Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Outubro, 2007

EU E A CHUVA >> Carla Dias >>

Assisti um filme do qual gostei bastante, “A Dama na Água” (Lady In The Water). Porém, não será ele o tema desta crônica, e sim algo que disse um dos personagens, um crítico de cinema enfadado pela contemporaneidade da sétima arte. O morador do condomínio, onde a história se desenrola, alegou que não agüentava mais as cenas sob a batuta da chuva e o olhar do romantismo. Que não compreendia o porquê de tantos filmes brindarem a este encontro.




Pensei comigo: “por que não?” Chuva tem tudo a ver com romantismo, principalmente quando se trata de cinema. Compreendo que nem todos os roteiristas e/ou diretores são felizes ao tentarem fazer com que a mágica aconteça, mas há chuvas e declarações de amor que são dignas de se tornarem cenas de cinema. Quem não se dá conta disso, certamente anda com o romantismo namorando a aridez.

Mas quero mesmo é falar sobre a chuva como cenário biográfico. Quem me conhece, sabe que eu adoro dias de chuva; da garoa às tempestades. Que me sinto culpada porque o tr…

DIÁLOGO SOBRE A PAIXÃO -- Paula Pimenta

Ela: Estou saindo com esse cara e preciso de umas dicas.

Eu: Isso depende. Você quer curtir ou namorar?
Ela: Estou querendo só curtir, não devo me apaixonar por ele. Mas, na verdade, era isso que eu queria.
Eu: Se você já não está apaixonada, não vai ficar. A paixão chega primeiro. E não quer nem saber se você deve ou não.
Ela: Hein?!
Eu: Ela chega antes. E não pede licença.

Ela:
Antes de quê?

Eu:
Antes do primeiro beijo.
Ela: Como assim?????? Ah, não.
Eu: Você não sabia? Achei que isso fosse de conhecimento universal.
Ela: Faltei essa aula. Explique, por favor.
Eu: A paixão chega primeiro. Ela pega a gente na primeira conversa com a outra pessoa. Às vezes, até antes disso, no primeiro olhar. O que vem depois é o gostar, o amar, o achar a companhia boa, o tesão, essas coisas. Paixão de verdade acontece antes disso tudo.
Ela: Será que eu nunca me apaixonei, então? E será que eu nunca vou me apaixonar?
Eu: Eu não estou querendo dizer que um relacionamento não seja bom sem a paixão, porque de todo m…

No Canadá não tem disso não >> Felipe Holder

Caos no trânsito, motoristas embriagados, motoristas em guerra, motoristas dirigindo como se não existisse sinal vermelho ou faixa de pedestres. No Canadá não tem disso não.

Vizinhos arrastando móveis no andar de cima, à meia-noite, como se no andar de baixo não morasse ninguém? No Canadá não tem disso não.

Gente sem educação básica, que joga lixo na rua, fuma em local proibido e atende celular em cinema e teatro. No Canadá não tem disso não.

Assalto à mão armada? Assassinato à luz do dia na rua mais movimentada da cidade? Seqüestro-relâmpago? No Canadá não tem disso não.

Idiotas com o som nas alturas, fazendo tremer os vidros das janelas da sua casa com as piores músicas que você já ouviu na vida? No Canadá não tem disso não. Mas não tem mesmo. E se tivesse era só chamar a polícia que ela daria um jeito. Na hora.

E São João? Carnaval? Forró de verdade, frevo, xote, maracatu e baião? Não é que no Canadá não tem disso?

Praias de Porto de Galinhas, Sancho, Sueste, Serrambi, Calhetas, Itamarac…

MOÇO DE CHOCOLATE [Cris Ebecken]

Corre por múltiplas línguas femininas o estranho conselho adocicado: em casos de solidão sem jeito imediato, coma chocolate. Precisei subvertê-lo devido a uma questão orgânica: meu organismo funciona às avessas, tem intolerância e reage resistentemente ao açúcar. E sim, provavelmente, segundo deduções médicas, a síndrome foi desenvolvida em decorrência a um período estressor afetivo.

Mas hoje, já há tempos mergulhada em casa, livro a livro, trabalho a trabalho, mal respirando meia troca de olhares com o mundo, essa chuva fina pontiaguda que acordou a cidade fez a solidão esmurrar a porta. Como quem tenta escapar de uma visita não bem vinda, peguei a saída dos fundos, dobrei a esquina da rua respirando. A cada passo dado, nesse mesmo bairro aonde resido há tanto tempo, mais estrangeira me sentia, mais desamparada me situava.

Lá pelo meio dessa fuga-andança, com alguns trocados na calça, topei com uma lanchonete. Bem ali, assim despudoradamente se exibindo, logo na frente: potinho de mou…

A CARTOMANTE [Débora Böttcher]

Naquela manhã em que a Dra. Anne estava de folga, a enfermeira avisara que não iria trabalhar. Enquanto ela banhava a mãe debilitada por doença terminal, pensava no médico pelo qual tinha se apaixonado. Depois de vestir, pentear os cabelos e aprumar delicadamente a velha senhora com a bandeja de café, ela buscou o telefone.

Ainda ouvia a secretária dizer que o Dr. Pedro não podia atender quando a campainha tocou. Rapidamente ela deixou um recado, instintivamente sabendo que não haveria retorno.

A cartomante estava ao pé da porta. Jovem, com cabelos louros cacheados num rosto alvo de instigantes olhos azuis, sorriu levemente ao se apresentar, desculpando-se pelo breve atraso.

Dentro da casa observou, num relance, os detalhes à volta: a sala de sofás claros com almofadas coloridas; o tapete neutro, as cortinas cerradas - apesar do dia ensolarado.

A Dra. Anne apontou a mesa oval da sala de jantar; ela se sentou e, enquanto aguardava, tirou o baralho da pequena valise que carregava e acendeu …

Distantes da longa passagem >> Leonardo Marona

A alma branca avança sobre o papel. O corpo e o papel estão seguros mas, em corpo delito, debatem-se. O corpo e o papel estão pálidos, estão constrangidos. O corpo rói as unhas e constrói monumentos, o papel ameaça voar pela janela em falsa rebeldia. A alma, mais ampla que a mesura, invade o papel feito uma drag queen. A alma está nua, enlameada, ostenta um sexo híbrido. Rajadas de vento e trovão torturam as árvores. A alma passa feito um comício de silêncio, derrubando eras e reinados. A alma não é nem do corpo nem do papel, assim como o papel não é do corpo, e o corpo não é da alma. A alma vem vindo e passa, coração espacial, assim como fazem o corpo e o papel, mas o movimento da alma é a substância do corpo e do papel – não o contrário. A alma vem e passa banhada em sangue: sua peculiaridade secular de espinhos. A alma está nua, mas não está envergonhada. O corpo e o papel estão protegidos, mas têm medo. A alma branca invade o papel como um lago de nanquim. A alma branca sem asas, …

À MARIA O QUE É DE MARIA [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Você sabe como chamar aquela pessoa que contratou para trabalhar diariamente na sua casa exercendo funções de natureza doméstica como limpar, varrer, lavar, passar, engomar, cozinhar e espanar? Esta pergunta, aparentemente simples, pode trazer respostas surpreendentes.

De "minha menina" ou "a menina lá de casa", passando por "maria" - mesmo quando a moça em questão na verdade se chama Ana Paula, até o mais popular de todos os eufemismos, "secretária do lar". Quem? O que faz uma secretária do lar? Anota recados, redige cartas e organiza arquivos? E a menina-lá-de-casa, é a filha, a neta ou aquela moça que só é "lá-de-casa" porque é paga para isso e desempenha suas funções com eficiência?

O termo empregada doméstica parece ter caído em desuso por conta de uma noção totalmente deturpada do famigerado "politicamente correto" e, ao contrário do que parece, acaba por dar conotação negativa ao que antes era uma expressão correta do po…

MAIS UM DELÍRIO >> Carla Dias >>

A primeira vez que ouvi alguém dizer que eu precisava mudar, era bem pequena. Lembro-me de que as pessoas a minha volta não gostavam muito do meu silêncio, mesmo sem saber que ele era, na verdade, um punhado de gritos polifônicos. Por isso mesmo tornaram-se disfarçáveis. Acuaram-se na mudez.

Então, fui crescendo, e também eu aprendi a sussurrar não só conselhos, mas intimações veladas, como se ao retornar o recebido, fosse possível alcançar a compreensão e, de uma maneira realmente funcional, valer-se do concedido para laçar o almejado.

Bobagem, sabe? Porque aos poucos, às vezes aos tropeços, dei-me conta de que essa necessidade de mudança tem voz própria. Ela não manda recado, tampouco contrata intermediário. Ainda que o outro perceba claramente o que se passa e tenha a palavra certa para caber no vazio perfeito, o movimento da mudança acontece em seu tempo, sem esganar-se porque a hora é imprópria para o receptor, ou porque ele chegará tal e qual tempestade, assolando uma tarde de dom…

O DIA SEGUINTE >> Maurício Cintrão

No dia seguinte tudo é exeqüível, até o empréstimo inviável, o emprego improvável e o amor impossível. Ficamos mais medrosos do que um dia antes, até porque estamos um dia depois de sustos vencidos. Amanhã teremos as lembranças dos arrepios de hoje. Os riscos da semana que vem se aproximam. Os gostos de alguns dias atrás se repetem. E a vida ganha cores que seriam imprevisíveis há um mês.

A vitória é muito mais divertida no dia seguinte. Até porque a gente lembra dos detalhes e pode vibrar em retrospectiva. A despedida parece mais dolorida. E o choro contido pode soltar o freio. O pé na bunda incomoda muito mais. O chifre cresce, o hematoma fica mais roxo e a dor nas costas piora. A distância de um dia torna o acidente mais violento (ou mais real). É no dia seguinte que a gente raciocina: nossa, eu podia ter morrido.

Hoje é o dia seguinte enquanto não se configuram as variáveis que tornam o presente um passado que merece ser lembrado (ou esquecido). O caso fortuito pode ganhar corpo ou …

“LIMÃO GALEGO... RELOU TÁ PÊGO” [Maria Rita Lemos]

Quem passou dos trinta ou quarenta certamente se lembra que brincou de pega-pega. Bem como de “esconde-esconde”, “barra manteiga”... enfim, tanta coisa que as crianças de hoje, infelizmente, talvez nem tenham ouvido falar.

Pesquisadores de todo o mundo estão preocupados com essas mudanças radicais que as crianças sofreram nas últimas décadas, e já se sabe que correr, jogar bola, brincar de cobra cega e pular amarelinha é muito mais importante para a saúde física e mental de um ser em formação do que se poderia supor.

As crianças modernas brincam também, é claro, mas sua diversão, pelo menos nas classes mais favorecidas economicamente, é eletrônica na maioria das vezes. Sua alegria está, principalmente, na ponta dos dedos e no raciocínio. É como se o corpo, o tronco, as pernas ficassem esquecidos, parados, sem função.

No entanto, como o ser humano não muda assim tão depressa, nem física nem mentalmente, “crianças ainda precisam correr, se pendurar, se mexer, passar por cima e por baix…

SOLIDÃO >> Leonardo Marona

Solidão é quando o prazer se torna uma busca frenética e nos esquecemos de que a busca frenética é que deveria ser o prazer. Solidão é a graça dos ordinários, a desgraça dos sensíveis, o refúgio dos literatos, a estética do desempregado, a paz da fé no que nunca foi visto. São duas camisinhas no bolso e um vinho empoeirado em cima da geladeira. É quando os valores se tornam lágrimas dentro de um copo pela metade e o sorriso honesto está na outra metade que não existe mais, se esfarelou. Foi devorada pelo mundo. Solidão é o pedido de desculpas de um asmático, relações movidas a “com licença”, “por obséquio”. É jogar pôquer virtual, faturar um milhão virtual, tirar as cuecas e dormir sentado. Se pintar de palhaço e escutar Erik Satie, masturbando-se. É babar no travesseiro, acordar suado e virar o travesseiro de lado, para não voltar a dormir nunca mais. São os minutos contados para o sonho cortado quando a gente finalmente voa. Solidão é acordar deste sonho e só lembrar da queda, que n…

1.389 quilômetros de convencimento >> CRISTINA CARNEIRO

(...) Vou me embora, vou chorando Vou me lembrando do meu lugar (...) Quanto mais eu vou pra longe Mais eu penso sem parar Que é melhor partir lembrando Que ver tudo piorar(Borandá, Edu Lobo)

Preciso de muito.
Meus amigos ficavam a desentender. Eu, que há muito morava apenas com meus irmãos e, nos últimos anos, só com minha irmã, cultivava uma vontade imensa de morar sozinha, fugir, ir embora.

A irmã não pegava no pé, eu entrava, saia e fazia o que bem entendia: fazia o que bem entendia: já não chegava afobada a contar todas as coisas, ela perguntava por onde eu andara e eu respondia no Arlindo. Muitas vezes eu estava era nas Goiabas, no Assis, no Zé, nos Camarões. Para não explicar, eu encurtava a dizer no Arlindo, que era o suficiente. Ela sabia com quem eu, conversando sobre o que, ouvindo que tipo de música, sendo feliz de morrer de rir.

Mas eu tinha vontade de ir embora, sair de casa, pra outro apartamento, outro bairro, outra cidade até. Havia tempos que eu queria ir menos. Imaginava s…

BATUQUES >> Carla Dias >>

Eu vivo em um universo interessante... Passo meus dias, uma jornada de onze horas, ouvindo música. Na verdade, ouvindo aulas de bateria. Dez dessas horas todas eu fico de cara com o computador, redigindo propostas, atualizando o site, fazendo contatos de produção, respondendo mensagens de e-mail enviadas por interessados no curso de bateria e tirando dúvidas sobre o festival que realizamos desde 1996.

Este é meu diariamente... Minha rotina é musical por fora e extremamente burocrática por dentro. Às vezes, sinto vontade de abandonar o posto de produtora e assumir as baquetas, o que foi, durante os anos 90, meu fazer principal. Hoje sou mais produtora do que baterista, e me orgulho disso, apesar de a bateria ser meu afeto maior e eu ter esperança de, dia desses, voltar a me dedicar a ela como fazia no início de tudo. Orgulho-me porque as produções nas quais trabalhamos colaboram para que músicos excepcionais possam mostrar sua música. Porque o festival já impulsionou várias carreiras e …

HORÁRIO DE VERÃO? -- Paula Pimenta

Sempre que começa o horário de verão, me vem uma dúvida: Por que horário de verão e não de primavera? Vamos considerar este atual. Ele vai de 14 de outubro a 16 de fevereiro. 126 dias, sendo que 68 deles serão passados na primavera e 58 no verão. Seria muito mais justo que a primavera fosse a dona do horário, afinal, quando ele acaba, ainda tem muito tempo de verão pela frente.
Talvez o mais correto seria usar a nomenclatura oficial que os Estados Unidos utilizam: “Daylight Saving Time”. Afinal, a função do horário de verão é salvar energia. Como o horário em que mais utilizamos luz é à noite, ao adiantarmos uma hora no relógio fazemos com que o dia dure uma hora a mais e isso representa uma hora a menos de energia elétrica. Por esse motivo também é que no Nordeste e Norte este horário não entra em vigor. Nas localidades próximas à linha do equador, a luminosidade é praticamente constante. As estações do ano apresentam poucas diferenças nesse aspecto, logo não há necessidade de adota…

FRUTAS DO ESPANTO >> Maurício Cintrão

Estou injuriado! Descobri que a jaca, a manga e a banana não são frutas brasileiras. Que absurdo fazerem isso com um sujeito no alto dos seus 50 anos de idade. Jaca, tudo bem, nem como. Mas manga e banana são frutas do meu imaginário paradisíaco.

Sempre pensei que um paraíso tropical tivesse pássaros coloridos e exuberantes, além de mesa farta de mangas, bananas e jacas. Porque o paraíso de deus brasileiro tem que ter frutas brasileiras. Confesso que também imagino jabuticabas, cajus e goiabas.

Porém, fui ler sobre a história da alimentação e descobri que jaca, manga e banana vieram da Ásia, talvez da Índia. Há dúvidas quanto à banana. Historiadores defendem que ela teria surgido na antiga Nova Guiné.

Fui salvo pelos cajus, pelas goiabas e pelas jabuticabas. Mas isso não diminui minha indignação. Sei que não tem importância nenhuma se as frutas surgiram aqui ou lá longe. O importante é que elas sobrevivam às mudanças climáticas e continuem a alimentar nossa gula por muitos e muitos anos.

HÁ UM ANO... >> Eduardo Loureiro Jr.

"Haverá um ano em que haverá um mês em que haverá uma semana em que haverá um dia em que haverá uma hora em que haverá um minuto em que haverá um segundo, e dentro do segundo haverá o não-tempo sagrado da morte transfigurada."
(Clarice Lispector)

Essa é a história de um amor que acabou, mas sem deixar de ser para sempre.

Há um ano (em) que a vida é leve. O objeto do desejo impossível inexiste. O próprio objeto é agora impossível. E o desejo está livre. Eu lhe sinto como o vento, como se fosse seu cheiro. Eu lhe sinto como uma leve pressão no peito, sua mão pousada em mim na hora do aconchego. Você me vê sem que eu lhe veja? Eu nunca quis mesmo lhe guardar segredos.

Há um mês (em) que eu senti vontade de falar com você. Voltar a falar. Melhor por telefone. Mas por telefone não deu. Arranjaram-me um trabalho no interior da fortaleza. Quando cheguei à fortaleza, você poderia ver-me. E marcamos de nos ver. Eu queria tanto o seu amor que só queria o seu amor. Eu cheguei a querer você…

ENCONTRO DE DESENCONTROS [Cris Ebecken]

Acordou pela manhã com um bilhete passado por baixo da porta. Em suas mãos o papel desembrulhava-se iniciando com um pedido de desculpas pela decepção que ele poderia ter lhe causado, em seguida as palavras embrulhavam o estômago com a forma escolhida para agora assim decepcionar. O perfume solto pelas linhas possuía dos cheiros o mais estranho nome: vingança. Vingar-se no sentido de devolução, retorno, dar ao outro aquilo que não gostara ter recebido.

Conheceram-se em tempo outro. Ela, marcada por mãos alheias, recém-separada de falsos sonhos bons. Ele, na fome de mãos novas, recém-separado de tentativas no vão. Para ele, encanto à primeira vista. Para ela, encanto a vistas seguintes. Na noite do início sem início, conversaram umas tantas, se sorriram, beijaram. Ele, sem dar brecha a quem conhecia, foi à frente atropelando, a oferecer mais presença, propondo continuidades ao par. Ela, com a desconfiança aprendida nas feridas em brasa, se assustou, precisou de dosagem. Seria ele mais u…

O TRAUMATOLOGISTA [Ana Coutinho]

Tinha ouvido dizer de uma especialidade médica chamada Traumatologista. Eu, particularmente, não tinha bem certeza do que era e resolvi pequisar. Tive surpresas e cheguei à conclusão de que o traumatologista, embora não muito conhecido, é fundamental para a nossa saúde física.

Pra quem não sabe, o traumatologista é procurado caso o paciente tenha tido alguma injúria sobre o corpo. Ou logo depois de um acidente, seja ele com objeto cortante ou uma batida de carro, ou acidentes domésticos, enfim. Se o negócio tá feio, e se é urgente, procure um traumatologista. E procure rápido. A função dele, pelo que entendi, é dar um jeito no problema emergencial. Que me perdoem os traumatologistas que me lêem, mas entendi que eles estão aí pra resolver o problema do paciente. Deixá-lo diretinho e inteiro para um próximo tratamento. É como se fosse “dar um tapa no visu”, mais popularmente falando.

Pois bem. Isso posto, quero dizer que nem só quem tem problemas físicos precisa dele. Tenho descoberto pes…

O rosto e a poltrona >> Leonardo Marona

No sonho eu ainda acreditava no amor reconhecido. Sabia disso porque me sentia inseguro, com frio, sem fome, com raiva – no céu da boca o rastro de algum ansiolítico.

Eu andava no sonho, com um velho roupão esfolado. Havia também você no sonho, você visitante, você de passagem, você que não veio, você inviável, você mil caminhos, ali estava você, querida sem rosto: você que sorria.

No sonho fingíamos. Você dizia:

- Ah, querido, que dia lindo faz lá fora, lembra aquele dia perfeito... Vamos sair?

Eu sorria:

- Escuta, preciso da sua ajuda para encontrar um título.

Você não entendia aquilo, do dia estar lindo e eu pensar em títulos. Você, que no sonho era minha ternura perdida, você que se lambuzava sentada à mesa, não sabia o que dizer. Existia algo brusco no meio dos espaços vazios, frágeis, antes ocupados por brigas, por choros incontestáveis, por palavras de desespero, pela vida que se esvai, pelos passeios a contragosto no parque, onde comíamos cacau da árvore, que não era bem árvore de c…

FUTEBOL [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Bandeiras, fogos de artifício, fumaça colorida, balões, euforia. Caravanas para ir a jogos em outros estádios e - dependendo do time para o qual se torce - outros países. Camisa no peito, pintura no rosto, o grito solto no ar, coração na mão a cada passe. Espetáculo de primeira grandeza, assistido também por quem, nervosamente, fica em casa na frente da televisão, torcendo as mãos a cada lance, tombando a cabeça para ver melhor o que está acontecendo no cantinho da tela. Tem coisa melhor do que futebol?

Certo, a pergunta não merece resposta. Tem muita coisa melhor do que futebol e não apenas isso, tem muita coisa mais necessária, mais útil, mais desejável do que o futebol. Não é o caso de discutir a desimportância que tem um esporte de massa frente à fome, à falta de escolas, hospitais e segurança. E, claro, futebol também não supre a necessidade primal de amor do ser humano. Mas a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão, arte e quer o direito de ter uma paixão que não …

A IDADE DO TEMPO >> Carla Dias >>

Na correria diária da vida que escolhi viver até aqui. Até aqui, mas vai saber a partir dali o que será da minha pessoa. Na verdade, pouco me preocupa se serei feliz ou triste, contanto que possa experimentar sentimentos; que não se esvazie meu dentro a ponto de tornar-se um lago estéril.

Na minha cabeça pipocam pensamentos metidos a ser sonhos. Então, sonho a arquitetura do silêncio, enquanto quadro negro para a história a ser vivida. E assim as cenas se formam. Nada nelas lembra a perfeição desabrochada dos olhares rigorosos... Estão mais para a sonsice dos olhares esfomeados pelas diferenças que tão bem combinam com o inovador.

Não caminho pela cidade como quem colhe tempo. Vou esvoaçando fiapos dele, cultivando passos, contando caracóis dos cabelos do moleque de sorriso lindo e despreocupado. Em segundos, então minutos, vou me aproximando das horas. E faço de conta que nunca conheci calendário. Assim, até mesmo os dias parecem mais longos, mas de um espreguiçar a doçura dos gestos e…

SER (OU NÃO SER) REVOLUCIONÁRIO >> Maurício Cintrão

Mando e-mails para muita gente até por força do trabalho. E outro dia recebi uma resposta curiosa, que nada tinha a ver com o conteúdo da mensagem original. Um ex-colega de faculdade que hoje atua em uma redação on-line disse que eu era revolucionário. Eu repiquei espantado e brincalhão: “nossa, de revolucionário não tenho nem o regime para emagrecer”. Mas ele manteve o tom sério na réplica e eu fiquei espantado. Ele dizia que nos tempos de faculdade apostava na minha transformação em um sujeito revolucionário.

Acho que frustrei o meu colega. Os tempos mudaram tanto ao longo desses anos que já nem sei se cabe pensar em “ser revolucionário” ao sabor dos temperos daqueles tempos. Pois ele se referia a comportamentos de meados dos anos 80, quando tínhamos problemas de paladar. De lá para cá, mudaram as potencialidades dos sentidos. Muitas coisas, idéias e pessoas morreram nos transcorrer dos anos. Outros tantos compromissos, propostas, necessidades e pessoas foram colhidos pelo caminho.

Is…

A primeira vez que eu vi o mar >> Felipe Holder

Foi a primeira vez que eu vi o mar. O dia já estava indo embora, mas eu não estava com sono. Queria ver aquelas coisas bonitas que papai estava me mostrando. A água eu já conhecia, mas aquela era de outra cor. Papai disse que aquela água era o mar. E lá na água tinha uma coisa branca que papai disse que era espuma. Parecia com outra coisa que eu estava vendo lá no céu, mas papai disse que aquela outra coisa se chamava nuvem. Eu perguntei se a nuvem tinha caído no mar, mas ele disse que não. Que a nuvem era uma coisa e a espuma era outra coisa. Era tudo muito complicado mas era muito bonito.

Nunca vi tanta água junta. Papai me disse que logo que eu ficasse maiorzinho ele ia me mostrar todos os peixinhos coloridos que moravam ali. Os azuis, os amarelos, os vermelhos... Será que eles são iguais aos peixinhos que moram na minha piscininha de plástico?

Depois de olhar muito tempo para aquele lugar tão bonito, olhei para o rosto de meu pai e vi que ele estava olhando pra mim. Notei que os olh…

ABANDONADO >> Eduardo Loureiro Jr.

Abandonado és tu. Mas chamo-te eu. Para que não prolonguemos o abandono pela linguagem.

Eu fui plantado, dormindo, e, quando acordei, vi-me desolado no meio da terra. Eu era eu. Sozinho. Sem saber que era eu. Luz só minha naquela escuridão. Semente que se mente tudo que poderia ser. Não sabe o que dentro traz daquilo que é.

Eu fui puxado ao mundo. Lançado na luz. Cego. Ofuscado de abundância. Eu era minha mãe fora dela. Eu não era eu. Eu não era ela. Chorar foi a primeira tentativa de canto do homem. Deixado no canto, eu não sabia a beleza da voz.

Eu fui largado nos outros. Retiro de mãe que se retira do filho. Tiro e retiro no peito. Eu era eu sem ela. Na multidão. Um entre tantos. Que voz a minha entre vozes? Eu era o silêncio. A espera. O desespero. Nenhuma ação. Só. Pensamento.

Eu fui entregue ao amor. Que mulher é minha mãe? Eu quero ser ela dentro dela. Ser ela, sereia, serena, selene. Lua. Lubricidade. Lucro. Ludo. Lues. Lufada. Lúgubre... Longo caminho até a luz. Eu tímido. Eu pl…

DE MILAGRES BANAIS [Ana Coutinho]

Ela chegou na minha casa nervosa. Estava soridente, mas era claro que estava tensa. Com ela chegaram o marido, a amiga e o marido da amiga. Vi que ela queria falar comigo, arrumei uma desculpa pra chamá-la para o quarto, mas os homens vieram junto para ver o quadro novo que nem era tão novo, mas foi o que eu pude inventar.

Ficamos os três casais lá, no quarto, ela sorrindo, muda, tensa, disfarçando uma emoção indisfarçável. Sugeri que eles pegassem uma bebida e eles entenderam, saíram e ficamos enfim a sós, as três mulheres, querendo saber o segredo que tanto afligia minha amiga.

Ela não falou nada; nos olhou firme, um olhar que era misto de alívio e de susto. Alívio porque éramos três mulheres sozinhas, amigas que se conhecem e se querem bem. Susto, ainda não sabíamos o porquê.

Ela agarrou a bolsa, e, de lá, tirou um embrulhinho em papel sulfite. Foi desembrulhando o papel rápido, as mão tremiam, ela ria e seus olhos brilhavam. Quando terminou de desembrulhar o que parecia ser um teso…

NANO-MICRO-CONTOS [Débora Böttcher]

A Casa das Mil Portas é um projeto idealizado por Nemo Nox, com centenas de microcontos escritos por blogueiros brasileiros e portugueses. O desafio é a tentativa extremamente econômica de contar ou sugerir uma história inteira com cinqüenta letras – ou menos. No site mencionado, Nemo conta que o microconto possivelmente mais famoso é do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."

Ernest Hemingway é autor de outro famoso miniconto. Com apenas vinte e seis letras, conseguiu contar toda uma história de tragédia familiar: "Vende-se: sapatos de bebê, sem uso".

Marcelino Freire publicou em 2004 a obra "Os Cem Menores Contos do Século", em que desafiou cem escritores a produzir contos com cinqüenta letras (no máximo).

Não existe um rigor para esse tipo de escrita e depende mais de critérios editoriais de quem os adota, uma vez que a teoria literária ainda não reconhece essa vertente de texto como gênero literário à par…