terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

DOENÇA INCURÁVEL -- Paula Pimenta

P de pato
G de gato
A de animal de estimação
Cachorro, coelho e outros
Que a mamãe sempre diz não
Porque estão aqui e ali
Entre o cocô e o xixi
A de animal de estimação
M de mundo mais feliz...
(Os Abelhudos)

Quando eu tinha uns cinco anos de idade, ganhei um cachorro. Uma cachorrinha pra ser mais exata. Ela viveu só três anos, mas deixou um vírus no meu sistema que nunca mais foi eliminado. Ou, talvez, esse vírus já tenha vindo de fábrica nos meus genes, já que toda minha família sofre da mesma doença.

Sou louca por animais. Não posso ver um bicho sem sentir, no mesmo instante, uma vontade louca de pegar. Tenho que abrir parênteses aqui: inseto pra mim não é animal. Fora eles, simpatizo com qualquer um.

Em casa, já tivemos passarinho, papagaio, galo, galinha, pato, marreco, maritaca, peixe, furão, tartaruga, gato, hamster, iguana, gavião... cachorro então é a nossa perdição. Atualmente temos seis. Apenas seis porque, se dependesse da minha vontade, teríamos uns seiscentos. Tenho que explicar, todas as vezes que conto dos seis cachorros, que nem todos foram planejados. Eles foram acontecendo.

O Garoto foi presente para um ex-namorado, a mãe dele não quis o cachorro e eu não deixei que repassassem o pobrezinho pra qualquer um. O namoro acabou depois de dois anos, mas o cachorro está aqui há 13. O Luar foi mais ou menos encomendado. Ele é filho da Menina, minha cockerzinha que foi pro céu há uns anos e sobre quem eu já escrevi uma crônica. Só que a intenção era ficar com uma filha dela, que se chamaria Lua. Como nasceu um filho, ele virou o Luar, o cocker mais lindo e gordão que existe. Daí veio o Mr. Benjamin, um shnauzer. Meu irmão estava ensaiando com a banda em um sítio e um cachorrinho ficava sempre no meio deles, curtindo o som. Ele procurou saber de quem era e soube que o cachorro tinha sido largado lá, pois seu dono tinha tido um derrame e não podia mais cuidar dele. Alguma dúvida de que meu irmão trouxe o cachorro na bagagem? Alguns anos depois, a Menina (já citada) morreu... mas exatamente no mesmo mês, o Luar virou pai e aí foi impossível não ficar com uma filhotinha pra ocupar o espaço vazio que ela tinha deixado, e foi aí que veio a nossa Estrela. Era pra história terminar aí. Só que quando a Estrela tinha um pouco mais de um ano, acabou ficando grávida por acidente, do Luar, seu próprio pai. Dois meses depois ele virou avô... e pai ao mesmo tempo. Nasceram os sete nenéns mais lindos do mundo e a nossa intenção era vender ou dar todos eles, mas só quem é louco por cachorro sabe como é difícil tirar dos braços um filhotinho. Acabamos não resistindo e ficando com um deles, meu Godofredo Mequetrefe, o maior cocker do mundo (e com mais personalidade também). Pensam que acabou? Quase. Nessa mesma época, meu irmão foi assaltado na porta da minha casa. Daí surgiu a necessidade de comprar uma doberman, a Hermione, pra virar nossa guardiã, o que ela sabe encenar como ninguém, já que na realidade ela pensa que é uma cocker, como seus irmãos adotivos.

Não duvido que daqui a pouco apareçam mais. Outro dia mesmo, quando eu ia entrar no meu carro depois de dar uma aula, vi uma cachorrinha sem raça definida deitada bem na porta dele. Como sempre, eu me abaixei pra conversar com ela. Ela ficou meio receosa a princípio, mas cachorro sente em quem pode confiar. Ela veio de mansinho e em dois minutos já estava deitada de barriga pra cima enquanto eu fazia carinho nela. Me levantei (e ela me seguiu) pra perguntar pro porteiro do prédio da minha aluna se ele sabia de quem era, já pensando em como eu ia fazer pra convencer a minha mãe a abrir a sétima vaga, mas o porteiro falou que era dele. Que (falta de) sorte.

Sábado passado eu gerei polêmica quando disse, na mesa da casa da família do meu namorado, que eu tenho muito mais pena de cachorros de rua do que de crianças na mesma condição. Todo mundo arregalou os olhos, como se eu tivesse dito uma heresia. Mas eu expliquei: A criança pode pedir. Ela chega na janela do carro e fala que está com fome, o que sempre lhe rende alguns trocados. Já o cachorro, não só passa fome como ainda é chutado se tenta matar sua fome pedindo comida pra alguém. Por isso minha solidariedade maior é para eles. Minha primeira providência se algum dia eu vier a ganhar na loteria, será construir um centro pra cachorros abandonados. Ia ter de tudo: veterinários, enfermeiros, gente pra dar banho, gente pra dar carinho, gente pra limpar, berçário, tudo que eles precisassem. Depois que eles estivessem em ótimas condições, eu os colocaria para adoção, mas só aceitaria doar para quem realmente tivesse meios de dar uma boa vida a eles, afinal o meu centro seria equipado para eles viverem felizes durante toda a vida.

Por isso é que eu não entendo quem olha torto para animais. Pra mim (e me desculpe se você se enquadra no que eu vou dizer), quem não gosta de bicho não tem um bom coração. Alguns dizem que eles não cheiram bem, que babam, que lambem... O cheiro é culpa do dono. Ou alguém queria que o cachorro entrasse no chuveiro, girasse a torneira e se enxugasse com a toalha? Sobre a baba, claro que eles babam, mil comidas deliciosas à vista e eles tendo que comer ração. Eu também babaria. Agora, a parte das lambidas, quem reclama é porque não sabe como é gostoso acordar de manhã ou chegar em casa e receber montes desses beijos caninos. A vida fica muito mais feliz.

Como disse, nasci com esse vírus. Por sorte todos à minha volta tem essa mesma doença... e eu não faço a menor questão de me curar.


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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Paula, acho que não tenho bom coração: não gosto de bichos, e até desenvolvi alergia a eles. Mas gosto de crônicas bem escritas como as suas. :) Bom lê-la de novo.

C Letti disse...

Paulinha, posso assinar embaixo?? Eu não saberia dizer melhor.
E não acredite nesse cara aí que diz não gostar de bichos... Os gatos aqui de casa gostaram muito dele, e não vi ele espirrando nenhuma vez! rsrs

beijo grande!
(ainda bem que vc escreveu nesta terça assim me organizo no eterno caos do meu calendário)

Juliêta Barbosa disse...

Paula, tenho uma cadela Pitt Bull que é de uma ternura e só falta falar,mas com certeza se eu tirasse na loteria, faria um centro para as crianças e colocaria cachorros abandonados para que elas pudessem exercer a cidadania e o amor. Elas também são chutadas nos semáforos da vida e de uma maneira bem mais cruel. Gostei do seu texto e admirei sua sensibilidade.

Leley ( Inf.50) disse...

UAU!!!!
Nossa Paula, nem sei o que dizer. Vc. foi fantastica sobre esse virus. Tenho duas lindas cachorrinhas, a Mayla (Bichon) e a Loren (Schinauzer). Peguei esse virus qdo. tinha por volta de uns 8 anos qdo. meu pai adotou um vira lata lá em Volta Redonda e o levou de caminhão para Leopoldina, rsrsrsrsrs.....ele estava todo cheio de carrapato (e dos grandes) mas foi a festa da meninada da rua que moravamos. Creio que nunca um cachorrinho recebeu tantas visitas, tanto carinho e tantos tentando tirar os bichinhos nojeto rsrsrsrsrsrs.....
Aqui no predio que moro passei esse virus para a maioria das minhas amigas, até mesmo aquelas que diziam que nunca iriam ter cachorro em apartamento kkkkkkk...... hoje é elas que babão nos bichinhos hahahahahah.....

Carla Dias disse...

Paula... Espero que você ganhe na loteria e faça um enorme centro para cachorros! Mas juro que fiquei pensando que, se a grana for boa, bem que você podia abrir um centro desse pra crianças, né? Afinal, beijos caninos ou da criançada, são sempre beijos bons, né?
E criançada brincando com a cachorrada seria felicidade combinada : )

Anônimo disse...

Paula me decepcionei muito com essa sua crônica, Doença incurável. Amo animais tanto quanto você, defendo meu cachorro como alguém da família; mas isso não significa que ele mereça mais compaixão que uma criança de rua. Felizmente ainda existem muitas pessoas dispostas a alimentar e dar amor aos animais de rua. No entanto, é raro encontrar quem cuide de crianças abandonadas. Imagine uma criança orfã, que mora nas ruas, não tem ninguém a quem recorrer. Sente fome, frio, medo e é maltrada, humilhada diariamente. Pense em seus traumas psicológicos, mentais. Se ninguém cuidar dela, crescerá sentindo-se inferior e se tornará provavelmente um bandido, assassino ou acabará se suicidando. As crianças pedem ajuda e não são ouvidas. Você adotaria cada criança que encontra na rua como faz com seus animais?