quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Sobre o amor >> Carla Dias >>

Ah, meu amor desconhecido. Vendaram-lhe os olhos, por isso não me encontra? Ainda engatinhando no falatório sobre destino? Mas é meu e é amor, então que espera minha seja completamente desvairada. Enquanto não coloco os olhos em você e reconheço seu olhar primeiro, vou diagramando devaneios.

Dizem por aí que sou desbocada! Mas ser desbocada não é mais berrar palavrões como antigamente. Hoje, é falar de amor acreditando nele. Os poetas são desbocados quando descrevem suas paixões. O padeiro, o vidraceiro, a dona de casa, o empresário, a acrobata, o batuqueiro, a professora, o surfista... Desbocados! Descaradamente desbocados. Independente da cor, da raça, do sexo ou do número do título de eleitor: desbocados. Os românticos são desbocados, porque ferem a integridade da infelicidade contemporânea ao soletrarem alegrias.

Ainda ontem, tentaram educar minhas intempéries. Não sei o que há com esse mundo e essas pessoas, e até mesmo comigo, porque eu mesma já tentei educá-las neste tom, certa vez. É que confundimos educar com ações predatórias: prender mãos e pés, vendar e calar. Que eu saiba, minhas intempéries andam educadinhas de sobra, mas de educação de pisar nos calos das prisões que são os padrões. Abrir frestas e sorver liberdade. E também são dadas à sedução, por isso cavalgam em estrelas, balançando suas asas que nasceram para os vôos passionais.

Dizem por aí que sou solitária, mas as solidões despetaladas, diariamente, são apenas companheiras de viagem. Nelas rabisco direções.

Meu querido amor desconhecido... Eu lhe reconheço, antes mesmo da palavra ser dita; do lume transfigurar a escuridão. Não há truque neste fazer diário que é a espera, quando afago labirintos e reverbero ansiedade. Há sim a conquista diária de um tanto de paciência necessária para essa jornada de solidões, que vez ou outra sorriem para mim em busca de alimento. E ainda que eu as prive da essência do gosto de mim, continuam minhas parceiras e me ajudam a tecer futuro para daqui a pouco.

Você sabe? Qual é o segredo que guardam as lágrimas que se refugiam nas faces? Há um desnudado lamento cravejado no estremecimento que antevê a submissão às lonjuras sequer experimentadas. Um punhado delas recosta em meus ombros, e para elas entôo canções de ninar; arrebanho mil e tantas razões para continuar a vigília, ainda que a noite no talo não mostre serventia de mim para o dia que florescerá...

... Como florescem os arrabaldes do sossego, logo após a partida das tempestades...

.... E desabrocham esperanças tardias, porém belas nas suas próprias limitações...

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Foto: Carlos E. Drexler


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bem que poderia se chamar "Crônica para chamar o amor". :) Bela de palavras como sempre.