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Mostrando postagens de Agosto, 2010

MANUAL DA MULHER PODEROSA
>> Clara Braga

Extra! Extra! Foi lançado o manual passo-a-passo de como deixar o homem que você ama aos seus pés! Sua publicação foi em formato de livro e eu comecei a ler essa semana. Já está à venda e fazendo sucesso entre a mulherada. O nome do livro é Por que os homens amam as mulheres poderosas? Já ouviu falar? Se sim, ótimo, mas se não, não tem problema, eu explico. O livro é um guia para que as mulheres chamadas boazinhas, que segundo o livro são as que acabam como capachos nos relacionamentos, se tornem poderosas e consigam ter um relacionamento saudável, onde ninguém manda ou controla ninguém, o casal apenas se completa e se ama!

Não li o livro inteiro ainda, mas não tem problema, pois nas 10 primeiras páginas você já tem uma pancada de lições que deve aprender o mais rápido possível para se tornar o tipo de mulher que tem os homens aos seus pés. Fiquem atentas, peguem caneta e papel, vou colocar aqui algumas lições que eu já li e que são muito, muito simples! Você só tem que ser simplesmen…

A LOUCA >> Kika Coutinho

Dizem que, quando nasce um bebê, nasce uma mãe e, com ela, a culpa.

É verdade. A culpa é a amiga íntima de toda mãe. Mas eu vou além. Digo que, quando nasce um bebê, com a mãe nasce uma louca. Uma louca, tantã, pirada, biruta, uma maluca, enfim.

Ou quem poderia ser normal com um recém-nascido nos braços? “Shhh” é o grunhido da louca. Toda mãe de bebê já passou horas fazendo “shhh”. Fazemos “shhh” pro bebê dormir, fazemos “shhh” para o marido quando ele abre a porta, chegando do trabalho: “Shhhh, nem pense em falar no tom de voz normal!”. Sussurramos já em guerra. É uma guerra permanente essa maternidade recém-adquirida.

O volume de tudo tem que ser muito baixo. “Assista televisão no mudo. Se quiser”, bradam algumas – entre cochichos, claro. “Não, não, não, não dê descarga, não!”, imploram outras, correndo na ponta dos pés até o banheiro, o marido tentando ser higiênico. Mas não pode. Não pode dar descarga, não pode ligar a TV, o telefone tem que estar desligado e ai de quem deixar o c…

SONHO DE DICIONÁRIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Dia desses, ganhei um presente tão exótico quanto um sorvete flambado ou um guarda-chuva de renda. Tratava-se de um dicionário de sonhos. O exotismo está na esdrúxula combinação. Cresci ouvindo de meu pai que o dicionário era o "pai dos burros", fonte de esclarecimento, repositório de definições precisas. E, durante as minhas noites de criança, fui aprendendo — muitas vezes com pesadelos — que os sonhos eram misteriosos e indecifráveis.

Como não se recusa um presente, ainda mais um presente sobre o qual se tem curiosidade, aceitei com satisfação o dicionário de sonhos, sem saber que começaria a usá-lo já no dia seguinte, quando sonhei que roubava um sapato, e não um sapato qualquer, mas o sapato-fone de Maxwell Smart.

No sonho, eu havia pedido emprestado ao atrapalhado agente americano seu par de sapatos. Ele havia aceitado me emprestar apenas o sapato do pé esquerdo, pois o do pé direito era o sapato-fone, por meio do qual ele poderia ser chamado a qualquer momento pelo seu …

AGOSTO [Maria Rita Lemos]

Agosto vai chegando ao fim, inaugurando o segundo semestre com seus derradeiros dias. Mês comprido, de cachorro louco, tempo de empinar pipa, que no meu tempo era sem cerol.

Agosto derruba as derradeiras folhas das árvores, desnudando-as despudoradamente. Despidas, elas parecem envergonhadas, em meio aos ipês amarelos e roxos, esplendorosos em suas vestes de gala, prenunciando a primavera. Em agosto, ainda, crianças e adolescentes voltam às escola, em bandos ruidosos, tal qual andorinhas retornando, após o inverno, à pátria de sua origem.

Agosto é tempo de avaliar, revisar, re-planejar. Tudo aquilo que foi programado lá atrás, quando o ano vinha nascendo, conta com agosto para um acerto de contas. Gosto desse jeito, que só agosto tem, de segunda chamada no vestibular anual da vida. O que não foi feito no primeiro turno, porque se planejou mal ou muito, pode ser mantido ou cancelado em agosto. Desta vez pra valer, senão só no ano que vem, que a gente nem sabe se vem.

Agosto tem o dia …

TOMEI UM UíSQUE COM O FANTASMA DO BADEN POWELL E TOM JOBIM ERA O GARÇOM
>> Leonardo Marona

E o medo? O problema todo foi eu ter me matado com uma faca afiada no meio do estômago e não ter conseguido ficar de pé para ver toda a cena linda que se sucedeu. Eu passei andando por mim. A faca escorria sangue da lâmina pro punho, do punho pro antebraço, do antebraço pro cotovelo, e dali pro chão e pro fim do começo. E eu parecia ávido. Como se quisesse coisas, finalmente. Como se aquilo tudo fosse um tipo de busca por coisas que um covarde não pode ter em vida. Porque vida é uma covardia em si.

E daí eu olhei pro lado e me vi ali, estirado no chão, lambendo meu próprio sangue, dores irreversíveis, as mesmas de sempre, com gosto de mercúrio e relâmpagos — os céus se fecham de vez em quando. Quando você quer se abrir, por exemplo. E eu não quero falar sobre isso. Juro que não.

Acho que morri a mim mesmo para falar das coisas que importam. Adoro escrever mas odeio admitir isso. Adoro esticar os olhos, coçar a boca, enrolar o cabelo como se isso agitasse as idéias — seja lá o que for,…

RUPTURA E CONTINUIDADE >> Fernanda Pinho

Faz nove anos desde que eu saí do colégio e, naturalmente, muitos dos conceitos que aprendi ali ficaram esquecidos ou estão guardados em algum lugar da minha memória que não acesso nunca. Há ainda as poucas coisas das quais nunca me esqueci e aquelas que só fizeram sentido quando cheguei a este ponto ao qual convencionamos chamar de vida adulta. Aliás, acho “vida adulta” um conceito muito vago e talvez eu devesse escrever sobre isso um dia. Um dia que não é hoje, pois hoje quero falar sobre outra coisa.
Hoje quero falar sobre a aula de História do professor Cleiton, que nunca se limitou a nos fazer decorar datas e fatos e, portanto, nos ensinou muitas coisas que eu só compreendi agora que sou... adulta (é, detesto admitir). Cleiton gostava de provocar a reflexão e incitar o debate. Ingênuos que éramos, poucas vezes mordíamos a isca. Mas me lembro muito bem dele – não raramente – escrever essas duas palavrinhas no quadro e nos fazer pensar sobre elas: ruptura e continuidade. Sob o pris…

A VIDA ESTÁ NALGUM LUGAR >> Carla Dias >>

Milan Kundera disse que sim, que a vida está em outro lugar, ao menos para o personagem central do livro de sua autoria que leva este título. Aliás, este é um dos meus livros preferidos.
Quando a nossa vida está em outro lugar, analisamos pratos que já experimentamos, e os que desejamos experimentar, enquanto nos alimentamos do que nos foi servido. Dialogar sobre passado e futuro, ignorando o presente, o exercício do agora, é uma forma muito eficiente de não estarmos onde deveríamos, e posso citar uma serie de exemplos que em nada tem a ver com comida.
Olhar por cima dos ombros do presente também é uma forma quase pueril de evitar se olhar no espelho da transformação. Hoje somos a soma do que vivemos com as buscas que se esparramam em um futuro que não pode ser programado, mas certamente pode ser sonhado.
Sonhar costuma deslocar nossa realidade, assim leva a vida para outro lugar, de um jeito romântico, quase pueril. Porém, não há como nos atirarmos às páginas de livros de contos de f…

AH, A INOCÊNCIA >> Clara Braga

Nesse final de semana foi a primeira vez que minha banda tocou em um pub sem dividir palco com ninguém, tocamos sozinhos a noite toda. Na hora é tudo muito bom, claro, é uma experiência que a gente sempre quis ter, mas para isso tivemos que ensaiar muito e, claro, colocar mais e mais músicas no nosso set list. A hora de decidir quais músicas tocar é sempre um sofrimento, cada um quer uma música diferente, não gosta da música que o outro escolheu e vira uma confusão. Até que todas as músicas já estejam escolhidas leva muito, mas muito tempo.

Em uma dessas discussões das músicas que tocaríamos surgiu a idéia de tocarmos Mamonas Assassinas. Eu confesso que a princípio fui a única que ficou meio relutante, não achei que teria muito a ver com o resto do repertório, mas como fui voto vencido acabei tendo que desenterrar meu CD dos Mamonas lá do fundo do meu baú.

Enquanto ouvia as músicas só pensava o quanto pode ser bom ter a inocência de uma criança ou o quanto pode ser ruim também. Eu pod…

O CANDIDATO I >> Albir José Inácio da Silva

“Pela saúde, pelo calçamento, pela água, pela escola e pela fé, vote Adailton da Birosca”. Era reconhecidamente um lutador por essas causas. Mesmo os desafetos que reclamavam da honestidade da sua balança, dos juros nas contas penduradas, dos produtos vencidos e, coisa de invejosos, até de incêndios em eventuais concorrentes, tinham de reconhecer seu envolvimento em todas essas áreas. Bem, quase todas, porque em coisas de fé sempre manteve distância para não criar amarras de um lado e ressentimentos de outro. E isso, se era bom para os negócios, não era nada bom para a campanha.

De sua tribuna, o balcão onde passava o dia e parte da noite atendendo os fregueses, exercia sua liderança. Sobre aquela madeira velha e manchada já conseguira centenas de assinaturas para pressionar as autoridades. E foram os próprios fregueses que o convenceram: se já fazia tanta coisa pelas pessoas, imagine quando estivesse na Câmara. Não podia fazer isso com eles. Não podia desamparar seus irmãos.

Resist…

NÃO ENCHE, ESTOU COM FRIO >> Fernanda Pinho

Há algumas semanas venho acompanhando pelos noticiários da tevê e pelas notícias dos meus amigos que moram em outros estados a queda vertiginosa da temperatura. Em Santa Catarina nevou! Em São Paulo as pessoas estão saindo de casa com quatro agasalhos. E até os termômetros do Rio de Janeiro ficaram muito, muito abaixo dos 40 graus habituais. Eu, pra não dar zica, nem comentei muito o que estava acontecendo aqui em Belo Horizonte: calor em pleno inverno. Apenas agradeci mentalmente por morar nesse paraíso climático. Mas o inverno já estava com quase dois meses e, na última segunda, deu-se o inevitável: amanhecemos num frio dos infernos. Sim, dos infernos. Nem vem que não tem, que isso não pode ser de Deus. Acho que, inclusive, a primeira parte da Divina Comédia poderia ser o Inverno de Dante.
Eu sei que sou minoria, pois cada vez que emito essa minha opinião tenho que aguentar as reações exacerbadas das pessoas dizendo que eu sou louca, que eu sou do contra e blablablá. Mas o fato é qu…

O PEQUENO MUSEU DE MIM... >> Carla Dias >>

Quando a Carmen me disse que a sua exposição teria este título, confesso que me bateu, e não pela primeira vez, uma vontade de roubá-lo para criar um poema e dá-lo a ele. Mas ao invés disso, divaguei a respeito, até chegar o dia de ela vir ao Brasil e apresentar a exposição “O pequeno museu de mim e outras histórias”, aqui em São Paulo.

Carmen Novo é artista plástica e jornalista, com especialização em Museologia. Realizou diversas exposições no Brasil, em Cuba, em Portugal e na França, onde vive, desde 2003. Como jornalista, os trabalhos que desenvolveu estiveram sempre ligados à cultura, à educação e a projetos sociais com a arte como tema.

Como artista plástica, uma das funções de Carmen é expor sentimentos através das suas criações. O que mais me admira nas obras dela é a forma como esboça esses sentimentos. Há um flerte entre o caótico e o deslumbrante, como na instalação “De tudo fica um pouco”.

Ultimamente, tenho notado o apaixonamento dela pela fotografia, levando para tal forma …

MINHA MAIS NOVA DESCOBERTA
>> Clara Braga

A vida está definitivamente cada vez mais louca! Muita coisa para fazer, muito trabalho, a cabeça ocupada com milhares de coisas e, quando se senta para escrever, nada vem! É muito mais fácil sentar para escrever quando já se sabe sobre o que falar, mas sentar sem uma ideia e tentar puxar do nada, como eu gosto de fazer às vezes, pode ser meio frustrante quando nada de interessante aparece. As únicas coisas que vêm em mente nesses momentos são as aulas que se deve preparar, os trabalhos que devem ser entregues na data certa, os compromissos, as aulas a serem assistidas, mas nada realmente muito interessante que dê vontade de escrever e colocar no mundo para que todos vejam.

Escrever, para mim, é isso mesmo, é tirar algo de dentro de mim e jogar para o mundo, para que todos compartilhem isso comigo. Não vou aqui ousar dizer que é um processo parecido com o parto, pois eu mesma nunca passei por essa experiência, mas que é um processo muito íntimo isso é. E é exatamente por ser tão íntim…

O PARAÍSO >> Eduardo Loureiro Jr.

Estive no Paraíso e voltei para contar a história. Não, não se preocupem, não morri nem passei por uma experiência de quase-morte. Uma das coisas surpreendentes sobre o Paraíso é que não é preciso morrer para ir até lá.

E o leitor que não pense que se trata de uma pegadinha, que eu, ao final da crônica, vá dizer que estive num bairro de Belo Horizonte ou numa cidade de Santa Catarina. Paraíso é o que não falta, eu sei, mas aquele de que estou falando, e onde estive, é aquele paraíso que se supõe utópico, difícil de ser atingido.

Uma primeira coisa notável sobre o Paraíso é que ele, em praticamente tudo, se parece com a Terra. Posso até dizer que o Paraíso está na Terra, faz parte dela.. Materialmente falando, é assim como um Sítio do Picapau Amarelo, com direito a vovós bordadeiras e contadoras de histórias, cozinheiras espetaculares, sábios viscondes, emílias tagarelas, meninas de nariz empinado e homens valentes. No Paraíso, há árvores frutíferas de toda espécie, incluindo um pé de …

FACES DO AMOR [Debora Bottcher]

"Sabe qual é o meu sonho secreto? Que um dia você perceba que poderia ter aproveitado melhor a minha companhia. (...) Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude." (Fernanda Young em “Aritmética”)

E então: valerá a pena viver uma vida inteira à espera de um amor impossível? De um amor que é lembrança e miragem no pensamento de alguém? Para quem seremos imagem distante, recordação nebulosa de uma época que ficou parada no tempo?

A história dá conta de muitos amores assim. De entregas que só a morte amenizou. De sentimentos que nenhuma distância desfez. De lágrimas que, dia após dia, cultuaram saudades insondáveis...

De repente, penso nas pessoas solitárias, aquelas em busca de um amor. É uma longa e árdua caminhada - encontrar um par não é tão fácil como se pode supor.

Eu costumo dizer que são os semelhantes que se atraem - ao contrário da regra de que os opostos é que se complementam. Depende... Há tantas variáveis nesse contexto, q…

OITENTA >> Fernanda Pinho

Lembro dela nos ensinando a desenhar. Sempre girassóis, margaridas e cravos, seus desenhos favoritos. Lembro dela costurando roupinha para nossas bonecas, na máquina a que chamava carinhosamente de Maria Chiquinha. Lembro dela nos proibindo de dormir de cabelo solto, sob o risco de sermos sufocadas durante a noite. Lembro dela fazendo sonhos para comermos com café, e da sua falta de paciência para fritá-los até o ponto. Ficava sempre um pouco cru por dentro e ela os chamava de pesadelos. Os pesadelos eram os melhores sonhos do mundo. Lembro dela fritando bife e, esses sim, sempre passavam um pouco do ponto. Ficavam deliciosamente queimadinhos. Lembro dela nos advertir que não podíamos vestir calcinha sem passar, pois podiam estar contaminadas com ovos de mosquito. E se vestíssemos - pasmem! - o mosquito poderia nascer do ovo e entrar para dentro de nós! Lembro dela nos assustando com seus causos fantasmagóricos. Por sinal, muito mais críveis que a história do mosquito na calcinha. Lem…

DE MUDANÇA >> Carla Dias >>

Quando mudo de casa, primeiramente, bagunço tudo. Não sou muito cuidadosa porque me pego ansiosa demais sobre como serão as coisas no de agora em diante. Em todas as vezes que me mudei, minhas roupas trafegaram pela cidade em sacos de lixo de 100 litros... Os discos, não... Nem os livros, os copos, tampouco os vidros de perfume.

Não desafio a força da sutileza.

Moro no mesmo apartamento há mais de cinco anos. Ele precisa de uma reforma, e urgente. As paredes pedem por pintura, o banheiro por um espelho e um lugar devido para se pendurar toalhas. A cozinha exige um novo fogão e um refrigerador supimpa. O armário para as roupas, que comprei em janeiro passado, já demonstra o cansaço do pseudo bom e certamente barato.

Não vou mudar de casa tão cedo, eu sei. Da próxima vez, não usarei sacos de lixo de 100 litros para carregar as roupas, porque agora eu as cuido com um tanto mais de zelo e consideração, apesar de ainda serem peças compradas e raramente usadas, à espera do dia certo, da hora p…

CAMINHO DA ROÇA >> Clara Braga

Acho curioso reparar que todo mundo tem mania de dar nome às coisas, mas, depois de um tempo, nem sempre o significado que aquele nome tem continua representando o que nós gostaríamos que ele representasse.

No final da semana passada, me convidaram para ir a uma festa junina, mas, se já estamos no mês de agosto, não deveria se chamar festa junina, não é mesmo? E foi ai que eu lembrei que a primeira festa junina que eu fui esse ano foi no mês de maio, ou seja, há 4 meses que estamos tendo festas juninas aqui em Brasília!

Eu mesma não tenho a menor idéia de como aconteceu, só sei que pra mim, algum dia alguém muito inteligente teve a idéia brilhante de, no mês de junho, pegar um monte de comida gostosa que todo mundo come, dividir em diferentes barraquinhas e chamar isso de Festa Junina.

Se você gosta de churrasquinho, pastel, cachorro-quente e muitos doces, sabe muito bem que pode comer qualquer uma dessas coisas em diversos lugares pela cidade, aliás o que não falta hoje em dia é car…

O GERENTE >> Albir José Inácio da Silva

Acordou cedo, o João. Era dia de visita e isso significava muito trabalho. Tinha que supervisionar a faxina, providenciar o banho dos presos e superintender a cobrança e a revista das visitas. Mas não era essa a questão. Com isso já estava acostumado. O que o atormentava é que percebeu cochichos entre dois detetives depois que atenderam o telefone. Isso sim era incomum. Normalmente João participava de todos os assuntos da delegacia. Atendia telefone, anotava recados e tomava providências mais urgentes. O que estaria acontecendo que ele não podia saber?

Tinha-se revelado um administrador zeloso. No início teve problemas, alguns presos não queriam reconhecer sua autoridade, mas logo se impôs. Outra dificuldade foram os policiais. João fazia promessas aos presos, em troca de colaboração e disciplina, mas os tiras se recusavam a cumprir a parte deles. Não queriam, por exemplo, abandonar a prática de bater em preso por diversão. Precisou de muito trabalho e persuasão para que tudo entrasse…

PAU PÉ PI POW! PUM >> Eduardo Loureiro Jr.

Pai é pau. Pênis, tesão, ereção. Dureza, agudeza, firmeza. Socada, metida, penetração. Pai é pau. Madeira, tronco, lenha. Raiz, sarrafo, bordão. Cacetete, palito de dente, violão. Pai — mesmo que nasça torto e morra torto — é pau.

Pai é pé. No sapato, no pedal, na estrada.Viagem de ida e volta. Pontapé, calo, unha encravada. Pai é pé. Sustento, sujeito, suspeito. Subtento, subjeito, subpeito. Baixo-tento, baixo-jeito, baixo-peito. Pai — mesmo que tenha chulé — é pé.

Pai é π. Símbolo, número, matemática. Conta, equação, função. Exercício, problema, avaliação. Pai é π. Proporção perímetro diâmetro. Não periódico, algorítmico, irracional. Cálculo aproximativo transcendente. Pai — mesmo reduzido a duas casas decimais — é π.

Pai é POW! Papouco, castigo, peia. Explosão, barulho, onomatopéia. Herói e vilão de quadrinhos. Pai é POW! Pancada, grito, espirro. Exagero, extravagância, invenção. História, lorota, ficção. Pai — mesmo com criptonita — é POW!

Pai é pum. Flatulência, peido, traque. Ol…

MINHA CULPA SIAMESA >> Leonardo Marona

Vinha lendo, já um pouco sonolento, o que o poeta dizia: “Está da hora de falar de mim / Vamos ficar de pé!”. Daí falava sobre “rifles, canções, repastos, galanteios”, sobre barbudos com as peles tostadas pelo sol, nenhum contava mais de trinta anos. E eu também não contava pra mim mesmo mais de trinta anos. E também fazia sol na janela da lotação. Eu não era mais barbudo, só isso, fora os repastos e rifles, que também nunca tive. Mas, lá fora, as pessoas, mesmo as barbudas, não pareciam tão tostadas pelo sol, ou melhor, parecia que o sol as tinha tostado de modo que se enrugaram em traços fechados de sentidos, irreconhecíveis ao sentido... Eu dormia, quando o ônibus pulou com uma falha no asfalto e então, de novo, ali estava ela, minhas mãos tremendo sobre as folhas da relva do poeta, e ela estava tão distinta, tinha umas alças muito finas segurando os seios, um dia meus seios, no dia em que acreditei na mentira do dia, que é o próprio dia que esconde a noite, e quando vemos a noite …

MENOS É MAIS >> Fernanda Pinho

Nove em cada dez mulheres estão insatisfeitas com seu peso e, claro, eu sou uma delas. Tenho todas as neuroses femininas, por que não sofreria com a mais ferrenha? Meu peso me incomoda, me faz chorar, cutuca minha autoestima. Em dias de TPM então...sou a mais pesada do mundo. Mas chega uma hora em que a gente cansa de se lamentar e toma a decisão derradeira: fazer uma dieta! Possibilidades não faltam: dieta da lua, dieta da sopa, dieta dos pontos, dieta do sangue. No entanto, nenhuma delas, embora vendidas como milagrosas, resolvem meu problema. É que o que me pesa não é o corpo, é a alma.
Achava que esse seria um problema crônico, que eu carregaria até o fim dos meus dias. Quem já ouviu falar em dieta para a alma, afinal? Até que, numa conversa com minha amiga Thais, em que ela falava sobre seu novo lema de vida, veio a luz. Menos é mais. O novo lema da Thais virou minha dieta. A salvação da minha alma.
Decidi que era importante começar cortando aquilo o que mais me pesa. E então, Ro…

AINDA QUE NÃO TENHA BOLO >> Carla Dias >>

Eu gosto de andar de ônibus.

Uma das minhas sobrinhas fará aniversário daqui algumas semanas. Nos seus quase dez anos de idade, disse-me, ao telefone, que eu tenho porque tenho de ir ao aniversário dela, “mesmo que não tenha bolo”. Ano passado, ela fez o mesmo pedido, mas ela mora em outra cidade, caiu numa sexta, véspera do lançamento do meu livro, então dei o cano na fofa da sobrinha. Foi de partir o coração, sem contar que ano passado não havia a opção de não ter bolo.

Ainda ao telefone, imitei a voz esganiçada que ela gosta de fazer quando o assunto é importante e envolve um quê de coação sentimental. “E se eu estiver na África nesse dia?” perguntei, e ela foi logo acertando as coisas: “Ué... Você pega um ônibus e vem pra cá!”. E eu sorri, quietinha, encantada com a geografia infante. “Mas e se eu estiver na China?”, rebato. “Ah, tiiiia! Você pega um ônibus e vai até a África, e depois pega outro e vem pra cá!”.

O que mais me encanta é a distância que as crianças mantêm das pessoas e…