quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A VIDA ESTÁ NALGUM LUGAR >> Carla Dias >>

Milan Kundera disse que sim, que a vida está em outro lugar, ao menos para o personagem central do livro de sua autoria que leva este título. Aliás, este é um dos meus livros preferidos.

Quando a nossa vida está em outro lugar, analisamos pratos que já experimentamos, e os que desejamos experimentar, enquanto nos alimentamos do que nos foi servido. Dialogar sobre passado e futuro, ignorando o presente, o exercício do agora, é uma forma muito eficiente de não estarmos onde deveríamos, e posso citar uma serie de exemplos que em nada tem a ver com comida.

Olhar por cima dos ombros do presente também é uma forma quase pueril de evitar se olhar no espelho da transformação. Hoje somos a soma do que vivemos com as buscas que se esparramam em um futuro que não pode ser programado, mas certamente pode ser sonhado.

Sonhar costuma deslocar nossa realidade, assim leva a vida para outro lugar, de um jeito romântico, quase pueril. Porém, não há como nos atirarmos às páginas de livros de contos de fada e vivermos assim por muito tempo. E nem digo isso pela improbabilidade de nos mudarmos para condomínios inaugurados nas páginas dos contos dos Irmãos Grimm. Digo isso pensando na necessidade natural ao ser humano de saber o que vem após os finais felizes.

Essa inquietação, esse desejo de saber o que há por detrás do olhar benevolente, do sorriso apaziguador, das palavras doces, é o que nos torna curiosos sobre o outro. O que realmente nos leva a nos interessarmos pelo outro.

A vida está em outro lugar quando amamos personagens, ao invés de pessoas. Quando decidimos que o currículo de alguém é sua autobiografia, que a única frase que ouvimos sendo dita por este alguém é o resumo de tudo o que pensa e sente. Quando decidimos que nada está certo: corpo, voz, jeito, sentimento. E quando acontece com a gente, quando nos julgam de forma a sequer se aproximarem de quem realmente somos, não permitindo a existência de oportunidade para que mostremos a nossa real identidade. O que nos dói ou que nos cura. Aquilo que nos emociona e o que fere.

A vida está em outro lugar quando nos tornamos espectadores das nossas próprias biografias. Quando falamos sobre nós, o tempo todo, na terceira pessoa, ou somos incapazes de compreender o valor de assumirmos as consequências das nossas escolhas.

E quando ela está no lugar que lhe cabe, a vida é uma coisa...


NALGUM LUGAR - ZECA BALEIRO
(Zeca Baleiro, Augusto de Campos, E. E. Cummings




Partilhar

2 comentários:

albir disse...

Que coisa mais boa de ler, Carla!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, você me fez lembrar do esforço que faço para estar sempre aqui, e de como é bom quando estou aqui sem esforço. :)