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Mostrando postagens de Março, 2014

EI, VOCÊ NÃO É SHELDON COOPER! >> André Ferrer

Revi alguns episódios de The Big Bang Theory (TBBT). Voltei à primeira temporada e consegui tirar uma teima.
Sheldon apresenta, sim, algumas características da Síndrome de Asperger. Isto é inegável. Trata-se, no entanto, de uma sitcom e Sheldon é plano tanto quanto é possível a um personagem ser plano nesse gênero de entretenimento. Até mesmo o Charlie (Sheen) Harper de Two and a half men (Dois homens e meio) apresenta algumas curvas no seu design psicológico.
Para quem não lembra ou não sabe, personagens de narrativas podem ser classificados como planos ou esféricos de acordo com a sua complexidade. Em geral, os personagens dos grandes romances são esféricos, o que dificilmente acontece nas novelas e nas séries de TV.
A Síndrome de Asperger é um problema que traz muito sofrimento às pessoas desde a infância. Encontrei comunidades na web onde fãs de TBBT se dizem “aspies” enquanto comentam as peripécias do Sheldon e sua turma! Um absurdo motivado por modismo e ignorância. Insisto, portan…

DOMINGOS EM CASA >> Whisner Fraga

Era final dos anos 1980 e as bandas de rock nacional despontavam como ícones adolescentes e eu ouvia todas. Claro que as duplas sertanejas começavam a tomar seu espaço, mas ainda assim com um pé no clássico: guitarra era palavrão para elas. Os discos de vinil eram uma grande diversão, embora cara. Íamos a uma loja, ficávamos a tarde inteira escutando músicas, até nos decidirmos a levar um álbum para casa.

Naquela época, meus pais acabaram por comprar um aparelho Polivox, que devia ter uns 40 Watts de potência, mas resolvia razoavelmente o problema da falta de música no lar. Como éramos seis convivendo em uma frágil harmonia, cada um devia ter seu horário junto ao toca-discos. Eu geralmente aproveitava a noite, e, enquanto todos assistiam às novelas, ajeitava o fone de ouvido para escutar minhas músicas prediletas.

Quando criança, lembro-me de minha mãe lavando nossas roupas. Ao lado do tanque, um pequeno rádio estava sintonizado em uma AM qualquer da cidade. Foi assim que conheci Raul…

DAS NOVAS AVENTURAS >> Cristiana Moura

De cara encantei-me com as entrelinhas da nova aventura, conferindo-me a possibilidade de respostas inusitadas a perguntas comuns.

— Cris, o que você vai fazer amanhã?
— Depende do vento.

Às vésperas dos meus quarenta e dois anos, descobri uma nova paixão — o kitesurf. Para quem desconhece, é aquele esporte aquático que empresta ao azul do céu cores diversas com suas pipas. A pessoa, em cima de uma prancha, é levada pelo vento através da tal pipa multicor.

Ontem me preparei toda para mais uma aula. Logo cedinho choveu e em seguida abriu um solão. Ah, mas logo depois de chuva, isto eu desconhecia, não tem vento. Ontem não velejei. Primeiro aprendizado: depende do vento. Essa ausência de controle trouxe ao meu cotidiano uma leveza-verdade tal. Porque me vejo, tantas vezes, tentando controlar a vida em gestos vazios de excessiva prudência. Esse tal controle da vida, além de cansativo, é ilusório. Minha ilusão foi levada pelo vento.

Antes da ausência do vento de ontem eu já havia experime…

O GATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Nenhum clichê se aplicava ao caso, até então. Não chovia, trovoava ou relampejava assustadoramente. Não era noite cerrada, não havia corujas piando em troncos queimados, a hospedaria não caía aos pedaços, e os hóspedes não andavam de cabeça baixa, sussurrando segredos inconfessos.
Quando ele chegou era plena luz do Sol, e o calor, refrescado por uma suave aragem, que trazia cheiros de mato e água corrente; pássaros cantavam aqui e acolá se viam algumas borboletas; a casa, de estilo colonial, bonita e bem cuidada, era cercada por mata exuberante, os hóspedes pareciam felizes. E, como em qualquer lugar do mundo, examinaram — discretamente, diga-se — o recém-chegado. 
Examinaram, mas logo perderam o interesse. Cabelos na altura dos ombros, brinco na orelha e tatuagem já não são marcas registradas de comportamento rebelde há algum tempo; suas roupas eram simples e ele parecia muito cansado. Ou seja, em breve foi absorvido pela paisagem local e devidamente esquecido. Até porque o tal recé…

A BRIGA NÃO COMPENSA >> Fernanda Pinho

Estávamos eu, minha mãe, minha irmã e meu marido no carro. Minha mãe ao volante. Cerca de oito horas da manhã, num dos principais corredores de acesso de Belo Horizonte. Não é difícil imaginar que havia muitos carros e o trânsito estava lento. Não existia pressa da nossa parte pois havíamos saído com antecedência para nosso compromisso, exatamente por saber de cor e salteado a situação do trânsito naquela hora, naquele local. Não parecia ser, porém, a situação da senhora que estava atrás de nós que, do nada, desembestou a buzinar.
Não fizemos nada, afinal não havia o que fazer. Ela, por sua vez, não se intimidou em nos cortar pela direita e passar por nós buzinando e apontando o dedo do meio. Nossa primeira reação foi cair na gargalhada. Depois, morri de pena. Pena porque nem precisa ser muito inteligente para saber que a ultrapassagem não adiantou em nada e ela continuou empacada no trânsito, como estávamos todos. Pena porque ela rumaria a um compromisso importante (acredito eu que …

SEM DESTINATÁRIO >> Carla Dias >>

Eu não sei quem você é. Você não sabe quem eu sou. Não sabemos se temos algo em comum: desejos, discos, comida, partido político. Não fazemos ideia se, dia desses, estaremos em um mesmo lugar, na mesma hora.

Por nada saber sobre você, eu imagino com a imaginação desenfreada. Lembra-se de quando pintávamos desenhos na escola? Era pato azul, margarida verde, pele laranja. O preceito desse meu sentimento em relação à imaginação é o mesmo. Trata-se da mesma liberdade daquela época, de quem ainda não decorou a verdade absoluta sobre isso e aquilo. De quem ainda não desaprendeu a desconfiar de qualquer verdade absoluta.
Absolutismo me dá preguiça. E pra você? No que dá?
Ah, sim, a vida urge e a telecomunicação anda muito mais rápida e rasteira do que no tempo dos classificados em revistas de novelas em quadrinhos, as velhas, porém interessantes, fotonovelas. Nelas, parecia que o tempo era mais largo, não? As pessoas conversavam sem pressa, e suas feições eram congeladas pelo sentimento tra…

DESCULPA POR NÃO AJUDAR >> Clara Braga

Tudo começou com o tal garoto que ficava em cima de uma mala morrendo de chorar, na beira de uma rua, em um meio fio. Então alguém comovido para, conversa e entende a situação do pobre garoto que só quer reencontrar a família, mas não tem dinheiro para voltar para sua cidade. Eis que a pessoa vai até o banco, saca uma alta quantia e dá para o garoto, que logo arruma outro meio fio para chorar e arrancar dinheiro do povo que, como eu, se comove fácil.
Depois teve a tal ligação desesperadora, com alguém gritando atrás enquanto a pessoa diz que sequestrou um parente seu. A ligação é tão real e os bandidos falam tão rápido que a vítima não consegue nem raciocinar. Consequência, já vi gente que nem tem filho se desesperar com a tal ligação que dizia que ia matar o filho dela caso um depósito não fosse feito.
Ai tem as ligações falsas de banco e operadoras de celular que falam que você precisa refazer algum cadastro e, quando você menos espera, está com o cartão clonado. Os SMS falsos dize…

PERSEGUIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

Pedro olhou pro relógio quatro vezes nos últimos cinco minutos. O ônibus não estava atrasado ainda, mas podia se atrasar. Mexia-se, mão no bolso, coceira na perna, na cabeça. Abre bolsa, fecha, confere a marmita. Não vazou, já tinha visto isso.

Uma estudante percebe a angústia. Pedro foi pouco à escola, mas sabe que se pode chegar atrasado lá. No máximo fica de castigo. Ele, não. Não pode se atrasar. A menina não se contém: “Calma, moço, o ônibus já vem”.

O ônibus podia chegar mais cedo, pelo menos hoje. Nada pode ser pior do que atraso hoje. Quer dizer, o pior aconteceu ontem, botaram o Jorge como encarregado. Tanta gente pra escolher. Tinha que ser o Jorge. Jorge que nunca gostou dele. Jorge que o perseguia, humilhava, antes mesmo de ser encarregado. Imagina agora, o que não vai fazer.

Deve ser coisa de santo que não cruza, essa ojeriza desde o dia que Jorge chegou na fábrica. Cabelo esquisito, manga dobrada pra mostrar que é forte, nariz pra cima e voz gritada. Pedro detesta voz al…

VIDA E MORTE DE UM TRAUMA
Eduardo Loureiro Jr.

Trauma é quando uma coisa muito ruim acontece e aquela coisa continua acontecendo dentro da gente mesmo que já tenha parado de acontecer do lado de fora.

Quando eu fazia a 2ª série e tinha oito anos, deu vontade de fazer cocô no meio de uma aula. Pedi licença à professora e fui ao banheiro. Só depois que me aliviei é que descobri que não havia papel higiênico. A solução que encontrei foi me limpar com a cueca. Acho que ninguém na sala percebeu que eu estava sem cueca nem a zeladora reparou numa cueca escondida no cesto de lixo, mas, daquela manhã em diante, eu nunca mais saí de casa sem fazer cocô antes. Com vontade ou sem vontade, eu sentava no vaso de casa o tempo que fosse necessário para expelir alguma coisa. Estava criado meu trauma, que, por anos e ânus, me trouxe minutos diários de leitura no banheiro, muitos frascos de elixir paregórico e hemorroidas.

Décadas depois, por uma questão de saúde, tive que desfazer, minuto a minuto, gota a gota, fibra a fibra, o meu hábito. E eu a…

LERO-LERO >> Paulo Meireles Barguil

Lero-lero, conforme o Houaiss, significa conversa vazia, inútil, vã. Essa expressão deriva de léria – lábia, fala astuciosa que visa iludir, enganar outrem – e lereia – conversa inútil, estéril, oca, sem nenhum resultado prático; conversa fiada, conversa mole.

Em meio a tantas conversas, é natural que, vez por outra, a gente entre em uma sem futuro. Até mesmo porque, não se sabe, a priori, o resultado dela, a não ser que pelo menos uma pessoa intencione enganar, em virtude de seus objetivos...

Nem sempre a verdade é dita, seja porque algo pode comprometer alguém – na maioria das vezes, o próprio falante, como é o caso da maioria daqueles que exercem o poder e desejam com ele permanecer – e implicar em mudança da realidade, seja porque a pessoa sabe que ignora – um professor, por exemplo, que, em pleno século XXI, tenta manter a máscara de que conhece tudo e, em vez de reconhecer seus limites e dizer que vai pesquisar, prefere falar difícil e manter a pose.

Rogério Cardoso interpretou…

OS EX-AMIGOS >> Mariana Scherma

Porque as pessoas mudam, porque o mundo dá voltas numa quantidade suficiente pra deixar a gente com tontura e porque sentimentos não são estáticos. É por isso que eu acredito que as amizades não são eternas. Se nem casamento, com juras perante a padres e juízes de paz, é forever and ever, que dirá as amizades, que, se possuem algum tipo de juramento, muitas vezes acaba sendo feito após vários copos de cerveja em um boteco ou de whisky e energético em uma festa open bar.
Tem quem culpe a distância por tornar grandes amigos ilustres desconhecidos. Não concordo. Acho que a distância apenas potencializa o que há de acontecer nas amizades. Se é uma amizade que vai durar, ela dura mesmo com quilômetros e oceanos entre duas pessoas. Agora, se a relação já está capengando e vem uma estrada (enorme ou não) no meio do caminho, ih, pode esquecer. Tenho amigos que moram distante e toda vez que nos vemos é como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior. Muito assunto, as piadas internas seguem f…

O CROONER DE RESTAURANTE >> Carla Dias >>

Quando menino, daqueles que preferiam escutar um disco do Supertramp a dar estilingadas por aí, descobriu o que a maioria de nós sabe: há canções que dizem exatamente o que desejamos dizer naquele momento em que as palavras fazem a diferença. Para a maioria que somos nós, isso é algo interessante, e até costumamos pegar emprestados versos de canções para declarar sentimentos àqueles que nos fazem calar com sua graça.

Mas o que ele, menino dos que preferiam dublar, faixa a faixa, um disco inteirinho dos Beatles, usando o controle remoto como se fosse microfone, a sair por aí, integrante de turmas de moleques loucos por futebol, o que esse menino compreendeu e aceitou é o que o difere de nós.

Ele não sabe dizer sentimentos profundos. Ele só sabe cantá-los.

Ele se tornou um adulto conhecido no circuito dos restaurantes mais bacanas de sua cidade. Muito bem vestido — mas nem sempre de terno e gravata, meus caros, que o figurino depende do cenário e da história a ser contada com versos em…

DO CONTRA >> Clara Braga

Ao longo do tempo percebi que as crianças não leem mais as revistinhas da Turma da Mônica como liam antigamente. E se leem, são aquelas nas quais a turma já é adolescente. Nunca li uma dessas, puro preconceito, eu sei, mas acho que Turma da Mônica de verdade é aquela com eles crianças.
Também não se assiste mais Chaves, como pode? Chaves é tão bom! Lembro de uma amiga minha que disse que não permitia que a sua filha de 2 anos assistisse Chaves porque toda vez que ela assistia queria bater nas pessoas, ou seja, Chaves é ruim para a formação de uma criança. Será? Se fosse assim, como pode as crianças não lerem Turma da Mônica e serem iguaizinhas ao personagem Do Contra?
Comecei a dar aula de artes para crianças em uma escola e, pelo visto, criança hoje em dia é assim. Você diz "vamos falar baixo para ouvir o colega", então eles começam a berrar e fazer sons tão estridentes que eu tenho certeza que só os cachorros escutam, porque eu já fiquei surda! Você diz "não pode cor…

NA BARBEARIA >> André Ferrer

Quem nunca foi ao barbeiro e, durante a espera, teve que aturar um tiozinho que, triunfante, afirmasse: "no tempo da ditadura, vagabundo não tinha vez"? Daí essa história de Marcha da Família ou coisa que o valha não constituir nenhuma surpresa para mim. Cedo ou tarde, os tiozinhos da barbearia mostrariam a cara.
Não pense, contudo, que eu seja de esquerda. E como simplesmente repudio qualquer manifestação do maniqueísmo, corra para bem longe de mim se você acha que eu e os saudosistas do DOPS nutrimos alguma simpatia uns pelos outros. Acredite: é possível não ser marxista e não desejar uma intervenção militar neste país.

Ocorre uma paranoia na sociedade, que se reflete nas redes sociais. Graças à preguiça mental, as pessoas tendem a colocar a esquerda e os militares em lados opostos, como se os roteiros maniqueístas de Anos Rebeldes e O que é isto companheiro? reverberassem ad aeternum nas suas cabecinhas afetadas pela maior emissora de televisão do país. Ora, todas as ditadu…

DE JOVENS E MOTOS >> Whisner Fraga

Em 1959, Emilinha Borba lançava a música “Corre, corre, lambretinha”, que fez um sucesso danado no carnaval daquele ano. A letra, “Hoje tudo está mudado, mudou tudo, sim, senhor, e eu tenho uma lambreta para ver o meu amor”, arrancava suspiros de marmanjos. Quem não queria ter sua própria condução? Meu amigo Enio Eustáquio pode ser que se lembre dessa canção, embora eu ache que, naquela época, ele ainda não frequentava os bailes da cidade.

Um contemporâneo dele, meu pai, um ousado pivete de treze ou quatorze anos, inspirava-se na musa e imaginava-se com sua própria lambreta. Enquanto isso, o irmão, meu tio Tião, uns dez anos mais velho, já realizava o sonho da Vespa-própria e zanzava motorizado por Ituiutaba, para inveja de todos os moleques.

Reza a lenda que este tio, um belo dia, chegou em casa um pouco alegre com as cervejas a mais que bebera naquela noite. Louco por uma cama, mal desce da Vespa e pede ao primeiro que vê pela frente para guardá-la. O primeiro, por sorte, era meu pa…

DICIONÁRIO DA CONDESSA ANNABELLE CHOSEDELOC >> Zoraya Cesar

Vagando pelos jardins, ouvindo a cantilena monótona de Mlle. Fleur du Cactus, dei-me, repentinamente, por entediada. Ela não parava de falar do jovem tenente por quem caíra de amores e que estava tentada a largar a confortável vida de casada para viver uma aventura. Mon Dieu, como são parvas essas jovens. 
Cresceu em mim uma generosa – minha principal característica, juntamente com a modéstia – e irreprimível vontade de ensinar às jovens inocentes e incautas o que realmente é a vida. Confesso que o desejo de ter o que fazer também me mobilizou. Comecei então a elaborar um dicionário, no qual revelo a verdadeira natureza dos objetos que nos cercam, na esperança de ajudá-las a entender os perigos do mundo  e como tirar proveito da vida. Esses são os primeiros verbetes:
RELÓGIO
Substantivo masculino e, portanto, praticamente inútil. Criado com o específico fim de infernizar as mulheres, a palavra deriva do latim horologium, conhecimento da hora. Para quê? São sempre horas de fazer algum…