SOL SOMBRIO: OS MORTOS NÃO MORDEM - PARTE V >>>>Nádia Coldebella

A noite já guardava seu manto de estrelas, subjugada pelos primeiros raios de sol, que, em laranja e vermelho, faziam do céu uma gigantesca aquarela que logo estaria manchada de uma infindável paleta de tons, que pouco a pouco, transmutar-se-ia em azul índigo profundo para aquele amanhecer. No pico da montanha onde sentara-se, Morus poderia ter uma visão privilegiada da pintura que manchava a grande tela celeste se não estivesse alheio a qualquer coisa que não fosse a própria dor. 


Estava de pernas encolhidas e as abraçava fortemente. Abaixara a cabeça, apoiando-a sobre os joelhos. Sua mente contemplava o desfile dos mortos e era por cada um que lamentava: o irmão ajoelhado, que cortou a própria garganta, não se sabe se por horror, desespero ou fagulha de esperança; a mulher cinzenta, elegante, audaz e cortada ao meio... Tantos, homens e mulheres, de lugares e épocas, todos haviam juntado-se ao exército daqueles que emudecem no túmulo.

No entanto, para nenhum dos mortos eram aquelas lágrimas, só para Chalc'oz, o anjo vermelho e abrasador... Seu corpo estremeceu, movido pelos fortes soluços que irromperam de sua garganta e macularam a taciturnidade daquele inicio de manhã. 

Eu choro agora. -  pensou, não contendo um riso sarcástico e enlouquecido, que contorceu seu rosto e arrancou um gemido violento da garganta. Ele incomodou-se, não com a dor, que passava da alma às entranhas, mas com um raio de sol que, fortalecido pelo avançar das horas, incidiu diretamente sobre seus olhos, lhe tirando por alguns segundos da própria ensimesmação. Não era bem-vindo: o reflexo radiante daquela luz estampou em sua retina a face caiada do irmão.

Levantou a cabeça dos joelhos e a jogou para trás, o gemido mais violento que antes, mais gutural e cavernoso do que algum dia que ele pudesse se lembrar. A dor, pedra quente em seu peito, inflamava a alma. O ódio, espada venenosa, mutilava  cruelmente  o coração ferido. Outro grito emergiu, vindo de um lugar ainda mais profundo e desesperador, quando o sol, gritando pelo seu anjo vermelho, tingiu de cobre uma pedra a sua frente. 

Ele estendeu as asas negras e elegantes e, por um momento, elas elevaram-se ao céu, como mãos postadas em oração, para em seguida, circundarem-no, formando um casulo. Enquanto dentro da redoma o anjo mortificava-se na sua própria comiseração, perdido na mais densa escuridão, fora, os raios de sol procuravam, insistentes, um caminho até seus olhos, mas, frustrados, apenas refletiam-se nas penas das asas, desfilando todas as tonalidades possíveis para um negro arco-íris.


O tempo não corre dentro das asas de um anjo, ele pensou, quando as abriu, sem saber quanto tempo havia decorrido desde que sentara no topo daquela montanha. O tempo também não mata um anjo. - continuou para si mesmo - Ele deixa isso para Hyalin - estava completemante mortificado.

A dor doía tanto que já não sentia dor. Sentia uma espécie de anestésica mornidão, que era incômoda e relaxante, que formigava em seu peito e o deixava quase devagar, quase alheio ao mundo, quase separado de si. Ele era quase dois. Estendeu as pernas e movimentou os braços, tentando liberar o corpo do torpor que mergulhara. 

Apalpou-se e sentiu o volume do livro que custara a vida de Chalc'oz. Retirou-o de dentro do casaco e abriu a primeira folha. Verborum obligatio, verbis tollitur, estava escrito. A obrigação das palavras estingue-se com as palavras. Ele riu da hipocrisia das palavras.

A prisão das palavras, a comiseração das palavras, tudo registrado nas páginas dois, três e quatro do livro, em uma língua muito antiga, quase sem um tempo definido, caligrafada com esmero e delicado cuidado. Eram as cláusulas pétreas dos pactos faustinos e, apesar do desgaste das páginas, a tinta das palavras era bem visível. A partir da página quinta, as assinaturas daqueles que concordavam com o pacto, centenas, milhares, todas registradas com sangue. E nenhuma palavra havia sido extinta até aqui. 

Até aqui, pensou Morus, deixando agora que a luz do sol brincasse com suas retinas. Ele passou o dedo sobre a última assinatura e sorriu, deleitando-se com o próprio latim. Mortui non mordent*.


Continua em 19/05.

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* Os mortos não mordem. (Plutarco)


Leia as outras partes de Sol Sombrio aqui:

Parte 01: Os irmãos

Parte 02: O ajoelhado

Parte 03: O contrato

Parte 04 : A dança da morte

Comentários

sergio geia disse…
" (...) todos haviam juntado-se ao exército daqueles que emudecem no túmulo." Que frase, hein! Que venha mais para o nosso deleite.
Zoraya Cesar disse…
"O tempo não corre dentro das asas de um anjo,"
Nádia, tá decidido. Isso vai virar uma novela, vc vai publicar online e impresso e eu faço questão de uma cópia. Por favor, antes, eu pedia pra vc terminar logo q eu nao aguentava com a angústia da espera, agora eu quero q vc demore muuuuito, pois estou encantada!
Albir disse…
E eu também me mortifico na minha própria comiseração, perdido na escuridão de suas páginas, preso, não sei se por gosto ou por servidão!
Cada vez mais bonito, Nádia!

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