sábado, 29 de dezembro de 2007

MULHERES À FRENTE DO SEU TEMPO [Débora Böttcher]


"O que marca um líder é sua capacidade de absorver fracassos." (Benazir Bhutto)

*21/06/1953 | +27/12/2007


A Revista Claudia de Janeiro, com entrega prevista para o próximo dia 04, amanheceu debaixo da porta nessa sexta-feira. Numa rápida folheada, foi possível saber o motivo da antecipação: uma das principais matérias traz o retrato de Benazir Bhutto, assassinada durante um atentado no dia anterior.

No artigo, a história da ex-premiê, elaborada pela repórter Marília Scalzo, não tem final: uma nota ao pé da página diz que quando o texto foi escrito, o Paquistão permanecia em estado de exceção, com as eleições de 08 de Janeiro garantidas e a candidatura de Bhutto assegurada.

Não sou especialista em política - muito menos internacional -, mas acompanho, ainda que de longe, a trajetória de algumas mulheres - líderes por natureza, centradas em lutas acirradas, com ideais visionários e coragem destemida.

Benazir Bhutto é uma dessas mulheres, cuja vida foi marcada por extremos - como é próprio a seres com causas irreverentes. Saiu da infância privilegiada e romântica em fazendas no Paquistão para ser educada em Harvard e Oxford, construindo seu destino político quando prometeu ao pai, deposto por golpe militar e condenado à forca, continuar sua luta pela democracia - uma promessa dura de cumprir, considerando as linhas radicais do Oriente.

Viveu em prisão domiciliar, mas foi numa cela no deserto, onde permaneceu por três anos, doente e privada de tudo, que começou a acreditar que 'Deus só nos dá a carga que podemos aguentar.' Com permissão para tratar-se de uma infecção fora de seu país, exilou-se em Londres por dois anos. De volta em 1986, foi aclamada pelo povo e em 88, aos trinta e cinco anos, tornou-se a primeira mulher a comandar um país muçulmano. No auge de sua popularidade e única herdeira do legado de seu pai, foi acusada de corrupção - 12 bilhões de dólares perderam-se em negócios obscuros -, e tirada do governo.

Linda, glamourosa, jovem, inquieta, ela polarizava opiniões: era amada e odiada com a mesma intensidade.

Consolidando suas convicções, em 93 venceu novamente as eleições e essa era de ouro poderia ter sido um coroamento que duraria para sempre. Mas em 96, sob as mesmas acusações de anos atrás, foi destituída outra vez, exilando-se em propriedades gigantescas na Europa.

O Paquistão é o segundo país no topo da lista de mais corruptos do mundo e Benazir é considerada a líder que mais auto-enriqueceu através do poder. Ela sempre negou essa acusação. Pesa sobre ela ainda os piores registros de execuções extrajudiciais, torturas e mortes de prisioneiros sob custódia, além do fato de ter ajudado a fortalecer, armar e financiar grupos no Talibã. Diferentemente do que Benazir afirmava, um coro de feministas a acusa de nada ter feito pelas mulheres de seu país, que lutam pela revogação de leis, baseadas na religião, para julgar casos de adultério e estupro.

Benazir retornou à sua terra natal em 18 de Outubro depois de oito anos de exílio voluntário, com a chance de resgatar sua credibilidade e recuperar o prestígio de outros tempos. De mãos voltadas para o céu, seu inseparável lenço branco cobrindo os cabelos, olhos marejados e vasta esperança na bagagem, ela desceu do avião em Karachi, ao sul do Paquistão, com discurso de conciliação em defesa da democracia, outra vez
candidata à presidência civil.

Carismática, foi saudada por 250 mil pessoas. Escapou ilesa a um primeiro atentado nesse mesmo dia e sabia que sua vida corria risco. Mesmo assim, sem perder seu foco de idealização, continuou sua peregrinação, valente e engajada.

Na última quinta-feira, sua alegria ao ouvir o povo aclamá-la, a fez romper as normas de segurança, expondo-se como alvo de peito aberto: a sorte vacilou, seu corpo tombou inerte, sua voz está calada para sempre.

Símbolo de modernidade, a história de Benazir Bhutto foi pontuada por contradições: sua determinação e ousadia a levavam do auge à ruína, e cada revés fortalecia mais seu espírito imbatível.

Na análise superficial de seu percurso, não consigo definir se ela era princesa ou bandida, mas não há dúvida de que sua morte a transformou de ícone em mártir.

Imagens: AFP e Reuters

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