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Mostrando postagens de Dezembro, 2007

2008 - Um Ano Guerreiro >> Claudia Letti

A Roda da Fortuna, cores vermelha e marrom, planeta Marte, Ogum, Xangô e Iansã, Números 1 e 10, Rato no Horóscopo Chinês. Tudo isso vai simbolizar, reger, orquestrar os dias de 2008, um ano em que dançar conforme a música não parece ser a atitude mais apropriada, exceto, é claro, se você for um exímio dançarino. Com todo respeito e admiração pelo Mestre Pagodinho, deixar a vida nos levar pode ser um enorme desperdício.

Marte pede novos começos, inícios, colocar a coragem, a ousadia e a vida em movimento no trabalho, num empreendimento, num relacionamento ou num hobby. Este não será um ano para ficar comendo mosca ou para investir tempo e paciência em projetos aposentáveis. Deixemos o comodismo para anos menos animados. A hora é agora, urgente, impulsiva, assertiva. Pra quem gosta de pesar os prós e contras de qualquer decisão antes de dar um passo adiante, 2008 talvez apresente um dos 10 raios da Roda da Fortuna, a carta do Tarot que pode girar e virar a vida de ponta cabeça, pedin…

O ANO EM QUE SOU FELIZ >> Eduardo Loureiro Jr.

Você já tentou puxar um ano pela memória? Não é fácil. O tempo de agora não olha para o tempo passado como se olha para um calendário organizado dia após dia.

O que lhe aconteceu no dia 13 de fevereiro? Ou em 21 de maio? Que tal 5 de setembro? Nesse mesmo dia 30 de um mês atrás, novembro, o que lhe aconteceu?

Eu não me lembro o que aconteceu comigo em qualquer uma dessas datas, mas meu programa de e-mail lembra.

13 de fevereiro. Indiquei para a minha família um site de cálculos de todos os tipos (financeiros, trabalhistas, horários, imobiliários). Conversava com meu caro amigo Fabiano sobre a fundação de uma ONG. Solicitei inscrição numa lista de audiovisual. Parabenizei meu primo Guto enviando pra ele uma imagem de Ekeko, uma divindade boliviana da prosperidade. Conversava com minha querida amiga Inês, uma de minhas correspondentes mais constantes nesse ano, sobre possíveis mudanças de cidade que faríamos.

21 de maio. Eu e minhas irmãs conversávamos sobre o presente que daríamos a mi…

MENSAGEM DE ANO NOVO [Maria Rita Lemos]

Pensando bem, no ano que está acabando, nem tudo foi como sonhamos; mas isso não significa que temos que avaliá-lo como um ano ruim.

Quem crê num Poder Superior sabe que tudo o que aconteceu, e tudo o que ainda vai acontecer no ano que vem chegando, seja bom ou ruim, vai contribuir para o nosso bem maior, mesmo que não pareça à princípio.


Chico Xavier escreveu uma vez que “podemos ter um governo mais ou menos, morar numa rua mais ou menos, numa casa mais ou menos e dentro de uma cidade mais ou menos. Podemos também comer mais ou menos bem, dormir numa cama mais ou menos, e até acreditar mais ou menos no ano novo que vem chegando. Podemos, enfim, olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos. Mas o que não se pode, de jeito nenhum, nem nesse ano que está aí pertinho nem nos outros, é ter fé mais ou menos, acreditar mais ou menos, ser ético e honesto mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, e, o pior, não podemos, em nenhuma hipótese, sonhar mais ou menos ou a…

MULHERES À FRENTE DO SEU TEMPO [Débora Böttcher]

"O que marca um líder é sua capacidade de absorver fracassos." (Benazir Bhutto)
*21/06/1953 | +27/12/2007
A Revista Claudia de Janeiro, com entrega prevista para o próximo dia 04, amanheceu debaixo da porta nessa sexta-feira. Numa rápida folheada, foi possível saber o motivo da antecipação: uma das principais matérias traz o retrato de Benazir Bhutto, assassinada durante um atentado no dia anterior.

No artigo, a história da ex-premiê, elaborada pela repórter Marília Scalzo, não tem final: uma nota ao pé da página diz que quando o texto foi escrito, o Paquistão permanecia em estado de exceção, com as eleições de 08 de Janeiro garantidas e a candidatura de Bhutto assegurada.

Não sou especialista em política - muito menos internacional -, mas acompanho, ainda que de longe, a trajetória de algumas mulheres - líderes por natureza, centradas em lutas acirradas, com ideais visionários e coragem destemida.

Benazir Bhutto é uma dessas mulheres, cuja vida foi marcada por extremos - como …

JULIE LONDON >> Leonardo Marona

De tirar sangue, a última vez: uma pena na cueca. Que galinha? Dois dedos de uísque na garrafa. Agressões verbais, seguidas de hematomas no pescoço, intercalados com gritos lancinantes de ódio e paixão.

Ele voltou um mês depois. Estava mais magro, tinha sujado a camisa com gordura na pastelaria chinesa. Viu a pastelaria sendo lavada no fim do expediente. Um cheiro terrível adocicado. Ficou lilás. Correu até a casa dela. O enjôo o teria levado até lá? Fazia muito tempo. O porteiro já não reconhecia, ficou olhando feito índio.

A porta entreaberta. A mesma luz vermelha. A casa escura com exceção de um caleidoscópio feito com papel reciclado, que iluminava uma mariposa minúscula no teto do quarto. O gato na cama emaranhado entre as cobertas. Gato odioso, ele o adorava. Pôs a cabeça de fora e começou a miar mostrando os dentes para a mariposa, que se mantinha indiferente no teto.

De início, aos dois novos estranhos, olhar a mariposa e falar com o gato. Saída mais natural sempre, a constranged…

DAQUI A POUCO É DEPOIS? >> Carla Dias >>

Fosse o hoje um ontem travestido de agora... Desculpem-me, mas o tempo me fascina, assim como fascina a um amigo querido. Conversamos muito a respeito do tempo, não só sobre a forma como ele passa para cada um de nós, mas também sobre como não permitimos que ele passe, por medo do que virá ou até mesmo por comodidade.
Sei que, talvez, melhor fosse contar como passei meu Natal, celebrar prós e prometer melhoras aos contras. Mas só consigo pensar no que deixamos passar ao fecharmos os olhos para o que realmente importa. Porque somos seres humanos e uma das nossas falhas mais freqüentes é deixarmos passar.

Em algum momento da minha infância, essas celebrações foram importantes de uma forma peculiar. Não se tratava dos presentes, nunca acreditei em Papai Noel, mas encantavam-me os olhares das pessoas, sabe? Eram mais acolhedores, mais esperançosos. Apontavam para um futuro em que o amor seria como as roupas que minha mãe deixava quarar no sol de terça-feira qualquer: limpo, claro, perfumado…

O PRIMEIRO NATAL >> Eduardo Loureiro Jr.

"Ele virá...
Quem nasceu para sempre pra sempre virá;
é uma eterna semente solta pelo ar,
fecundando de felicidade por onde for."
(Paulinho da Viola)

Astrônomos pesquisam novas estrelas no céu. Astrólogos calculam sinais. Famílias sem teto buscam um lugar para passar a noite. Crianças nascem. Pessoas cantam. Anjos passeiam, despercebidos de muitos, aparentes para alguns.

Eu olho o mundo, farejando o instante do tempo sem tempo. Procuro no céu de hoje a estrela que há muito brilhou. Pergunto em que improvável lugar a família abençoada passará a noite. Faço silêncio para ouvir o canto. E espremo os olhos para entrever a imatéria dos anjos.

Se minha fé for do tamanho de um grão de mostarda — penso —, a montanha do tempo desaparecerá. Eu estarei em Belém. Sentirei o cheiro forte de José e mirarei Maria com olhos de paixão e joelhos de reverência para com sua barriga: bela e redonda. Tímido — e assustado com a inexistência do tempo —, procurarei uma pedra em que me sentar: "Não se …

PARAFRASEANDO EM FRENTE [Cris Ebecken]

Vez ou outra esse arrepio confissional me sopra à nuca, toma meus dedos, toca as palavras em repeat reflexivo. Não tem santo que me cure desse desatino repleto de querências do tocar em frente, de buscar nos passos dados as promessas da caminhada. E essa entidade carimbada, vestida de branco e lingerie em cor escolhida a dedo, chamada fim-início de ano, me faz rendida à sonoridade equilibrista da música do tempo.

“Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei”*



Mas há de se fazer a pergunta să e traiçoeira: de que servem tantas linearidades com o calendário, por que agendar certezas, quando o próprio tempo, com seu andar milimétrico desmatematizado de ponteiros, é em si apenas o convite ao agora?

“Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada…

FRUSTRAÇÕES [Mariana Monici]

Tive a idéia, junto com uma amiga, de escrever um inventário sobre frustração. Ela está em crise com uma frustração profissional, das grandes! Encomendou-me um ensaio a respeito e aqui está a tentativa. Ela, por sua vez, escreverá um trecho da sua frustração que muda de formato a cada dia.

Amiga, não é fácil. Eu mesma arrumei metafóras para as minhas frustrações de forma que ficasse mais fácil pensar a respeito. E são tantas na vida.... Nem sei onde começam. Na sala de parto talvez?! Quando viemos ao mundo, cumprindo zilhões de expectativas alheias e já aprendendo a tê-las.

Blogs começam em frustrações. O problema pode morar aí: expectativas. Junto com elas ilusões, fantasias, inocência, uma vontade tamanho família de crer - no outro, em coisas, em lugares e na vida. Tipo pizza 12 pedaços... gigante! O que acontece é que às vezes vêm 12 pedaços cortados tão injustamente pequenos que, apesar de serem 12, não são suficiente para todas as pessoas. Aí algumas se frustram. Sem contar que, q…

Até o último apito no cais >> Leonardo Marona

Acabei de estourar uma espinha branca na testa. Estou no elevador sozinho, a cara enfiada no espelho embaçado, coberto pelas rajadas de luz de cada andar. O sangue desce devagar pela testa. O sangue não tem a cor que deveria ter. Giro a chave, entro. O telefone ficou sem tocar a semana inteira. Tudo o que um homem precisa para saber se é um homem é ser deixado sozinho. Acho que não sou um homem na maior parte do tempo. Sento na mesa da cozinha. As formigas rezam numa roda. A toalha é branca e vermelha e xadrez, existem frutas pintadas em potes no pano: cerejas, pêras, laranjas, framboesas. Agora estou olhando para baixo. Minhas coxas muito brancas com pêlos muito negros somente nas partes internas e a toalha xadrez pintada de frutas silvestres, juntas, formam uma cena triste e redentora: uma espécie de constatação. Mas é nessas horas que, em algumas noites, ou inícios de manhãs, quando o céu se aflige de laranja e o mundo faz menos barulho, ou nenhum, quando acordo, ou tento dormir, o…

ENTREMEIO >> Carla Dias >>

Ao chegar ao fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas... Lá no fundo, no bojo dos destemperos, ao invés de cair no berreiro, até sorri para contrariar o que lhe desfere o destino. E não é sorriso de deboche, não é amarelo, desapegado da arquitetura do prazer que há em sorrir. Sorri a satisfação de ainda conseguir tocar fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas e, embrenhada em destemperos, segundos antes de a alma abocanhar um belo berreiro, então... Toca cada fundo como se fossem teclas de um piano mudo; pétalas de bem-me-quer-mal-me-quer, e impulsiona a volta ao fôlego. Respira a cordialidade das voltas para não relutar em tentar outra vez, ao comando de uma constância catártica.

Tem certo prazer em cultivar contrariedades: assiste filmes tristes para compreender férteis alegrias; garimpa solidão para alcançar agradável companhia. Amarga os desapegos para banhar-se à beira das novas chegadas. Não deserda missões quase impossíveis, mas se dedica a descortinar suas n…

MÃE >> Eduardo Loureiro Jr.

Amanhã será o aniversário de minha mãe. Ontem foi o aniversário de minha mãe. Ontem, a festa. Amanhã, a data. Hoje, a crônica.

Na família de minha mãe, existe a tradição de comemorar os aniversários redondos (50, 60, 70, 80 anos) com uma grande festa em que se reúne de 100 a 200 pessoas, entre familiares e amigos mais próximos do aniversariante. É feita uma ambientação temática de acordo com a vida e os gostos do homenageado. Mensagens de pessoas distantes são recolhidas e lidas. Coletam-se fotos e histórias. Prepara-se uma paródia, a partir de uma das canções preferidas da pessoa, substituindo a letra original por outra que conta a história de sua vida. Foi assim ontem com a minha mãe, que está fazendo 60 anos.

Tem gente que não acredita que minha mãe tem 60 anos. É uma tendência humana, ou pelo menos dessa nossa época, associar juventude com beleza. Se é belo, não pode ser velho. Se é velho, não pode ser belo.

Eu penso que minha mãe chegou bem a tempo, nem adiantada nem atrasada, para …

DE VOLTA PRA CASA [Claudia Gonçalves]

Outro dia, minha mãe, questionadora como sempre, veio perguntar por que razão as mulheres da minha geração estão querendo voltar à vida doméstica. É como se houvesse um retrocesso: tantos anos de luta para sair de casa, estudar, buscar a qualificação e a ascensão profissional para depois voltar para o fogão e a vassoura. Vai entender?!

Diante daqueles olhos cheios de pontos de interrogação, respirei fundo, refleti um pouco, e dei início a uma longa explicação que misturava minhas próprias impressões e vivências, mais tudo aquilo que leio nas listas de discussão da Internet, escuto das amigas e das clientes de tarot.

Temos um fato histórico que deu o pontapé inicial à saída das mulheres do restrito mundo doméstico, que foi a II Guerra Mundial. Com os homens lutando na guerra, em um período onde as indústrias não poderiam parar, as mulheres foram convocadas a participar senão por razões profissionais, ao menos por razões patrióticas. Assim, a década de 1940 entrou para a história através …

CARÊNCIA AFETIVA [Maria Rita Lemos]

Chamamos tanta coisa, indevidamente, de "carência ", que fica difícil explicar seu verdadeiro significado, pelo menos do ponto de vista afetivo.

Se alguém se apaixona por uma pessoa, e, nós, estando fora da situação, achamos que não é o momento ou não é a coisa certa, rotulamos logo: "fulana estava carente", e aí, blá blá blá. Podemos achar, também, que estamos carentes quando estamos sozinhas, sem amor, ou quando as pessoas que amamos estão distantes, por diversas razões. Seja como for, vale lembrar a frase do Mestre Jesus: "Amai ao próximo como a ti mesmo".

Pois é, o difícil, muito mais difícil que amar ao outro, é nos amarmos. Aí reside a auto-estima. A regra é clara, como diria o comentarista de futebol: em primeiro lugar, amar ao autor da vida. Em seguida, amar a nós mesmas. Mas não é um amorzinho qualquer: a auto-estima só é para valer quando nos amamos muito. Apaixonadamente, eu diria, sem medo de parecer pedante.

Só dá para saber como amar praticando…

A sinceridade inquietante dos bem velhos >> Leonardo Marona

Hoje me senti ridículo porque vi um filme sueco. E mais ridículo ainda porque gostei do filme sueco. Nunca entendi as questões suecas, muito menos as dos filmes suecos. A mim pareciam questões profundas, justamente porque os suecos dispõem de tempo para pensar nelas, até se tornarem patéticas. Tempo é o que me sobra quando sinto que não tenho mais o tempo de que precisei um dia. Por isso, depois do filme, fui ver fotos antigas, um dos mais graves sintomas da solidão: ver fotos antigas e dizer alto os nomes das pessoas e dos lugares que aparecem nas fotos. Engraçado que uma das fotos mostrava uma loirinha linda que me abraçava e me lembro dela, mas não do seu nome. Fiquei triste porque pensei que aproveitamos muito pouco os bons momentos, porque pensamos demais nas condições que eles nos impõem, nos nomes que esqueceremos.

Larguei as fotos e decidi usar o resto da manhã para consertar as solas dos meus sapatos furados. Entulhei uma bolsa de feltro com quatro pares e subi a Rua Senador V…

NASCEDOURO >> Carla Dias >>

Quando se nasce e de nascido experimenta-se a gula de vida. E a curva indica perigo ou já aponta o acidente. Quando se nasce assim, desse jeito um tanto quanto desmedido, vem logo o rótulo e gruda na cara da gente. Mas quem disse que queremos abrandar a dor e costurar as feridas?

Não buscamos cicatrizes, veja bem... Queremos mais é que não haja corte. Então, que tal fazer a corte a essa paz que não tem rótulo como este que foi grudado na cara da gente?

Porque quando se nasce cuspido, sabe? Caindo em qualquer canto da vida e lambuzando-se de abandonos. Quando se nasce assim, logo nos cravam as tachas nas mãos e crucificam nosso futuro. Mas não queremos pular nossa infância. Queremos mesmo é celebrá-la até que, na idade adulta, nesse futuro mais catártico do que brincante, nós possamos sorrir sem as fendas que nos causaram as tristezas pirracentas. Entende o que digo?

Espalharam por aí e por milênios, que é preciso doer o diabo para compreender a lição. Carecemos mesmo do dolente aprendiza…

VIAGEM >> Eduardo Loureiro Jr.

No meio do caminho, tinha uma cidade. O carro deu o prego em Miranda do Norte. As horas de viagem se transformaram em horas de paragem. Do lado da oficina, tinha uma lanchonete que tinha uma dona que tinha uma filha que tinha um avô.

Eu tirei o violão do saco e fiquei dedilhando o dia, auxiliando o Sol a transformar pacientemente a manhã em tarde. A menina, que se chamava Vitória, e que já sabia falar — embora não comigo — amava violentamente as cordas do violão: batia, puxava... Seus cabelos me encaracolavam. E ela só parou de bater e puxar quando eu assobiei uma canção que eu não sabia que sabia, uma canção nova, novinha, que mais tarde seria a canção de Vitória e de seu avô.

Com o carro quase pronto, eu sentei para um último descanso: gentileza de não apressar um tempo já tão largo. Seu Moura, o avô de Vitória, estava lá sentado, com um olho fechado, seco, sem bola, feito um dia que perdeu um sol para ganhar a lua do outro olho — clara-escura —, que vê menos o presente que o passado.

DEZEMBROS [Mariana Monici]

Nunca mais a natureza da manhã / E a beleza no artifício da cidade / Os meus olhos têm a fome do horizonte / Sua face é um espelho sem promessa
Por dezembros atravesso / Oceanos e desertos / Vendo a morte assim tão perto /
Minha vida em suas mãos.
(Zeca Baleiro)

O que mais se lê este mês são crônicas e reflexões sobre este mês... todas fazendo um balanço do ano que finda e das expectativas para o próximo ano. Uns juram que não têm expectativas, que vivem um dia após o outro. Outros prometem mundos e fundos para que venha aquilo que querem e acham mais que justo. Alguns se planejam para pular sete ondas dia 31, com sei lá quantos pedidos, comer não sei quantas romãs, dar um beijo exatamente à meia noite, e todos os santos só ficam olhando, rindo ou indignados, talvez reflexivos sobre atender os pedidos todos.

Acho que é só um jeito de simbolizar. Acredito que o Ano Novo começa todo dia. Sei lá, todo mundo (que é muita gente), acha que a mudança do calendário, o engavetamento da agenda, a …

A FELICIDADE DOS TONTOS [Ana Coutinho]

Dizem que de tempos em tempos todas as nossas células são renovadas e não sobra nada, nadinha de nada das células anteriores. Não me lembro o tempo, talvez de 30 em 30 anos, algo assim. Se for isso, eu, agora, estou deixando pra trás alguém que fui um dia...

Mas, mesmo se não for isso, mesmo se essa é uma história inventada por alguém inventado também, mesmo assim, sinto-me tantas vezes - todos os dias talvez - deixando pra trás alguém que eu fui um dia. Uma menina leve, magra, cheia de sardas, dá lugar a uma mulher. Uma mulher já com corpo cheio e manchas na pele... Uma mulher que, vez ou outra, sente saudades da menina.

Ah!, a menina. A menina conversava com todo mundo, ria de tudo, era tão tonta, mas tão tonta que só podia ser feliz. E eu não estou falando aqui, de qualquer felicidade mais ou menos não. Nem dessas que a gente força sentir e daí, depois de fazer muita força, respirar bem fundo, ver que o dia está lindo que eu tenho saúde e que estou, sei lá, em Cancun, daí sim, a ge…