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Mostrando postagens de Maio, 2012

SER ESTRANGEIRA >> Fernanda Pinho

Eu que sou filha, irmã, amiga, jornalista, libriana, atleticana, mineira, tenho mais uma pra minha lista. Agora sou estrangeira. Amanhã faz dois meses desde que cheguei e já foi o suficiente para eu criar alguns novos conceitos, enxergar novas percepções, descobrir novos sentimentos. Muda nosso ponto de vista padrão, muda tudo.

Estou, por exemplo, mais tolerante. Descobri em mim uma incrível capacidade de autocontrole. A Fernanda impulsiva saiu de férias devido à minha falta de léxico para explodir quando me sinto irritada. Ainda não aprendi a brigar em espanhol, o que faz de mim uma pessoa estranhamente doce e serena.

Essa falta de intimidade com o idioma faz de mim também uma pessoa mais atenta. Nunca me disperso quando alguém fala comigo. Vou me familiarizando com os sons, registrando novas palavras. A atenção, aliás, é minha companhia mais constante. Nada me passa despercebido. Tudo é computado. Ando no supermercado admirando as embalagens, dou ouvidos para conversa de estranhos,…

EU QUERO SER TIM BURTON! >> Carla Dias >>

“Sabe o que é estranho? É que sempre me achei normal quando era criança. Depois de um tempo,você começa a pensar que é maluco, porque todo mundo te chama assim. Aí os anos passam e você se dá conta de que eles estavam certos, você era louco mesmo.” Tim Burton

O que você quer ser quando crescer?
Pergunta recorrente na vida de qualquer criança, acaba sempre recebendo respostas sazonais. Há dias em que se quer ser herói, em outros, professor, bombeiro, astronauta, ou colecionador de gibis, filho da mãe e do pai e não de um extraterrestre, porque isso dá medo e afasta os amiguinhos. Não há limites para o que se pode ser quando crescer sendo criança.
Eu quis ser muitas coisas quando criança. Apesar de a minha memória infante depender das minhas irmãs para funcionar, lembro-me de duas coisas que queria ser quando crescesse: freira e aconselhadora para apaziguar alma. Crescendo, percebi que as pessoas não gostam quando nos metemos em seus assuntos com um punhado de conselhos que não pediram, …

SERÁ QUE É IMPORTANTE? >> Clara Braga

Às vezes eu fico com a impressão de que as pessoas prestam atenção nas coisas erradas. Pode ser que seja eu também, que eu esteja prestando atenção em coisas que não deveria enquanto coisas muito mais importantes acontecem, mas não sei, ainda tenho essa minha impressão.

Hoje em dia tem tido muitas marchas, reivindicações, apelos, etc. pelos direitos da mulher. Acho mais do que justo, tem que ir pra rua fazer barulho mesmo, a mulher não pode ser feita de objeto, as pessoas não podem justificar o abuso sexual contra a mulher por causa da roupa que ela usa que é provocante, ninguém pode espancar uma mulher (nem qualquer outra pessoa, de preferência), etc.

Concordo com todas as colocações que vêm sendo feitas e assino embaixo. Porém, enquanto nós estamos lutando por tudo isso, a Rede Globo está colocando em suas novelas e seriados várias mulheres que são feitas de gato e sapato por vários homens e tudo bem, fica por isso mesmo.

Em uma novela o cara tem três esposas e fica conciliando o te…

MANIFESTO >> Whisner Fraga

Estudávamos, eu e meus irmãos, no período da manhã, o que equivale a dizer que devíamos acordar às seis da manhã ou pouco menos, o que era muito penoso, porque todos nós gostávamos (e acho que ainda gostamos) de dormir. Depois, brigávamos entre nós para ver quem buscaria o pão e quem faria o café e o chá. Geralmente os mais fracos perdiam – eu ia até a padaria e minha irmã preparava o leite e companhia. Com o tempo, meu irmão, mais parrudo do que nós outros, percebeu que podia dormir até mais tarde, já que, para se encaminhar para a escola, só devia vestir o uniforme, ajuntar os livros e se deliciar com o café da manhã preparado por nós.

A sorte é que o Polivalente, escola que frequentávamos, era perto de casa. Uns quinze minutos a pé ou cinco minutos de bicicleta. Minha irmã, mimada como era, cursava um colégio chique, que ficava mais distante de nosso bairro, o que não representava problema nenhum, já que tinha carona todos os dias. A Escola Estadual Antônio de Souza Martins era di…

POR AMOR OU POR DINHEIRO
>> Maria Rachel Oliveira

Outro dia, aliás li no site da BBC uma matéria sobre os resultados de uma pesquisa realizada por cientistas americanos sobre o que atrai mais as mulheres num homem, se aparência ou dinheiro. O estudo, que foi publicado no Journal of Personality and Social Psychology (Jornal de Psicologia Social e Personalidade), conclui que, no final das contas, a aparência é o que conta mais para ambos os sexos na hora de escolher o parceiro amoroso. Balela. Discordo enormemente. Pra começar, fizeram a pergunta errada quando elaboraram o tal estudo. Rico ou pobre realmente é secundário quando se trata de um encantamento que pode vir dum jeito de olhar, de uma certa gargalhada, ou até mesmo de uma falha nos dentes. Gosto é pessoalíssimo - e insondável, aliás.
Eu, por exemplo, já amei feios. Já amei duros. Já amei ricos e já amei bonitos (esses últimos quando não são narcisistas são ótimos, mas isso é exceção, o que não os torna tão bons partidos quanto aparentam à primeira vista). Porém, pães-duros j…

AS CARTAS NÂO MENTEM >> Zoraya Cesar

O rapaz magricela de boné com a aba virada para trás resmungava e ouvia funk ao mesmo tempo em que distribuía os folhetos, nos quais se lia: Saiba o que vai acontecer e esteja preparado. Madame Cora não erra jamais. Ao lado da imagem um pouco borrada da dita madame, um número de telefone e um grave aviso: Só atendo com hora marcada. Não se desespere, procure Madame Cora. Ele estava ansioso por distribuir todos os folhetos do dia e começar a longa jornada para casa. Se soubesse rezar ou acreditasse em qualquer coisa, rezaria para alguém procurar Madame Cora levando o folheto, para ele ganhar uma comissão. Minguada, mas comissão.  Duas moças passaram por ele e uma delas pegou o folheto, para espanto da outra, você acredita nessas bobagens? imagina, respondeu, só peguei por curiosidade, e seguiram seu caminho. Jessica não pegou o folheto por curiosidade, mas por estar à beira do desespero, faria qualquer coisa para Anderson largar a mulher por ela, a amante apaixonada. Mas, depois de um …

A PESSOA SEM VIDA >> Fernanda Pinho

A pessoa sem vida é uma espécie não muito rara que conseguiu sobreviver à evolução graças à sua capacidade de camuflagem. Ela se camufla em meio a seres generosos e prestativos e se aproxima da presa demonstrando uma quase exagerada capacidade de ser útil.

A pessoa sem vida utiliza-se de vários mecanismos para deixar clara suas boas intenções. "Qualquer coisa que precisar, é só falar". "Eu vou com você". "Eu faço pra você". "Eu sei de um lugar ótimo". "Deixa comigo". São exemplos de frases recorrentes no vocabulário dessa espécie, sorrateiramente furtadas do linguajar dos bons de verdade.

A pessoa sem vida, porém, ao contrário dos bons, não estão apenas oferecendo ajuda ou sugestão. Trata-se de uma tentativa quase sempre ineficaz de impor o que, na verdade, ela quer. Ineficaz porque lhe falta a naturalidade dos bons. Diante de uma negativa da presa deixam escapar vestígios de sua verdadeira personalidade.

A pessoa sem vida, uma vez fo…

MORAR EM UM OLHAR >> Carla Dias >>

Acredito que perceber mais claramente as coisas difíceis que acontecem a nossa volta, às outras pessoas, também seja parte de uma fase, assim como a fase em que colecionamos objetos só para nos lembrarmos de alguém, daquele alguém que desejamos ter por perto durante as vinte e quatro horas do dia. Objetos que a pessoa tocou ou desejou, palavras que disse sem notar a mudança que inspirava em quem lhe queria mais do que qualquer benquerença seria capaz de traduzir.  Ou a fase dos suspiros longos, pesados de tão carregados de sentimentos que não sabemos identificar. A fase da indiferença, do desejo pungente de comprar a loja inteira ou de ficar fula da vida com a vida porque não consegue ser pontual nos compromissos, tampouco parar de exagerar no carboidrato. Fase de sonhar em ter carro, casa, em ficar suficientemente endinheirada para poder pagar todas as contas e sobrar dinheiro para o cinema, sem que o gasto desestabilize a contabilidade de apertos do mês. E até mesmo aquela em que a…

CAROS PORTADORES DE CNH... >> Clara Braga

Dirigir é bom demais, não é verdade?

Me lembro bem da sensação boa que tive quando tirei minha carteira. Você se sente uma pessoa mais livre, não depende mais dos pais para te levarem nas festinhas, não fica em casa sem poder encontrar os amigos só porque seus pais já tinham programa e não vão poder te levar, e esses tipos de coisa.

Mas o tempo vai passando, a novidade passa a não ser tão nova assim, você começa a perceber que colocar gasolina no carro custa muito caro e que o trânsito das 18h é um inferno.

Ultimamente tenho percebido que com o passar do tempo as pessoas vão esquecendo também de serem cautelosas e esquecem das aulas de trânsito que tiveram, tanto práticas quanto teóricas. Parece que depois que o medo de ser reprovado na prova do Detran passa, as pessoas esquecem também uma coisa essencial chamada SETA!

Caros motoristas, por que é tão difícil dar seta?

Seta, para aqueles que não lembram ou que nunca souberam, é aquela alavanca que fica do lado esquerdo do volante, se v…

REQUENTADO PARA MATINÊ
>> Albir José Inácio da Silva

Os sustos infligidos a Tânia, e as gargalhadas às suas custas, tinham sido insuficientes para cobrar a empáfia e a arrogância de primeira aluna, de queridinha dos pais, professores, parentes e vizinhos. Era preciso alguma coisa maior e definitiva para apagar aquele ar de superioridade que se escondia atrás da candura do sorriso e dos gestos.

Essas considerações eram feitas por Cleide, irmã de Tânia, para convencer o namorado Gilson a ajudá-la nessa empresa. Contavam com o que lhes parecia o pavor de Tânia por tudo que se referia ao sobrenatural. Contavam também com o grande motor das ações humanas, a inveja.

Não era gratuita a rejeição de Tânia às coisas do além. O que inicialmente foi identificado como medo acabou se revelando muito mais forte que isso. Tremia sim e se agitava diante de fenômenos estranhos, mas era mais que medo. De alguma maneira sentia que participava e até controlava essas coisas. Não foram poucas as vezes em que previu situações ou mudou com o pensamento acontecim…

VOLCANO E HURRICANE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Seu nome era Hurricane (Furacão). Ela era um boxeador negro americano dos anos 60. Sua carreira foi interrompida por uma acusação de assassinato pela qual foi condenado. O movimento civil não conseguiu retirá-lo da prisão. Ele chegou a ganhar uma canção de Bob Dylan com seu nome, mas não ganhou a liberdade. Dezenove anos depois, um terceiro julgamento o declarou inocente. Furacão havia sido vítima de uma armação policial de caráter racista.

A prisão de Furacão começou com 90 dias de solitária por ele ter se recusado a usar o uniforme de presidiário. Depois disso, ele criou sua própria solitária, dormindo durante o dia e passando as noites acordado. Aprendeu a lidar com seu desejo frustrado de liberdade recusando o próprio desejo. Usou seu tempo para manter sua forma física, ler e... escrever sua biografia, que foi publicada.

Um dos velhos exemplares de seu livro foi comprado por um jovem estudante, também negro, que estava sendo educado por uma família, um grupo de amigos, no Canadá. …

TUDO QUE EU QUERIA DIZER PARA MARTHA >> Fernanda Pinho

Estimada Martha,
tudo bem? As palavras que te escrevo agora soarão como uma carta, mas sabemos que não é. Primeiro porque não tenho seu endereço. Segundo porque, vamos combinar, quem escreve carta em pleno 2012? Mas posso começar fazendo uma confissão? Sou meio démodé. Não fosse o primeiro motivo, eu esqueceria o segundo e te mandaria uma carta do jeito que uma carta deve ser: a próprio punho, quiçá num envelope com tarjinhas em verde e amarelo. Digo, acho que o envelope seria vermelho e azul. Às vezes ainda me pego surpresa com as pessoas falando espanhol ao meu redor. Tenho lapsos de esquecimento de que não estou no Brasil. Estou vivendo em Santiago do Chile.
É, como você também. Li em algumas crônicas suas que viveu aqui por um tempo. Gostou? Eu estou adorando. Não lembro se nas crônicas que li você manifestava sentimentos bons ou ruins sobre ter vivido aqui. Também não lembro em qual livro li isso. Não sou esquecida, como posso ter dado a impressão. Sou apenas um pouco confusa.

SÉTIMO CAPÍTULO - FINAL >> Carla Dias >>

Eles se conheceram em um bar. Ela estava com amigos, comemorando o aniversário de um deles. Ele estava sozinho, bebendo o último drinque da noite antes de voltar para casa, para a realidade do silêncio com o qual ela o recebe há anos, e que é sempre quebrado, lindamente, pelos blues de B. B. King.

Flertaram como homens e mulheres flertam desde sempre. O que mais o agradava era que ela nada sabia sobre ele, sendo assim, não havia motivo para temê-lo. Porém, quando ele se juntou ao grupo de amigos, recebendo dela o direito à intimidade das mãos dadas, ao escutá-la dizer palavras com a voz que não combinava com ela, mas de um jeito tão bonito que o fez imaginá-la crooner de uma orquestra de delírios, não tardou a começar a perceber as coisas como a sua profissão determinava.

Profissionais da área dele descobrem seu dom no dia de aniversário de 34 anos. A partir daí, tudo muda em sua realidade. No mesmo dia, eles fazem as malas e mudam de país, para garantir que não haja contato com a fa…

VIVA A POSITIVIDADE! >> Clara Braga

Um dia desses eu estava lendo uma reportagem em que uma escritora, uma psicóloga, dizia que está positivamente “emburrecendo”. Isso significa que ela prefere deixar de ler alguns jornais e revistas e ficar um pouco fora dos assuntos, sem conseguir participar de algumas rodas de conversa por não saber do que as pessoas estão falando, a ler e se tornar uma pessoa negativa devido à quantidade de notícias negativas que essas revistas e jornais mostram.

De fato parece que essa atitude dessa psicóloga está se tornando cada vez mais comum. As pessoas já têm seus próprios problemas, suas preocupações, seus dias difíceis no trabalho, seus problemas de família e quando chegam em casa para relaxar e descansar são bombardeadas com notícias ruins.

É normal que algumas pessoas realmente prefiram deixar de saber as últimas notícias e “emburrecer” um pouquinho, pois são raros os casos de pessoas que veem essas notícias e saem ilesas delas, realmente só se informam e fingem que nada aconteceu depois. …

A MULHER MÉDIA >> Kika Coutinho

A culpa é das capas de revistas. Claro, também das atrizes, das estrelas, dessas loucas que engordam 9 kg na gestação e depois perdem 12. Dessas que estão sempre combinando, até quando descombinam...

Por anos eu tentei ser uma delas. É verdade que não com muito afinco, porque quando soube que teria fazer hidratação no cabelo toda semana, tomar banho meio friozinho e passar maquiagem todas as manhãs — pior, tirar tudo todas as noites — ai, já não queria tanto. Mas junto com os pés de galinha, o bigode chinês e a queda dos peitos, vem também uma lucidez clara, tal como uma lâmpada dessas brancas que, embora não tenha muita estética, ilumina mesmo o que está diante de nós. E, com tudo visto, resolvi decretar: quero ser a mulher média. Me parece óbvio, aliás que, se quero filhos normais, marido normal, vida normal, também deva simplesmente ser uma mulher normal.

Ah, como é difícil encontrar normalidade hoje em dia. Gente normal, sabe? Dessas que às vezes dão uma gafe, dessas que se vest…

REUNIÃO DE FAMÍLIA >> Whisner Fraga

Há um clichê que diz que “reviver o passado é sofrer duas vezes”. Quem criou essa bobagem devia estar com uma insanável dor-de-cotovelo. Porque há várias situações em que reviver o passado pode ser muito divertido. Nem vou falar da aprendizagem, porque a crônica não é pedagógica, mas existe esse fator aí também, que é considerado, por alguns, algo positivo. Sabemos que o passado costuma se tornar um negócio complicado, só que não precisamos ser tão pessimistas assim.

Toda vez que viajo para ver minha família, no Triângulo Mineiro, quando nos reunimos para churrasco, o que mais fazemos é nos lembrar do passado. E contamos a mesma história mais uma vez. Por “a mesma história”, entendam que ela não muda com o passar dos anos e que todos a conhecem de cor. Só que o egocentrismo, a cerveja e o ambiente deixam os causos mais interessantes a cada visita. Uma dessas fábulas não pode ficar jamais de fora e sempre me agrada particularmente, de forma que vou relatá-la a seguir.

Estudávamos todo…

MÃE, MUSA E MÚSICA >> Eduardo Loureiro Jr.

Ao entrar na barriga, vi você
à linda luz da sua branca alma.
Mãe, o mundo todo era você.
Eu era um peixinho em sua água.

 Minha mãe, minha musa, minha música.
 Minha mãe, minha musa, minha música.

Ao sair da barriga, vi você.
O mundo então cabia em uma lágrima.
Você não era eu, era você;
eu era um peixe vivo fora d'água.

 Minha mãe, minha musa, minha música.
 Minha mãe, minha musa, minha música.

Eu cresci sempre perto de você,
na barra da sua saia ou da sua calça.
Tudo que eu queria era você.
Melhor que a viagem, era a casa.

 Minha mãe, minha musa, minha música.
 Minha mãe, minha musa, minha música.

Em todas as mulheres, vi você:
a força, a fé, o amor e o cuidado.
Mãe, Deus deve ser como você:
envolve a gente por todos os lados.

Por onde quer que eu vou,
eu levo sempre a bênção de minha mãe.
Levarei sempre a bênção de minha mãe
aonde quer que eu vá.


Quem quiser fazer coro comigo, essas palavras têm uma melodia que está aqui:
http://patio.com.br/maze60anos/MaeMusaMusica.mp3

ÀS MÃES QUE NÃO LEMBRAMOS
> Maria Rachel Oliveira

Ser mãe não é só bom. É ruim também. Muitas vezes. Apesar de tudo o que se diz não é fácil quando o peso da responsabilidade de escolher por outra pessoa é mais tenso do que ‘divertido’. Quando, por exemplo, proferimos uma punição por alguma coisa errada que os filhos fizeram e nos arrependemos no momento seguinte. Manter essa proibição, e a angústia do arrependimento em ter errado a mão, é uma das coisas mais difíceis que a maternidade proporciona. Há, é claro, um sem número de alegrias que acompanham este status. Infinitas. Gostosas. Lindas. Divertidas. Emocionantes. Mas dessa parte boa todas as campanhas publicitárias nos lembram – em prol de um incremento nas vendas das datas comemorativas. E amanhã, dia das Mães, por mim, por elas e por todos os pais que também são mães, avós, avôs, tios cachorros e papagaios queria lembrar, e agradecer à toda a rede de suporte que ajuda nessa parte difícil. Ao médico que sabe dizer à uma mãe, com jeito, que sua filha tem um par a menos de cost…

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

VOLTA POR CIMA >> Zoraya Cesar

Nunca antes pensara Suzana em abandonar a vida de solteira sem laços, sem lenço, sem documento, por ninguém. Até encontrar Antonio Carlos, o grande amor de sua vida.
Estar com ele, fazer planos, viajar, andar de mãos dadas, dormir abraçadinhos, dava um sentido todo especial à sua vida. Suzana estava feliz. Pela primeira vez soube o que era amar e ser amada. Era uma boa pessoa, o Antonio Carlos, ajudava nas contas, dava apoio nos momentos difíceis, e também a amava.
Tudo lindo, não? Mas sempre tem um “mas”, que vem logo a seguir, tenham calma.
O amor em Suzana crescia e o tempo passava - pois o tempo passa, até para os amantes – e, com ele, o tic-tac de seu relógio biológico começou a bater forte, qual um carrilhão numa sala vazia. O amor, que a fez sossegar o facho (ainda se usa isso?), também a fez não caber em si mesma.
Ela sentia necessidade de dividir esse amor todo com mais alguém. Ela queria filhos. Queria ser mãe. E mãe dos filhos dele, o seu amado. Sendo assim, decidiu-se. …

A MINHA É DIFERENTE
>> Fernanda Pinho

Doraléia Maria. Esse é o nome da minha mãe. Dizem que mãe é tudo igual e a controvérsia já começa daí. Que outra mãe chama Doraléia Maria? Dizem que foi invenção do meu avô esse negócio de Doraléia, e que não existe homônima. Ela odeia. Diz sempre que é bonita demais pra ter um nome estranho assim. Daquele seu jeito espontâneo. Único.

Dizem também que meu avô foi um homem muito inteligente. E não me resta dúvida disso. Ao batizar minha mãe com uma de suas invenções ele inaugurava um ser humano singular. Só ela é Doraléia Maria. Só ela é do jeito que ela é. As outras mães que fiquem à vontade para serem iguais. A minha não.
E se o nome a torna única, também a define (o senhor era demais mesmo, vô). Dora, do grego, significa "presente, dádiva". Léia, do hebraico, é "abrigo, resguardo". E, Maria, ah Maria! A mulher que ocupa o primeiro lugar. A mãe de Cristo e a minha também. Um presente de Deus. Uma dádiva para mim e para a Paula, filhas. Mas também para meus avós,…

QUE ME PERDOEM OS FILÓSOFOS
>> Carla Dias >>

Eu não sei filosofia. Tive um professor de filosofia no colégio, há mil tempos, mas não me lembro de um nada do que ele ensinou, porque a dele era uma filosofia despedaçada. E olha que eu era boa aluna. Nada naquelas aulas me surpreendeu a ponto de permanecer.

Alguns amigos sabem filosofia, não do jeito que os filósofos a sabem, eu creio, mas de um jeito literário-panfletário, com direito a marcador de texto em mãos, a colorir tudo o que irá parar nas mensagens pessoais ou que será citado em status de rede social.
Talvez o meu problema seja a mania insistente de transformar tudo em poesia. Alguns dizem que faço isso para estragar a seriedade dos assuntos, mas não! Jamais alvejaria seriedades com descaso. Digo em poesia porque sou ignorante, não sei dizer de outro jeito. Não sei o jeito que é para poder dizê-lo.
Assisti a um programa de tevê no qual um filósofo – que não gosta de ser chamado filósofo – estava sendo açoitado com perguntas sobre a filosofia entremeada à política. Não que…

CRIATIVIDADE ROMÂNTICA >> Clara Braga

Quando eu era pequena assistia a desenhos animados com finais felizes, brincava de Barbie e as histórias eram sempre felizes, a Barbie sempre estava com o Ken que ela queria estar, e sei que na brincadeira das minhas amigas as coisas também aconteciam dessa forma bem simples e bonita.

Depois eu fui crescendo, já não brincava mais de boneca, brincava de queimada na escola, gostava de jogar Handball, fazia ballet, colecionava papeis de carta e essas coisas. Mas ainda tinham algumas brincadeiras que os meninos não faziam com as meninas, eram umas brincadeiras que a partir de uma contagem x a gente descobria com quem a gente ia casar, com quantos anos, onde e como ia ser, era impressionante, a gente sabia de tudo em questão de segundos e nem precisava de nenhum tipo de cartomante ou algo assim.

Então crescemos mais, passamos pelo primeiro amor que a gente jura que é o cara das nossas vidas e hoje não sabemos nem se ele está vivo ou morto, e passamos também por aquela fase de idolatrar menin…

OS PECADOS DE CLARA
>> Albir José Inácio da Silva

Os olhos lambiam a vitrine toda, mas sempre voltavam às empadas. Clara apertava os lábios, que sumiam dentro da boca e apareciam a intervalos, como se estivesse em transe. Nesse estado não tinha como não se assustar com a voz da filha, que fazia de propósito, entendendo que o susto tinha melhor efeito repressivo sobre o apetite da mãe.

- Mamãe, você sabe que não pode!

Não era só a empada não, mas era principalmente a empada. A vitrine devia somar milhões de calorias em forma de salgadinhos, doces e uma infinidade de provocações que, na cabeça de Clara, partiam da gula e chegavam à luxúria.

Para o médico ela não ligava mesmo. Tinha oitenta e três anos, a maioria dos quais contrariando conselhos e proibições alimentares. A questão do pecado, sim, ainda a deixava pensativa. Mas só depois que passava. No ato mesmo, na hora H, não se preocupava com nada. Nem o medo do inferno fazia Clara desistir da empada. Depois a consciência pesava. Pedia perdão, mas sabia que o arrependimento só durar…

PIPOCANDO ALEGRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Pedi a Deus alegria, e Ele veio pipocando poesia...

"Deus, me dê alegria...", pedi assim, meio envergonhado por estar pedindo coisa que talvez não se peça porque não pode ser dada à toa. Com a cabeça encaraminholada de culpas e ultrarresponsabilidades, refiz o pedido, já quase sem o ardor do coração: "Deus, me ensine o caminho da alegria".

Minha carência de alegria era graúda, alimentar. Eu tinha fome de alegria. Fome já sem forças de plantar, comprar ou roubar. Fome fraca, sentada em via pública, braço estendido e apoiado sobre a perna em V invertido, boné na mão. Fome andarilha, esfarrapada mendiga:

— Um'alegria pelamordedeus!

Fome minha, quando eu tenho, e eu tenho todo dia, eu sacio com pipoca, quem me conhece sabe. Não armazeno arroz, feijão, farinha... armazeno milho. Não vou pagar um real, um e cinquenta num saquinho. Pipoca eu e faço e como é de bacia. Fome assim tão grande quanto fome de alegria.

Perambulando de fome foi que me vi numa calçada de Pire…