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Mostrando postagens de Junho, 2021

TORTO >> Carla Dias

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É enganado esse caminho que leva ao outro. Cada pedra-tropeço, cada descaso nutrido pela ignorância que cria valas a serem ocupadas por desconexões profundas, de alimentar desigualdades. Passo a passo, a se abeirar com seus propósitos disfarçados de zelo, reconhecimento. Observe: Nas veias correm sangue, no estômago grita a fome, na pele eriça o desejo, na boca morre a palavra. As solas dos pés sonham estradas, mesmo quando é um cubículo o cenário disponível, mesmo quando a vastidão se deita à frente e de nada vale esse tanto. Não é nos bolsos que mora a verdade. Mesmo vazios, transbordam alegrias. Mesmo habitados por tantas riquezas, carecem do que não podem adquirir, ainda que insistam no assunto. Poderia usar palavras onde elas caibam em significado: prédios vazios de gente, frutos de mentes que amam prédios, mas não pensam em gente. Cidade de ruas cheias de gente, e não, não é show, celebração, mas cama de calçada. Corpos deitados em honra ao rótulo de inutilidade. Vasilhas de ampa

TODAS AS CASAS, AFINAL, SÃO IGUAIS >> André Ferrer

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 ─ Encontrou os documentos? ─ Há duas outras pastas no aparador da sala, mas creio que esteja tudo aqui. Preciso conferir antes de irmos.  Então, o homem que trazia a pasta se deteve. Ele gingou, indeciso, porque a idosa fez o mesmo diante dele. Ambos no apertado espaço entre os armários e a mesa da cozinha. ─ Mãe! ─ disse ele. ─ Sente-se, filho, vou passar um café.  ─ E a sua dor de cabeça Junior? ─ o pai perguntou. Estava sentado à mesa. Os braços cruzados. Olhava com severidade para Junior. ─ Você reclamou de enxaqueca lá no cemitério.  ─ Ainda dói. Realmente, preciso de um café preto.  ─ Filho! Este casebre nem chega aos pés do palacete ─ fez o pai, que examinava todos os detalhes do lugar desde que ali chegara. ─ Eu nunca entendi porque o Comendador se mudou para cá.  ─ Pai, ele costumava dizer que o palacete ampliava a solidão. Logo que enviuvou, dispensou os empregados e alugou a propriedade.  ─ Conversa fiada.  Sentado à mesa, Junior abriu a pasta. Quando voltou a erguer os olh

0 C0NCÍLIO >> Albir José Inácio da Silva

  - Desde o século XIV que ninguém lida tão bem com a peste! – elogiou Josef.   - Não é um feito tão grande assim. Tem gente morrendo no mundo todo! – minimizou Benito.   O Conselho estava reunido há quatro dias sem acordo, ao contrário do último certame, ao final da segunda guerra, em que foram escolhidos três novos membros por unanimidade: Adolf, Benito e Josef - o último pré-aprovado.   Os conselheiros suavam no salão abafado e fumacento. Outras dependências do complexo tinham modernidades como lâmpadas de led, música ambiente - rock, claro - e até ar condicionado, principalmente nos dormitórios da diretoria. Ninguém é de ferro e a temperatura média é de cinqüenta graus, chegando a setenta nas áreas mais baixas e a 90 dentro da poça.   Mas no salão vermelho tudo é tradição, a grande mesa de pedra, os bancos de troncos gastos pelos séculos de uso e a iluminação de tochas.   - De onde é esse candidato? – perguntou o Chefe. – Não vem do mesmo lugar que o maldito Pap

TANTA SAUDADE >> Sandra Modesto

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    Sempre que me lembro de Ana ela está bem ali. Esticada no sofá. Sumida ao esfregar das coxas grossas impostas no corpo feito tela moderna.  Ana era assim. Aparecia às vezes. Debruçada em devaneios.  O meu amor por Ana. Os abraços. Passeios pelas praças. Gente no mesmo espaço. Cheiro de natureza. Agora tá tudo forte.  Há histórias meio roucas ainda. Há histórias inesquecíveis. Pessoas diferentes. Pela varanda da casa, eu observo os vizinhos. Bato palmas, reaprendi a sorrir.  Chamo Ana. Reencontros tão sonhados.  Ruas enlouquecidas com pessoas se olhando de perto.  Juventude pelos bares. Notícias novas. Sem demasia.  O caminhar é a pé.  Eu ainda estou aqui. Ana também.  Dançamos. Gritamos felicidade.  Pele, pernas, risos. E a gente pode gozar.    O texto foi publicado nas revistas Ruído Manifesto e revista Torquato. O título do texto, coincidentemente, é o nome de uma música de Chico Buarque.  (Imagem: Pinterest.com)

RESGATE DO PASSADO - UMA AVENTURA DO DETETIVE SEM NOME - PARTE UM >> Zoraya Cesar

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A mente sombria e inquieta me obrigara a ficar acordado a noite inteira. Às 5 da manhã desisti da cama, preparei uma vitamina de café, rum e ovo e fui correr. O ar frio e a chuva fina arejaram meus pensamentos e o esforço reequilibrou minhas energias. Voltei molhado e enregelado, mas bem disposto. Ia ao enterro de um amigo querido. Um amigo cuja morte eu vingara.                                                                     ------------------------ Ela marcara horário e fora pontual.  Meu instinto, forjado a fogo e fel, remexeu-se. Uma mulher como aquela jamais seria pontual – estaria acostumada a fazer a Terra parar seu movimento para esperá-la. Era um estouro. Uma morena cor do Caribe de cabelos castanhos escuros ondulados, lábios carnudos e olhos esmeralda. Os seios eram grandes e pesados, mas combinavam com a cintura profunda e sinuosa, as ancas convidativas. Emanava um sex appeal que faria qualquer homem perder a cabeça. A cabeça, o bolso e a vida. Uma fragrância de mandari

ÀS ESCURAS >> Carla Dias

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Pediram para que eu fizesse paz e fui logo tirando do armário um velho xale de linho: feito à mão, na companhia da mãe de alguém que não conheço.  Pediram para eu fazer paz: cantarolei a canção de infância, saboreei a paixão já adulta, flertei com amor que na minha idade não quer usar carapuças, pede somente um pouco de sol em fim de tarde de verão. Pode ser que eu pense diferente, que eu sinta e ressinta diferente, que seja diferente o meu caminhar, minha roupa, meu ar de turista da vida, minha palavra de fé preferida.  Ainda assim, às escuras ficará, incapaz de mapear o meu sentir.  Pediram para eu fazer guerra: fui logo negando a missão, amando Gandhis, flertando com a poesia, dançando rock, seguindo procissão nessa vida prenhe de festa, farra, risca-faca, miséria, de olhares amantes e amantes amando feito profetas que, às vezes, são. Pode ser que eu queira diferente, que eu siga e volte diferente, que seja tão diferente a retórica, difícil de esmolar direitos. E minha falta de ar d

ACELEROU!! >> Clara Braga

Já tem um certo tempo, quando baixei o aplicativo do Telegram no meu celular, que fiquei curiosa para entender o porquê que muitas pessoas preferiam esse aplicativo ao WhatsApp. Era uma curiosidade besta, mas foi o suficiente para eu ir pesquisar sobre. Descobri que no primeiro aplicativo, mesmo que você faça parte de um grupo, seu número de celular não fica disponível para todos os participantes, o que garante mais a sua privacidade. Achei bem interessante, e já me parecia o suficiente para que grandes grupos fossem montados lá e não no outro aplicativo. Mas lembro de ter encontrado também muita gente dizendo que preferia o Telegram pois ele tinha a opção de acelerar as mensagens de áudio. Então, toda vez que alguém precisava mandar um texto muito longo, mandava um áudio e, se não fosse algo de extrema importância, que demandasse uma atenção plena, você poderia ouvir mais rápido! Eis que o WhatsApp parece ter entendido que essa era uma demanda de seus usuários, e então atualizou o apl

Alma Parte II >> Alfonsina Salomão

Alma planava em círculos com naturalidade, como se houvesse feito isso a vida inteira. A brisa acariciava sua testa, bochechas e nuca com suavidade, era uma das melhores sensações que jamais havia experimentado. "Quase tão gostoso quanto chupar manga no pé", constatou. Seus longos cabelos pretos flutuavam paralelos ao torso, formando uma capa de super-herói. A menina olhou por cima dos ombros e descobriu, sem espanto, que no lugar dos braços tinha asas, negras como as dos urubus. “Que sorte meu rosto não ter se transformado também, porque os urubus são realmente muito feitos”. Avistou a mãe lá embaixo tirando as roupas do varal e depositando-as numa grande bacia prateada. Aos seus pés estava Joana, que hora cutucava a terra em busca de minhocas, hora puxava sua saia pedindo mamá. A mãe parecia apressada. “Ela é astuta, já sabe que em pouco vai cair um toró”. A mãe parecia não notar a presença da pequena, que ensaiava um choro cada vez que lembrava que estava com fome. A mamad

DOIS CACHORROS >> Fred Fogaça

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    Eu deito em vigília, mas só pra te perceber submisso aos pesares do mal inconsequente, apático à vida. Piedade, Pai! Que fiz? Que fiz! Esse terreiro danado, claro que nos caberia em convivência! Mas eu... eu sentia arder no lombo os pelos levantados e um instinto maligno que me apossa, porque... Tudo porque tenho medo?  Lá fora foi cruel e aqui, o conforto! De que? De perder? Porque você surgiu, assim, em disputa? Com a expressão suave e uma sugestão de culpa, porque você me ofendia com essa generosidade infinita? A cabeça baixa, rabo entre pernas, por Deus! Foi egoísta à ponto de me deixar querer tudo! O território nunca foi pouco,  e a gente sabia o que fazer, eu sempre soube o que era certo... mas agora, céus, e agora? Como que se você vai, assim, sem mais nem menos? A covardia de me deixar ganhar nessa briga que você nunca reagiu, foi eu quem te fiz assim? Ou, talvez, mais importante: você me fez assim, dependente, mas e agora? Eu vou fazer o que com esse problema da tua presen

CHUVA, RESSACA, CONTOS E GAL >> Sergio Geia

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  Hoje acordei de ressaca, a cabeça pulsa. Não a ressaca de bebida, não é dessa ressaca que falo. É que o dia ontem foi pesado demais, a discussão se arrastou, longa, as palavras atiradas de um lado ao outro, como flechas, algumas necessárias e justas, outras fruto de pontos de vista diferentes, mas enfim, não dá para sair de uma discussão dessas igual, as águas já são outras e nós já não somos mais os mesmos . Mas sigo adiante, não vou ficar repisando, só a lembrança já machuca. Aliás, acho que preciso de terapia. Sério. Acho que todo mundo precisa.    Logo ontem que acordei com a chuva caindo forte lá fora. Ia caminhar, mas o barulhinho da chuva caindo me fez abrir a janela para assistir ao espetáculo. Fui ao banheiro, depois voltei pra cama, pra minha coberta. Mais tarde, com a chuva persistente, saí na sacada pra filmar. Logo a filmagem estava sendo reproduzida no Instagram , no Facebook . Agora é assim: tudo que a gente acha bonitinho a gente quer mostrar, o jeito então é compar

CÓPIA >> Paulo Meireles Barguil

Motivo de tristeza e decepção docentes é corrigir um documento cuja autoria não é a designada. Bem sei que o conhecimento é constituído pela pessoa a partir das informações que recebe de diversas fontes, as quais precisam ser adequadamente indicadas. A cópia nos produtos discentes sempre aconteceu, sendo mais difícil identificá-la quando manuscrita. Não sou ingênuo: sei que, infelizmente, até professores optam pela reprodução em diferentes contextos! Com o advento dos equipamentos digitais, houve um incremento quantitativo e qualitativo dessa fraude educacional. Há estudantes que optam pela simples e eficiente combinação CRTL C + CTRL V. A partir da matriz, que pode ser obtida de modo consensual ou criminoso, há quem modifique o cabeçalho ou apenas o nome. Quem tem mais tempo, altera o tipo, o tamanho ou a cor da fonte. Em outras situações, acontece a substituição de algumas palavras ou a inversão delas. São singelos efeitos visuais, pois não adulteram o similar conteúdo, o qual precis

PEQUENO MANUAL ANTI-BABACA >>> Nádia Coldebella

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1. Introdução explicativa super necessária Nessa minha vida, tenho me confrontado com um certo tipo de humano que me deixa de cabelo em pé: o ser humano babaca. Não me recordo ao certo quando ouvi essa expressão pela primeira vez, mas ultimamente passei a usá-la com certa frequência em meus pensamentos. Então isso me incomoda, porque a  palavra babaca adquiriu para mim uma certa pejoratividade e eu me dei conta de que não estava muito segura do uso que faço dela. Antes de estripar a palavra, porém, quero que o leitor entenda que, para mim, ela tem servido como um palavrão. O palavrão tem uma função psicológica bastante estudada, que é, em síntese, provocar o alívio da ansiedade e da raiva. E funciona bem. É por isso que a gente solta um quando enfia o dedinho do pé na quina do sofá. 2. Definição Nadiesca  Abaixo, apresento a definição básica contida nos dicionários. O próximo passo foi a busca por sinônimos. Encontrei estes - e fiz questão de fazer um leve destaque em alguns (caixa alt

PUSILÂNIME >> Carla Dias

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Não reconhece o seu onde atual. Como veio parar neste lugar? Faz ideia nenhuma de onde fica essa avenida que parece não ter fim.  Pergunta-se: ainda estou dormindo? Tenta convencer a si mesmo de que daqui a pouco estará de volta a si. Deve ser cansaço que tira pessoa do ar, mas depois coloca a mente dela no lugar. Deve ser uma dessas breves viagens que o espírito faz, quando não suporta o cansaço do corpo.   Nada de morrer hoje , diz a si mesmo, sem saber se ainda está vivo ou a caminho de um algum daqueles outros mundos, dos quais nunca acreditou na existência. Melhor pensar assim, porque a outra opção seria indigesta. Seus pais indo contra seu desejo e o enterrando em uma cova que pudessem visitar uma vez ao ano, desta vez, pelo aniversário da morte. Curva-se, porque lhe falta altar o ar. Leva algum tempo para se recuperar do ataque de pânico. Observa a todos, quer ter certeza de que, ao solicitar informações, não se envolverá com manobras de desconhecidos. Então, repensa, ou melhor

DUAS BRASAS >> André Ferrer

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Lavar as roupas nem se comparava. O pior era a entrega. Um calvário de distância.  Bênção, mesmo, só a vizinha de cerca. Chegava-se ao fundo do quintal e logo se transferia o peso de uma bacia para a outra. Sem ter que palmilhar o bairro. As roupas iam secar na casa da dona. Fácil demais. Bacia presa no muque, a velha Ritinha se equilibrava no desnível do terreno. Insistia, sugando ar, e pisava nas bordas do arrimo. Quase sem fôlego, chamava.  ─ Já vou.  A outra mostrava o dinheiro. Mulher nova. Tinha um bebê que o marido embalava sob o telheiro de madrugadinha. Ela, na cozinha, preparando a mamadeira. Toda recomendações ao seu homem, que resmungava e, entre risos abafados, entregava o bebê à mãe. A mochila jogada nos ombros. Antes de sair, a brasa do cigarro no escuro. As últimas recomendações.  ─ Não vacile. Ora, se o botequim é lugar!  ─ Perigo nenhum. Já é no asfalto. Bem na frente do ponto de ônibus.  ─ Nada disso. É muito perto daqui. Se vista no batalhão.  Era cuidadosa. Por iss

TERAPIA >> Albir José Inácio da Silva

  Tédio. A vida estava um tédio. O que seria normal para a maioria dos humanos, mas não para ele. Para Miltinho a vida tinha de ter alegria sempre. Outro se daria por satisfeito: bom emprego, bons parentes, bons amigos. Tudo bom, tudo igual. Tudo igual. Do jornal não esperava mesmo novidades. Crimes, desastres, política, corrupção. Os mesmos filmes, classificados, programas, garotas de programa. Tudo igual. Mas o que é isso? “RAINHA CATRINA VENHA SER MEU ESCRAVO E VIVA SEUS FETICHES MAIS OCULTOS LIGUE AGORA OBEDEÇA-ME”. Ela o recebeu de cara feia, mas devia ser parte do jogo. - O que você gosta? - Fica por sua conta. Surpreenda-me... - respondeu ele com um risinho. Tudo certo então. Pagamento adiantado, tire a roupa, espere de joelhos. Sentiu-se meio ridículo, mas ia participar. Sem ousadia não se muda nada. Ela voltou em rendas e botas pretas. Uma corda amarrou firmemente os tornozelos e, outra, os pulsos atrás das costas de Miltinho. Não estava confortável, mas conservava a

ERA SÁBADO >> Sandra Modesto

Um dia desses, senti saudades de um texto escrito há algum tempo. O título do danado eu não sabia. Lembrei-me de um pedaço. Pesquisei e lá estava ele. Quentinho, no frescor do prenúncio de uma tarde, alegre, densa, nesse turbilhão de emoções envolvido por todas e todos nós.  ERA SÁBADO Há tempos ela estava sozinha. Recriando alguns trechos comendo sonho comprado na padaria da esquina.  Apesar do gosto amargo dos dias... Intercalou doçura, rasgos e seguiu. Nessa metade do ano.  Era sábado. As lojas comerciais abertas, homens comprando ramalhetes de flores. Mulheres escolhendo camisetas lisas, cuecas, sapatos de verniz. Os detalhes das pessoas desistindo dos preços, a sensação do não presentear.  A calmaria foi movendo a cidade. A praça principal refletia o adeus solar. Apenas algumas pessoas observando os cenários. Fernanda e Pedro esbarraram um no outro...  — Oi, desculpa, eu sou meio distraída.  — Não foi nada, imagine.  — Pedro.  — Fernanda.  Era sábado... Temporada de inverno quase

CARTA PARA A ARRUMADEIRA >> Cristiana Moura

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  Querida Lise, Que pessoa especial você é. Agora, você, por certo, continua a seguir o seu caminho. Está levando sua alegria de sorriso largo, sua sabedoria imensa e humilde, e sua luz tão brilhante, diria mesmo que ofuscante para outros planos. Nossos amigos e eu vivemos a graça e a honra de compartilhar a vida com você, querida amiga. Cada um de nós desfrutou da sua companhia, das trocas nas conversas, estudos, meditações. Do prazer de compartir o pão e o vinho ao celebrar a vida. Lise que a mim, Cristiana, emprestou sorrisos quando os meus eram escassos. Que também me deu uma bronca quando, sem pretensão alguma, mencionei não desejar ser avó tão cedo: — Deus me liv... Antes mesmo que eu terminasse de falar, ela interrompeu minha fala com suas sábias e simples palavras: "—Ser avó é a melhor coisa do mundo! É uma benção, é a bem aventurança de viver um amor sem posse!" Poucos anos depois, quando Miguel Caetano chegou, meu neto que já tem quatro anos, pude olhar sem medo. Li

FELIZ DIA DOS NAMORADOS, D. LETÍCIA >> Zoraya Cesar

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João Miguel saltava do carro, abraçava as crianças e se despedia. Todos estavam acostumados ao jeito paternal do motorista, e ficavam aliviados em ver que, pelo menos ali, os dois irmãos ganhavam um pouco de afeto.  Porque o pai, Dr. Gruson, era um déspota às raias do sadismo, que tinha a peculiar habilidade de transformar a vida de todos à sua volta em um tormento infernal infindável. Tinha a habilidade e também o poder – pois muito dinheiro, contatos e maldade deixam uma pessoa quase imbatível.  Agora, apresento D. Letícia. Casara sem ter noção que assinara a sangue um contrato vitalício com o diabo. Maus tratos, ameaças, agressões verbais (eventualmente, também físicas). Se você se pergunta por que, em pleno séc. XXI ela não denunciava, separava, buscava ajuda, bla bla bla - essas soluções tão fáceis para quem não vivencia o problema -, eu respondo: porque na vida nada é simples. Mesmo hoje é difícil se desfazer de um companheiro abusivo. Ainda mais rico, poderoso e vingativo como o