo assim, agindo à própria sorte. Talvez o seu tenha aparições mais sutis, pode ser que ele use pantufas e seja um gentleman, chega, sai e você nem percebe. Mas sabe quando você vai falar uma coisa numa reunião importante, e a palavra lhe some dos lábios? Ou nem precisa ser uma ocasião especial, quando você está batendo papo com um amigo e vai falar …

SE CADA UM... >> Carla Dias >>

Ah, mudar as coisinhas...
Houve uma época em que eu acreditava que sim, que mesmo embarcando numa jornada solitária, conseguiria mudar o que me agredia o senso de justiça e a eloqüência emocional. Era tão clara minha necessidade de mudar as tais coisas, que às vezes me esquecia do que se tratavam; que envolviam outras pessoas, outras direções.
E como chegar ao mesmo lugar indo para cantos diferentes?
Tenho noções bem apanhadas sobre no que resulta a intolerância. Sabe aquela frase que escapa da boca da gente vez ou outra? “Parece que eu atraio”. Já atraí momentos freneticamente intolerantes para a minha vida. Alguns eu assisti de camarote... Até a cena dois, quando não agüentava e tomava partido do meu afeto, assumindo a coragem de sol em escorpião e chorando mais tarde, aos moldes da lua em câncer.
Mas nunca quis mudar os astros... Os lábios... Os astrolábios.
Outras vezes, eu tive de engolir a seco a intolerância, porque quando desferida na gente, a ela nos faz reagir intolerantemente. E…

A HISTÓRIA DO MEU LIVRO -- Paula Pimenta

A minha amiga Lara outro dia me perguntou se eu já tinha escrito uma crônica sobre o meu livro. Ainda não tinha. Mas resolvi satisfazer o desejo dela, porque realmente não é todo dia que se lança um livro e também tanta gente me pergunta como este livro nasceu, que resolvi contar a história.

Uma noite qualquer, em outubro de 2004, eu me sentei na frente do computador e pensei: “Vou escrever um livro”. Essa cena já tinha se repetido algumas vezes, tenho uns três livros guardados que comecei e aposentei ainda nos primeiros capítulos, mas daquela vez foi diferente.

Quando comecei a escrever, eu não tinha a menor idéia do que viria a ser aquela história. Eu tinha um daqueles livrinhos de “significado dos nomes” e abri numa página qualquer. Bati o olho em “Fani”. Significado: “Diminutivo de Estefânia”. Gostei. Minha personagem principal já ia nascer com nome e apelido. E foi assim que eu comecei a história. Uma menina de 16 anos, em casa, em pleno fim de semana, por vontade própria. Uma men…

DESORDEM HUMANA >> Albir José Inácio da Silva

- Pega aí, moça, que essa batalha é muito ruim – disse, depois que mais uma pessoa o ignorou, empurrou sua mão ou se esquivou do folheto. – Se alguém soubesse como isto é ruim de fazer...- seguiu ele resmungando. Tornou a estender a mão e a recolhê-la, ante o olhar furioso da senhora de quem cortou o caminho. Afastou-se quando ela começou a falar: - Já não bastavam os camelôs e mendigos de todas as idades que infestam as calçadas, agora não se pode mais andar no Rio de Janeiro sem “tropeçar”nestes entregadores de papel.

Acho que a senhora usou com precisão a palavra tropeçar. A gente tropeça naquilo que não vê. Do que vê a gente desvia, empurra, chuta, mas não tropeça. Ali não estão pessoas, estão incômodos. Incômodos que não têm rosto, não têm fome, não têm filhos esperando em casa. Não são humanos, são invisíveis, são desordem urbana.

Desordem urbana é uma expressão que temos ouvido muito ultimamente, principalmente por conta das eleições municipais. Choque de ordem foi a principal pr…

FLOR DO CAMPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Certo dia, após alguma insistência de minha parte, minha avó contou essa história, que eu não conhecia. Hoje, depois de ouvi-la muitas e muitas vezes de minha avó, de minha mãe e de minha irmã, eu reconto a história assim...


Era uma vez um reino onde vivia um pescador que pegou um peixe que havia engolido uma pedra preciosa que foi parar no fundo do mar não se sabe como. Quando o pescador abriu o peixe, descobriu a jóia — com espanto. O peixe ficou morto na praia, e o pescador levou a jóia para casa.

O pescador, que era viúvo, tinha uma filha chamada Flor do Campo, nomeada assim por sua beleza. Além de bonita, Flor do Campo era inteligente.

— Veja o que encontrei, filha.
— Bonita pedra, meu pai.
— É linda! Vou levá-la de presente ao rei.
— Ele não vai recebê-la.
— Não acha esta pedra digna de vossa majestade?
— Ele vai pedir um estojo, e o senhor não tem o estojo.
— Só você mesmo, filha. Diante de uma jóia tão valiosa, você acha que o rei vai pedir um simples estojo?
— Então leve, meu pai.

O hum…

A CHEGADA DA NOVA MULHER [Maria Rita Lemos]

Fui ao Rio de Janeiro, dia 25/10, para participar do lançamento do livro genealógico que conta toda a história de minha família paterna, desde a migração do Porto, em Portugal, até os dias atuais. Antológica e interessante, a obra foi "garimpada" e escrita pela amiga e genealogista Regina Cascão, uma criatura doce e genial que por duas vezes teve membros da família que se cruzaram com o nosso "galinheiro", como carinhosamente apelidamos nossas origens.

Na carinhosa recepção que nos foi preparada, cheia de (re) encontros e abraços, o assunto de nossas antepassadas fêmeas surgiu, e então comentamos o quanto nossas vidas mudaram, enquanto mulheres que somos. Aliás, nossas avós e bisavós jamais poderiam sequer sonhar com o que podemos fazer e viver nos dias atuais, embora ainda reste muito caminho a percorrer.

Ninguém pode contestar que, embora a mulher tenha sido colocada por muitos séculos em plano secundário em sua relação com o homem, de fato ela sempre …

OFÍCIO >> Leonardo Marona

Para falar a verdade, há qualquer coisa de fútil em somar palavras. O tipo inquieto, os olhos preguiçosos, e de nenhuma ocupação, alheio, pouca técnica e muito sentimento, intensidade, não podia ver uma chuva e achava que era comunhão com deus. Mas, bêbado, não havia deus. Era a própria afirmação da consciência do Senhor. Acima de tudo sentia-se amaldiçoado, um pouco como que se arrastando por uma trilha desastrosa. Perseguir o desastre, aí estava a grandeza. E, no caminho, descrever a paisagem. Os corpos caindo em torno, as cabeças soltas ainda gritando, os campos azuis, as paredes submersas, os cata-ventos em chamas e as harpas vermelhas. Daí o começo da morte, quando o corpo, mais complexo, não dava conta, e a vida tornava-se algo secreto. Doía o cenho manter os olhos injetados. A desculpa para o precipício era falta de força moral, talvez a perda da mãe muito cedo, o que atraía almas caridosas, logo massacradas por sua ferocidade juvenil. Pois que o corpo era continuação do raio, …

Raros e normais >> Ana Coutinho

Recebi esses dias um e-mail, desses com uma pergunta de lógica. Tinha uma seqüência numérica e você teria que descobrir o 6º número. Eu tentei um pouco, não consegui. Logo, outros destinatários começaram a escrever dizendo o tempo que tinham levado para matar a charada: 2 minutos, 3 segundos, meio minuto, e o remetente que confessou ter levado 3 minutos, logo recebeu críticas: “Tá fraco hein? Precisou de todo esse tempo?” – dizia um dos gênios. “Nossa, que devagar, eu não levei mais de 5 segundos”, bradava outro.

Eu, assistindo àquilo tudo, voltei para os números. Li, reli, fiz contas, simulei algumas possibilidades e nada. Oito minutos. Levantei, tomei um café, voltei e peguei firme nesses números malditos, até sentir que saía fumaça da minha cabeça... A manhã havia passado e eu me sentia a maior anta entre todos. Comecei a me perguntar como foi mesmo que eu consegui entrar nessa empresa. Como fiz faculdade e sou até pós-graduada, imagine, uma tosca como eu, pós-graduada! Se o Jornal …

MARGENS >> Carla Dias >>

As margens me interessam...

Margem do caderno, aquele risco, por vezes colorido, a separar a palavra escrita do vazio necessário. Naquele lugarzinho que me aperreava observar, desenhei muitas margaridinhas. Na minha cabeça de menina convivendo com cadernos, um talo tinha a ‘altura’ da página, e nele se dependuravam as florezinhas em cores que, nem sabia, não cabiam em pétalas.

As margaridinhas com pétalas marrons me enchiam os olhos. Elas que dividiam o mesmo talo, como hoje muitas pessoas dividem seus apartamentos.

A margem da represa que banhou minha infância... Lembro-me da pele amorenada pelo sol que hoje, adulta, tenho de evitar a todo custo. Ao invés de andar pela margem arrastando os dedos do pé na água geladinha; equilibrando-me nas pernas grossas de criança criada a arroz, feijão, chuchu e polenta; imaginando como seria viver debaixo da água escura, como seriam seus habitantes, aqueles que adulavam os peixes; ao invés disso, hoje me limito a represar o suspense, a facilidade em …

Sua Imagem, o Orkut e Você >> Claudia Letti

O homem que diz "sou" não é,
porque quem é mesmo é "não sou"
[Canto de Ossanha - Baden Powelll e Vinícius de Moraes]


Uma pessoa que conheço me disse uma vez, que nós não somos o nosso discurso; defendemos teorias, ideologias e até idéias banais com uma certa calorosidade, mas não sabemos exatamente se praticamos, realmente vicenciamos e somos essas idéias e teorias. Mas, gostei da frase e fiquei com ela por um bom tempo na cabeça, cuidadosa das minhas palavras pra não discursar em falso, até que vi e ouvi esta mesma pessoa -- que admiro, diga-se -- esbravejando um texto enquanto suas atitudes eram escandalosamente opostas. Era a criatura, representada pelo texto, desmascarando o seu criador.

Lembro de um comercial de refrigerante feito para a televisão em que um homem atravessava um deserto, suado e cansado e empurrava goela abaixo um saco de batatas fritas. Só depois é que bebia, vitorioso e sofregadamente o tal refrigerante, gelado como devia ser. Criança na época, e…

A ENCRUZILHADA >> Eduardo Loureiro Jr.

"Para aqueles que viajam, o tempo não existe — só o espaço."
(Paulo Coelho)

A cidade mudou. A ponte, cuja construção esteve parada durante os dois anos e meio em que morei aqui, virou novamente um canteiro de obras. O homem que trabalhava até oito horas da noite, agora caminha no calçadão da beira-rio em pleno final de tarde. O casal, que havia se separado, passeia novamente lado a lado. A professora está incrivelmente mais magra. A amiga será avó de trigêmeos. Eu mesmo -- que agora estou aqui de passagem — cheguei diferente: o cabelo mais comprido e a consciência de que daqui a pouco chegarei à encruzilhada.
Numa encruzilhada, não há grande dificuldade de escolha. Os caminhos — não importa o número deles — podem se resumir a dois: um que nós pensamos que os outros escolheriam para nós, se tivessem esse poder; e outro que nós mesmos queremos escolher, apesar de eventuais evidências em contrário. No fundo, é uma escolha entre fazer a vontade dos outros ou a própria vontade.
Algun…

OBAMA - O DESEJO REAL DE MUDANÇA! [Sandra Paes]

Ele veio sem muita conversa, sem muito explicar. Sim, o verso é de Chico Buarque, mas se encaixa perfeitamente pra esse jovem americano, hoje o mais célebre eleito presidente americano.

Mansamente, com seu jeito de ginga de jogador de basquete, e uma eloquência altamente sedutora e envolvente, foi se aproximando com o forte slogan: CHANGE.

Diante de candidatos fortíssimos como a veterana Sra. Clinton, ele não se intimidou. Continuou o trabalho de conquista, ignorando críticas, narizes empinados, na certeza de quem sabe seu destino: fazer o ponto máximo no jogo, que dessa vez não era de basquete, mas não deixava de simbolizar a mesma coisa.

Seria preciso vencer!

Acompanhei de perto esse moço, cheguei a ver a ginga com que ele dançou num programa vespertino, e percebi pelo ritmo dos quadris alguém totalmente solto na desenvoltura também da cintura. E gente com jogo de cintura é o que a América vem precisando hé muito tempo. Os americanos são famosos por serem duros de cintura.

E, depois, aqu…

"Os Compreendidos" >> Leonardo Marona

Quero dizer agora que não quero. Não quero mais. Não mais dizer que não sei de mais nada e tenho medo. Não quero que me dêem nada, que me dêem referência. Nada de ninguém se pode esperar porque a esperança é a face obscura do otimismo – outra é dar cabo da vida e para falar sobre isso seria melhor não fazer. A literatura do sim afinal só serve para juntar dinheiro e espelhos estrábicos. Aqui ela não servirá. O mais justo é tratar de amedrontar o ser humano pelas suas próprias leis e, amedrontado, retirar-lhe o sumo do sacrifício paganizado, provar-lhe a humanidade.

Exige-se para isso o despojamento do cinismo e uma boa dose alcoólica, mas nem todos têm estômago. Nem bem abri o parágrafo, ainda há tempo de parar. Mas o passo adiante é o que mantém intacto o absurdo, que rege a vida sobre a Terra. E essa é minha única referência. Que viver é seguir o absurdo até a carne. Que amar não é nada além de ter muito medo e querer alguém que nos ampare, que sacie todo o perdão avulso, alguém que …