Postagens

Mostrando postagens de Maio, 2022

PRIORIDADES TECNOLÓGICAS >> Clara Braga

Chegamos na era do 5G! Cartões de crédito e débito estão se tornando cada vez mais desnecessários, já que tudo se resolve com pix. Os celulares são cada vez mais imprescindíveis, afinal, são eles que pagam as contas, indicam os caminhos, pesquisam as dúvidas, disparam alarmes, conectam com câmeras de segurança e muito mais do que você consegue imaginar. Só não diria que eles são mais imprescindíveis do que já são porque eles não te abraçam, ainda! As inteligências artificiais estão cada vez mais humanas, aliás, já as considero mais humanas do que muito humano. O tal metaverso é a grande promessa da atualidade, e parece que só eu não entendi ainda do que se trata. Tudo agora parece que pode ser muito bem aprendido se você dedicar apenas 5 minutos do seu dia. Aliás, qualquer atividade que dure mais que isso já é considerada longa! Os bilionários já estão garantindo um lugar no espaço para fugirem de tudo que eles destruíram por aqui. E eu, que nasci guerreira e não herdeira, vou ficando

SALA DE AULA >> Albir José Inácio da Silva

  Ao contrário do que tenho ouvido dos alunos de hoje, a sala de aula sempre representou para mim um encantamento: a presença de pessoas tão diferentes, atentas umas, distraídas outras, algumas sorridentes, outras sérias, as que falam alto, as que nem falam; as relações que se desenvolvem timidamente a princípio, por olhares, por sorrisos, por gestos de cortesia.   Todos concentrados no que acontece a frente, nas palavras e gestos do professor, mas também prestando atenção nos outros. Muitos vão se transformar em amigos, outros nem tanto, e outros ainda serão indiferentes. Mas todos têm potencial. A sala de aula é uma possibilidade de convivência que de outra forma não se teria. Há uma necessidade de se estar ali, mas há também a inafastável emoção do encontro. Apesar do desenvolvimento nas comunicações, as possibilidades de encontro e de convivência diminuem para o humano moderno. Conversa-se com o colega do lado pelo celular ou computador. As pessoas trabalham juntas, mas pass

PARTES NUM OUTONO >> Sandra Modesto

  Entardecia. Na boca da noite, um lento vendaval. Cheguei ao Tijuco. Quando o sol corta certa ansiedade, quando eu morro algumas saudades, quando minha pátria morreu em mim. Ela volta. Sinto o cheiro devorando nossas inquietações. E agora? Noite é um lugar onde as dores multiplicaram- se e há outono nem sempre igual. Por aqui, saudades de um sagrado verão. Agora eu sou misturada. Não importam as estações, de vez em quando uma temperatura miúda, um resfriado pequeno, alguns sonhos cantando. O rio debruçado em estranhezas. O corte da cana, o aroma de poeira, se é que, poeira tem aroma. Devoro o olhar numa devastação chorosa. Um senhor correndo para buscar o facão e levar para roça, uma criança chorando porque não ganhou chocolate, um sol amornando os dias, o moço pedindo alimentos de casa em casa. Vi arroz, feijão e pensei: “Óleo”.  Peguei um litro na mercearia da esquina, pedi para anotar, cheguei perto e entreguei. Naquele domingo, ele ia comer o básico no almoço.  “Deus te abençoa”.

A BIBLIOTECA >> Zoraya Cesar

Imagem
Naohline chegava pontualmente às 12h. Entrava como quem pedia desculpas por incomodar as aranhas sonolentas e perdidas em suas próprias teias, por perturbar o andar do tempo, por fazer voar a poeira acumulada nos cantos. A velha senhora estava lá, como sempre, sentada com um livro nas mãos, uma xícara de chá fumegante ao lado. E também o corvo. Um enorme corvo de penas azuis do mar profundo, que brilhavam mesmo quando nelas não incidia luz. A velha senhora não tinha nome. Era só a Sra. Dona dos Livros. Mal olhava para os visitantes, apenas apontava para uma estante e, depois, para uma das mesas espalhadas no salão. A pessoa pegava o livro – exatamente o que queria ou o que precisava – e sentava-se no lugar indicado. De vez em quando entrava algum indesejado, mas imediatamente o corvo crocitava tão ameaçadoramente, que o desavisado saía para nunca mais voltar (nem poderia, jamais encontraria a biblioteca de novo). A velha senhora pegava o telefone (um desse de discar!) e desancava o

LITERATURA NÃO É SACERDÓCIO >> whisner fraga

o brasil é um país consumidor de livros e o nosso povo lê, mas lê mal, lê o fácil, prefere comida mastigada, ultraprocessada, pronta para engolir: postagens de facebook, manchetes de jornais, legendas de fotos do instagram, páginas de fofocas, livros de autoajuda, best sellers em geral, de preferência de autores norte-americanos,  o resto quer de graça: acham que devem ganhar um livro do escritor amigo, imaginam que arte é passatempo, é desabafo, a exemplo dos versos da adolescência,  estão inebriados pelo clichê de que grandes artistas morreram pobres - desnecessário comentar as aberrações contidas neste raciocínio, nem vou cair na tentação de comparar o preço de um romance ao da cerveja ou, mais recentemente, ao do litro da gasolina e, se o capitalismo prezasse pela justiça, uma obra literária valeria bem mais: duzentas páginas não podem ser concebidas da noite para o dia, são necessárias centenas, às vezes milhares de horas de pesquisa, de reescrita, de esforço, de leitura, de suor,

Filomena >> Alfonsina Salomão

  - Corta! Não, Filomena, essa queda não ficou natural, vamos fazer de novo!   Filomena já não aguentava mais aquilo. Devia ser a trigésima vez que se jogava do banco ao ouvir o barulho de tiro... Estava cansada de acender o cigarro e sentir aquele gosto de cinzeiro na boca, o braço doía com o peso da arma falsa e o estômago revirava com o cheiro de ketchup na parede. O que teria dado errado desta vez?   - Você está muito dura, ninguém cai duro desse jeito! Você ainda não morreu, está morrendo, mas só morre mesmo depois que atinge o chão. Vamos fazer de novo!   Fácil falar quando não é ele que está todo cheio de roxos, depois de tanto tempo se atirando ao chão. O short curto e a barriga de fora também incomodavam Filomena. Cada vez que estava ali, se esforçando para parecer um cadáver, sentia o olhar perverso do câmera-man sobre seu corpo, o que lhe causava um misto de asco e revolta. “Que ideia aceitar este papel...” Ela sempre fazia isso: dizia sim para tudo o que aparecia e só depoi

O PAVÃO AZUL >> Sergio Geia

Imagem
  Domingo de manhã. Cris, minha cunhada, expunha suas peças de artesanato na praça viva. Após anos sem nos encontrar por conta da pandemia, a conversa rolava solta, era suave e fazia bem. De repente, avistei sobre a bancada de cimento onde ela expunha, o delicado pavão azul, símbolo do artesanato de Taubaté, e símbolo do artesanato paulista, ratificado por um concurso da SUTACO, em 1979.  E foi assim, pela segunda vez, que o pavão azul me chamou.  Explico.  Era um evento que acontecia na Avenida do Povo. A Academia Taubateana de Letras expunha a obra dos acadêmicos, eu trabalhei para o estande da Academia. Ao concluir o meu horário e ser rendido por outro acadêmico, fui dar uma olhada nas exposições da feira, na praça de alimentação, nos food trucks . Na barraquinha das figureiras, avistei dezenas de pavões, e não tive dúvidas: comprei dois.  A arte é delicada e única. O tom de azul utilizado é especial, pintado com pó xadrez azul ultramar. Utilizando-se de técnicas criadas pela figur

MIMETISMO >> Paulo Meireles Barguil

Imagem
  Era pouco antes das 08h00.  No caminho da sala de aula, encontrei-a. Estivesse eu mais distraído, teria pisado nela. Permiti-me parar e contemplar a sua beleza. Ela, tímida e prevenida, logo achou um esconderijo. Esperei, pacientemente, que ela saísse e me possibilitasse eternizar o encontro.  Cada animal se protege como sabe e pode dos perigos. Ela usa o mimetismo. Silenciosamente, ela me indagou: "Até quando você se ocultará?".  Alegando que eu estava atrasado para a aula que iria ministrar, saí sem respondê-la, mas, antes, agradeci pelo epifânico encontro. E você, leitor(a), qual é a sua camuflagem preferida? [Fortaleza – Ceará] [Foto de minha autoria. 20 de maio de 2022]

O ABREVIADOR >> Carla Dias

Imagem
A idade ele não abreviou, ainda assim, acredita que ela se antecedeu por conta, que pulou etapas, engoliu parte de sua história. Não que seja um reclamador contumaz do caminho natural da vida. Não teme nem se apega ao que a maioria lamenta no envelhecer. Na verdade, sente-se curioso sobre como será a pessoa que se tornará ao ver seu corpo se negar a executar alguma tarefa, inclusive interna. Lerá mais livros de ficção? Finalmente aprenderá a nadar e mergulhará, considerando limites impostos pelo corpo, no rio lá do sítio? Relaxará a ponto de sorrir só porque o pôr do sol lhe parece o mais espetacular que já viu? O Abreviador é um indivíduo indispensável. Não tê-lo à disposição seria o mesmo que condenar as pessoas a uma eterna disputa sobre o que não tem importância, a gastar tempo valioso em conflitos, sem justificativa.  Antes dos Abreviadores surgirem, as intervenções se tornaram donas da rotina do mundo. Não havia juiz, terapeuta, líder religioso ou antidepressivo que amenizasse si

E AGORA? - final >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 02/05/2022)   O REVERENDO   Somos ungidos, somos humanos, temos direito de errar. Mas confesso que ando preocupado com o juízo final. Vocês acham que teremos problemas em explicar para Jesus o apoio a defensores e praticantes de tortura?   Não bastassem aquelas preocupações espirituais, fui acometido por uma tosse que me sacudia o corpo e fazia guinchar a respiração. Melhorava com doses duplas de xarope antialérgico, mas recomeçava com a lembrança de que eu havia sabotado orgulhosamente a vacina e me entupido de cloroquina. Às quatro da madrugada apaguei de cansaço e overdose de xarope.     Luzes azuladas agrediram meus olhos vermelhos da tosse. Rolos de nuvens dificultavam a visão, mas eu ouvia hinos de um coral. Estava em choque, mas pelo menos não estava no inferno. Era um julgamento no clima do filme O Auto da Compadecida, com diferenças boas e más.   O acusador era o mesmo, vermelho, com chifres e rabo de seta. O advogado era Jesus, felizmente

ANGÚSTIA >> Sandra Modesto

  Gostava da calmaria antes de tudo se perder Do gesto suave ás vezes sem hora marcada Sem medo Mesmo olhando o luar sobre nossas cabeças encostadas e ofegantes de amor Gostava quando o silêncio não era o fim E nessa vida repentina, choro, velas, insônias. Nem o café é doce Nem o cheiro é vivo A gente cruza o passado e o agora Entende que o coração abandona o barco Sem leme, sem poemas bonitos. O peito abafado A brutalidade dos dias O ano catando a cantoria perdida, naquela emoção de que tudo vai diminuir. Afinal, são mais de três anos tramados pra o país acabar. Desde o fatídico janeiro de dois mil e dezenove. Houve momentos de desespero, choros, exaustão. Onde foi que nos perdemos e porque perdemos tanto? A angústia de cada dia A angústia virando a doença emocional nessa dança brasileira de lutar contra o tempo Nos arranjos e perrengues, lágrimas melando o rosto enrugado ainda que essa ruga não seja protagonista. Mas é uma ruga, é uma coluna em desvio no meio do cais sem rumo. É uma

O CÃO E O ESPANTALHO 2ª parte >> Zoraya Cesar

Imagem
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas sabia uma coisa: não podia permitir que aquele cachorro dos infernos cavasse debaixo do espantalho.  (Estão ouvindo? Olha ele ganindo de novo, o desinfeliz)   ------------------------------ Tomei uma decisão que alguns podem achar radical, mas, para mim, perfeitamente normal. Coloquei veneno em alguns bolos de carne e espalhei em volta do espantalho. O cheiro estava tão bom que eu mesmo quase comi um. Agora aquele cachorro infeliz ia aprender a não mexer nos meus segredos. Nessa noite nem o cachorro nem a velha bruxa desdentada deram o ar de sua desgraça – nada de uivos ou incensos fedorentos. Mas a filha, aquela desgrenhada, montou uma fogueira no quintal delas, e pendurou um caldeirão velho e descascado. Na certa, mais uma das quinquilharias que o marido comerciava. Dormi bem pela primeira vez desde que eles chegaram. Sonhei que o cachorro estertorava em agonia depois de ter comido as bolas de carne. Foi um sonho bom. Até a hora em qu

DIAS MELHORES >> whisner fraga

 sou um paranoico irremediável e nem desejo tratamento aos trinta e cinco, talvez um pouco mais, do segundo tempo e a pandemia aguçou isso, uma pandemia que eu acabei achando infinita e ainda não tenho certeza se estava certo ou não: é duro retornar, duríssimo e, quando uso o termo “retornar” é algo mais ou menos como ir ao supermercado, farmácia, pet shop, correios, rotineiramente e, pior: sem máscara, melhor: os outros sem máscara, porque ainda não me atrevi a compartilhar qualquer recinto fechado ou aberto com qualquer pessoa se eu não estiver usando o equipamento, mas não é só isso me incomodando não, é mais: é quando percebo uma certa prudência para falar do ocorrido, das quase setecentas mil mortes, das sequelas conhecidas e ignoradas, é como se o trauma fosse tal que o melhor fosse empurrar tudo pra debaixo do tapete, essa capacidade de cavalo de pau da vida, de dar a volta (não digo por cima) completamente, de ignorar uma doença pelo bem-estar mental (longe de minimizar a impor

PERFORMANCE >> Carla Dias

Imagem
A roupa sob medida não atende à medida de seu corpo, aperta-lhe e sufoca os movimentos. O chapéu, para finalizar, é detalhe importante , o assistente designado comunica, hábil em evitar que olhares se encontrem. Não sabe quando foi a última vez que alguém olhou para ele. Na verdade, durações chegam nubladas à sua percepção. O barulho da máquina avisa que é hora de adequar a aparência. O assistente pede ao seu assistente que ajude com o corte. Ele acredita que precisa de ajuda, não importa quão simples seja tarefa a ser executada. Vê seus cabelos caídos no chão e se emociona. Não sabe dizer quando foi a última vez que olhou para eles. O assistente do assistente chacoalha a máquina, ele sabe porque reconhece o barulho. Já o escutou quando não era ele sentado naquela cadeira. Acata à ordem não verbalizada para que pare de mexer a cabeça. Pensa em quando eram três dividindo um cômodo. Cabia tanta vida naquele lugar, apesar de viverem em um espaço limitador de caminhadas. Então, o mais velh

O MENINO DA MEIA PRETA >> Sergio Geia

Imagem
  Ganhei uma meia preta. Uma não. Na verdade, três, três pares de meias, para a minha alegria, todas pretas. É que eu só tinha meias azuis. Sonhava com meias pretas.  Meia comum. Segundo os especialistas, meia social masculina, de modelagem clássica com cano longo, confeccionada em algodão, poliamida, elastano e elastodieno. Segundo o povo, meia fininha que homem, principalmente os antigos, usa quando veste roupa social e sapatos clássicos, como um Oxford, por exemplo.  A alegria foi tanta, mas tanta, que logo tratei de entrar em meu calção de nylon branco, de vestir a minha camisa do Palmeiras com o número 7 nas costas, pegar o meu kichute, tudo para estrear a beleza da minha meia preta que acabara de ganhar.  Saí à rua com a bola na mão, e logo vi Sandrão, Banana, Cabeção, Bertinho e Veludo sentados na calçada batendo figurinha. Assim que me viram paramentado e com a bola na mão, já começaram a se levantar, sabedores do que estava para acontecer.  — Timinho? — alguém perguntou.  E l