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Mostrando postagens de Outubro, 2020

A NOITE DE 31 DE OUTUBRO PARA AMBASSAY LOM >> Zoraya Cesar

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O cemitério estava animado. Ambassay Lom percorria as alamedas devagar, apreciando os diversos grupos espalhados por entre as tumbas e mausoléus. O ar estava denso de música, magia, encantamentos, rezas. Chão, túmulos e pedras estavam repletos de oferendas, cada uma mais linda que a outra. Havia alegria aqui, meditação ali, conversas animadas acolá.  31 de outubro era o dia perfeito para o contato com os mortos, quando o véu que separa os mundos esvanece e torna mais tênues os canais por onde trafegam os que se foram. Dia propício para mandar para o Além os que ainda estão aqui... Alguns preferem celebrar a Noite dos Mortos em bosques, até mesmo no quintal da casa ou no próprio apartamento. Mas o cemitério ainda era o lugar tradicional para a maioria.  A noite estava colorida e a decoração, variada. Jack o’ lanterns, arruda, sal grosso, velas, muitas velas, principalmente pretas, vermelhas, brancas. Pentagramas, caldeirões, livros invocatórios. Muitos declamavam o Livro de São Cipriano

O SEM-FIM DELAS >> Carla Dias >>

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Sentada à porta de casa, a irmã mais nova um degrau abaixo. Ela escova os cabelos rebeldes da menina, uma criança arredia, mas de generosidade de não caber no universo. A tarde já descambando para a noite, o céu avermelhado encanta os olhares delas, duas figuras miúdas existindo em um sem-fim. Sempre houve muito silêncio por ali. Somente os bichos, vez ou outra, por excesso de braveza ou desejo, faziam seus barulhos soarem alto. Mas elas estão acostumadas à solidão dos abandonados, daquela que engole sorrisos e planos e deles não deixa rastros. Vivem, desde sempre, a rotina das breves e necessárias conversas, como se não houvesse o que ser confidenciado uma a outra. Houvesse um observador atento a essa cena, ele saberia identificar o que não falta a elas. Pudesse observar cada escovada de cabelos, o laço ajeitado bonito, o assistir ao pôr do sol, uma na companhia da outra, ele compreenderia a tristeza da solidão. Afinal, foi ela que não fez direito o seu trabalho.  Imagem © Cassia Bene

MATANDO NO PEITO >> Clara Braga

Quando você nasce, passa os três primeiros meses de vida sofrendo com cólicas e transformando a noite dos seus pais em noites difíceis.  É a primeira crise que você enfrenta, embora você não lembre. Mas pode perguntar para seus pais, eles não esqueceram.  Depois, vem a crise dos dentes. Essa também é pra lá de complicada e deixa os pais doidos. Você também não lembra, mas seus pais devem lembrar.  Depois passa um período de uma certa calmaria, embora tenham saltos de desenvolvimento, viroses e febres pós vacinas.  Então, você faz dois anos e passa pelo temido “terrible two”, que alguns chamam de adolescência da criança. É quando ela percebe que é um indivíduo diferente dos pais e começa a testar seus limites levando os pais a conhecerem o limite da sanidade mental.  Essa é a crise mais longa desses primeiros anos de vida. Alguns dizem que dura até os três, outros até os quatro e outros até os seis. Eu, como mãe, prefiro acreditar nos que dizem que dura só até os três.  Embora seja long

TRÊS >> Fred Fogaça

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  Tenho essa história sobre mim... bom, ou que restava de mim depois dela. Às tantas da noite, tantas que eu já nem me lembrava mais. As garrafas de cerveja congestionavam os copos, e os garçons, se movendo devagar pela penumbra esfumaçada do bar, imitavam fantasmas. Talvez fossem três, porque a banda tocava Anisio Silva. Ninguém cantava, ninguém saia da mesa. Escorrido pelo assento, apoiada a cabeça no encosto, olhava o pendente. Iluminava pouco. Quando em quando dava um trago no cigarro e o batia no cinzeiro. Sem olhar, as vezes, na mesa mesmo. O frio da última nota estranhou o ambiente - do que se envolve nos limites do compasso minha confiança é finda, a fragilidade do tempo da nota era ao que se podia agarrar e nada mais. Nenhuma música era tocada depois dessa. Ante hora de fechar e não tinha pr'onde ir. Mal fosse das bebidas ou o que - e eu já tinha aceitado há muito o que aconteceu - mas naquele dia, hora e passo frente a saída, eu repensei sobre ela. Não era u

LOGAN >> Sergio Geia

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  Há crônica que mesmo antes de nascer já tem nome. A de hoje, por exemplo. Eu tenho uma tela em branco. No alto dessa tela, alinhado à esquerda, eu digito o título: Logan . Logan é o título da crônica de hoje. Não poderia ser outro. Mas título de crônica, convenhamos, não basta. Falta o principal. Vamos então dar vida a esse Logan que por enquanto debuta sozinho numa tela em branco.    Logan é o personagem daquele filme. Mas não é desse Logan que a crônica trata. Ela trata, na verdade, do cachorro do meu vizinho aqui de baixo. É sobre ele que eu quero falar. O Logan.    Espiar faz parte da vida de qualquer cronista. Pode ser na rua, na janela, na padaria, na praça, ou mesmo na sacada de um prédio. Moro no quarto andar. Vez em quando espio o que acontece lá embaixo. É claro que evito ficar espiando os vizinhos, cronista também tem escrúpulo. Mas o Logan eu espio, eu gosto dele. Desde o primeiro dia.    Antes de sair para caminhar eu faço alongamento na sacada. O dia ainda nem tinha c

GOLPES >> Paulo Meireles Barguil

Eles podem ser leais ou não.  A diferença reside no respeito às regras, sejam elas explícitas ou não.  Há quem diga que a serpente tentou aplicar um no Paraíso, quando prometeu a Eva algo que essa não tinha acesso. Essa primeira tentativa não foi bem sucedida, pelo menos para ela e Adão, que foram expulsos da morada perfeita. Nos esportes de luta corporal, existem os de defesa e de ataque, sendo responsabilidade do juiz decidir a validade ou não dos mesmos, bem como aplicar a penalidade em caso de transgressão de algum dos oponentes. Nos mundos acadêmico e jurídico, eles costumam ser cuidadosamente planejados, com a progressiva implementação das etapas, até o alcance do objetivo final. Na política, tal qual os dois anteriores, existe um projeto vinculado a uma meta: assumir uma posição, que não é acessível respeitando a Ética. A força pode ser utilizada, embora essa escancare a ação, motivo pelo qual costuma ser evitada para manter a dissimulação.  No sexo, eles são múltiplos: o da Cin

VERDADES INDELICADAS >> Carla Dias >>

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Quero dizer. Com a honestidade escancarada, eu digo, escute: Passo um tempo a cultivar coragem, dedicação que descarto, diante do primeiro erro do dia, a ser cometido em sua homenagem.  Meu afeto é verdadeiro, mas também é de se disfarçar de indiferença, acostumado que se tornou que dele as atenções declinem, apesar de... Ah, esse muro chamado “apesar de...”, que evita desapontamentos ao arremessar ao seu alvo um punhado de cruéis mágoas, como se elas fossem menos prejudiciais do que a verdade. Acontece de quase sempre não querermos o melhor que dá trabalho, que sempre traz questionamentos. Escolhemos os prazeres imediatos, as delícias breves, porém deliciosamente delícias. Preferimos pagar o preço do vazio que nos deixam, ao partir de nós, feito reembolso da tristeza interrompida.   Penso: que dia será o amanhã que espero?  O quando que desejo que me aconteça?  Chegará o dia em que a chuva baterá no meu corpo, de jeito de lavar embora a tristeza? Declamo, para que conste nos autos do

MIA, CÃO, MIA! >> Albir José Inácio da Silva

  Meu nome é Nero e eu era cachorro. Resolvi ser só Nero depois que descobri que cachorro é xingamento. A dona daqui, por exemplo, — eu ia dizer minha dona, mas não a considero mais assim — nas crises, chama marido e filho de cachorros. O marido retruca “cadela”, mas o filho engole em seco, que cachorro é tão ruim que não se pode chamar mãe de cachorra. Ela agora chama o gato de filhinho. Ele dorme num moisés cheio de fitas e almofadas no canto da varanda onde eu antes ficava. Tive de me contentar com o outro lado, onde venta, chove e bate sol. É por isso que eu odeio gatos. Sou um cachorro raivoso mesmo sem hidrofobia. Apesar de sua cama especial, o bichano tem mania de se aquecer ao sol sobre o meu tapete. Não de maneira vigilante, assustada, pronto pra fugir. Não. Fica relaxado, confiante, sem medo. Não é um felino, é uma afronta. Quando desisti de ser cachorro, fiquei ainda sendo cão por algum tempo. Achava sonoro e a dona não chamava ninguém de cão. Até que, numa conversa de g

À ALMA >> Sandra Modesto

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Minha alma tem jeito e corpo de mulher    Costuma arranhar as paredes rabiscando alguns desenhos sem fim    Tem costas largas pra suportar a dor surrada vida afora    Minha alma tem cheiro e olhar de mulher    Anda seguindo meus sonhos    Atreve-se a cuidar dos meus pesadelos    Grita, sussurra, canta, geme.    Treme quando vem o amanhecer    Gosta de me acalmar, mas às vezes me esquece.   Minha alma tem pele e pelo que se arrepiam ao meio-dia   Que me faz acordar em meio a tantos goles de cafés amargos    De cigarros tragados à meia-noite    Bagunça minha cama até vazia    Estoura-me com lembranças essa minha alma    Balança numa gana intempestiva    Convida-me a atravessar os meus porquês    Dizendo que o passado é o presente    Embrulha-me feito agulha    Destrói meu caminhar no desafio    Canta na sala...    E toca violão, inventa um piano e bate o pandeiro.    Deixando no meu travesseiro um ser qualquer.    Descobre que o assédio, o estupro, o mundo estúpido    Precisam urgente

O SORRISO DE ANASTÁCIA >> Cristiana Moura

Lua cheia parece mesmo influenciar o humor das pessoas. Vozes em tons sem musicalidade, testas franzidas, dentes rangendo. Pessoas são assim, vai entender. E ela era apenas serenidade, movimento, voz e violão em sorrisos largos.    Anastácia observa os desencontros, a moça de outra mesa reclamando do garçom, alguns mirando seus smartphones e confraternizando com quem não está lá. É dia de festa em noite de lua cheia à beira mar. Ela lamentou os desaprendizes da alegria, respirou, continuou a beber, tocar, cantar. E, sem saber, seu sorriso sem pejo em desvelar todos os dentes, tanto quanto a lua, prateava a noite e as vidas de quem cantarolava ao redor.    Quem vê pensa que não, mas ela também se cansa. Claro. Enfarda-se do trabalho, das sobrecargas de desencontros desmerecidos. Por vezes entrega-se à poltrona, às lágrimas e à quase falta de ar. Pensa: há dias em que uma mulher precisa de « um calmante, um excitante e um bocado de gim ».* E, desmedida como por vezes sabe ser, ela entr

O SR. AMADAN NÃO VAI A BAILES. OU VAI? >> Zoraya Cesar

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Uma pitada de fezes secas e moídas de salamandra. Pelos de rato do deserto. Baba de boi almiscarado. E, claro, vapores de pum de bode.   Perfeito. Tudo na medida certa, feito durante a Lua certa, preparado com esmero. Era, afinal, o Sr. Amadan, o melhor feiticeiro de poções da região. O único capaz de elaborar uma receita quase impossível: uma beberagem que favorecesse à Dona Kakerlakk ficar atraente o suficiente para o Baile Anual das Lagartixas Assanhadas. O baile era famoso. As fêmeas da espécie entravam num tipo de frenesi. Quem não tinha parceiro ia na expectativa de arranjar um. Quem tinha, ia na expectativa de trocar por outro. O Baile Anual das Lagartixas Assanhadas era quase um escambo de parceiros. Divertidíssimo. Às vezes rolava baixaria total. Em uma das edições, roubaram uma das oito patas da Sra. Phoneutria Armadeira, bêbada de tropeçar,  e deixaram um graveto no lugar. De outra vez, aproveitaram para sequestrar o noivo da Miss Folhg’da, que dormitava esparramada no meio

A MULHER DA ÁRVORE - Parte 2 >>> Nádia Coldebella

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FLORES DE LARANJEIRA Domênico vinha sonhando com Vilma há sete dias, mas não levou a sério, até sua esposa Odete sonhar também. Então descobriu que há sete dias Vilma desaparecera... - Hein? - Uma tal de Vilma sumiu há sete dias - repetiu Antônio, bem vagarosamente. G eralmente o cabo era dessas criaturas que pareciam viver em um estado meditativo, quase num mundo paralelo . Dificilmente se sobressaltava, mais difícil  ainda era vê -lo elevar o tom de voz. Mas a história de Domênico parecia ter atingido as raias do sobrenatural e ele não gostava de fantasmas. Antônio voltou os olhos ainda esbugalhados para o chefe e conteve a respiração quando o viu branco, pálido, misturado a parede. Parecia que ia ter um piripaque. -  Como assim, a Vilma sumiu? - Agora o corpo de Domênico  estava rígido e o coração queria sair pela boca - Será a mesma Vilma? -  A  imagem da mulher apontando para a árvore estava fixada em sua retina desde o sonho da  madrugada e agora adquiria  uma força excepcional.

OS AMANTES >> Carla Dias >>

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  Os amantes são de dialogar com a intimidade dos desejos, alcançando o sentimento com frenesi e descomedimento. É que desejo entrelaçado ao amor não manda recado, quando o espírito terminou o ensaio e aguarda a performance do corpo: direto ao palco, por gentileza. Revolucionar o sentimento ao esmiuçá-lo. Saber dele os cantos e as incertezas, embrenhar-se na sua opulência, em busca da sua finalidade. Que sentimento é bruta flor, necessita do fino trato do reconhecimento para manter água na boca de um pelo outro. A sua alma entreaberta Observável em espiadelas Valsando nua bem no centro Dessa sala sem janelas Democratizar os espaços: movimentos corteses aliciados por abraços ambiciosos, opositores da energia domesticada, com o fim de manter a volúpia comedida. Não adianta ordenar comportamento comedido ao que é visceral, se espalha pela gente.  Nunca se submete, a ponto de ficar lá, no canto, incapaz de induzir o comportado a cometer o deslumbre e acabar na fila dos enlouquecidos por pa

DIFERENTES DEFINIÇÕES DE NOSTALGIA >> Clara Braga

Esses dias eu estava refletindo sobre a nostalgia. Por um tempo, eu entendi nostalgia simplesmente como uma saudade. Só recentemente me deparei com um significado um pouco mais profundo: a nostalgia seria uma vontade de que o passado volte, pois ele é melhor que o presente. Pode ser que eu tenha entendido errado, mas o que percebo é que não há problema algum em viver momentos de nostalgia, mas viver apenas a nostalgia seria abrir mão do que a vida está te oferecendo agora. Curiosamente, depois de ter refletido sobre tudo isso que compartilho aqui, me deparei com a notícia de que o filme Mudança de Hábito (maravilhoso, por sinal) vai ganhar uma continuação com a própria Whoopi Goldberg, também maravilhosa, à frente do projeto. Quando li a matéria no jornal, fui levada por um daqueles malditos links para o trailer da refilmagem de Convenção das bruxas, outro clássico maravilhoso, que será lançada em breve. Ainda nas minhas andanças pela internet, descobri que os pacotes de cheetos voltar

SÉ. (A MORTE) >> Fred Fogaça

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  Hoje trago mais uma dessas coisas que escrevi a um tempo e tava aqui guardado. Gosto dessa Crônica e até fiz um vídeo dela (vou deixar no final). Espero que gostem.   Morri num domingo. Domingo de manhã quando me encontraram, e é aí que estava morto. Se eu morro, ninguém vê: então estou morto e vivo, segundo Schrödinger. Ninguém vê e eu estou no leste europeu, na Ásia, na Patagônia. Voltei à Rússia soviética. A identidade é um souvenir, lembrança do turismo na sociedade. Estive na sociedade e lembrei de você. Tira uma foto na sociedade, posta na Facebook e me marca. Morto ou vivo. O papel velho da minha identidade é o que sobrou da minha identidade. Souvenir do turismo, de quando estive em mim. Se você nasce e ninguém vê você não existe, se você se sustenta na condição de ser humano não é o bastante pra existir. Pra existir tem que ser homem. Homem! Estar no mundo, ser o mundo, ser um indivíduo sujeito. Ser visto, registrado, catalogado, seguir os mecanismos. Ser engrenagem. Se você

PEQUENA CONFUSÃO >> Sergio Geia

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  Foi um lampejo de reconhecimento, uma nesga azul num céu de tempestade. Logo as nuvens escuras cobriram tudo, deixando o céu monocromático, o primeiro pingo pintou a calçada, o aguaceiro caiu.    Vou lhe contar a história, mas antes preciso que saiba uma coisa: há situações que se me apresentam, que não sei como resolvê-las. Para qualquer um é tolice, nada que uma boa correção não resolva. Para mim, não. Ocorre que deixo passar o momento e aí acontece como uma bola de neve, ela cresce, como também se agiganta minha incapacidade de resolver. Mas vamos à história, você vai entender.    Certo dia, caminhava. Um conhecido veio até mim com um cartão na mão. Um esclarecimento: somos apenas conhecidos de caminhadas. Alguns esbarrões, o trivial bom-dia, nada mais.    Entregou-me o cartão e disse que contava comigo. Era um convite que dizia assim:    Prezado Paulo. Churrasco na casa do Luisão. Dia 12, às 12h. Levar bebida.    Estávamos no fim do ano, era uma confraternização.    Entendi que

DIFERENTES >> Paulo Meireles Barguil

Umas apreciam o amarelo, outras o azul e mais umas o vermelho. As demais preferem alguma diferente do espectro.  Uns gostam do bicolor, outros do tricolor e mais uns do quadricolor. Os demais selecionam de acordo com o resultado. Vários são os tipos de amarelo, azul e vermelho. Diversas são as possibilidades do bicolor, do tricolor e do quadricolor. Cada indivíduo escolhe a cor e o tom que lhe contentam. Qualquer combinação é percebida de modo único por cada pessoa.  Seja pela ação de cones e bastonetes. Seja pela influência de ambientes e emoções. É por isso, também, que somos diferentes.

O QUE SE HERDA >> Carla Dias >>

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Relógio.  Não que seja contra a tecnologia. É que relógio de pulso tem história e ele não sabe como desfazer a conexão, tampouco se deseja fazê-lo. Não são apenas as horas que ele confere no seu aparelho de medição de passagem do tempo, objeto mestre em exercer poder sobre o ser humano, nascido em 1907.  O objeto, não o ser humano, que, neste caso, nasceu em 1938. Há uma série de acontecimentos pontuados por esse pequeno maquinário, que, às vezes, parece mais com um álbum de fotografias. Herdou o tal do pai, um homem dedicado a manter a ordem, não apenas das agendas. Tudo nele funcionava pela engrenagem da organização e da lógica. Tudo nele era silêncio e agudez no pensamento.  Quando criança, costumava observá-lo, tentando adivinhar os pensamentos dele. Sabia que havia mais na cabeça do pai do que um chapéu, graciosamente ajeitado pela sua esposa, antes de o marido sair para o trabalho. Com o tempo, aprendeu alguns rituais com o pai, mas sem que ele efetivamente o ensinasse. Eram gest

EU OLHO DE LONGE >> Clara Braga

Ela é uma menina... Desculpem-me. Ela é uma mulher maravilhosa, mas que guarda dentro de si os ensinamentos que lhe foram passados quando menina... Na verdade, peço licença à você leitor para recomeçar. Ela é uma grande mulher que vive de acordo com tudo aquilo que faz sentido para ela dentro do que lhe é ensinado ao longo da vida, mas também com os aprendizados que a vida lhe impõe. Ainda é difícil para mim, admiradora e espectadora, definir quem é essa mulher. E nem acho que seja minha função fazer isso. Mas é importante compartilhar com vocês que sei bem que desde menina, foi ensinado à essa mulher que ela é forte e pode dar conta de qualquer coisa. Não são poucas as pessoas que ouviram de alguém que elas são fortes e podem dar conta de qualquer coisa. Principalmente meninas, que terão mais gente ao longo da vida tentando convencê-las do contrário. E garanto que a maioria levou essa frase para a vida de adulta. Mas penso que ela, a mulher a quem me refiro, levou isso tudo muito ao p