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À ALMA >> Sandra Modesto


Minha alma tem jeito e corpo de mulher 
 
Costuma arranhar as paredes rabiscando alguns desenhos sem fim 
 
Tem costas largas pra suportar a dor surrada vida afora 
 
Minha alma tem cheiro e olhar de mulher 
 
Anda seguindo meus sonhos 
 
Atreve-se a cuidar dos meus pesadelos 
 
Grita, sussurra, canta, geme. 
 
Treme quando vem o amanhecer 
 
Gosta de me acalmar, mas às vezes me esquece.
 
Minha alma tem pele e pelo que se arrepiam ao meio-dia
 
Que me faz acordar em meio a tantos goles de cafés amargos 
 
De cigarros tragados à meia-noite 
 
Bagunça minha cama até vazia 
 
Estoura-me com lembranças essa minha alma 
 
Balança numa gana intempestiva 
 
Convida-me a atravessar os meus porquês 
 
Dizendo que o passado é o presente 
 
Embrulha-me feito agulha 
 
Destrói meu caminhar no desafio 
 
Canta na sala... 
 
E toca violão, inventa um piano e bate o pandeiro. 
 
Deixando no meu travesseiro um ser qualquer. 
 
Descobre que o assédio, o estupro, o mundo estúpido 
 
Precisam urgente de denúncias 
 
Ah, minha alma não é só minha. 
 
Tem força.
 
E é nossa!

Comentários

LAERCIO HUMBERTO DA SILVA disse…
Mais um belo texto. Esse nós leva a refletir sobre a Alma. A nossa Alma. Será ela tal qual a água? Sem cor, sem gosto e sem cheiro. Será a Alma ser mesma definida pela filosofia Platônica? Dividida em três lados. O racional localizada no cérebro. O irascível regido pelo coração. O concupiscivel ligado as necessidades do corpo.
Ou será a Alma definida por este poema...A Alma nunca é "minha" e sim "nossa" e está sempre lutando contra os fantasmas que nos cercam?
Sandra Modesto disse…
Obrigada, Laércio. Abraços!
Albir disse…
Que beleza, Sandra, essa alma que é nossa, um "sentimento do mundo" do Drummond.