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Mostrando postagens de Fevereiro, 2009

PEDACINHO DE SAUDADE [Maria Rita Lemos]

Pois é, o carnaval terminou, mas eu ando saudosista ultimamente; por isso, essa semana, pensei em meus carnavais da infância. Fui jogada para o passado, para a Praça Toledo Barros, mais especificamente para um domingo de “corso”... (sabem o que é isso? Quem não sabe pergunte à mãe, ao pai ou talvez aos avós...)

Papai enchia o carro com a família — não me perguntem de que marca ele era, que já estou dando dicas demais da idade... sei que era azul marinho. A gente levava, nos braços, sacos de confete e serpentina que papai comprava dias antes na Casa Paulista, do sr. Natalino Drago, e fazíamos a festa, minhas irmãs, meu irmão, mamãe, papai, vó Santa e eu, cantando as velhas marchinhas junto com o rádio do carro.

Não faltava o lança-perfume (naquele tempo podia), cujo único pecado — era só o que eu sabia — era quando se jogava no olho de alguém — não podia, porque ardia demais. Só isso. Vim saber dos outros usos dessa substância bem mais tarde, no banheiro de um clube, no meio de um baile…

BAUDELAIRE DE MAU GOSTO >> Leonardo Marona

O velho estava sentado em suas partes de baixo escutando um adágio de Baden Powell numa antiga vitrola encharcada de madeira, embrenhado num trecho fidedigno de Charles Baudelaire, situação que, com um punhado de falsidade e bastante exagero, o fazia estremecer de pânico, alguma coisa a ver com um antigo ditado, talvez de Pascal.

Ao mesmo tempo o velho pensava em como terminar uma tripa solta de texto largada como ferida, sem perceber o distúrbio paralisante que Baden provocava quando acrescido de uma prosa curta de Charles Baudelaire, de modo que sentiu algo lhe escorrer pelo queixo, como saliva, ou sua própria imaginação fugindo de si como fumaça, como se ele próprio fosse uma guimba em brasa – os dentes no copo, olhando.
Ouviu grunhidos sufocados, pessoas se lamentando no seu pulmão. A música atravessou a leitura e ele olhou para o lado. A velha ao lado parecia uma orquídea envenenada, gemia pensamentos incompletos, lábios incompreendidos de branco, golpeava o ar dramaticamente, como…

ÓCULOS >> Ana Coutinho

Desde criança eu usei óculos. Desde muito, muito pequena. Na minha lembrança mais antiga, há sempre um par de óculos em meu rosto. Ora um pequeninho, ora de gatinho, ora colorido, ora um quase invisível como dizia a minha mãe, tentando amenizar o peso de uma miopia altíssima no rosto de uma menina de 7, 8 anos.

Os óculos eram como uma extensão de mim. Eu tomava banho com eles e cheguei mesmo a dormir e acordar com os vidros diante de meus olhos. No banheiro, um dia, lembro-me que resolvi tomar banho sem óculos e, quando saí do chuveiro, não distinguia o que era uma calça jeans pendurada no toalheiro da toalha, logo ao lado. Eu devia ter uns 6 graus na época, não lembro. Não havia tecnologia que tirasse o aspecto de fundo de garrafa dos meus óculos e, quando eu fiz 12 anos, ganhei, enfim, minhas lentes de contato.

Ainda tentei resistir a elas. As pessoas me incentivavam a usar, mas eu não me incomodava de viver com aquele trambolho sobre o nariz. Era comum os amigos de meus pais dizerem:…

O SILÊNCIO >> Carla Dias >>

Se eu pudesse fotografar o sentimento que me acompanha, talvez de mim saísse um inquieto oceano. Se pudesse fazer do sentimento uma obra de arte, preencheria vales com misteriosas galerias.

O que há, afinal, dentro do meu dentro? Ao abrir a boca há os dentes. Ao tirar as roupas há o corpo... E se me abrissem o peito?

As perguntas afloram, enquanto caminho pela cidade. As pessoas se atropelam sem se importarem com o outro. Estranho esse mundo que não para diante de tantas dúvidas... Estranho e admiro.

Por isso o meu silêncio...

Hoje eu improviso outros sons: a respiração, os passos cadenciados; até os olhares em busca frenética por horizontes têm lá o seu barulho. Como este que me consome: o que há além do ponto onde encontro a mim mesma?

Ouço o silêncio, tão clara e cruelmente.

Quero corpo que não seja este que já se rendeu ao cansaço. Quero-o de felicidade plena, e que me acompanhe, enquanto caminho por fora de mim, analisando cuidados necessários, as ausências e presenças.

Pensando... E…

A FOLHADA BOLACHA DO SER
>> Eduardo Loureiro Jr.

As pessoas mudam. Nem sempre para melhor.

Veja o meu caso, por exemplo. Antigamente era comum eu ouvir de meus poucos e bons amigos: "Eduardo, eu o achava tão antipático quando o conheci!" Pois eu mudei. Embora não seja uma pessoa muito falante, já passo uma primeira impressão mais positiva, simpática. Meus amigos continuam bons, e agora são muitos.

Você sabe o que um boné disse para outro boné?
"-- Bom, né?"

Pois era o que eu me dizia até um dia desses: conhecer mais pessoas, fazer mais amigos... bom, né?

E você sabe o que o boné disse para uma caixa cheia de bonés?
"-- Muito bom, né?"

Ser uma pessoa mais simpática... muito bom, né?

Mas essa história de usar boné às vezes dá um calorão na cabeça. Ao invés de poucos amigos simplesmente comentando uma antipatia que já era passado, e que não havia impedido a amizade, agora ouço muitos amigos reclamando sutilmente: "Eduardo, você era tão simpático quando eu o conheci!" E adianta eu dizer que já melhorei ba…

CARNAVAL [Debora Bottcher]

"Quanto riso! Oh! Quanta alegria! / Mais de mil palhaços no salão..." (Trecho de 'Máscara Negra', de Zé Kéti)

Quase todo mundo com mais de 30 anos teve uma infância e/ou adolescência que vibrou ao som das marchinhas de carnaval.

Para mim, a Festa do Rei Momo sempre teve um inexplicável ar de melancolia. Máscaras e sombras desfilando, abrindo passagem para a orgia. A nudez vestindo-se de luz e purpurina, brilhando e despertando sensações – aquelas que ficam guardadas nos sótãos da alma, o ano inteiro escondidas... Fantasias...

Atrás da maquiagem, dos véus e das cores, pode-se ser quem quiser: o palhaço, a bailarina, o pirata, a feiticeira, o índio, a cigana, o super-homem, a fada madrinha. Cada um vende seu sonho e vive sua loucura, despido de cotidiano, alheio à preocupação.

Dos salões de baile às avenidas, a mentira é soberana: ela governa os cinco dias do ano em que tudo é permitido. A quarta-feira - e só depois do meio-dia - é que aciona o botão da realidade novam…

Poemas para dançar ciranda >> Leonardo Marona

Era melhor jogar fora as máquinas, esquecer os vestígios poéticos, não mais abrir o livro sagrado de cetim, queimar o caderninho de anotações. Assim eu me sentia, porque Alice havia chegado e Alice havia partido, mas a presença posterior de Alice em mim permanecia um mistério, um oco incompreensível.
Ela apresenta já na porta do bar, enrolada num cachecol com uma camisa xadrez de flanela e os cabelos recém cortados, uma poderosa meticulosidade aliada a um charme quase infantil, de quem nem mesmo sente que abala, mas no fundo sabe.

Isso é aparentemente revoltante. Como se não restasse mais nada que lhe pudesse tirar o centro da ação, fazê-la tremer as pernas, e eu já tremia há mais de meia hora enquanto ela não chegava. Estava nervoso, sem saber o que falar com uma garota mais nova do que eu, de uma outra geração (seis anos são quase dez), então decidi chegar antes para reler sua Dobradura (Ed. 7Letras), que tinha acabado de sair do prelo, o primeiro filho dela, ela que era ainda tão jo…

NO AVIÃO >> Ana Coutinho

Eu estava sentada na minha poltrona, absolutamente entretida na minha leitura, quando a comissária avisou que as luzes da cabine seriam reduzidas para decolagem. Pronto, um instante depois e eu não conseguia saber o que acontecera com o personagem do romance que eu tinha em mãos. Decidi então acender a luzinha individual, essa que fica acima de nossas cabeças, no teto do avião. Acontece que, quando olhei para cima, tive uma surpresa. A minha luzinha não estava lá. Havia uma luzinha exatamente sobre as poltronas da frente e havia luzinhas na linha exata das poltronas de trás. Onde estariam as minhas? Uma rápida pesquisa me fez notar que, talvez — e apenas talvez — aquelas da frente poderiam ser as minhas, e as de trás, seriam na verdade, dos detrás dos detrás. Enfim, inclinei-me cuidadosamente para acender a luz da poltrona da frente — porque achei que poderia ser a minha — e, assim que a lampadinha iluminou tudo abaixo dela, a moça que estava sentada na poltrona correspondente remexeu…

CADEIRA >> Carla Dias >>

Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Cecília Meireles

Eu morava na lavanderia da casa. Minha mãe, irmã, irmão e avó moravam na casa principal. Entre a lavanderia e a casa havia um quintal sem árvores ou flores; era de concreto. Nele moravam os varais e a tartaruga da minha bisavó, na qual eu tropecei algumas vezes, quando voltava do trabalho. Também falei com ela algumas vezes, porque queria saber o que tanto ela maquinava nos seus passeios preguiçosos pelo quintal, enquanto mastigava sua folha de alface.

Nas noites de lua cheia, lá ia eu paquerar a ilusão de emprestar brilho para colocar na vida minha que teimava em ficar desbotada. E era impressionante como esse olhar flertando com a lua me vestia de vontades... Dava um ânimo!

Em momentos como este, eu até acreditava que seria quem desejava ser e que chegaria... Sabe onde?

Lá...

No lá que freqüenta a imaginação da gente; que pensamos estar adiante, mas que damos de revisitar nas lembranças, num apaixonado passeio pelo pas…

CADA UM TEM O MILAGRE QUE MERECE
>> Eduardo Loureiro Jr.

É a primeira vez que conto um milagre. Na verdade, é a primeira vez que um milagre me acontece. Como sou novato em presenciar e contar milagres, peço a você, leitor, a paciência de me acompanhar, sabendo que podem soar desajeitadas as palavras que se seguem a um milagre.

"Estou doida para escrever, mas completamente sem assunto", me disse a Paula Pimenta pouco antes de fazer e publicar sua crônica de terça-feira passada. Custa-me crer que falte assunto a algum escritor, então prefiro pensar que a mensagem da Paula foi só pra fazer um charminho.

Imitando a Ana Coutinho, que há dez dias escreveu uma crônica dividindo as pessoas em powerpoint e excel, arrisco afirmar que há dois tipos de escritor: o óvulo e o espermatozoide. O escritor espermatozoide diz que a atividade de escrever é mais transpiração do que inspiração, que dá muito trabalho e pouco prazer e que, muitas vezes, não chega a um resultado satisfatório. Já o escritor óvulo acredita em inpiração, nunca sofre por escass…

BENJAMIN BUTTON E A PRESENÇA DE SATURNO [Ana González]

Você pode acreditar que uma personagem nasce com mais de oitenta anos e morre bebê? Não dá para acreditar, a menos que saibamos que se trata de arte literária ou da mágica do cinema. A verossimilhança da obra de ficção bem realizada faz milagres. E nossa mente deixa-se conduzir com prazer e admiração perante a obra que nos rouba a atenção. Benjamin Button me roubou de mim mesma. A imagem de um relógio inicia o filme, com os ponteiros andando para trás. Ele representa a dor de uma perda e a fantasia do tempo que volta e recupera tudo o que não se quer perder. É uma tentativa desesperada para negar a dor do inexorável, para refazer o caminho do desejo humano. Inexorável caminho do tempo, marcha da vida. Esse relógio indica que o caminho será esse: bonito e difícil. São muitas as personagens de toda uma vida que se movem dentro da história. Encontros e separações, figuras poderosas e humildes, todas grandiosas carregando a seu modo o drama de suas vidas. Cada pessoa sendo o que é nas cir…

VINHO >> Leonardo Marona

"remorso"

às vezes
um pingo
de vinho
esquecido
na mesa
domingo
significa
a tristeza
mais que o suicídio
daquele ex
antigo amigo
proxeneta.


“desculpas de um louco”

o delírio
é quando
dão lira
ao nosso
eu lírico;
ou vinho.


“Solidão FM”

às três e vinte da madrugada
vi que as pontas dos meus dedos arroxeavam
e logo em seguida, derrubei minha garrafa.
no rádio, uma voz aveludada saudava uma ouvinte:
“bom dia, Gislaine... você está ao vivo conosco. em que posso lhe ser útil?”
depois do chiado, vacila uma voz fina e triste de mulher mal-amada, eclipsando:
“boa noite, seu Vadão...”
“sim, Gislaine, boa noite...”
“é Gisleine, seu Vadão...”
“tudo bem, Gisleine, do que você precisa?” – disse o veludo, já meio camurça.
“olha, eu queria dizer que eu adoro o programa e que escuto o senhor todo os dias.”
“muito bem, Gisleine... grato pelo carinho. mas diga o que você quer.”
“eu preciso de um marido, seu Vadão. Um que tenha entre 35 e 55 anos...
pode ser calvo, pode ser barrigudinho, não tem problema, que beba!
mas não pode t…

O HOMEM E O MENINO >> Ana Coutinho

Eu estava na manicure, num salão desses bem fuleiros que atendem mulher, homem e quem mais vier.

Já estava na segunda mão, quando eles chegaram, os dois juntos. Era um homem e um menino. O homem, uns 40 anos, foi logo falando pro barbeiro: “A gente vai raspar. Máquina 1”. O menino, uns 15, baixou a cabeça, sem graça, e permaneceu em silêncio. “Os dois?” O barbeiro perguntou, olhando para a vasta cabeleira de ambos. “Os dois”, respondeu o homem, convicto. “Quem primeiro?” Houve um silêncio, antes de o homem dizer para o menino: “Pode ir, vai lá”. O menino sentou na cadeira com uma expressão tão triste e conformada que cheguei a me sentir comovida por ele. O homem batia nos ombros dele, consolando. “Cabelo cresce”, dizia, sem conseguir parecer otimista. Quando começou a passar a máquina, eu jurei que o menino ia chorar. Ele coçava os olhos, calado, nenhuma palavra. Tentava fingir que estava bem, estando absolutamente desolado. O homem, por sua vez, tentava dar um sorrisinho, mudar de ass…

DESPERTENCER >> Carla Dias >>

Parto do princípio de que não pertenço.

Ao não pertencer, abro mão do currículo que temos de carregar, diariamente, como provas cruciais de quem somos e aonde podemos chegar. Mas não me iludo... Sei que se trata de um ínfimo instante a experimentar desse desapego; que provarei de goles dele durante a vida, e que há um duro trabalho a ser feito para despertencer de vez.

Despertencer de quem seria fosse o avesso de quem sou; e das branduras falseadas que nada mais fazem do que perfumar a dor ferina dos desfechos. Esse desapego pelo certo, calculado; pelos calendários e feriados; pelas portas de entrada que são travadas depois que nos engolem. As janelas voltadas ao horizonte que enxergamos feito quadro, quando deveríamos pertencer à pintura.

Os temporais domesticados.

Muitas vezes nos vestimos com amarras, como fossem redes capazes de nos livrar dos tombos, segurando-nos a centímetros poucos do chão. E então, passamos a viver assim, centímetros de distância nos separando da experiência de s…

DOENÇA INCURÁVEL -- Paula Pimenta

P de pato G de gato
A de animal de estimação
Cachorro, coelho e outros
Que a mamãe sempre diz não
Porque estão aqui e ali
Entre o cocô e o xixi
A de animal de estimação
M de mundo mais feliz... (Os Abelhudos)

Quando eu tinha uns cinco anos de idade, ganhei um cachorro. Uma cachorrinha pra ser mais exata. Ela viveu só três anos, mas deixou um vírus no meu sistema que nunca mais foi eliminado. Ou, talvez, esse vírus já tenha vindo de fábrica nos meus genes, já que toda minha família sofre da mesma doença.

Sou louca por animais. Não posso ver um bicho sem sentir, no mesmo instante, uma vontade louca de pegar. Tenho que abrir parênteses aqui: inseto pra mim não é animal. Fora eles, simpatizo com qualquer um.

Em casa, já tivemos passarinho, papagaio, galo, galinha, pato, marreco, maritaca, peixe, furão, tartaruga, gato, hamster, iguana, gavião... cachorro então é a nossa perdição. Atualmente temos seis. Apenas seis porque, se dependesse da minha vontade, teríamos uns seiscentos. Tenho que explicar, to…

"ESTRUPÍCIOS, FILHOTES DE CRUZ–CREDO: MANGALÔ TRÊS VEZES!" [Sandra Paes]

E de repente solto essa ao telefone conversando com uma amiga. Me referia ao cansaço de ter que conversar e explicar isso e aquilo aos “atendimentos de serviço telefônico...” Vixe!

Sim, essa semana, pifou tudo aqui em casa. De repente, nada de internet. Vou pegar o telefone pra saber o que é, e nada de telefone também. Eu, hein?

Outro dia, enquanto fazia algo pela casa, pus um CD pra tocar... De repente, parou. Fui lá olhar e estava escrito no visor do aparelho de som: "NO CD"! Mudei pra outro e deu a mesma coisa. O aparelho não podia tocar o que não havia dentro. Desliguei tudo e deixei passar. Estava muito ocupada pra “escarafunchar” o que houve — o que normalmente faço.

Agora, em plena segunda-feira, ficar sem comunicação eletrônica geral, estava demais pra minha cabeça. Ai é que entram os estrupícios todos. Parece dia de mercúrio retrógrado e tudo mais andando pra trás.

Fora de brincadeira: eu falei com uns cinco carinhas destes que atendem o telefone e lhe pedem um minutinh…

A LEGIÃO ESTRANGEIRA >> Leonardo Marona

Passou o grande navio
Levando os emigrados
Que nenhum país aceita.

(“O Navio Fantasma”, Murilo Mendes)



Aconteceu uma hora quando provavelmente essas coisas acontecem.

Foi enquanto ele pensava no rinque de patinação no gelo, o estar constantemente deslizando em busca de lugar nenhum, foi neste exato momento, ele apenas virou a cabeça para o lado, um certo ângulo de sol lhe encobriu parte do rosto, e teve a idéia de abandonar tudo e se fazer natureza heterodoxa.

Cavou informações sobre requisitos e condições de sobrevivência em terras longínquas onde a morte era um privilégio. Soube de histórias sobre apostas com cossacos tatuados nos moldes da máfia moscovita. Sobre tártaros com as gengivas maiores que os dentes e hálito de moscatel.

Ouviu conversas sobre renegados por doenças insólitas que se pegam por contato de pele íntima. Sobre maus poetas avarentos que vendiam os próprios órgãos. Anões de menos membros que apostavam nos dados com “bailarinas” aposentadas, as ditas “artistas de corpo”. E…