E AGORA? - final >> Albir José Inácio da Silva

 

(Continuação de 02/05/2022)

 

O REVERENDO

 

Somos ungidos, somos humanos, temos direito de errar. Mas confesso que ando preocupado com o juízo final. Vocês acham que teremos problemas em explicar para Jesus o apoio a defensores e praticantes de tortura?

 

Não bastassem aquelas preocupações espirituais, fui acometido por uma tosse que me sacudia o corpo e fazia guinchar a respiração. Melhorava com doses duplas de xarope antialérgico, mas recomeçava com a lembrança de que eu havia sabotado orgulhosamente a vacina e me entupido de cloroquina. Às quatro da madrugada apaguei de cansaço e overdose de xarope.

  

Luzes azuladas agrediram meus olhos vermelhos da tosse. Rolos de nuvens dificultavam a visão, mas eu ouvia hinos de um coral. Estava em choque, mas pelo menos não estava no inferno. Era um julgamento no clima do filme O Auto da Compadecida, com diferenças boas e más.

 

O acusador era o mesmo, vermelho, com chifres e rabo de seta. O advogado era Jesus, felizmente como nos quadros renascentistas, olhos azuis e cabelos escorridos. Confesso que não gostei muito daquele “queimadinho” do filme. O pai presidia a sessão e, também como nas pinturas, tinha barba branca, dignidade e olhar bondoso.

 

O problema estava nos jurados. Tenho dedicado minha vida de soldado da fé a combater o pecado. E ali estavam sete pecadores: pai-de-santo, gay, mendigo, presidiário, prostituta, mulher espancada  e esquerdista. Pronto, eu estava condenado!

 

O tinhoso percebeu o pânico nos meus olhos quando os jurados entraram, soltou fumaça pelas ventas e começou o massacre. Quantas vezes eu expulsei aquele maldito na minha igreja, e agora ele estava ali, de nariz em pé, me apontando o dedo! Passeava pelo salão aumentando a temperatura ambiente e parando na frente de cada jurado.

 

Lembrou meus sermões inflamados sobre o diabo nos terreiros de umbanda, e as depredações e incêndios que se seguiram. Sobre o mendigo, ele disse que eu não acolhi os necessitados e arranquei tudo o que pude com as correntes milagrosas.

 

Mas o pior eram as imagens projetadas num telão. Eu me encolhia no banco dos réus.

 

Deu mais um passo e apresentou a maldição que proferi sobre a pederastia e os outros pecados sexuais. Ao passar pela prostituta, lembrou minhas pregações contra a prostituição, o adultério e fornicação, enquanto a tela mostrava minha animação na casa de Madame Sofia.

 

Relembrou minha indignação contra o auxílio-reclusão para as famílias dos presos: por que não lhes dão trabalhos forçados em vez de auxílio? Por que não temos pena de morte?

 

A mulher com hematomas no rosto, eu reconheci. Tinha me procurado no gabinete dizendo que era espancada pelo marido. Mas ele era um bom obreiro e eu mandei que ela orasse para melhorar o marido e o perdoasse.

 

Para o último jurado eu tinha chamado a polícia na igreja. Era um subversivo, que veio me desacatar dizendo que eu estava fazendo campanha política na igreja. Atacou a distribuição de colinhas no púlpito e os disparos de zap na véspera das eleições. Como se isso não fosse liberdade de expressão!

 

Eu já estava acostumado com essas agressões. Os inimigos vivem nos acusando de charlatães e vendilhões do templo. Mas agora havia as imagens, uma covardia!

 

Minhas esperanças estavam no advogado de defesa, o maior de todos. Queriam me condenar porque eu tinha uma vida boa, carros na garagem da mansão e participava do poder com base na meritocracia santa. E não era tudo pela causa? Isso não merecia elogios?

 

Para maior desespero, Jesus não me defendia. Falou dos pecadores do júri, mas para acolhê-los e não para repreendê-los. Recitou versículos sobre arrependimento, virou-se para mim e perguntou:

 

- O que o senhor acha que merece, reverendo?

 

Eu não consegui responder. Não estava gostando daquela defesa! Achei que ele ia dizer que eu tinha razão em condenar os pecadores. Eram sodomitas, adoradores de demônios, adúlteros, preguiçosos, subversivos, foras-da-lei!

 

- O senhor se acha melhor do que algum destes jurados? – perguntou, adivinhando meus pensamentos.

 

Mas uma vez eu procurei as palavras, primeiro de indignação e protesto, depois de desespero, mas não consegui dizer nada.

 

- Você ainda tem salvação, reverendo, antes do júri se manifestar: o arrependimento! – ele acrescentou com voz macia.

 

Eu tentava falar, mas tive outro acesso de tosse. Percebi que minha mulher me sacudia:

 

- Acorda! Você teve um pesadelo!

 

Mas eu sabia que não foi pesadelo, foi revelação! Quando a tosse deu uma trégua, escorreguei da cama para o chão e, de joelhos, repeti  a promessa de Zaqueu:

 

- “Senhor, eis que dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado!”

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Isso tem de virar novela! O mais engraçado é a total inconsciência dele. Engraçadíssima a parte do 'Passeava pelo salão aumentando a temperatura ambiente'. Muito bom, Dom Albir, e aproveito para agradecer sua generosidade: eu te deixo sem sono, mas vc me faz rir...
Albir disse…
Obrigado, Zoraya! Beijos!

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