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Mostrando postagens de Outubro, 2020

MIA, CÃO, MIA! >> Albir José Inácio da Silva

Meu nome é Nero e eu era cachorro. Resolvi ser só Nero depois que descobri que cachorro é xingamento. A dona daqui, por exemplo, — eu ia dizer minha dona, mas não a considero mais assim — nas crises, chama marido e filho de cachorros. O marido retruca “cadela”, mas o filho engole em seco, que cachorro é tão ruim que não se pode chamar mãe de cachorra.
Ela agora chama o gato de filhinho. Ele dorme num moisés cheio de fitas e almofadas no canto da varanda onde eu antes ficava. Tive de me contentar com o outro lado, onde venta, chove e bate sol. É por isso que eu odeio gatos. Sou um cachorro raivoso mesmo sem hidrofobia. Apesar de sua cama especial, o bichano tem mania de se aquecer ao sol sobre o meu tapete. Não de maneira vigilante, assustada, pronto pra fugir. Não. Fica relaxado, confiante, sem medo. Não é um felino, é uma afronta.

Quando desisti de ser cachorro, fiquei ainda sendo cão por algum tempo. Achava sonoro e a dona não chamava ninguém de cão. Até que, numa conversa de gente, s…

À ALMA >> Sandra Modesto

Minha alma tem jeito e corpo de mulher  Costuma arranhar as paredes rabiscando alguns desenhos sem fim  Tem costas largas pra suportar a dor surrada vida afora  Minha alma tem cheiro e olhar de mulher  Anda seguindo meus sonhos  Atreve-se a cuidar dos meus pesadelos  Grita, sussurra, canta, geme.  Treme quando vem o amanhecer  Gosta de me acalmar, mas às vezes me esquece. Minha alma tem pele e pelo que se arrepiam ao meio-dia Que me faz acordar em meio a tantos goles de cafés amargos  De cigarros tragados à meia-noite  Bagunça minha cama até vazia  Estoura-me com lembranças essa minha alma  Balança numa gana intempestiva  Convida-me a atravessar os meus porquês  Dizendo que o passado é o presente  Embrulha-me feito agulha  Destrói meu caminhar no desafio  Canta na sala...  E toca violão, inventa um piano e bate o pandeiro.  Deixando no meu travesseiro um ser qualquer.  Descobre que o assédio, o estupro, o mundo estúpido  Precisam urgente de denúncias  Ah, minha alma não é só minha.  Tem força. E é nossa!����…

O SORRISO DE ANASTÁCIA >> Cristiana Moura

Lua cheia parece mesmo influenciar o humor das pessoas. Vozes em tons sem musicalidade, testas franzidas, dentes rangendo. Pessoas são assim, vai entender. E ela era apenas serenidade, movimento, voz e violão em sorrisos largos.  Anastácia observa os desencontros, a moça de outra mesa reclamando do garçom, alguns mirando seus smartphones e confraternizando com quem não está lá. É dia de festa em noite de lua cheia à beira mar. Ela lamentou os desaprendizes da alegria, respirou, continuou a beber, tocar, cantar. E, sem saber, seu sorriso sem pejo em desvelar todos os dentes, tanto quanto a lua, prateava a noite e as vidas de quem cantarolava ao redor.  Quem vê pensa que não, mas ela também se cansa. Claro. Enfarda-se do trabalho, das sobrecargas de desencontros desmerecidos. Por vezes entrega-se à poltrona, às lágrimas e à quase falta de ar. Pensa: há dias em que uma mulher precisa de « um calmante, um excitante e um bocado de gim ».* E, desmedida como por vezes sabe ser, ela entrega-s…

O SR. AMADAN NÃO VAI A BAILES. OU VAI? >> Zoraya Cesar

Uma pitada de fezes secas e moídas de salamandra. Pelos de rato do deserto. Baba de boi almiscarado. E, claro, vapores de pum de bode. Perfeito. Tudo na medida certa, feito durante a Lua certa, preparado com esmero. Era, afinal, o Sr. Amadan, o melhor feiticeiro de poções da região. O único capaz de elaborar uma receita quase impossível: uma beberagem que favorecesse à Dona Kakerlakk ficar atraente o suficiente para o Baile Anual das Lagartixas Assanhadas.
O baile era famoso. As fêmeas da espécie entravam num tipo de frenesi. Quem não tinha parceiro ia na expectativa de arranjar um. Quem tinha, ia na expectativa de trocar por outro. O Baile Anual das Lagartixas Assanhadas era quase um escambo de parceiros. Divertidíssimo. Às vezes rolava baixaria total. Em uma das edições, roubaram uma das oito patas da Sra. Phoneutria Armadeira, bêbada de tropeçar,  e deixaram um graveto no lugar. De outra vez, aproveitaram para sequestrar o noivo da Miss Folhg’da, que dormitava esparramada no meio do …

A MULHER DA ÁRVORE - Parte 2 >>> Nádia Coldebella

Domênico vinha sonhando com Vilma há sete dias, mas não levou a sério, até sua esposa Odete sonhar também. Então descobriu que há sete dias Vilma desaparecera...- Hein?- Uma tal de Vilma sumiu há sete dias - repetiu Antônio, bem vagarosamente. Geralmente o cabo era dessas criaturas que pareciam viver em um estado meditativo, quase num mundo paralelo. Dificilmente se sobressaltava, mais difícil ainda era vê-lo elevar o tom de voz. Mas a história de Domênico parecia ter atingido as raias do sobrenatural e ele não gostava de fantasmas. Antônio voltou os olhos ainda esbugalhados para o chefe e conteve a respiração quando o viu branco, pálido, misturado a parede. Parecia que ia ter um piripaque.- Como assim, a Vilma sumiu? - Agora o corpo de Domênico estava rígido e o coração queria sair pela boca - Será a mesma Vilma? - A imagem da mulher apontando para a árvore estava fixada em sua retina desde o sonho da  madrugada e agora adquiria uma força excepcional. O homem apoiou as mãos sobre a m…

OS AMANTES >> Carla Dias >>

Os amantes são de dialogar com a intimidade dos desejos, alcançando o sentimento com frenesi e descomedimento. É que desejo entrelaçado ao amor não manda recado, quando o espírito terminou o ensaio e aguarda a performance do corpo:
direto ao palco, por gentileza.
Revolucionar o sentimento ao esmiuçá-lo. Saber dele os cantos e as incertezas, embrenhar-se na sua opulência, em busca da sua finalidade. Que sentimento é bruta flor, necessita do fino trato do reconhecimento para manter água na boca de um pelo outro.
A sua alma entreaberta Observável em espiadelas Valsando nua bem no centro Dessa sala sem janelas
Democratizar os espaços: movimentos corteses aliciados por abraços ambiciosos, opositores da energia domesticada, com o fim de manter a volúpia comedida. Não adianta ordenar comportamento comedido ao que é visceral, se espalha pela gente.  Nunca se submete, a ponto de ficar lá, no canto, incapaz de induzir o comportado a cometer o deslumbre e acabar na fila dos enlouquecidos por paixões di…

DIFERENTES DEFINIÇÕES DE NOSTALGIA >> Clara Braga

Esses dias eu estava refletindo sobre a nostalgia. Por um tempo, eu entendi nostalgia simplesmente como uma saudade. Só recentemente me deparei com um significado um pouco mais profundo: a nostalgia seria uma vontade de que o passado volte, pois ele é melhor que o presente.Pode ser que eu tenha entendido errado, mas o que percebo é que não há problema algum em viver momentos de nostalgia, mas viver apenas a nostalgia seria abrir mão do que a vida está te oferecendo agora.Curiosamente, depois de ter refletido sobre tudo isso que compartilho aqui, me deparei com a notícia de que o filme Mudança de Hábito (maravilhoso, por sinal) vai ganhar uma continuação com a própria Whoopi Goldberg, também maravilhosa, à frente do projeto. Quando li a matéria no jornal, fui levada por um daqueles malditos links para o trailer da refilmagem de Convenção das bruxas, outro clássico maravilhoso, que será lançada em breve.Ainda nas minhas andanças pela internet, descobri que os pacotes de cheetos voltaram…

SÉ. (A MORTE) >> Fred Fogaça

Hoje trago mais uma dessas coisas que escrevi a um tempo e tava aqui guardado. Gosto dessa Crônica e até fiz um vídeo dela (vou deixar no final). Espero que gostem.
Morri num domingo. Domingo de manhã quando me encontraram, e é aí que estava morto. Se eu morro, ninguém vê: então estou morto e vivo, segundo Schrödinger. Ninguém vê e eu estou no leste europeu, na Ásia, na Patagônia. Voltei à Rússia soviética. A identidade é um souvenir, lembrança do turismo na sociedade. Estive na sociedade e lembrei de você. Tira uma foto na sociedade, posta na Facebook e me marca. Morto ou vivo. O papel velho da minha identidade é o que sobrou da minha identidade. Souvenir do turismo, de quando estive em mim.
Se você nasce e ninguém vê você não existe, se você se sustenta na condição de ser humano não é o bastante pra existir. Pra existir tem que ser homem. Homem! Estar no mundo, ser o mundo, ser um indivíduo sujeito. Ser visto, registrado, catalogado, seguir os mecanismos. Ser engrenagem. Se você nasce…

PEQUENA CONFUSÃO >> Sergio Geia

Foi um lampejo de reconhecimento, uma nesga azul num céu de tempestade. Logo as nuvens escuras cobriram tudo, deixando o céu monocromático, o primeiro pingo pintou a calçada, o aguaceiro caiu.  Vou lhe contar a história, mas antes preciso que saiba uma coisa: há situações que se me apresentam, que não sei como resolvê-las. Para qualquer um é tolice, nada que uma boa correção não resolva. Para mim, não. Ocorre que deixo passar o momento e aí acontece como uma bola de neve, ela cresce, como também se agiganta minha incapacidade de resolver. Mas vamos à história, você vai entender.  Certo dia, caminhava. Um conhecido veio até mim com um cartão na mão. Um esclarecimento: somos apenas conhecidos de caminhadas. Alguns esbarrões, o trivial bom-dia, nada mais.  Entregou-me o cartão e disse que contava comigo. Era um convite que dizia assim:  Prezado Paulo. Churrasco na casa do Luisão. Dia 12, às 12h. Levar bebida.  Estávamos no fim do ano, era uma confraternização.  Entendi que meu conhecido me c…

DIFERENTES >> Paulo Meireles Barguil

Umas apreciam o amarelo, outras o azul e mais umas o vermelho.
As demais preferem alguma diferente do espectro. 
Uns gostam do bicolor, outros do tricolor e mais uns do quadricolor.
Os demais selecionam de acordo com o resultado.
Vários são os tipos de amarelo, azul e vermelho.
Diversas são as possibilidades do bicolor, do tricolor e do quadricolor.
Cada indivíduo escolhe a cor e o tom que lhe contentam.
Qualquer combinação é percebida de modo único por cada pessoa. 
Seja pela ação de cones e bastonetes.
Seja pela influência de ambientes e emoções.
É por isso, também, que somos diferentes.

O QUE SE HERDA >> Carla Dias >>

Relógio. Não que seja contra a tecnologia. É que relógio de pulso tem história e ele não sabe como desfazer a conexão, tampouco se deseja fazê-lo. Não são apenas as horas que ele confere no seu aparelho de medição de passagem do tempo, objeto mestre em exercer poder sobre o ser humano, nascido em 1907. O objeto, não o ser humano, que, neste caso, nasceu em 1938.Há uma série de acontecimentos pontuados por esse pequeno maquinário, que, às vezes, parece mais com um álbum de fotografias. Herdou o tal do pai, um homem dedicado a manter a ordem, não apenas das agendas. Tudo nele funcionava pela engrenagem da organização e da lógica. Tudo nele era silêncio e agudez no pensamento. Quando criança, costumava observá-lo, tentando adivinhar os pensamentos dele. Sabia que havia mais na cabeça do pai do que um chapéu, graciosamente ajeitado pela sua esposa, antes de o marido sair para o trabalho.Com o tempo, aprendeu alguns rituais com o pai, mas sem que ele efetivamente o ensinasse. Eram gestos q…

EU OLHO DE LONGE >> Clara Braga

Ela é uma menina...Desculpem-me. Ela é uma mulher maravilhosa, mas que guarda dentro de si os ensinamentos que lhe foram passados quando menina...Na verdade, peço licença à você leitor para recomeçar.Ela é uma grande mulher que vive de acordo com tudo aquilo que faz sentido para ela dentro do que lhe é ensinado ao longo da vida, mas também com os aprendizados que a vida lhe impõe.Ainda é difícil para mim, admiradora e espectadora, definir quem é essa mulher. E nem acho que seja minha função fazer isso. Mas é importante compartilhar com vocês que sei bem que desde menina, foi ensinado à essa mulher que ela é forte e pode dar conta de qualquer coisa.Não são poucas as pessoas que ouviram de alguém que elas são fortes e podem dar conta de qualquer coisa. Principalmente meninas, que terão mais gente ao longo da vida tentando convencê-las do contrário. E garanto que a maioria levou essa frase para a vida de adulta. Mas penso que ela, a mulher a quem me refiro, levou isso tudo muito ao pé da…

A FAXINA - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 21/09/2020 – Jovino chegou ao Rio em busca de emprego e dignidade, mas a vida aqui não melhorou. Só conseguiu subemprego, não podia estudar e se não passou fome foi porque começou a namorar a Valdeia. A moça lhe arranjou dinheiro, trabalho e até um celular)E assim Jovino era o mais novo e feliz diarista. Pelo menos até se aproximar do piano.- Cuidado com o piano - tinha dito a namorada.Era um bicho de cauda com cinco metros, uma relíquia do início do século passado. O verniz brilhava tanto que com a luz das janelas e do lustre parecia soltar faíscas. Nele a filha da Condessa torturava os vizinhos em aulas que duravam a tarde toda, segundo informou a Valdeia.Ele estava fascinado, nunca tinha visto um piano de perto. “Como será o som?” – pensou. Olhou o corredor, a varanda e o escritório, ninguém, levantou a tampa e apertou uma tecla. O som tocou sua alma. Apertou outra tecla e mais uma. Como gostaria de ouvir a moça pálida tocar!Alguma coisa que estava na mão ficou na t…

A FOME MORA AO LADO >> Sandra Modesto

O domingo entrou pela manhã. Sara saiu pela porta em busca de algo.  Lia era uma menina, mas já sabia algumas vezes do ruído espaço.  Mãe e filha sempre se comunicavam... Pelo olhar, o silêncio e as conversas das coisas.  Na mesa surrada a toalha sobrava quase arrastando pelo chão. Sara e Lia construíam o cenário transmutado.  O pão já não estava por perto. O preço do pão, pela hora da morte. O salário estreito.  E o adeus ao pão no café da manhã. Restavam então as folhas de erva cidreira no quintal. O cheiro do chá era o poema sem rimas de Sara e Lia.  Nas vezes em que o medo dava sinal, o diálogo pedia passagem.  Ao meio dia o almoço seguia a passos lentos.  Comer e assuntar o desmanchar da fartura de outrora. Tudo virou susto...  O preço do arroz. O preço do feijão. Aquele prato feito tão perfeito, não cabia mais.  Macarrão?, pergunta a mãe.  Pode ser, responde a filha.  O paladar escorria sem gosto, estranho, sem molho de tomate.  Quando chega o fundo da noite, Lia olha para o céu. Sara abr…

COSTURANDO O TEMPO >> Cristiana Moura

— O que é isso? — Apontei para o papel.—Lalanja.— E isso?—Azul.— Combina, né?— Olia, vovó, que bonito lalanja e azul!Miguel Caetano não desenha formas ou linhas. Desenha cores. Lembrei-me da obra de Hélio Oiticica que nos convida a adentrar as cores, vive-las, sê-las. Fiquei com a sensação de que Miguel, naquele momento, habitava as cores e vice-versa. Num sorriso destes de avó que se encanta senti-me dançando e vivendo os Parangolés de Hélio. Penso mesmo que se por obra de Deus ou do destino, nascêssemos adultos, não haveria arte.Na brincadeira leve entre azul e laranja a intenção da avó de começar a ensinar-lhe sobre cores complementares. Sim, é cedo. Mas como saber? Gabriel, seu pai, disse em tom de prazer, memória e ironia alinhavados por um único fio:— Começou o condicionamento das complementares!Lembrei-me de uma passagem de nossos diálogos em sua infância. Gabriel tinha 10 anos. Havia de decidir entre ter aulas de flauta, canto coral ou teatro. Sem titubear sugeri a de teatro. …

O CORAL DO PEDRO >> Zoraya Cesar

A vida de Pedro não era das mais fáceis ou alegres. Sua timidez e fragilidade o tornavam alvo preferencial para temperamentos despóticos. E temperamentos despóticos não faltavam em sua vida.

Podíamos falar da infância, mas entremos direto na atualidade. A mulher de Pedro. Uma jararaca desleixada que lhe aplicara o falso golpe da barriga só para ter com quem casar e não ficar solteirona o resto da vida. (Secretamente, ninguém entendia como, em primeiro lugar, qualquer homem teria coragem de lhe dar um beijo, que dirá engravidá-la). Mas o fato é que casaram. Pronto. E quem casa quer casa. E a deles vivia imunda. Alberica – a falsa grávida agora esposa – além de não muito asseada, também não era chegada a uma cozinha: as refeições se restringiam a arroz e feijão. E olhe lá. Pedro não podia falar nada, nem sequer um ‘Mas, querida…” e lembrar que ele trabalhava o dia inteiro e ela não, que Alberica lhe gritava os maiores desaforos e impropérios. Ou se fazia de vítima daquele homem desalmado…