quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CADEIRA >> Carla Dias >>


Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Cecília Meireles

Eu morava na lavanderia da casa. Minha mãe, irmã, irmão e avó moravam na casa principal. Entre a lavanderia e a casa havia um quintal sem árvores ou flores; era de concreto. Nele moravam os varais e a tartaruga da minha bisavó, na qual eu tropecei algumas vezes, quando voltava do trabalho. Também falei com ela algumas vezes, porque queria saber o que tanto ela maquinava nos seus passeios preguiçosos pelo quintal, enquanto mastigava sua folha de alface.

Nas noites de lua cheia, lá ia eu paquerar a ilusão de emprestar brilho para colocar na vida minha que teimava em ficar desbotada. E era impressionante como esse olhar flertando com a lua me vestia de vontades... Dava um ânimo!

Em momentos como este, eu até acreditava que seria quem desejava ser e que chegaria... Sabe onde?

Lá...

No lá que freqüenta a imaginação da gente; que pensamos estar adiante, mas que damos de revisitar nas lembranças, num apaixonado passeio pelo passado. O lá dos instantes fugazes, dos lugares desconhecidos, das pessoas que haveremos de conhecer.

O lá das cicatrizes sendo abolidas com um simples gesto da felicidade.

Naquela época eu colecionava sonhos, cartazes de shows, cartas de amor, embalagens de bombom Sonho de Valsa. Colecionava muros, como os que cercavam minha casa, só para aprender a escalá-los, e também as idéias que nasciam inspiradas pelas palavras de Lobsang Rampa, Milan Kundera, Vinícius de Moraes, Gabriel Garcia Márquez, Clarice Lispector, Herman Hesse... Ah, o lobo...

E também canhotos de entrada do cinema, porque eu me atirava nos filmes que quase podia tocar a face dos personagens.

Em noites mornas, sonsas, a lua brilhando um sorriso escondido, eu colocava uma cadeira no quintal, sentava-me e apoiava a cabeça no encosto. Passava um tempo que nunca soube contar - porque fugia dos ponteiros do relógio - a pensar no amor que sentiria, no amor que sentiriam por mim; nas conversas dos amigos e amigas, as histórias da família, as nascentes das conquistas. E nas guerras que deixariam de existir, devagar, mas findariam.

Um amontoado de esperanças sem eira nem beira... Como elas devem ser: desprovidas de contornos; de limites.

Mas olhar para lá também podia acabar em angustia. Meu olhar que era da lua, deslocava-se ao infinito e o saboreava como filho temerário no qual já vinha se transformando. Encarar esse lugar me agoniava, porque não havia porto, porta, janela, fresta, buraco que indicasse entrada/saída, que sugerisse alicerce.

E se tudo despencasse?

O céu nas nossas cabeças, a lua rolando pela avenida, as estrelas se esborrachando nos sofás das nossas salas, enquanto assistimos nosso programa favorito. Mas depois me acalmava, a noite já tarde, com seus barulhos de silêncio; a lua reinando, impávida, sobre nossas cabeças.

Como eu queria, nesse meu hoje domesticado, puxar essa cadeira de questionamentos; mergulhar nas provocações do infinito...

A lua de testemunha... Lá.


Imagem: Flip Pizlo

Site: www.carladias.com
Talhe - Blog:
www.talhe.blogspot.com




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9 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pura poesia do cotidiano da memória! :)

Carla Dias disse...

E esse cotidiano adora bancar o poeta, não?

Juliêta Barbosa disse...

Carla,
Fui lá com você e embarquei em doces memórias.Minha alma saiu a passear e ficou extasiada.É tão simples fazer poesia quando ela já existe em você. Lindo, lindo ,lindo! Nota mil! Parabéns!

cArLa disse...

Você colecionava coisas e sonhos... agora coleciona palavras e as transforma em textos tão bonitos de se ler.

Debora Bottcher disse...

Ai, Carla, Eu também queria uma cadeira assim, mas nesse momento, só pra descansar, tirar o peso dos dias, sem questionamentos nem respostas... :)
Super beijo. Sempre bom te ler, poesia pura...

Carla Dias disse...

Juliêta, Carla e Débora... O que seriam das viagens interiores sem a poesia, não é mesmo? Fico feliz em tê-las como convidadas nessas minhas viagens, e que nelas embarquem sempre de coração aberto.

Lucas Dupin disse...

Cara Carla, a sensibilidade e clareza como escreveu sua crônica me agradou imensamente. Vinda ao acaso, pois estava atrás de uma imagem de uma cadeira, (vejam como são as coisas! ) veio ser forte palavra para mim neste final de noite.

Gostaria de saber de qual texto e livro se encontra a citação da Cecília Meireles...

Cadeiras, são objetos que aparecem constantemente no meu trabalho artístico...passamos tanto tempo nelas às vezes, não é mesmo?

No meu flickr tem algumas imagens de alguns trabalhos com elas... sugiro entrar no album "sala de leitura".

http://www.flickr.com/photos/lucasdupin/sets/72157623801127834/

Um grande abraço e espero que possa compartilhar essa referência.

Carla Dias disse...

Lucas...
De cara, eu já gostei do olhar que você lança à vida. A foto com o barco de papel navegando na saliva, nossa, fantástico! Deu até vontade de escrever sobre...
Depois, lá fui eu averiguar essa coisa de cadeira, porque no romance que publiquei neste ano, a personagem principal tem o hábito de colocar as ideias em ordem ao se sentar na cadeira de balanço da avó... Eu adorava a cadeira de balanço da minha avó 
Adorei a sua instalação com as cadeiras! Que cenário você criou para esses lugares onde nos esparramamos para sermos felizes, recebermos péssimas notícias, ótimas, para tomar café fresco... Para apenas fazer companhia ou mesmo ser acompanhado.
Mas não apenas a instalação das cadeiras me fascinou... ‘Onde dormem as palavras’ é um trabalho muito bonito, que apesar das cores vivas, da clareza da imagem, tem um quê de solidão assistida.
‘Alfarrábios’... Lindo de se ver e sentir.
A citação é do poema ‘Encomenda’, de Cecília Meirelles. Não sei em qual livro dela ele foi incluso, porque o li sem querer, em um livro de Língua Portuguesa.
Parabéns pela sua arte, Lucas. E obrigada por ter lido meu texto e pelo comentário tão gentil.

Abraço!

Lucas Dupin disse...

Cara Carla, me alegra imensamente em saber que meu trabalho também lhe agrada como o fez o seu. Ficaria honrado caso escreva algo. Sinta-se à vontade!

Fiquei curioso sobre o romance que disse haver publicado. Gostaria de lê-lo assim que retornar para o Brasil.

Caso queira acompanhar o que estou produzindo no momento, segue abaixo o blog que criei para que o pessoal do Brasil e daqui do Canadá possa acompanhar a residência que estou participando...

http://www.studiogh12.blogspot.com/

Você posta suas crônicas com frequência neste blog?

Um grande abraço,

Lucas Dupin