segunda-feira, 10 de março de 2014

BEM-VINDOS! >> Albir José Inácio da Silva

(Discurso solitário da vovó Cotinha no vidro do berçário.)

Bem-vindas a este mundo, crianças!

Perdoem-me pelas palavras já gastas, mas não sei dizer diferente. Desculpem também a falta de otimismo, mas, depois que se vive tanto, otimismo é incoerência.

Aqui estão vocês. Aqui estamos. Gostaria que outro mundo os recebesse, mas é o que temos. A essa altura já descobriram que o oxigênio é doloroso na primeira vez, e contaminado nas próximas, mas não se pode ficar sem ele. Brigarão por ele como pelos demais direitos, que lhes serão reconhecidos, mas nem sempre garantidos.

Com ou sem direitos, é melhor que os meninos vão logo desaprendendo a chorar, que isso não fica bem nos homens. O que devem fazer é perseguir as meninas, cutucando onde for possível.

Meninas, fujam dos meninos porque eles são vândalos e pecadores. Podem até gostar deles, mas a distância, com risinhos e sinais.

Mas deixemos de filosofices que vocês querem saber é da vida. Por enquanto não percebem muita coisa, mas para conhecer o mundo é melhor começar por vocês mesmos.

Se levantarem as mãos, poderão tocar a cabeça, essa superfície lisa, que depois vai se encher de cabelos. Cabelos que vão desesperar os homens, quando começarem a cair, e as mulheres, durante toda a vida. Dizem também que é aí que nascem os chifres, mas não se preocupem com isso porque nem o espelho mostra.

Descendo pelo lado, vão encontrar a orelha, tem uma de cada lado, e é por aí que ouvem a minha voz. Ouvirão coisas boas e coisas ruins pela vida a fora e, às vezes, desejarão ser surdos. Orelhas servem também para colocar dolorosos brincos nas meninas. Depois de grandes, alguns meninos também colocam brincos, mas é porque este mundo está de cabeça para baixo.

Na frente estão os olhos, muito sensíveis, que vocês piscam agora sem parar por causa desta luz branca. Acham muito forte? Esperem para ver o sol. Pelos seus olhos passarão coisas bonitas e outras que desejarão esquecer.

Abaixo dos olhos, o nariz, que serve para cheiros bons e ruins, mas ainda é cedo pra vocês identificarem uns e outros.

Então vem a boca, que vocês usam para mamar, embora, de vez em quando, algum remédio ruim os leve às caretas e até ao choro. A boca serve também pra falar, e tem outras utilidades que vocês ainda não têm idade pra saber. Nela nascem os dentes, que permitirão as primeiras maldades.

Depois vem o pescoço, que serve pra segurar a cabeça e pendurar colares como vocês podem ver.

Logo abaixo, o peito, que sobe e desce com a respiração. Nos meninos fica assim mesmo, subindo e descendo ao ritmo da respiração e latejando com o coração. Vai doer de angina e de amores, mas não pode parar. Mas, nas meninas, vai crescer bastante e precisará ser escondido.

Descendo, tem a barriga, que incha por abrigar a comida e as cólicas.

Se esticarem os braços e encolherem as pernas, poderão tocar os pés. Os pés servem pra pisar o chão, e doer com calos, joanetes e sapatos, além de sangrar com topadas e manicures.

Subindo encontrarão as canelas, que são fortemente atraídas por cadeiras e mesinhas.

Chegamos aos joelhos, que parecem existir apenas para apresentar defeito. Esta minha bengala é prova disso.

As coxas são grandes e fortes colunas que se ligam ao bumbum.

Ah, o bumbum! Que recebe injeções e palmadas educativas. Estas são importantes. Eu mesma apanhei à beça, e só por isso não virei bandida. Eu tenho gênio ruim. Tem uns que apanham muito e viram bandidos, mas deve ser porque ainda foi pouco. Hoje os liberais querem proibir palmadas. Deve ser porque não receberam as que precisavam.

Na parte da frente, contornando, melhor não mexer. Essa é a parte do pecado. Antigamente punia-se com queimaduras a mão infratora. Mas, agora, a libertinagem dos costumes tem punido quem pune o pecado. Onde vamos chegar?

Bem, crianças, vejo vocês por aí, na praça ou na calçada. Depois explico mais algumas coisas.

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2 comentários:

Zoraya disse...

D. Cotinha para s Secretaria de Educaçao já, agora!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

São Pedro no céu, no final. E D. Cotinha na terra, no início. Adorei, Albir. :)