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Mostrando postagens de Maio, 2019

DEPOIS DO GRANDE VERÃO VERMELHO - QUASE O PARAÍSO. QUASE.>> Zoraya Cesar

Alfonsine precisava de um café. Esticar o corpo. Respirar ar puro. Espairecer para pensar. Há mais de duas horas examinava provas, confrontava evidências, torturava seu cérebro em busca de coincidências, pistas, qualquer coisa que levasse à elucidação da morte do botânico Tinds Bârd. Descartada a hipótese de suicídio pela perícia, a equipe de Homicídios de Alfonsine encarregou-se do caso. 
Bebeu o café, pegou a bicicleta e saiu. Ar puro não era problema. Praticamente todos os meios de transporte e fontes de energia poluentes haviam sido trocados por sistemas limpos – energia magnética, solar, eólica... Extensas malhas cicloviárias cortavam bairros e municípios, permitindo que ciclistas chegassem a pontos longínquos em pouco tempo, com segurança e praticidade. As ruas, arborizadas, arborizadíssimas, para descrever com exatidão, tanto nos centros comerciais quanto nos bairros residenciais, davam à cidade um aspecto de nouveau bucolique, o movimento socioambiental e estético que equilibra…

O DONO DO CLUBE >> Carla Dias >>

Era assassino de profissão.
Vamos combinar, não é a primeira vez que você lê a respeito. Há como citar uns pares de filmes, alguns personagens da realidade e, se bobear, aquele vizinho... sabe quem? Melhor continuar sem saber.
Era assassino de profissão. Ganhava em dólar, porque dólar é dinheiro com valor. Guardava seus dólares, milhares deles, em caixas de sapato, estocadas em um closet de um dos quartos onde vivia com sua esposa e sete filhos. Tinha isso com o número... morava na casa sete da rua sete, seu telefone tinha vários sete e a soma dos que não eram sete dava em sete. Sua esposa foi sua namorada número sete, penou, mas o filho sete veio, temporão, mas veio. Acalmou-se, que temia ficar preso ao número seis. Não gostava do número seis.
Sua profissão exigia disfarce, e não há disfarce mais sólido do que a realidade de uma rotina. Um casamento sem amor, mas com certa cumplicidade. Bater cartão na igreja, ao menos uma vez por semana, comprar sempre a mesma marca de aveia, uísqu…

TRADUZINDO AO PÉ DA LETRA >> Clara Braga

Quando eu era adolescente adorava comprar revistas. Ir à banca da quadra era um evento, ficava um tempão olhando quais revistas tinham matéria sobre minhas bandas prediletas, escolhia umas duas, comprava um picolé e ia para casa ler. No dia seguinte levava as revistas para a escola, minhas amigas faziam a mesma coisa, e a gente sentava juntas para ver as revistas umas das outras.
Além das matérias sobre as bandas, algumas revistas tinham uma parte que eu adorava: tradução de músicas. Achava o máximo poder finalmente entender o que aquele artista estava querendo dizer naquela música. Lembro de um dia passar um bom tempo no quarto tentando encaixar a tradução da letra de Torn da Natalie Imbruglia na melodia da música, quem sabe eu não poderia virar uma grande cantora de traduções musicais?
Pena que eu não levei minha ideia a sério, pois as pessoas que também pensaram nas traduções como um nicho na música dos anos 90 acabaram se dando bem. E quando o assunto é traduções dos anos 90, não…

no limite >>> branco

existe um lugar
para onde meus pensamentos vão

eu conheço cada rosto
cada rua
cada esquina
os cheiros são facilmente reconhecíveis
é um lugar fora do espaço/tempo

caminho pela avenida tão conhecida
revejo amigos
revejo amores
que andam descalços pelo chão de terra batida
sentimentos fluem
cores sólidas
sonhar que cada sonho possa ser vivido
cumprir as promessas
não desviar
nenhum preço é tão alto
que não possa ser pago
imaculado é o lugar
para onde meus pensamentos vão
quando estou no limite

neste momento
sentado em minha cadeira
quebrado pelo tempo/ocupando espaço
sou alguma coisa entre o esquecido e o descartável
agora
sei sobre cada sonho que deixou de ser vivido
e um preço muito alto para que pudesse ser pago
tudo isso percebido
tarde demais

hoje me contento
em olhar para os sorridentes e descompromissados rostos
aprisionados no porta-retratos sobre a prateleira
um rosto se destaca
tão jovem e familiar
- felicidade fulgaz
borrão no céu
gota no oceano -
outros tempos outros dias









60w

Tungstênio, sessenta watts. O espelho encara a nudez do meu reflexo. O banheiro fede. Quase duas. Ofertas de sexo reclamam espaço nas portas. Fede à masturbação. A água do chuveiro é fria. A nudez encara o reflexo no meu espelho. Azulejo azul, rejunte com restos de pressa e máculas na cor. Meu pé descalço esquenta o chão gelado. O espelho encara. Cabelos no ralo. Fede à sexo. Sessenta watts, cento e vinte hertz. A janela trancada pela oxidação. Uma e tanto da madrugada. O branco da pia fede. Restos de ofertas me encaram. A cor do azulejo tem máculas de água ardente. Oxidação tranca as torneiras. O branco da pia tem restos de masturbação. A cor do azulejo tem máculas de azul. Fede a restos. As portas reclamam espaço. Um pouco antes das duas. Reflexos no ralo. Meu espelho, algum reflexo. Sexo. O espaço reclama restos que as máculas no espelho encaram como a minha nudez. Cento e vinte hertz, duzentos e vinte volts. Uma e quarenta e cinco, água ardente. 
Preciso dormir, é demasiado tarde…

UM RASGO, UMA PREGA >> Sergio Geia

Minha calça rasgou. 
Okay, tudo bem, você deve imaginar “que grande acontecimento; com tantas preocupações sérias, a reforma da previdência, a falência das universidades federais, ministros batendo cabeça, trapalhadas políticas mil, o sujeito me aparece aqui e começa uma crônica dizendo que sua calça rasgou! Ora bolas! E eu com isso?” Acalme-se, amigo, relaxe um pouco. É uma simples crônica. Minha intenção é exatamente essa: fazer com que você esqueça um pouco dessas mazelas, dores de cabeça cotidianas que ultimamente tornaram-se “crônicas”, enxaquecas belicosas que só elas, e venha para o universo das “crônicas”, as verdadeiras, as originais, understood? Assim, esclarecido tudo, imagino, que tal nos divertirmos? Vamos? 
Pois minha calça rasgou. 
Não foi a primeira vez. Da primeira vez, minha mãe, que pouco enxerga e ouve mal, ao ver o pequeno rasgo na altura do zíper — não me pergunte como ela viu —, se assustou meio assim: “Cruzes! Você está com a calça rasgada?”. Fez-me sentir um …

IDADE >> Whisner Fraga

Ele estica a vista, procurando a faixa.

O carro relincha e o homem atravessa a rua.

Um sol rosa vai desocupando o dia.

O homem é velho, mas alcança a outra calçada.

Ele está sem o chapéu. A julgar pelos indícios na testa, raramente sai sem o chapéu.

O velho passa por um estacionamento e está no supermercado. Comprará ovos, azeite e macarrão. Um vinho suave também.

O velho se demora na seção de xampus, mesmo tendo os cabelos ralos e curtos. Perto, uma mulher pinça um condicionador. Ele diz que não adianta, que nada adianta. Ela se sobressalta, mas o assunto não evolui.

Tenta o calor. O calor é sempre um tema que todos dominam. Até que desiste.

Dali a pouco, quem sabe a novela e o sono avassalador antes do primeiro comercial.

Parece gostar do caixa. As filas longas lhe dão oportunidades de novos palpites, a iminência de outras vozes.

Alguns minutos e está novamente na calçada, prestes a pisar a faixa. Um carro para, espera que o velho cruze com segurança.

Os passos lerdos vão puxando to…

ENLEVO >> Carla Dias >>

Percebe-se em êxtase.
Porque nele tudo vibra, de dentro para fora, até o ar lhe falta. Ao tentar retomar o fôlego, os lábios são inundados por uma saudade reverberante pelo nem sabe o que ou quem. Saudade que lhe cutuca o choro. Dá um desamparo que ele não reconhece. 
Não é saudade do beijo, mas sim do passeio, onde o tempo se torna macio, de maciez que poucas coisas – e pessoas – têm nessa vida.
Até há pouco, sentia-se certo sobre a capacidade de dominar sentimento. Não havia emoção que lhe fizesse desandar a racionalidade, que o arrastasse aos confrontos sobre temas desconhecidos. Ele sempre foi de cuidar do modo como reagia às coisas, aos acontecimentos, às pessoas. O que acontece agora é um desatino, um desvio de rota.
Percebe-se em êxtase. Não do êxtase moldado às buscas que escolheu, tampouco do que prenuncia conquista mediante esforço. Está habituado a receber afeto feito pagamento por ações. Compensação ele entende e aprecia que ela seja controlável. 
Não isso... não o que lhe…

SERIA UTOPIA? >> Clara Braga

Basta que uma pessoa levante um questionamento para que a gente perceba algo simples: mesmo quando o objetivo é o mesmo, os caminhos são diversos. E quando você conhece os caminhos das outras pessoas, pessoas que você antes julgava tão parecidas com você, aparece um novo questionamento: existe um único caminho certo?
Uns dirão que sim, o caminho certo é aquele e todos que vão contra estão errados!
E estar errado ou certo tem relação com quantidade de pessoas que pensam daquele jeito? Poderiam 1.000 pessoas estarem erradas e 1 estar certa? Se uma pessoa disser que sim, logo as outras 1.000 estão erradas.
Mas eu sei que estou certa, li naquele livro, aquele autor não mente! E quantos outros sinceros autores não disseram o contrário? Bom, mas eu prefiro acreditar naquele, que para você não tem credibilidade. Mas afinal, o que é a credibilidade? É ser mais velho? É ter mais livros escritos? É ter mais acessos no youtube? Ou credibilidade já tem sido dada por pura conveniência?
Cada um te…

LUZ E FOME >> Albir José Inácio da Silva

No princípio o que não mata engorda. No princípio tem que matar pra comer. Matar o dente-de-sabre, o mamute, o unicórnio, a preguiça e o jacaré. Matar o próximo também que a proteína é pouca e é melhor comer que ser comido.
Não existe ódio ainda, apenas fome.
O ódio surge depois por causa das diferenças: famílias diferentes, tribos diferentes, deuses diferentes, raças diferentes. E nunca mais ele foi embora.
Foi então que a luz apareceu lá na Grécia: convivência, ágora, virtude, bem-comum, ética, beleza. Passou por Roma e chegou a Belém de Judá. E os crentes já não queriam matar os inimigos, antes convertê-los ao bom Deus.
E aprendem amar o próximo, orar pela sua saúde, dividir o pão e a fome, a dor e o gozo, a colheita e a praga. Cuidar dos filhos que não são seus e acolher o estrangeiro. Estender a mão e levar a mensagem de paz e amor aos quatro cantos do mundo.
Mas vem a noite de mil anos. Fome, peste, tortura e morte na fogueira em nome da cruz. Grilhões, impostos, primícias e m…

IMPRESSO NO CORPO>> Cristiana Moura

Era um evento lindo — Festival Internacional de Arte de Rua de Lyon. Eu estava eufórica de tanta
beleza! Grafites adentrando-me o corpo todo pelo olhar. Cores e formas doando -me sua vitalidade.
Havia três tatuadores de plantão no festival. Sempre pensei que tatuagem há de ser algo muito pensado. Vejam bem, não é uma decisão banal. Fiz minha primeira tatuagem após os quarenta anos de idade. Decidi a imagem que queria em minha pele e, Tereza Dequinta desenvolveu. Gostei, mas ainda queria mais movimento. Ela a refez e ,de repente, foi como se Tereza tivesse entrado em meu pensamento e transformado meu sonho em gestos leves gravados em linhas — arte para minha pele.
Mas era um festival. A experiência de intercâmbio pós juventude a criar uma bruma leve nas possibilidades temporais dos possíveis. Sou impulsiva. Mas não para tatuagens. Estas a gente cria devagarinho como a obra de Tereza em minhas costas.
— Vou fazer uma tatuagem! — Pois vou filmar tudo — disse Shana, uma recém amiga e ót…

OS ESPERANTES >> Zoraya Cesar

O restaurante funcionava no último andar de um prédio comercial – prestigiadas bancas de advogados; cassinos clandestinos para clientes classe AA; agências internacionais de detetives; médicos que cobravam mais de três mil reais a consulta; start ups de informática high tech; filiais de empresas off shore e outros movimentadores de dinheiro, nem sempre legais -, e ficava aberto 24 horas. Sua decoração era requintada, em tons escuros de madeira, mármore, ferro batido. As toalhas e guardanapos eram de linho, louça da Wedgwood, copos da casa Bormioli Rocco. Mais clássico, impossível.
Poucos sabiam de sua existência, parecia a fachada de um grande escritório. Mas era como um clube - com o já citado restaurante, sala de leitura e descanso, biblioteca - e dos mais reservados, frequentado apenas por sócios indicados por outros sócios. 
E quem eram essas pessoas? Se dissermos "qualquer um que...”, estaríamos incorrendo num erro de definição. Ninguém naquele clube poderia ser classificado c…

BRASÍLIA>>Analu Faria

Nesta cidade, povoada por espaços vazios e carros Ninguém sabe se fazemos o que fazemos por vocação ou por tédio
A moça escreve uns poemas
Com dois mil adjetivos em cada estrofe
(Me dá sono no terceiro verso)
Um diabo criar ausências com enfeites

Todos aqui têm concreto nos olhos. É tudo muito bonito, não fosse a falta de gente na rua. Parece até que um bruxo, ou um daqueles anjos tortos, do Drummond, esconde os vivos nas frestas por onde passam as curvas de Niemeyer. Nesta cidade de ideias grandes, que difícil talhar no monumento a simplicidade eficiente, o aconchego sem muito dengo o saber do caminho longo, o alívio do sorriso aberto. E dá-lhe drops de humanidade nos viadutos: "Mais amor, por favor". (O coração da cidade, enfim, bombeia. A seca de julho não nos mata este ano).

O ETERNO >> Carla Dias >>

O eterno dura o tempo do desejo. 
Quando não se alimenta esse desejo, morre o eterno, lamentando ter sido iludido pelo efêmero. Engana-se quem acredita que desejo é algo que se mantém por conta. Talvez, no primeiro momento. No segundo, já pede por certa dedicação para manter a fluência. Na maioria dos casos, morre de inanição. Alimentar desejo demanda tempo, que é uma das moedas mais valiosas da contemporaneidade, e atenção.
Andamos apegados à arte da distração.
Tornamo-nos distraídos contempladores de vazios.
Como este que encaro, um copo de água na mão, uma ruga de desamparo na testa, uma agonia reverberante melindrada por silêncio indigesto. Encaro sem enxergar, ansiosa para que acabe logo esse mergulho em slow motion que ofereço ao que em nada me interessa.
Não me importo mais com espectadores. Não valso mais para satisfazer cultivada necessidade de me tornar necessária ao olhar deles. Não temo mais que me esqueçam em um canto de achados por acaso e perdidos por escolha.
Não sei …

CADA UM COM SUA EMERGÊNCIA >> Clara Braga

Recentemente tive um problema de saúde e precisei ir à emergência do hospital. Emergência é sempre um saco, muito cheia, sem o especialista necessário e você leva mais de hora para ser chamado para ficar dois minutos olhando para a cara do médico.
E dessa vez não foi diferente, esperei 1hora e 40minutos até ser atendida e não precisei ficar nem 5 minutos com a médica. Ela me avaliou e mandou logo para a sala de medicação. Como a sala estava muito cheia ela pedia que os pacientes entrassem sozinhos e os acompanhantes aguardassem de fora olhando pela enorme janela de vidro que havia na frente da sala.
Lá fui eu, entrei e fiquei conversando por mímica e whatsapp com minha mãe que ficou olhando pelo vidro. Minha mãe é sempre muito tranquila, se sentou de forma que eu só via sua cabeça, quase se perdendo entre a quantidade de pessoas que aguardavam em pé e coladas no vidro.
Vinte minutos se passaram e nada da minha medicação chegar. Conforme o tempo ia passando, as pessoas lá fora parecia…

poema 47 >>> branco

ela chega de maneira imperceptível
como se nenhum mal - ou bem - fosse causar
uma vez retira-nos a inocência
outras
oferece-nos a magia

a mão que atira a pedra
é a mesma que acaricia em perdão
o dedo que puxa o gatilho
é o mesmo que aponta a direção

ela nos traz amargas - ou doces - lembranças
de acertos - ou erros - cometidos no passado
uma vez deixa-nos em desassossego
outras
oferece-nos a felicidade por um sorriso recebido

os olhos que transmitem o ódio
são os mesmos que permitem chorar
a boca que ultraja e fere
é a mesma que nos deseja paz

ela tem o rosto esculpido em pedra
e de flor teimosa nascida no asfalto
uma vez é a frieza do mármore
outras
uma tarde feliz de verão

o coração que não retrocede
é o mesmo que sente remorso
a mão que assina a sentença
é a mesma que escreve um poema

ela chega de maneira imperceptível
desde o mais recém-nascido dos dias
uma vez nos deixa passivos
outras
em revanche

a alma condenada
é a mesma que está liberta
a pena do assassino
é a mesma do inocen…

VERDE DESESPERO >> Fred Fogaça

Tenho adornado minha casa com urgência. Atulho os cantos de flores e folhagens e cubro o chão de tapetes, escondo as rugas da estrutura com fotos e artes amigas; troco as lampadas frias, muito claras, e privilegio as luzes indiretas. Interrompo passagens livres com cortinas e anteponho às portas, detalhes pendurados na madeira. Faço estantes, crio espaços, embalo os sinais de velhice dos móveis com estampas, apostando o aconchego no espaço que diminui entre as camadas com que cubro a realidade. Mas, longe disso, as paredes rugosas não negam em seu verde certo desespero.

Não estou preso a casa, há sempre opção. Mas a esse ponto da minha solidão por esses cômodos, não são mais só concreto, ferro e madeiras, já partilho o aluguel com as minhas memórias. Não há questão moral que desqualifique alguma falta de sorte,  mas como poderia abandonar os fantasmas de tão fiel outrora? Ainda há questões práticas: com o tempo você se expande em partes que não cabem no seu corpo. Como me desfaria de…

O MENINO >> Sergio Geia

Era o último da fila. 
A padaria, naquela manhã ensolarada de domingo, bombava. De repente, vi o menino chegar à porta, entrar e parar na frente daquele que pagava o seu desjejum:
— Vô, o senhor me leva pra assistir Vingadores: Ultimato? Me leva, vô? 
Era um garoto de pouco mais de cinco anos, que na sua tenacidade eloquente, como se assistir ao filme fosse a coisa mais importante de sua vida, e ainda que fosse novato no uso das palavras, dirigia-se ao avô com olhar de espanto, força, vigor. 
E como o avô sequer respondia, limitando-se a cafunés esparsos em sua cabeleira, ao tempo em que prestava atenção à moça do caixa que enumerava os componentes da conta, ainda completou:
— Vô, no Vingadores: Ultimato tem o Homem Aranha, vô! O Homem Aranha é bom! Me leva, vô, no cinema, pra assistir os Vingadores: Ultimato? 
Pobre vô, pensei, na minha inocência de quem não sabe nada da vida. 
Na certa tinha coisa mais importante a fazer. Talvez achasse que a tarefa seria mais indicada para os pai…

A VIDA NÃO É UMA EQUAÇÃO >> Paulo Meireles Barguil

  Apesar de sabermos que a vida não pode ser controlada, fazemos o possível para que ela siga por caminhos que nos sejam agradáveis. Planejamos o que gostaríamos de fazer nas próximas férias, apesar de ignorarmos se estaremos vivos amanhã; aconselhamos, mesmo quando não solicitados, as pessoas a agirem de determinada forma; orientamos os filhos, a despeito de eles nos fazerem caretas internas, quando não são externas!; amarramos a planta num esteio, para ela não crescer torta. As nossas intenções são as melhores possíveis, pelo menos acreditamos nisso e bradamos com estrondo, mas os resultados podem ser funestos, principalmente quando eles aparecem e não há nada para remediar. Nunca saberemos, a priori, os resultados das nossas ações.

Talvez, nem a posteriori!

Ademais, é impossível determinar se elas foram as únicas responsáveis pelo ocorrido...

O mamoeiro era novo e frágil e decidi atá-lo numa escora para que ele não vergasse com a ação do vento. O tempo passou, ele ficou mais for…

EU NÃO SOU O FRANCISCO! >> Paulo Meireles Barguil

Há mais de uma década, adquiri de uma operadora uma linha telefônica. Durante os primeiros anos, era raro receber uma ligação errada. E, então, não sei bem quando, começaram me contactar: — É o Francisco que está falando?

— Não. Esse número não é dele. — Você o conhece? — Não. Sou proprietário desse número há vários anos. Eu, tolamente, imaginei que, após alguns meses, essa situação iria cessar. Qual nada! Agora, eu recebo, semanalmente, mensagens de diferentes origens me convidando a negociar débito: Cartório Leapoldino, Chorachuelo, Inativos S/A, NETI, Pedrapeva,  Prefeitura de uma cidade... Ah, não pense que as ligações cessaram. Contra elas, adotei uma atitude drástica: não atendo quando o número é desconhecido. Ou seja, para algumas pessoas, eu também não sou o Paulo! [Crônica referente a 26 de abril de 2019, a qual não foi inserida nessa data porque eu esperei, inutilmente, o Sergio Geia, que é o Editor do Crônica do Dia, me escrever para saber o motivo de eu não ter publicado…

DE ONDE VIRÁ A RESPOSTA >> Whisner Fraga

O medo atocaia meus passos que namoram a fuga.
O medo me cerca e os holofotes da cidade balbuciam uma claridade que confunde.
O medo é uma sombra corpulenta a abraçar tudo em volta.
Os amigos procuram no catálogo a garrucha mais eficaz e enfeitiçam a ilusão.
Os amigos, de um minuto para outro, não aceitam mais que o medo assuste, mas a pontaria falha e eles trancam a casa.
Os dedos sapateiam barbaramente sobre a tela de um celular, compartilhando o medo.
Os amigos me acusam de não pactuar com a traição.
O medo entra e se senta, liga a tevê, se ajeita no sofá e me pede uma cerveja.
Os amigos já não reconhecem mais a mentira, mas sabem o preço das coisas. Às vezes desconfiam que o preço das coisas pode ser mentira.
Tenho medo que me enganem e me convençam que é melhor a desordem.
Tenho medo que me arranquem o medo e que o substituam por uma arma.
Tenho medo desse novo diálogo.
Tenho medo que alguns amigos se convençam que a fome é normal e que isso se chama justiça. E que a bala medie …

DINÂMICA DO AMOR INEXISTENTE >> Carla Dias >>

Bebe dele as desculpas esfarrapadas. Aceita dela as frequentes desfeitas. 
Encontram-se na sala de estar para discutir pendências. Nunca foram bons com as verdades, tampouco com aquelas que se embrenham em sentimentos. Acontece de verbalizarem ofensas descabidas. 
Há o quando se toleram e o quando assumem seus papeis de antagonistas. 
Apreciam-se no silêncio, porque nele é admissível abrandar o outro. Amam-se à distância, que dessa forma é possível ignorar o que os irrita um no outro. 
Permanecem juntos, cada um no seu abismo. 
Soletram prioridades vazias. Decoraram frases com as quais se movimentam pela rotina. Há dias em que se encontram nas decisões compartilhadas. Outros, nas urgências tecidas pela vida. 
Não que falte afeto. Não que falte respeito. 
É que entre eles sempre esteve o vazio. 
Apreciam profundamente a ausência um do outro. Seguem sendo quem não são em benefício de ninguém. Gastam vida na conexão que nunca tiveram. 

Quase sempre, sentem saudade de quem nunca foram ju…

MULHER COMUM >> Clara Braga

Sempre admirei muito minha mãe, minhas avós e todas as mulheres da família. Para mim, todas se encaixam no estereótipo que é massivamente exaltado em datas como dia das mães: trabalhadoras e batalhadoras que conseguiram administrar todas as obrigações enquanto ainda cuidavam de seus filhos.
Sempre que diziam que as mães é que são verdadeiras mulheres maravilhas eu concordava sem pensar duas vezes. E digo mais, tomei esse estereótipo como um objetivo a ser alcançado quando me tornasse mãe.
Eis que meu filho nasceu e eu percebi algo que deveria ser óbvio, mas como não é tão romântico quanto ser a mulher maravilha as pessoas fingem que não veem: por trás da imagem de super heroína existe uma pessoa comum, que provavelmente está muito cansada, que fica frustrada por não dar conta de todas as atividades que precisa cumprir, que abriria mão de todos os títulos para ter mais tempo com a família e, porque não, mais tempo para si, só para si!
Com a proximidade do dia das mães, de novo começa…

PAI, PERDOA-LHES - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)
Quando ouviu pela primeira vez a promessa de liberação de armas, não teve dúvidas, decidiu ali o seu voto. E fez campanha, distribuiu santinhos, ensaiou mesmo alguns discursos em nome do direito à legítima defesa para os que viviam ameaçados, “já que os bandidos tinham armas e o cidadão de bem, não!” E veio a vitória e a posse. A vida ia mudar, teve certeza.
Mas estava demorando a mudar. Ainda em Janeiro, Amâncio perdeu o emprego. Lá também começaram a chamá-lo de Amanco e ele explodiu. “Por sorte”, pensou, “já tinha juntado o dinheiro para realizar o sonho”.Não um revólver qualquer, raspado, comprado da mão de criminosos – criminosos que mataram seu pai! Queria uma arma honesta, com registro, autorização, que não precisasse esconder e de que pudesse se orgulhar como faziam os antigos com o relógio de estimação.
Nem por um momento, Amâncio achou que teria problemas na aquisição. Puxava do bolso, orgulhoso, uma carteira profissional com várias anotações de trabalho e nen…

NÃO CULPE OS SIGNOS >> Mariana Scherma

Imagem: Vanity Fair
Geminianos são duas caras. Leoninos se acham. Piscianos são chorões. Aquarianos são esquisitos. Sagitarianos são bagunceiros. Arianos são briguentos. Taurinos são comilões. Virginianos são organizados. Capricornianos são mão de vaca. Librianos, indecisos. Os escorpianos só pensam em vingança. Cancerianos fazem drama para tudo. Ou não. Nem sempre tudo é culpa do signo.
Por muito tempo eu fui condicionada a pensar nas pessoas e nos signos antes de qualquer coisa. Quase um preconceito, sabe? Na minha primeira entrevista de emprego, me questionaram qual era meu signo. Fiquei pensando que eu poderia ter dito alguma coisa errada só por falar “Sagitário”. Acabei sendo admitida e, depois disso, os signos entraram na minha vida. Nossa, tinha que ser de Leão mesmo. É porque ela é de Libra. Deus me Livre aquarianos. Essas foram frases que saiam da minha boca e de pessoas ao meu redor. Mas a real é que eu nunca fiquei muito confortável com elas. Pra mim, dizer que alguém é rev…

OLHA O TREM! >> Cristiana Moura

Ele parece deslumbrar-se com tudo. São muitas as exclamações acompanhadas de olhos arregalados:
— O Trem, o trem! 
— Olha a casa! 
— O boi, mamãe o boi! 
Ele percebe que estou a olhá-lo e retribui o meu sorriso. O menino fascina-se por tudo, dentro e fora do trem. Eu, que outrora admirava paisagens, encanto-me pelo seu deslumbramento — o menino e o trem.