sábado, 24 de dezembro de 2011

CELEBRAÇÃO [Debora Bottcher]

“Não há atalho real na Filosofia.” (Aristóteles)

Fui educada em Colégio de freiras, naquele tempo em que as aulas de religião eram dentro da capela/igreja da escola. Mas perto dos meus dez anos, minha mãe informou à Madre Superiora que eu não faria Primeira Comunhão, pois ela frequentava uma igreja pentecostal - na época, a Igreja do Nazareno. Lá pelos meus treze anos, nova mudança: passamos a ir a uma Igreja Evangélica - e nessa, eu passei a ir à Escola Dominical e aos cultos semanais com regularidade, além de fazer parte do Coral e do Grupo de Jovens.

Aqui cabe um adendo para explicar o porquê da mudança: meu pai era ateu e, numa manhã de sábado, um pastor da Nazareno foi até minha casa tentar fazê-lo mudar de ideia. Ele estava lavando os carros e explicou gentilmente ao rapaz que agradecia o esforço e a visita, mas que não tinha interesse em ouvir o sermão. Como o moço insistiu, tomou um banho de água fria (literalmente) - e esse incidente deixou minha mãe muito envergonhada perante a Igreja.

Mas meu pai, apesar de sua crença (ou ausência de) nunca nos impediu de conhecer e transitar pelas religiões - um dos meus irmãos, inclusive, tornou-se Pastor da Igreja Batista. Ele era um homem muito democrático e acreditava que cada um tem que fazer suas próprias escolhas sem interferências - e arcar com elas. Seguir o próprio caminho, ele dizia... Dessa forma, eu seguia minha estrada na Igreja Evangélica e, algumas vezes, ele foi conosco ver-me cantar no Coral e assistia, até com bastante atenção, às palavras pastorais dos Cultos.

Mas eu tinha em torno de dezesseis anos quando peguei-me questionando minha fé e a existência de Deus. O que trouxe à tona essa dúvida foi um acontecimento doméstico - uma discussão calorosa entre meus pais. Esse era um evento rotineiro - meus pais se amavam daquela maneira apaixonada que gera conflitos cotidianos -, mas 'aquele' desentendimento desencadeou em mim um sentimento de impotência que me passou a certeza de que as coisas são como são, e isso fez de mim uma pessoa muito pragmática - e a fé não se situa bem dentro do pragmatismo.

Mais tarde, ao longo dos anos, pesquisei sobre Anjos, Bruxas, Magia, Espiritismo, Candomblé, li sobre Budismo, Sufismo, Islamismo e outras muitas denominações religiosas, fui a várias igrejas diferentes (inclusive à Católica, da minha primeira formação), e continuei em dúvida. O Mundo também se encarregou (e ainda se encarrega) de me deixar indecisa: quando você vê o que se faz 'em nome de Deus', fica muito difícil crer na teoria de Amor, Bondade e Justiça que envolve o Ser Supremo. Assim, posso dizer que, por essa trajetória de história pessoal, tornei-me uma pessoa agnóstica - aquela que acha que há chances iguais de Deus existir ou não.

Seja como for, na minha casa sempre se festejou o Natal (sem o simbolismo obrigatório da troca de presentes - isso nunca fez parte prioritária e essencial da data para nós). Não tenho certeza se na literalidade do evento - o suposto nascimento de Jesus -, mas sempre reunimos a família e amigos na casa do meu pai para celebrar a união, a amizade, a vida. Meu pai adorava comemorações de qualquer tipo - era um ser de alegria permanente e contagiante.

E na minha própria casa, isso se perpetua - e esse talvez seja um dos grandes legados que meu pai me deixou: eu também adoro uma festa! E nós nos reunimos em celebração a mais um ano que está por terminar, à (boa) vida que desfrutamos apesar dos inevitáveis contratempos, à saúde, à ausência de tragédias à nossa volta, às pequenas e grandes conquistas diárias, ao milagre cotidiano que é viver. Se, ainda que intimamente, para uns ou para muitos, esse ritual se faz 'em nome de Deus', não sei precisar. Para mim, importa mesmo estar junto aos que quero bem, no grande e misterioso ato que chamamos de Amor.

Feliz Natal - para você e os seus!

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9 comentários:

albir disse...

Tem razão, Debora. Por que não aceitar o convite para celebrar em nome do amor e da paz? Venham os convites de longe ou de perto, de iguais ou de diferentes, de crentes ou de agnósticos, são humanos como nós, carentes e confusos, precisando de um abraço. Mesmo quando não sabem disso.

sandra disse...

Linda cronica. Senti que sua menina escolheu o caminho de seu pai: NAO ACREDITAR EM DEUS tb eh uma religiao. E pra quem nao acredita em Deus, vc tem uma das expressoes mais cheia de fe que conheco: Valha-me Deus!

Debora Bottcher disse...

Sandra! Não é tudo uma contradição!? :) Feliz Natal!!! Um beijo.

Cristiane disse...

Belo texto, Debby! Também me vejo assim como você, numa trajetória de religiões um tanto quanto parecida e com um 'final' igualmente em aberto...

Comemoremos todos!

Debora Bottcher disse...

Albir, Pois não é esse o único espírito do Natal? Então, só nos resta celebrar e confraternizar... :) Beijo pra vc.

Debora Bottcher disse...

Pois é, Cris. É difícil não acreditar em nada, na mesma medida que o é acreditar em tudo. Mas acho que é uma decisão que a gente ainda pode adiar... :) Beijo e Feliz Natal!

Zoraya disse...

Débora, a vida é comemoração!Que todas as diferenças sejam bem vindas e vivam em paz. Um Natal lindo para você e seus Amados e um 2012 cheio de motivos para celebrar. Beijos (gostei demais do seu texto)

Debora Bottcher disse...

Ah! Zoraya, vc é muito querida. Obrigada pelo carinho, sempre. Um Natal muito iluminado pra vc e os seus. Um beijo.

Ana González disse...

POis é, Debby, Natal para quê? esaa pergunta pode recolocar o siginificado de uma celebração de alegria e de (re)nascimento. Adorei. Bjss