sábado, 3 de dezembro de 2011

RELAÇÕES DELICADAS [Maria Rita Lemos]

Poucos relacionamentos são tão complexos como os que existem entre as mães e suas filhas, a ponto de, muitas vezes, no consultório ou fora dele, ouvirmos indagações desse tipo: “será que minha filha realmente me ama?” Da mesma forma, é muito comum sermos procuradas por filhas com um misto de raiva/culpa direcionada muito mais às suas mães que aos pais.

É normal, para mães que fazem uma determinada expectativa em relação a algumas características de seus filhos(as), inclusive o sexo, cor dos olhos, da pele, etc, aparentarem alguma insatisfação quando o bebê não chega exatamente como estava programado em seus sonhos. Esse acontecimento é natural, mas isso também implica em que, muito provavelmente, conforme a reação materna se manifestar, podem acontecer marcas na psique dessa criança, que vão desde às distorções na auto-imagem até dificuldade de aceitação de si mesma.

O fato é que, embora haja exceções, geralmente o relacionamento das mães com suas filhas é mais difícil que com os meninos, e isso não é apenas Freud ou seu famoso complexo de Édipo que explicam. Filhas relatam dificuldade de amar suas mães da maneira que pensam que deve ser o “normal”, não conseguindo dar o mesmo carinho e afeto que receberam na infância. Esses sentimentos geram culpa, uma vez que, para a sociedade, toda mãe é santa, mesmo que a relação das mesmas com suas meninas seja deturpada, em algumas ocasiões com insuficiência de amor e cuidados, outras com excesso de proteção e zelo desnecessários.

Apesar dos problemas na relação amor/ódio que permeiam a convivência entre mãe e filha, é muito comum que nenhuma das duas consiga identificar onde começou esse abismo. Na realidade, amor e ódio coexistem, e por maior amor que haja, de vez em quando o segundo sentimento mostra sua cara, às vezes até diante de outras pessoas, da família ou não, armando gritarias e ofensas de parte a parte, que geram sempre um arrependimento quando tudo volta ao normal. O fato central, aliás, o núcleo de quase todas as pesquisas sobre a convivência “mãe e filha”, é que ambas precisam lembrar-se do elemento primordial nessa guerra doméstica, que se resume na questão de ambas serem mulheres. Essa realidade, embora óbvia, consegue encobrir que as briguentas são mãe e filha, portanto deveria haver outras características, além da disputa entre duas fêmeas.

É muito difícil, para as mães, aceitarem profundamente (na superfície é fácil) que sua filha cresceu – e nessa matéria estou enfocando as filhas adolescentes ou adultas - e, portanto, têm uma personalidade independente e autônoma. Vem daí que a mãe emocionalmente saudável tem mais condições de entender que sua filha não compartilha mais com ela, necessariamente, as mesmas opiniões, nem tem as mesmas atitudes, como quando era uma menininha. Da mesma forma, é preciso que a jovem mulher se conscientize que mamãe tem sua vida, seus sentimentos e seus objetivos que não estão atrelados aos dela, filhinha, nem pode passar o resto da vida fazendo suas vontades.

Eric Berne, o precursor da análise transacional, comparava a relação mãe/filha a um espelho, que se quebra numa determinada fase da vida, fazendo com que as duas partes se tornem independentes e autônomas. Mãe e filha, a princípio, alimentavam a fantasia de que, de um lado do espelho, estava a “mãe nutritiva”, e de outro a filhinha protegida, retro-alimentado-se num universo perfeito.

Que bom que o espelho se quebra, lá pelos tempos da adolescência da menina e da maturidade da mamãe. É uma fase difícil, porque, se é difícil a gente se ver por inteiro num espelho quebrado, também é necessário que assim seja, para que cada uma das duas pessoas passe a caminhar à sua própria maneira, cada qual com sua personalidade própria.

Enquanto os pais (homens) estimulam seus filhos machos a serem valentes, heróis e protetores, com ou sem palavras, a maioria das mães criam suas meninas para que sejam princesinhas, preferentemente casando-se com príncipes, bem diferente delas mesmas, que se casaram com homens fora da realeza. As filhas deveriam, portanto, no imaginário, suprir aquilo que as mamães não conseguiram fazer. Isso não só é difícil mas impossível, e, consequentemente, a filha mulher vai ter que aprender a administrar o luto de não ter conseguido ser exatamente o que a mãe esperava dela. O problema se acentua quando essa filha vai, por sua vez, ser mamãe também. Aí, ela é que começa a sonhar com ser uma boa mãe, e, como nunca acha que foi suficientemente boa para sua mãe, os conflitos voltam a surgir.

Aprendemos com nossas mães as lições de como agir na maternidade, e tentamos reproduzir a história, ainda que não tenha sido boa, porque reconhecer isso é muito duro e sofrido. Há que, além de quebrar o espelho, reconstruir uma relação, baseada em fatos novos e para os quais a mulher que vai ser mãe não tem parâmetros. A convivência equilibrada entre mãe e filha certamente remete a um caminho que deve ser percorrido com sensibilidade e delicadeza.

A perda mútua, ou seja, a “quebra do espelho”, deve ser preparada e aceita como natural e desejável para a independência uma da outra. Nesse processo difícil, a ajuda psicoterápica pode ser muito importante.

Imagem: Olivier Cadeaux, Corbis

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