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Mostrando postagens de 2011

LUZES DE 2012 [Sandra Paes]

O amanhecer do novo ano anuncia sua chegada. Vejo no spectrum de cores seus prenúncios. Ah, que encanto!

Todo ano traz no seu amanhecer uma enorme sacola para receber todas as promessas e todos os desejos dos homens. E esse novo ano vem diferente. Vem com o poder de revelar tudo que guardamos em algum baú todo os anos anteriores. Todo o pó de pirlimpimpim vai fazer efeito agora.

Esquecemos tudo. Sim, tendemos a esquecer de nossos desejos, de nossos sonhos, de nossas quimeras. Mas esses não desapareceram, ficaram na caixinha de reciclagem guardadinhos para agora virem escorregando num arco íris, como num tobogã. De volta ao criador. Essa a máxima para 2012.

Nossas emoções, extremamente ampliadas como a lua cheia no horizonte, podem nos fazer mais sensíveis, mais intolerantes, mais ansiosos. Com tantos desejos acumulados em nossas veias, com nossos corações tão cheios de expectativas, como nao transbordar?

E assim, esse ano, tão prenunciado pelos magos de todos os tempos, vem apenas como ar…

A MALDIÇÃO DO TÊNIS BRANCO >> Fernanda Pinho

Como uma boa família belo-horizontina, não foram poucos os anos que vimos chegar na orla da Praia do Morro, em Guarapari, no Espírito Santo. O fim do ano de 1989, porém, foi escatologicamente mais marcante. Estávamos na areia, eu, pai, mãe, irmã, primos, primas, tios e tias, devidamente posicionados para assistirmos à queima de fogos que daria 1990 à luz. Eu, toda serelepe, vestida de branco e com um All Star de cano alto mais branco ainda, que eu havia ganhado naquele Natal, pulava de um lado para o outro como fazem os cangurus e as crianças de seis anos. Pulei, pulei, pulei...até que ploft! Dei o maior pisão em um cocô. Um cocô humano para piorar, e muito, minha situação. Minha mãe tentou contornar o estrago, esfregando meu pé no meio-fio, na areia. Nada resolveu. Eu já estava impregnada com aquele odor e não fui poupada pela sinceridade cruel das crianças. Meus primos não contiveram o riso nem o impulso de só se aproximarem de mim com os narizes devidamente tampados. Eu, claro, já…

NA JANELA... NO BALANÇO... >> Carla Dias >>

Estou envelhecendo.

Estamos, não? E compreendo, cada vez com mais clareza, quando alguém diz “a sabedoria do tempo”. Não é o tempo que se torna sábio, mas é o próprio que nos concede a oportunidade de nos tornarmos sábios, aprendendo a acompanhar a vida a passos mais largos, sem dar urgências como desculpa, apreciando paisagens e não apenas o buquê do vinho ou o do café. Porque às vezes é preciso nos debruçarmos na janela do tempo e percebê-lo passando ao som do silêncio, prestando atenção no que, no afã da correria cotidiana, permitimos passar despercebido.

Há quem creia que estamos morrendo a cada dia, mas prefiro pensar que estamos nos construindo a cada dia, colocando mais um tijolo, instalando abajures, pintando paredes, criando jardins secretos, alimentando sonhos. E aprendendo a realidade do respeito, que não é apenas dedicado aos que conhecemos, mas também aos que julgamos estranhos, mas que, na verdade, são parte de quem somos.

Escutei de uma criança uma teoria sombria sobre com…

A TEORIA DA TRIVIALIDADE >> Clara Braga

Vocês já perceberam que quando começamos a prestar atenção em algo novo parece que esse algo não é tão novo assim?

Bom, acho que não consegui me expressar direito, vou tentar explicar melhor.

Por exemplo, meu pai comprou recentemente um carro novo, um Honda Fit. A idéia de comprar especificamente esse carro foi porque era um carro diferente, que poucas pessoas tinham. Mas o que acabou acontecendo foi que depois que ele comprou o carro, parece que o carro que mais tem na rua é o tal do Honda Fit.

Outro exemplo é esse grupo com o qual eu comecei a trabalhar faz pouco tempo, onde todos os alunos são deficientes. Eu nunca tinha tido contato tão próximo como estou tendo agora com pessoas que tivessem qualquer tipo de deficiência, já hoje em dia eu acho impressionante a quantidade de cadeirantes que eu vejo pela rua.

Esse fenômeno da novidade que não é tão novidade assim, para mim, aconteceu também com a crônica. Depois que comecei a escrever aqui semanalmente, tive a impressão de que crônica v…

O JOGO >> Whisner Fraga

Essa época do ano é muito chata. É só o Natal se aproximar para que tudo fique lotado: as ruas, os cabeleireiros, as rodovias, os consultórios médicos, os correios, as papelarias e todos os demais poucos lugares que frequento. Sem falar da quantidade de gente bêbada que infesta o trânsito congestionado. Natal é tempo de enchentes, de desabamentos e de preparação para enfrentarmos a dengue. Não fosse a cidade iluminada, não sei se suportaria a data.

Quando era criança, parece que era diferente. Aguardava ansioso a chegada do vinte e cinco de dezembro, menos pela longa e enfadonha missa do galo, que nossos pais nos obrigavam a assistir, do que pelos inúmeros presentes que ganhava de todos os minguados parentes que apareciam em nossa casa. Contabilizando: uns dois brinquedos garantidos, o que era muito para um menino de classe média-baixa, acostumado aos apertos de cinto, tão conhecidos dos brasileiros.

Mas o assunto de hoje é um fato que ocorreu dois ou três dias antes de um Natal de 1984…

O VERDADEIRO PAPAI NOEL
>> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor conseguiria lembrar o que sentiu ao descobrir que o Papai Noel não existia de verdade? Qual a sua sensação ao saber que eram seus pais que compravam e colocavam os presentes debaixo da cama (ou da rede, como às vezes era o meu caso, em noites de Natal sempre tensas, com medo de, dormindo, mijar em cima de meu presente)?

Mas voltemos ao leitor: como se sentiu? Ficou desapontado? Sentiu-se traído? Teve a sensação de que só podia ser assim mesmo, já que o Papai Noel não tinha como ir em todas as casas em uma única noite? Sentiu-se superior aos coleguinhas que ainda acreditavam naquela embromação?

Mas e se o leitor tiver apenas saído de um engano para outro? E se a inexistência do Papai Noel ainda não for toda a verdade?

Eu não lembro do dia, nem do ano, em que deixei de acreditar em Papai Noel. Para mim, talvez tenha sido um acontecimento banal. Mas será difícil esquecer o dia em que voltei a acreditar em Papai Noel...

Terça-feira passada, eu estava em pé na Praça do Ferreira, e…

CELEBRAÇÃO [Debora Bottcher]

“Não há atalho real na Filosofia.” (Aristóteles)

Fui educada em Colégio de freiras, naquele tempo em que as aulas de religião eram dentro da capela/igreja da escola. Mas perto dos meus dez anos, minha mãe informou à Madre Superiora que eu não faria Primeira Comunhão, pois ela frequentava uma igreja pentecostal - na época, a Igreja do Nazareno. Lá pelos meus treze anos, nova mudança: passamos a ir a uma Igreja Evangélica - e nessa, eu passei a ir à Escola Dominical e aos cultos semanais com regularidade, além de fazer parte do Coral e do Grupo de Jovens.

Aqui cabe um adendo para explicar o porquê da mudança: meu pai era ateu e, numa manhã de sábado, um pastor da Nazareno foi até minha casa tentar fazê-lo mudar de ideia. Ele estava lavando os carros e explicou gentilmente ao rapaz que agradecia o esforço e a visita, mas que não tinha interesse em ouvir o sermão. Como o moço insistiu, tomou um banho de água fria (literalmente) - e …

Vésperas >> Maria Rachel Oliveira

Hoje é véspera de Natal. O Natal é uma data cristã – uma vez que diz respeito, teoricamente, à celebração do aniversário do nascimento de Jesus de Nazaré, lá em Belém. Há ainda, na definição desta data, resquícios de celebrações pagãs, como o solstício de inverno no hemisfério norte – que é quando a parte iluminada do dia começa a ganhar mais espaço em cada 24h. Mas não voltei a este querido espaço pra falar de Natal, que Zoraya já falou tão bem ontem. Hoje, aqui, nós vamos falar de vésperas.

Segundo o dicionário, o significado mais difundido para véspera é “um dia que antecede imediatamente a outro determinado”. E, pensem cá comigo, quantas coisas antecipamos! Contamos os meses praquela viagem há tanto sonhada, os dias pra aquele encontro, as horas pra um telefonema... os segundos até às 18h de uma sexta-feira! Enquanto umas trazem consigo o cheiro do tender assando no forno, outras vêm com a preocupação da depilação ou da barba em dia ou mesmo opiniões pré-concebidas acerca do local…

HO HO HO >> Zoraya Cesar

Vamos nos afastar um pouco desse pessoal esbaforido? Da correria? Afinal, depois de todas as compras, cartões virtuais, sorrisos falsos, comilanças desenfreadas, frenesis, sabe o que resta? Presentes a serem trocados e a mesma vida medíocre e vazia a ser perpetuada.

Que tal sentarmos tranquilos e tomarmos um cálice de Bailey’s? Mozart? Ah, de Amarula, perfeito. Enquanto isso, deixemos esse pessoal todo comprando, comprando, a reclamar que o Natal é uma data “muito comercial e hipócrita”, pois “falam mal do Fulano o ano inteiro e no Natal ficam de sorrisinhos”. Sabemos, você e eu, aqui degustando nosso licorzinho, que aquele que mais reclama é justamente quem colabora para fazer dessa festa um inferno sazonal.

Cá entre nós, Natal não é época para entrar em shoppings – esses templos de adoração às horas perdidas –, enfrentar filas, percorrer ruas entupidas de pessoas que parecem ter saído das cavernas (ah, puxa, você também costuma empurrar, gritar, dar cotoveladas e se comportar como…

A FARSA >> Fernanda Pinho

- É, Fernanda, ele não existe.

Foi assim, à queima roupa, que duas primas minhas me contaram a verdade. Sem medir as palavras e as consequências, me revelaram, numa noite chuvosa, típica das que precedem o natal, que o Papai Noel era uma farsa.
Não chorei, não questionei. Apenas quis ficar sozinha, como faço ainda hoje quando me sinto angustiada. Não é exagero dizer que fiquei angustiada. Fiquei, e muito. Eu que, até aquele momento, só havia sentido algo semelhante apenas uma vez na vida – na ocasião em que descobri que a Vovó Mafalda era homem – via mais um mito desmoronar. E se você já foi criança, sabe do que eu estou falando.
É verdade que, desde que um suposto Papai Noel havia visitado o jardim de infância onde eu estudava, no ano anterior, nosso relacionamento não estava lá essas mil maravilhas. Eu aguardei ansiosamente pelo momento daquele encontro e soube esperar, resignada com a condição de última da fila – oh sina de ser a maior da turma desde criança. Eu só não imaginava q…

INQUIETAR-NOS >> Carla Dias >>

Aprecio orbitar ao redor das invenções que ainda estão por nascer, porque ao prefaciar a descoberta também é possível se misturar a ela. E ainda que não seja algo transformador, mas apenas um facilitador de tarefas desimportantes, ou até mesmo uma ferramenta para o reconhecimento de banalidades, a criação por si já é um milagre com a inquietação entranhada em sua arquitetura.

E a inquietação faz parte do desabono da certeza, portanto, sustenta a liberdade.

Liberdade é essa coisa-sentimento, e de direito, que nos permite ser sem amarras. Há pessoas que acabam sendo invenções próprias, transformando a si em personas, projetos de quem gostariam de parecer aos olhares alheios. Porém, a sua essência se inquieta, mostrando-se mais forte do que o personagem imaginaria. E às vezes ela escapa num suspiro, todos a sua volta param para escutar tal sinfonia.

Na inquietação moram as possibilidades.

Possibilidade é coisa que até pode cair do céu, mas vez ou outra, e nem sempre nas nossas cabeças. Em al…

O OUTRO LADO DA MOEDA >> Clara Braga

Eu, como qualquer outro ser humano, tenho meus defeitos. Alguns são defeitinhos, outros já são defeitos um pouco maiores, mas tudo bem, a gente vai aprendendo a lidar com eles como pode.

Um dos meus defeitos é ser muito exigente. Isso, quando é só com você mesmo, pode até ser bom, você acaba fazendo as coisas com mais perfeccionismo e assim vai melhorando. O problema é quando você é tão exigente consigo mesmo que acaba sendo exigente com os outros sem nem perceber. E esse é meu caso.

Fico chateada quando as pessoas esquecem meu aniversário, não gosto quando as pessoas se atrasam muito sem me explicarem o motivo, fico um pouco magoada quando as pessoas não estão presentes em eventos que para mim significam muito, e fico um pouco enciumada quando bons amigos meus marcam de sair entre si e não me convidam.

Muitas pessoas devem se sentir um pouco mal com essas situações, e por isso devem estar pensando que isso não é ser exigente, isso é normal. O problema é que a maioria das pessoas fala…

CEGUEIRA NACIONAL
>> Albir José Inácio da Silva

Desconfio ter encontrado a inspiração de Saramago para o seu “Ensaio Sobre a Cegueira”: o Brasil. A princípio só identificamos essa condição em algumas categorias, mas com atenção percebemos que atinge milhões de pessoas.

Aqui todos enxergam as irregularidades, menos os que têm responsabilidade e atribuição de combatê-las. Alguns enxergavam antes, denunciavam e ofereciam soluções. Por isso foram alçados àqueles postos. Mas no dia seguinte à eleição, à nomeação, à posse, já se instalou a cegueira e vemos os pobres funcionários tateando de frente pro crime sem conseguir enxergá-lo.

Começa nos altos escalões. Imagens circulam o Brasil e o mundo mostrando corrupção em gavetas, bolsos e cuecas. O mundo inteiro vê, menos as comissões de ética e os plenários, vítimas, coitados, de cegueira parlamentar.

Não há ruas, esquinas, becos, bares ou biroscas em que não se encontre o proibido jogo do bicho. Há mais de um século todos sabem, todos veem, menos policiais e seus superiores. Atingidos pel…

FICA, 2011 >> Eduardo Loureiro Jr.

Nós somos aqueles pelos quais estávamos esperando. (Nação indígena Hopi)
Eu sei que o tempo passa, e que todo ano passa, e que é bom que seja assim, mesmo porque não há outro jeito, a vida é eterno movimento e quem fica parado é poste, mas, sei lá, a gente bem que podia abrir uma exceçãozinha pra 2011.

Não, eu não vou dizer que foi um ano em que tudo aconteceu às mil maravilhas. O leitor mesmo deve ter sofrido alguns arranhões, talvez até algum corte profundo. Em 2011, ganhamos algumas cicatrizes, daquelas que não vão sumir tão cedo. Mas cá entre nós, caro leitor, uma cicatriz é bem melhor, bem mais natural, que tatuagem ou maquiagem definitiva. Cicatriz é coisa de quem viveu, de quem caiu e se levantou, de quem rastejou mas encontrou a luz no fim do túnel, de quem arriscou e, de tanto tentar, conseguiu alguma vitória.

O mundo está mudando. Isso ficou claro em 2011. Ainda tem gente que olha pras coisas e diz que o mundo não tem jeito, que a humanidade é um caso perdido, mas cada vez f…

INTERVALO [Sandra Paes]

Manhã nublada. Agenda em branco. Mais uma terça feira. Apenas mais um dia no calendário. Essa coisa que inventaram pra partir o tempo em pequenos pedaços e lhe rotular com fatos, emoções, dramas ou qualquer outro recheio para preencher o que se chama de vida.

Mais um dia querendo ser especial diante dessa imposição que a consciência econômica nos impôs. Há que matar um leão por dia e dar valores a todos os atos, tudo precisa ser classificado dentro do quadro de produção.

- Vai fazer o que hoje? Já se torna previsível a conversa que surgirá ao telefone.

Isso depois de um nada ritualistico: - Tudo bem?...

Ontem tive vontade de sumir, ficar invisível talvez. As fantasias nas ruas, pretexto natural do Halloween, me mostrou essa verdade crua. Quero estar invisível. Visibilidade implica em atuação. Atuar detona atenção e crítica. Sempre. Talvez apenas queira sair de cena. Essa aí mesmo onde há sempre um papel a desempenhar.

Fazer o que? Que pergunta, é dia de Halloween!

Entre bebês, fadas, bruxa…

PROBLEMA DE COLUNA >> Fernanda Pinho

Confesso. Estou com o editor do Blogger aberto e o cursor piscando. Já olhei na agenda para ter a certeza de que hoje é quinta-feira mesmo. Talvez seja quarta e eu esteja apenas um pouco confusa, sei lá. Mas é quinta. Ontem, inclusive, foi quarta. E eu aqui, com o cursor piscando no editor do Blogger. São 10h36 e eu ainda não tenho minha crônica de quinta. Se eu tirasse uma foto do que é meu quarto nesse momento vocês pensariam que tudo isso é bem típico de mim. Desorganização total. Mas até que não, sabe. Esse negócio de texto eu levo a sério. Normalmente já começo a semana com minha crônica de quinta pronta ou, no mínimo, com um tema na cabeça.

Mas o que me ocorreu essa semana foram apenas relances de assuntos que me pareceram bem desinteressantes. E não duvido que agora alguém tenha resmungado: "e desde quando o que você escreve é interessante?". Eu sei, não é. Não vai jogar isso na minha cara agora, né? Cadê o espírito natalino? Mas é que as ideias da semana foram mais …

DE MALAS PRONTAS >> Carla Dias >>

Minha amiga,

Como lhe contei, decidi assumir de vez a minha vontade magnânima de viver em séries de televisão e filmes. Pensei em passar uma temporada nas temporadas que mais me agradaram das séries, e viver algumas aventuras dignas dos cineastas que mais me encantam.

Assim, talvez eu consiga uma consulta intelectual com o Dr. House, e prometo que darei a ele o recado que você grita pra tevê a cada vez que ele aparece: eu sei que todo mundo mente, mas eu não minto quando digo que te amo! Tranquila... O recado será entregue, apesar de eu achar que ele vai rir da minha cara. Mas amigas estão aí para o que der e vier, certo?
E como sei que os gênios – cada qual na sua área – se cutucam, e essa cutucação gera emocionantes episódios, acho que vou levar o Dexter comigo. Já pensou o House tentando diagnosticar o problema do passageiro sombrio do serial killer mais fofo da história? Ok... Não é uma combinação aprazível de palavras, mas o Dexter é fofo mesmo! E serial killer... Tá bom, não está m…

PODE CHORAR >> Kika Coutinho

Era quase hora do almoço e minha filha queria mais um quadradinho de chocolate. Eu olhei pra ela firme e respondi: "A mamãe te falou que aquele era o último. Agora chega."

Ela, no mesmo instante, gritou mais alto: “Mais! Quero mais!”. Eu mantive a pose e respondi “não”, tentando explicar que ela ia almoçar, que já tinha comido e tal, mas ela não quis saber e fez simplesmente o que as crianças fazem como ninguém: chorou. Chorou baixo, depois alto, depois chorou mais, depois berrou, depois se jogou no chão, depois voltou até mim, os olhos transbordando de lágrimas, como uma represa sem a sua barragem e, esperando uma resposta qualquer, eu lhe disse maquiavelicamente calma: “Não tem mais chocolate. Pode chorar, filha. Pode chorar...”

Enquanto ela voltava ao ciclo de se rebelar, eu questionava a minha atitude. Que raio de mãe eu era? Sofia estava cada vez mais manhosa e eu já dissera o fatídico “pode chorar” outras vezes. Deixei-a chorar para que ela aprendesse a dormir, deixei-…

VERANEIO CRUZEIRENSE >> Whisner Fraga

Estava decidido: se não tínhamos namorada, paquera ou sequer um rolo naquela metade da adolescência era porque não possuíamos um carro. O cenário perfeito nos incluía dentro de uma camiseta do Mercyful Fate e o conjunto no interior de um Fusca ou de um Chevette, contornando duzentas e quarenta e duas vezes por noite a praça da vinte e seis com a dezessete. Parecia sem sentido, mas em nossas cabeças aquela tática nos traria, milagrosamente, um beijo, um abraço mais caloroso ou até uma mão em algum peito.

Assim, quando descobrimos que poderíamos, eventualmente, utilizar a Veraneio azul do pai de Everaldo para nossas megalomanias, nos sentimos um pouco mais poderosos. Era questão de tempo para estarmos arranjados. O teste seria no sábado seguinte, quando nós cinco desceríamos para o centro e tentaríamos a sorte, agora mais próxima de nossos desejos. Cada um contribuiu com o que pôde e a grana nos rendeu seis litros de gasolina, o que daria pelo menos para chegarmos motorizados ao barzinh…

A VOLTA >> Eduardo Loureiro Jr.

Meus pais tinham um fusca cor de caramelo. Na época, o uso do cinto de segurança não era obrigatório, e eu gostava de sentar na pontinha do banco de trás com o corpo projetado entre os bancos dianteiros. Meu pai dirigia. Minha mãe retirava uma das fitas do porta-K7 e a introduzia, chamativamente alaranjada, no toca-fitas. Roberto Carlos começava a cantar:

Eu cheguei em frente ao portão,
meu cachorro me sorriu, latindo,
minhas malas coloquei no chão,
eu voltei.

Eu não tinha mais que seis anos de idade, e era muito criança para entender a letra saudosista. Mas guardei aquela melodia, e aqueles versos, em algum lugar sagrado do meu pequeno coração, sem saber que me seriam úteis muitas vezes...

Partir é bom. Descobrimos lugares, conhecemos pessoas, vivemos histórias. Mas confesso a vocês que, para mim, a maior graça de partir é simplesmente propiciar a possibilidade de retorno. Talvez não seja por acaso que, muitas vezes, ao descobrir um lugar ou conhecer alguém, dizemos "parece que volt…

RECOMEÇO [Sandra Paes]

Voltar ao incio. Fazer outra vez, o mesmo percurso, o mesmo trabalho, a mesma atividade.

Em toda parte nos deparamos com esse comando. Na ginástica, na produção em série, no ato de manusear qualquer coisa, até mesmo descascando uma fruta, como laranjas, ou maçãs. E quando se lava a louça, guarda-se tudo, e volta-se à mesma tarefa para o jantar? Aquela sensaçao de “fazer outra vez”, está la, até dissociada da busca de melhora, da perfeição.

Vejo isso nas corridas de Fórmula 1 - voltas e mais voltas, de volta ao começo. E quando se dá por terminado um conto, uma história, um enlace? Onde é o recomeço? Onde fica o ponto de nova partida, quando se sente que o tempo nao pára e não volta?

A vida, ouvi um dia de um personagem, é como um rio, só corre pra frente rumo às grandes águas dos oceanos. Seja lá o percurso que se encontre, com que tipo de pedras ou planícies, não há retorno. Então, pra que insistimos tanto no recomeço? Na formação de hábitos, no vício de colecioná-los como forma até de…

AS COISAS ANDAM MEIO ESQUISITAS >> Zoraya Cesar

Barulho, poluição, trânsito caótico - você leva duas horas dentro de um ônibus, trem, metrô, seja o que for, para percorrer um trajeto que levaria meia hora, se tanto. Chefes chatos (sim, eu sei, além da aliteração pobre, é uma redundância), salários defasados. É a encomenda que não chega no prazo, é a fila nos hospitais...  Chega. A lista das coisas que nos enervam dia após dia, fazendo com que sejamos barris de pólvora com pavio curto é infindável. E já está na hora de contarmos a nossa história, pois eu quero ver alguém me explicar o que anda acontecendo conosco.

Nosso amigo, Fernando – não o chame de Nando, que ele detesta; tampouco o chame, ele está incomunicável no momento -, é um homem responsável e sempre dirigiu muito bem. E daí? Daí que, por melhores que sejamos, acidentes acontecem. Naquele dia, por exemplo, estava ele manobrando de ré (olhando pela janela e não pelo retrovisor, verdade seja dita), numa rua esburacada e sem sinalização, quando...

THUD! Ele bateu em alguma c…

DOZE DEZEMBROS >> Fernanda Pinho

Chega dezembro e as festas pululam de todo canto. Tem festa de fim de ano da firma. Amigo oculto da turma da faculdade. A ceia com a família. O jantar beneficente. Os convites chegam em atacado. Provavelmente muito mais do que se estivéssemos, por exemplo, em maio. A impressão que tenho é a de que apenas em dezembro - quando existe a expectativa do fim e também do recomeço - é que temos consciência da finitude da vida. Aquela sensação de "já é natal de novo?" nos cutuca e nos faz cair na real sobre como o tempo está escapando pelas nossas mãos. Muito provavelmente não é por isso, mas acho que é um bom motivo para justificar a grande farra que vira dezembro. Outro dia alguém comentou no Twitter que a impressão que se tem é a de que o que vai acabar não é o ano, mas, sim, o mundo. E é bem isso mesmo. Gastamos o que não podemos. Anuciamos para aqueles que amamos o quanto eles nos são caros. Fazemos festas todos os dias. Mandamos toda e qualquer dieta para as cucuias. Afinal de …

A CANÇÃO DA VEZ >> Carla Dias >>

Há dias que uma canção deu de ficar tamborilando em mim, feito fundo musical para os meus pensamentos. Às vezes, estou em uma conversa séria sobre o trabalho, ou digitando burocracias, e lá vem ela, inteirinha: letra e música, com direito ao arranjo e uma visão do vídeo.

Quando era bem mais jovem, tipo metade da minha idade, eu costumava ir para a cama e selecionar, na minha cachola, a música de ninar. Porém, eu me empolgava e, quando me dava conta, os meus pensamentos haviam se transformado em verdadeiros shows, com direito a cenário e duração de duas horas.

Sim, a música é importante na minha vida, é o que me mantém um ser que vive em sociedade. Sem ela, eu moraria num buraco de tatu. Na verdade, às vezes eu me hospedo em buracos de tatu.

Outro dia, eu estava atendendo uma pessoa muito, mas muito mal humorada e sem um pingo de educação. Além de tudo, ela era faladeira. E eu escutava o que ela tinha a dizer, mas então eu parei de escutar, porque na minha cabeça, começou a tocar uma sele…

QUEM É QUEM MESMO?? >> Clara Braga

Vocês já passaram uma boa parte de suas vidas achando que uma coisa era uma coisa e depois acabaram descobrindo que uma coisa era outra coisa e se sentiram bem bestas com a confusão que estavam fazendo durante anos? Isso acontece muito comigo!

Estava eu, em meu quarto, estudando para uma prova que prometia ser daquelas de maltratar os neurônios. Enquanto revisava o que já tinha estudado, liguei a televisão para dar aquela distraída básica que evita câimbra cerebral. Estava passando o programa do Jô, e eu até gosto do programa, principalmente quando ele deixa os entrevistados falarem, o que não acontece com frequência.

Nesse dia estavam lá Caetano Veloso e Maria Bethânia, falando do novo trabalho que gravaram juntos. Mas achei estranho porque Caetano contava uma história sobre Maria Bethânia como se ela não estivesse ali sentada do lado dele. Contava histórias e confirmava com a mulher sentada ao seu lado, mas ela também falava da Maria Bethânia como se a Maria Bethânia não estivesse ali…

BENDECO >> Albir José Inácio da Silva

Morreu o Bendeco, fácil e à toa como viveu. Não plantou árvores, livros ou filhos que o perpetuassem. Era considerado maluco porque não guardava nada. Comida, roupas, móveis, só precisava do que estivesse usando. O resto distribuía. Depois trabalhava, pedia, ganhava. Não queria luxos, e só teve o que seria muito pouco para os outros.

Uma vez ganhou um rádio, que completava o pouco dinheiro por um serviço. Como já tinha rádio, deu pra uma velhinha mau-humorada, que quase morreu de susto porque nunca tinha ganhado nada.

De outra, ao final de uma semana de capina, Bendeco entregou sua parte para Deoclécio. Deoclécio era um molecão que perambulava por lá e a quem Bendeco ajudava, dividindo trabalho e comida. Ia pra São Paulo comprar mercadoria, vender no Rio e trazer muito dinheiro para os dois. Deoclécio desapareceu, mas boatos diziam que ele tinha enricado no comércio.

Era essa a lógica de Bendeco. Saciada a fome no almoço, distribuía as sobras. Só no jantar voltaria a pensar na comida.…

RELAÇÕES DELICADAS [Maria Rita Lemos]

Poucos relacionamentos são tão complexos como os que existem entre as mães e suas filhas, a ponto de, muitas vezes, no consultório ou fora dele, ouvirmos indagações desse tipo: “será que minha filha realmente me ama?” Da mesma forma, é muito comum sermos procuradas por filhas com um misto de raiva/culpa direcionada muito mais às suas mães que aos pais.

É normal, para mães que fazem uma determinada expectativa em relação a algumas características de seus filhos(as), inclusive o sexo, cor dos olhos, da pele, etc, aparentarem alguma insatisfação quando o bebê não chega exatamente como estava programado em seus sonhos. Esse acontecimento é natural, mas isso também implica em que, muito provavelmente, conforme a reação materna se manifestar, podem acontecer marcas na psique dessa criança, que vão desde às distorções na auto-imagem até dificuldade de aceitação de si mesma.

O fato é que, embora haja exceções, geralmente o relacionamento das mães com suas filhas é mais difícil que com os menino…