Pular para o conteúdo principal

BAUDELAIRE DE MAU GOSTO >> Leonardo Marona

O velho estava sentado em suas partes de baixo escutando um adágio de Baden Powell numa antiga vitrola encharcada de madeira, embrenhado num trecho fidedigno de Charles Baudelaire, situação que, com um punhado de falsidade e bastante exagero, o fazia estremecer de pânico, alguma coisa a ver com um antigo ditado, talvez de Pascal.

Ao mesmo tempo o velho pensava em como terminar uma tripa solta de texto largada como ferida, sem perceber o distúrbio paralisante que Baden provocava quando acrescido de uma prosa curta de Charles Baudelaire, de modo que sentiu algo lhe escorrer pelo queixo, como saliva, ou sua própria imaginação fugindo de si como fumaça, como se ele próprio fosse uma guimba em brasa – os dentes no copo, olhando.


Ouviu grunhidos sufocados, pessoas se lamentando no seu pulmão. A música atravessou a leitura e ele olhou para o lado. A velha ao lado parecia uma orquídea envenenada, gemia pensamentos incompletos, lábios incompreendidos de branco, golpeava o ar dramaticamente, como costumava fazer sempre, por nada ou muito pouco.


O velho já havia aberto, cerca de dez minutos, uma garrafa de vinho uruguaio de seis reais e cinqüenta centavos, vinho parecido com sangue venoso, o mesmo que parecia ter tomado o corpo da velha ao seu lado, na mesma guerra, ou parecida. De modo que o aviso do fim da vida lhe obrigou a golfar e manchar as cuecas.


Enquanto se limpava viu a velha se arrastar até o banheiro, ainda tossindo muito, cabelos brancos como gotas aposentadas. Derrubou o livro no chão e seguiu a luz, esquiando em meias. A velha estava sentada – canelas marcadas com estrelas rarefeitas – no chão do banheiro, abraçada à latrina.


“O que foi?”, ele disse.


“Vou vomitar”, ela disse.


Inclinou o corpo e forçou o vômito, mas nada. Mesmo assim a cena era muito repugnante: a velha de camisola encardida, peitos decaídos como anjos demitidos, implorando à privada. Por isso o velho teve que voltar imediatamente ao quarto, onde reparou nos pingos de sangue no assoalho: seu nariz. Tonto, se atirou na cadeira. Viu a velha como um espectro esparramando-se na cama ao seu lado – convulsionando-se como um inseto virado de barriga para cima, com as patas esmagadas por um chinelo infantil.


Foi a primeira vez na vida que lhe veio com tanta força a palavra morte.


A velha começava a roxear, veias como alienígenas incubados na pele da testa.


“Estou morrendo”, a velha disse finalmente e com esforço, mas sem gaguejar e olhando o velho nos olhos, “os dela tão bonitos”, ele pensou, “violetas”. As mãos da velha em volta do pescoço esturricado, os olhos como a preparação para um salto ornamental de notas baixas.


O velho olhou para a velha e também achou que ela estivesse morrendo. Segurou seus braços e pôde sentir a pulsação de algo prestes a estourar.


A velha dizia palavras sem muita conexão, mas basicamente católicas. O velho foi correndo até a sala, o que quer dizer se arrastando. Atravessou a sala para apanhar sua boina, e o cão epilético, sem rabo, verrugas, oito comprimidos diários, feliz, lhe abanou o rabo.


O velho saiu como estava até a rua: cuecas azuis estampadas com estrelinhas e luas brancas, sem camisa, despenteado, sem cabelos. Correu até a avenida central sem conseguir coordenar o raciocínio, então lhe veio um trecho do “Mau Vidreiro”, de Baudelaire:


Há naturezas puramente contemplativas e perfeitamente inaptas para a ação que, no entanto, sob uma misteriosa impulsão, agem por vezes com rapidez de que se julgariam incapazes.


Isso lhe deu coragem para se atirar na frente de um táxi no meio da avenida central. O taxista não tinha cabelos, mas se comportava como se tivesse. Parecia assustado como se tivesse cabelos, mas não tinha. No banco de trás havia uma mulher escondida por sacolas cheias de detalhes assaltados por grifes, as sacolas e a mulher, ela pintada de batom como um palhaço, ou como uma mulher mesquinha recém chegada à alta sociedade.


“Sai do carro”, disse o velho de cuecas, “tem uma pessoa morrendo”, as mãos sobre o capô.


“Vai te fuder!”, gritou o taxista, finalmente como quem não tem cabelo.


E arrancou com o carro.


O velho voltou correndo, ...vidros que tornem as coisas mais belas..., bastante desnorteado, sentindo marimbondos no seu peito, pernas tentáculos, a marreta do vinho na têmpora, ...mas que importa a eternidade da danação para quem encontrou num segundo o gozo infinito? A velha... Então precisou sentar.


Acabou encontrando um ponto de táxi, onde havia um táxi, outro saindo. O táxi que havia estava vazio e era antigo. Havia um homem sentado de costas numa cadeira de náilon lendo o jornal. Seus bigodes diziam algo um pouco vago sobre o seu caráter.


"Amigo, preciso fazer uma corrida", disse o velho.


“Estou ocupado”, disse o taxista, virando a página do jornal.


“Tem uma pessoa morrendo. Roxa, sem ar”, disse o velho.


“Puta que pariu!”, disse o taxista por trás da cortina de bigodes.


Fechou o jornal, entraram no carro, levaram a velha para morrer no caminho até o hospital e, para o velho, até o fim daquele dia, tudo aquilo parecia algo de muito mau gosto escrito por Charles Baudelaire.

Comentários

Léo, eu tenho uma certa dificuldade em "ver", imaginar, aquilo que está escrito. Mas você, como desta vez, frequentemente tem a habilidade de me fazer enxergar.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …