quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

ÍNTERIM >> Carla Dias >>


Tenho idade para ser a mãe do vento. Minto constantemente ao tempo só para pregar peças nos anos da minha maturidade. Tenho quase tantas décadas, que as tais quase nem me cabem. Ao menos não de acordo com as minhas contas.

Na maioridade do sentimento, aprendi que pernas bambas é sinônimo de desejo irreparável. Antes dela, minhas bonecas brincavam de heroínas, correndo por morros sem perderem o fôlego ou as batalhas. Então, que as mãos que hoje tocam os ponteiros do relógio andam descaradamente transformadoras, levando à loucura os séculos, fazendo com que caibam em segundos que antecedem as mais intensas experiências.

Os destinos, os fios de cabelo, as intenções, os mistérios andam trançados.

E a duração do êxtase deixa marcas na memória dos sentidos. Como quando descobrimos o sabor do sorvete preferido, ou a quentura da língua querendo nos arrancar um gemido. As costas da mão escorregando pela nossa face, com a maciez do afago desejado. A outra mão empinando sonhos, num quando onde cabem trezentos e sessenta e cinco mil possibilidades de se alcançar a vastidão do sentimento sem dó, musicado aos acordes do infinito. Sorrindo admirações secretas.

Seria mãe da lua não quisesse me valer dela como abrigo. Tenho idade para isso. Já contemplei vendavais, revoluções; escondi-me em salmos, debaixo de pedras, num por do sol de quinta-feira, dentro de um copo de água sorvida pela própria sede, debaixo do corpo que abrigava um amor que era sincero.

Mas agora, nesse já que não dispensa urgência, necessito de dias, tempos, entremeios para me recuperar da idade de cada cansaço. E aquietar os arpejos das cicatrizes, o olhar de mudança para lua. Um abrigo cortejado pelo silêncio e abraçado por melodias inéditas.

www.carladias.com





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5 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Carla,
O último parágrafo do seu texto é um afago para minha alma dolorida.Obrigada e parabéns.

Ana disse...

Carla,
lindo, terno e quase triste.
Eu tambem sinto meus anos não me cabem. Mas nunca soube dizer isso em palavras...
beijos
Ana

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Uau, Carla! Que primeira frase, hein?! Uma verdadeira aula de escrita. Fiquei até com medo de ler o restante da crônica e ela não estar à altura do início. Mas você manteve o pique e o ritmo de belas imagens e fluidas palavras até o final. Grato pela aula. :)

Debora Bottcher disse...

Que texto belíssimo! Sua expressão de anos que nos pesam é perfeita. Eu não conseguiria definir tal sentimento com tanta delicadeza e objetividade - e sinto o mesmo...
Super beijo.

Carla Dias disse...

Juliêta... Que sua alma encontre muitos afagos.

Ana... O quase triste sempre nos faz pensar com mais carinho na felicidade, não? Podemos ser quase tristes, mas quase felizes é que são elas. Certas coisas, s por inteiro...

Eduardo... Cá estou, feliz que só com o seu comentário. É sempre bom quando conseguimos manter o passo... o ritmo, o laço, a força das palavras que cultivam imagens.

Ah, Débora... Que essa nossa parceria de sentimento e percepção seja apenas algumas contas desse rosário. E que mais tarde possamos falar sobre o alívio desses cansaços que nos distraem das intensidades.