domingo, 7 de outubro de 2007

ABANDONADO >> Eduardo Loureiro Jr.

Holding on to Myself, Peter Callesen, petercallesen.comAbandonado és tu. Mas chamo-te eu. Para que não prolonguemos o abandono pela linguagem.

Eu fui plantado, dormindo, e, quando acordei, vi-me desolado no meio da terra. Eu era eu. Sozinho. Sem saber que era eu. Luz só minha naquela escuridão. Semente que se mente tudo que poderia ser. Não sabe o que dentro traz daquilo que é.

Eu fui puxado ao mundo. Lançado na luz. Cego. Ofuscado de abundância. Eu era minha mãe fora dela. Eu não era eu. Eu não era ela. Chorar foi a primeira tentativa de canto do homem. Deixado no canto, eu não sabia a beleza da voz.

Eu fui largado nos outros. Retiro de mãe que se retira do filho. Tiro e retiro no peito. Eu era eu sem ela. Na multidão. Um entre tantos. Que voz a minha entre vozes? Eu era o silêncio. A espera. O desespero. Nenhuma ação. Só. Pensamento.

Eu fui entregue ao amor. Que mulher é minha mãe? Eu quero ser ela dentro dela. Ser ela, sereia, serena, selene. Lua. Lubricidade. Lucro. Ludo. Lues. Lufada. Lúgubre... Longo caminho até a luz. Eu tímido. Eu platônico. Eu traído. Eu traindo. Vós sem voz. Musas sem música.

Eu fui caído no som. Só ecoando. Só, só, só... Som. Sou. Soul. Sou zinho. Inho. Ino. Desafino. Engrosso. Engordo. Engodo. Visigodo. Godo. God. Valha-me, Senhor de minha avó. Vó. Izolda. Tristão. História. Tempo. Sou, fui, vou. Vovó. Vox. Voy. Voz.

Eu fui lascado no sonho. Rachado nos pés. Perdido na mata. Corrido do outro. Tropeçado. Iminente morto. Olhado no olho. Só para ver o inimigo. Firme. Corrido comigo. Nativo da mata. Virado dos pés. Mão estendida. Meu amigo. Eu era meu amigo.

Eu. Um. Eum. Amigo, inimigo, personagem, vó, mulher, mãe, multidão. Eumatia: fácil de aprender. Desprender. Livrar. Soltar. Ar. Sol. Sou.

Não há deus
senão você.
E você não é deus.
EU SOU.

Ainda queres ser tu, abandonado? Ou ficas sendo EU SOU?


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2 comentários:

Carla Dias disse...

Que poesia é essa? Das boas nessa prosa de ritmo para inquietar com questionamentos.
Lindo, lindo...

Cris Ebecken disse...

Delícia de palavras alinhavadas... convocam os sentidos de dentro...