sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

BAUDELAIRE DE MAU GOSTO >> Leonardo Marona

O velho estava sentado em suas partes de baixo escutando um adágio de Baden Powell numa antiga vitrola encharcada de madeira, embrenhado num trecho fidedigno de Charles Baudelaire, situação que, com um punhado de falsidade e bastante exagero, o fazia estremecer de pânico, alguma coisa a ver com um antigo ditado, talvez de Pascal.

Ao mesmo tempo o velho pensava em como terminar uma tripa solta de texto largada como ferida, sem perceber o distúrbio paralisante que Baden provocava quando acrescido de uma prosa curta de Charles Baudelaire, de modo que sentiu algo lhe escorrer pelo queixo, como saliva, ou sua própria imaginação fugindo de si como fumaça, como se ele próprio fosse uma guimba em brasa – os dentes no copo, olhando.


Ouviu grunhidos sufocados, pessoas se lamentando no seu pulmão. A música atravessou a leitura e ele olhou para o lado. A velha ao lado parecia uma orquídea envenenada, gemia pensamentos incompletos, lábios incompreendidos de branco, golpeava o ar dramaticamente, como costumava fazer sempre, por nada ou muito pouco.


O velho já havia aberto, cerca de dez minutos, uma garrafa de vinho uruguaio de seis reais e cinqüenta centavos, vinho parecido com sangue venoso, o mesmo que parecia ter tomado o corpo da velha ao seu lado, na mesma guerra, ou parecida. De modo que o aviso do fim da vida lhe obrigou a golfar e manchar as cuecas.


Enquanto se limpava viu a velha se arrastar até o banheiro, ainda tossindo muito, cabelos brancos como gotas aposentadas. Derrubou o livro no chão e seguiu a luz, esquiando em meias. A velha estava sentada – canelas marcadas com estrelas rarefeitas – no chão do banheiro, abraçada à latrina.


“O que foi?”, ele disse.


“Vou vomitar”, ela disse.


Inclinou o corpo e forçou o vômito, mas nada. Mesmo assim a cena era muito repugnante: a velha de camisola encardida, peitos decaídos como anjos demitidos, implorando à privada. Por isso o velho teve que voltar imediatamente ao quarto, onde reparou nos pingos de sangue no assoalho: seu nariz. Tonto, se atirou na cadeira. Viu a velha como um espectro esparramando-se na cama ao seu lado – convulsionando-se como um inseto virado de barriga para cima, com as patas esmagadas por um chinelo infantil.


Foi a primeira vez na vida que lhe veio com tanta força a palavra morte.


A velha começava a roxear, veias como alienígenas incubados na pele da testa.


“Estou morrendo”, a velha disse finalmente e com esforço, mas sem gaguejar e olhando o velho nos olhos, “os dela tão bonitos”, ele pensou, “violetas”. As mãos da velha em volta do pescoço esturricado, os olhos como a preparação para um salto ornamental de notas baixas.


O velho olhou para a velha e também achou que ela estivesse morrendo. Segurou seus braços e pôde sentir a pulsação de algo prestes a estourar.


A velha dizia palavras sem muita conexão, mas basicamente católicas. O velho foi correndo até a sala, o que quer dizer se arrastando. Atravessou a sala para apanhar sua boina, e o cão epilético, sem rabo, verrugas, oito comprimidos diários, feliz, lhe abanou o rabo.


O velho saiu como estava até a rua: cuecas azuis estampadas com estrelinhas e luas brancas, sem camisa, despenteado, sem cabelos. Correu até a avenida central sem conseguir coordenar o raciocínio, então lhe veio um trecho do “Mau Vidreiro”, de Baudelaire:


Há naturezas puramente contemplativas e perfeitamente inaptas para a ação que, no entanto, sob uma misteriosa impulsão, agem por vezes com rapidez de que se julgariam incapazes.


Isso lhe deu coragem para se atirar na frente de um táxi no meio da avenida central. O taxista não tinha cabelos, mas se comportava como se tivesse. Parecia assustado como se tivesse cabelos, mas não tinha. No banco de trás havia uma mulher escondida por sacolas cheias de detalhes assaltados por grifes, as sacolas e a mulher, ela pintada de batom como um palhaço, ou como uma mulher mesquinha recém chegada à alta sociedade.


“Sai do carro”, disse o velho de cuecas, “tem uma pessoa morrendo”, as mãos sobre o capô.


“Vai te fuder!”, gritou o taxista, finalmente como quem não tem cabelo.


E arrancou com o carro.


O velho voltou correndo, ...vidros que tornem as coisas mais belas..., bastante desnorteado, sentindo marimbondos no seu peito, pernas tentáculos, a marreta do vinho na têmpora, ...mas que importa a eternidade da danação para quem encontrou num segundo o gozo infinito? A velha... Então precisou sentar.


Acabou encontrando um ponto de táxi, onde havia um táxi, outro saindo. O táxi que havia estava vazio e era antigo. Havia um homem sentado de costas numa cadeira de náilon lendo o jornal. Seus bigodes diziam algo um pouco vago sobre o seu caráter.


"Amigo, preciso fazer uma corrida", disse o velho.


“Estou ocupado”, disse o taxista, virando a página do jornal.


“Tem uma pessoa morrendo. Roxa, sem ar”, disse o velho.


“Puta que pariu!”, disse o taxista por trás da cortina de bigodes.


Fechou o jornal, entraram no carro, levaram a velha para morrer no caminho até o hospital e, para o velho, até o fim daquele dia, tudo aquilo parecia algo de muito mau gosto escrito por Charles Baudelaire.



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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, eu tenho uma certa dificuldade em "ver", imaginar, aquilo que está escrito. Mas você, como desta vez, frequentemente tem a habilidade de me fazer enxergar.