sábado, 28 de fevereiro de 2009

PEDACINHO DE SAUDADE [Maria Rita Lemos]

Pois é, o carnaval terminou, mas eu ando saudosista ultimamente; por isso, essa semana, pensei em meus carnavais da infância. Fui jogada para o passado, para a Praça Toledo Barros, mais especificamente para um domingo de “corso”... (sabem o que é isso? Quem não sabe pergunte à mãe, ao pai ou talvez aos avós...)

Papai enchia o carro com a família — não me perguntem de que marca ele era, que já estou dando dicas demais da idade... sei que era azul marinho. A gente levava, nos braços, sacos de confete e serpentina que papai comprava dias antes na Casa Paulista, do sr. Natalino Drago, e fazíamos a festa, minhas irmãs, meu irmão, mamãe, papai, vó Santa e eu, cantando as velhas marchinhas junto com o rádio do carro.

Não faltava o lança-perfume (naquele tempo podia), cujo único pecado — era só o que eu sabia — era quando se jogava no olho de alguém — não podia, porque ardia demais. Só isso. Vim saber dos outros usos dessa substância bem mais tarde, no banheiro de um clube, no meio de um baile, quando me ofereceram um cheirinho — que recusei, menina inocente que era (muita gente ainda duvida, mas eu era, sim; as aparências enganam). Ainda mais no carnaval!

Voltando às noites de corso, bom era descer do carro em volta da praça, procurando o Perigoso, com seu eterno guarda-chuva e a cara amarrada — aliás, eu só perdi o medo dele na adolescência. Eu não entendia por que as pessoas riam tanto do e para o Perigoso, eu o achava triste, tão triste que ele me dava vontade de chorar, coitado, abandonado no altar — talvez fosse a veia de escritora já pondo as manguinhas de fora. Do Perigoso eu não ria, morria de pena e de medo.

Minha personagem predileta era a Geni — quanta saúde, que sorriso aberto, cada dente brilhando. Num tempo em que nem existia o clareamento químico, a Geni tinha todos os dentes, e todos se iluminavam em seu sorriso. Eu nunca vi a Geni fora do Carnaval e, às vezes, pensava que ela ficava encantada no resto do ano, para só ressurgir nos dias de folia.

Havia o carro do Rei Momo, quase sempre com as mesmas princesas, a gente gritava pedindo serpentinas e confetes, e era uma festa quando alguém do carro ouvia e jogava, olhando para nós, o confete que também era pedacinho de saudade.

Depois do tempo do corso, mais na beira do passado, vieram os desfiles das escolas. Lembro-me bem da disputa acirrada entre Dendê e Bandeira Branca, e das baterias de bairros, dos poucos e populosos bairros de Limeira, há cerca de quarenta carnavais! Havia mulheres de biquíni, com fantasias que hoje sei que eram pobres, mas que na época enchiam meus olhos infantis com seu brilho... e como sambavam aquelas mulheres anônimas de idades indefinidas e sapatos de saltos altíssimos! As mães e pais de família (todo mundo era “de família”, até hoje me pergunto o porquê disso) faziam cara de escandalizadas(os), puxavam os filhos pequenos para trás, mas não tiravam os olhos dos peitos e bundas que saltavam dos biquínis reduzidos, com certeza só usados nos carnavais.

Acho, hoje, que sensuais de verdade eram aquelas mulheres anônimas, de uma seminudez corajosa que já não se faz mais. Até porque as escolas de samba de hoje, mais interessadas no dinheiro que no samba, já não têm mais nada que possa ser despido, com toda a sensualidade que o despir-se requer. A nudez dos seios não é mais novidade para ninguém, bem como a exigüidade dos tapa-sexos, cada vez tapando menos, cada vez mexendo menos com as testosteronas alheias, porque o que é muito visto acaba sem graça. Não sei se sou a única a sentir isso, mas para mim há uma tristeza enorme na nudez da Sapucaí. Talvez tenha começado, essa tristeza, quando a telinha da TV mostrou o pé de uma mulher anônima, que sambava apesar do sangue escorrendo pela sandália altíssima, com uma fivela que devia estar torturando. Sangrava e ela sambava e ria em sua nudez quase total, talvez o último desejo fosse jogar longe aquele sapato, algoz dourado, e chegar logo ao final daquela agonia.

Tenho saudade, sim, dos carnavais de minha infância. Como me entristeço, também, em saber que muitos estrangeiros vêm ver nosso Carnaval mais interessados nas bundas das brasileiras do que em nossas belezas tantas...

Enfim, o Carnaval passou e espero que quem gosta tenha curtido. De minha parte, li muito, coloquei a correspondência digital em dia, cozinhei, descansei, para começar tudo de novo — porque os dias dessa festa passaram voando, e as coisas no Brasil, como dizem, começaram agora, depois da quarta-feira de cinzas.



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2 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Maria Rita,

Peguei carona no seu "Pedacinho de Saudade" e viajei lindamente entre confetes e serpentinas. Conheço de perto tudo o que você aqui relatou.Obrigada!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela crônica, Maria Rita. Clássica, gostosa de ler até para quem não gosta de carnaval. :)