TORTO >> Carla Dias


É enganado esse caminho que leva ao outro. Cada pedra-tropeço, cada descaso nutrido pela ignorância que cria valas a serem ocupadas por desconexões profundas, de alimentar desigualdades. Passo a passo, a se abeirar com seus propósitos disfarçados de zelo, reconhecimento.

Observe:

Nas veias correm sangue, no estômago grita a fome, na pele eriça o desejo, na boca morre a palavra. As solas dos pés sonham estradas, mesmo quando é um cubículo o cenário disponível, mesmo quando a vastidão se deita à frente e de nada vale esse tanto. Não é nos bolsos que mora a verdade. Mesmo vazios, transbordam alegrias. Mesmo habitados por tantas riquezas, carecem do que não podem adquirir, ainda que insistam no assunto.

Poderia usar palavras onde elas caibam em significado: prédios vazios de gente, frutos de mentes que amam prédios, mas não pensam em gente. Cidade de ruas cheias de gente, e não, não é show, celebração, mas cama de calçada. Corpos deitados em honra ao rótulo de inutilidade. Vasilhas de amparar água de chuva e receber cadáveres. Indiferença de fiar amiúdes guerrilhas, costurando selvagerias na pele do mundo, pensando em colcha de retalhos e dando cria às cicatrizes que esconderá com palavras onde elas caibam como interpretes de belas mentiras grávidas de resultados calculados.

Já não bastam as contas, joelhos são esfolados para pagar promessas que jamais serão cumpridas. Paga-se promessa adiantado, na tentativa de convencer o santo do próprio valor. Condutas são domesticadas para cumprirem sua parte em projetos que darão em lugar nenhum. 

No entanto, há lugar nenhum que é apenas um lugar de acontecimentos não reconhecidos. De fora, não há quem se dê ao trabalho de percebê-la, mas isso não impede a delicadeza de vingar do ventre de terras áridas. Basta um sopro de vida e ela se espalha. E, neste ponto, hasteia-se um lamento desafinado, parido por ousadias interpretadas perfeitamente na calada da teoria, e que então morre na largada, engolido pela alegria ineficiente desse ajuntamento de menestréis apaixonados por infortúnios.

Cria-se esse mapa de solidões e faltas, de fronteiras amuradas, que permitem que se enxergue não mais além do que um ou outro permite. A liberdade sondada, arrastando correntes e distribuindo desvios, enquanto a boca seca antes do próximo retomar o fôlego patrocinado por amor que não morre, nem quando o sujeito em que habita quase morre. 

Caminho torto é este que leva à crença de que amor é fraqueza. O meu dói em mim a violência de estar só no seu ocorrido e por se manter pulso, grito, engasgo quando tantos amores desfalecem na inabilidade de doer. O amor por isso, por aquilo e aqueles, aquele... diacho de aquele que se envereda pelo meu amor que não aprendeu a morrer, cochichando em seus ouvidos as indecências da esperança.


Imagem: L’Infante Egaree © Marion Adnams por Manchester Art Gallery/Bridgeman Images


carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Caramba que crônica difícil de entender e acho que nem entendi.😂 Porém esse trecho: "Não é nos bolsos que mora a verdade. Mesmo vazios, transbordam alegrias." achei foda!
Zoraya Cesar disse…
Se esse nao fosse um blog família, eu soltaria um palavrão em alto e bom som, para tentar - e apenas tentar - expressar o ASSOMBRO q esse texto provoca, o ASSOMBRO q esse texto é, de bem escrito, de frases clássicas seguidas de frases espetaculares.
Vc é um escândalo.

Postagens mais visitadas deste blog

APENAS UM RETRATO >> Sergio Geia

OK? >> Sergio Geia

CONFORTO >> whisner fraga