sábado, 22 de dezembro de 2007

FRUSTRAÇÕES [Mariana Monici]


Tive a idéia, junto com uma amiga, de escrever um inventário sobre frustração. Ela está em crise com uma frustração profissional, das grandes! Encomendou-me um ensaio a respeito e aqui está a tentativa. Ela, por sua vez, escreverá um trecho da sua frustração que muda de formato a cada dia.

Amiga, não é fácil. Eu mesma arrumei metafóras para as minhas frustrações de forma que ficasse mais fácil pensar a respeito. E são tantas na vida.... Nem sei onde começam. Na sala de parto talvez?! Quando viemos ao mundo, cumprindo zilhões de expectativas alheias e já aprendendo a tê-las.

Blogs começam em frustrações. O problema pode morar aí: expectativas. Junto com elas ilusões, fantasias, inocência, uma vontade tamanho família de crer - no outro, em coisas, em lugares e na vida. Tipo pizza 12 pedaços... gigante! O que acontece é que às vezes vêm 12 pedaços cortados tão injustamente pequenos que, apesar de serem 12, não são suficiente para todas as pessoas. Aí algumas se frustram. Sem contar que, quando fazemos o pedido, imaginamos um palmito delicioso, com um molho fantastico, coberta com uma mussarela fininha, etc. E pode ser que venha, que seja suficiente para todos, mas seja um palmito meio duro, um molho pomarola e uma mussarela
engorduradíssima. Sem gosto, sem graça, cara e que, portanto, não preenche nossas expectativas e desejos mais genuínos.

Sim, o problema da frustração me parece mesmo começar com expectativas. Em relacionamentos afetivos é comum ouvirmos logo no início "não crie expectativas e tudo vai bem". Como? Porque eu faria algo, qualquer coisa, sem esperar nada dela? Qual a razão do esforço, do investimento, do tempo, beijos ou estudo dedicados?

O problema sabemos. E a solução? Sou ninguém para sugerir e menos ainda definir algo a respeito. Mas, fico aqui imaginando que uma idéia razoavelmente boa seria ter um equilíbrio. Esperar na medida certa. Não é fácil, eu sei. Costumamos esperar na medida em que oferecemos.

Se oferecemos muito, esperamos demais. Troca que parece mais que justa. Quando oferecemos pouco e ganhamos pouco, ficamos felizes, nos sentimos satisfeitos e justiçados. Aí, tenho que observar que é importante saber dar pouco. Eu particularmente não sei... Ou então oferecer um pouco, receber, depois oferecer mais um pouco, ir observando e avaliando, revendo as doses de tudo na situação.

Frustração dói. Quase não consigo separar a palavra frustração de traição. Seu amor te traiu, você se frustra porque esperava mais dele e da relação. O chefe te traiu, você se frustra porque afinal se doou tanto, que erroneamente deixou outras coisas da sua vida de lado. A vida te trai e você fica tentando pensar porque mereceu o câncer da sua mãe, a morte do pai, ou a falência da família.

Acho que está mais do que claro que a coisa toda não é uma questão de merecimento. Até porque não somos juízes para julgar quem merece e quem não. E também não temos juízes com muito juízo, não é, amiga?

Além do mais, percebo outra expectativa aí: juízes deveriam ser pessoas justas, mas antes de juízes são pessoas. Pessoas - todas - têm expectativas, desejos, erros e vontade enorme de acertar, falhas, uma coleção de pedidos de desculpa a serem feitos e, na maior parte das vezes, não sabem o que fazer.

A parcialidade incomoda, por isso é fácil receber conselhos de quem está de fora. Só que queremos receber coisas de quem está dentro da situação, porque esperamos. Por que criamos um cenário e nossa mente projeta o futuro de tal forma que muitas vezes esquecemos de viver intensamente - e apenas - o dia de hoje. Quando ganharmos três mil, quando emagrecermos 2 quilos, quando terminarmos de pagar o carro, quando o nenê puder ir à escola, quando o marido voltar a trabalhar, quando ele finalmente
reconhecer tudo que faço, quando eu entrar na academia, quando eu for contratada. Está sempre . Por isso sofremos, porque o nunca chega. E também porque fazemos para ter resultado e não o contrário: temos resultados porque fazemos.

Não se pode deixar de lado outro detalhe. É certo que algumas pessoas proporcionam que tenhamos expectativas e esperanças a respeito de algo que já sabem que provavelmente não poderão cumprir. Ok, isto é fato. O Presidente da República talvez aja assim, os namorados talvez ajam assim, os chefes agem assim. Está em cada um de nós querer realizar o outro em suas expectativas e está no outro a vontade de confiar. Porém, para que alguém nos faça acreditar em coisas que não vão acontecer, precisamos permitir. Deixamo-nos seduzir ao invés de pensar!

Bem, a boa e velha balança sendo requisitada de novo. Ponderação, razão x emoção e a capacidade, unida ao talento de poucos, em enxergar as coisas como elas são. Percebi agora que não é à toa que nunca enxerguei bem e nem as duas cirurgias corretivas me abriram os olhos.

Cést la vie. Acabei me lembrando dos Stones: I can´t get no
satisfaction... And I try, and I try, and I try...


Outras Cenas

Imagem: Portrait of Katharina Cornell, 1951, Salvador Dali; Walking Around, Lilia Avelar

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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

Mari, querida,
A gente conversa tanto sobre frustração, né? E eu tô meio que sempre do lado de fora, que as minhas frustrações hoje são menores, já que não espero muito do outro, mais de mim. Acho que a idade faz isso... :)
Beijo grande.

Cris Ebecken disse...

O fazer em si, talvez seja o alvo do meu acreditar... as peneiras da frustação separam o ouro, mesmo se pequenino...