sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A LEGIÃO ESTRANGEIRA >> Leonardo Marona


Passou o grande navio
Levando os emigrados
Que nenhum país aceita.

(“O Navio Fantasma”, Murilo Mendes)



Aconteceu uma hora quando provavelmente essas coisas acontecem.

Foi enquanto ele pensava no rinque de patinação no gelo, o estar constantemente deslizando em busca de lugar nenhum, foi neste exato momento, ele apenas virou a cabeça para o lado, um certo ângulo de sol lhe encobriu parte do rosto, e teve a idéia de abandonar tudo e se fazer natureza heterodoxa.

Cavou informações sobre requisitos e condições de sobrevivência em terras longínquas onde a morte era um privilégio. Soube de histórias sobre apostas com cossacos tatuados nos moldes da máfia moscovita. Sobre tártaros com as gengivas maiores que os dentes e hálito de moscatel.

Ouviu conversas sobre renegados por doenças insólitas que se pegam por contato de pele íntima. Sobre maus poetas avarentos que vendiam os próprios órgãos. Anões de menos membros que apostavam nos dados com “bailarinas” aposentadas, as ditas “artistas de corpo”. E todos faziam parte do exército sem nacionalidade, ao qual havia decidido se alistar no dia em que não havia comido nada pela primeira vez na vida, tão distante de si, imerso no espaço sem nome entre as coisas.

Uma vez checadas as ordens, as motivações que não poderiam ser riqueza, amor, pudor, ódio ou simples carnificina, passou a ter que, por questão de bravata e tradição criteriosa, achar determinado esconderijo em “terras turcas”, assim mesmo, entre aspas, como espécie de código analógico, senha periférica para se instalar no vácuo.

Durante a viagem, transcorrida em sala quadrada e sem janelas, resolveu ler – mesmo que isso não importasse em nada para sua motivação – o prospecto do “procedimento do guerrilheiro sem nome”, a “saga homérica de cada homem sem face”; “quer romper com seu passado e começar uma vida nova?” E ali estava tudo que de fato era preciso fazer e, de fato, todo o resto lhe pareceu de repente sem sentido.

Pensou em suas motivações reais e tudo não passava de uma sucessão de atitudes impensadas. Um negar-se constante em prol do benefício alheio. Um querer estar onde não pausa a fantasia. O poder navegar sem saber para onde por reconhecer-se finalmente desnecessário. Era no fundo um pensamento poético em alguém desesperado por ar. Pensamentos poéticos em pessoas desesperadas nunca foram de grande serventia.

Estava a caminho e não havia mais volta. Desembarcando, foi obrigado a seguir uma navalha até um lugar feito com mortes de escravos e pedras vermelhas do sangue sacrificado. Encontrou nada mais que alguns senhores de gravata apostando nos dados. Eram três, eram baixos, estufados e usavam bigode. Arfavam como quem sofresse de uma espécie de síndrome alcoólica fetal. As cabeças pontudas e as orelhas amputadas.

Quando ele se aproximou, um deles apenas enrolou o bigode, falou algo baixo ao outro, o mais vermelho. Então este puxou o chapéu para baixo e deu com o cotovelo na costela do terceiro, e se retiraram.

Havia uma série de artigos a ser diariamente recapitulada, mas rapidamente ele reconheceu que todos os seres humanos equivocados estavam ali e aquilo parecia a Babel sem nenhum charme. Não havia nenhum Nero ou Vlad Tepes. Ninguém era explicitamente assassino, porque eram todos fugitivos de algum lugar e alguma lei e alguma paixão que resultou perigosa. Eram todos às escondidas e isso dava uma aparência de tranqüilidade asfixiante ao lugar.

Ele queria apenas ter a sensação de que nada o pertencia, de que podia se perder pelas ruas e não ver nada que causasse qualquer retorno a uma sensação comum ao paladar da emoção danificada. Mas caminhar pelos becos das “terras turcas” era como caminhar fugindo de armadilhas que arrancam pernas.

Como toda “terra turca”, havia um cais. Era um cais que parecia com sede. Era quase como se dragasse as pessoas, que andavam arrumadas demais para o clima, esgarçando o colarinho, explodindo os olhos no calor. Apenas homens.

Por ali, mais adiante, começou a sentir algo muito estranho. A repetição de personagens causava uma sensação nauseante de droga pesada que se consome à revelia. Apareceram marinheiros de pele vincada que matam por um pouco de tabaco. Apareceram também outros tantos, de movimentos felinos, que atraíam principalmente os rapazes efeminados que saíam das casas de ópio contaminados e cheios de amor. Apareceram jornalistas esportivos de grossas costeletas, com os olhos brilhando de absinto e gordas dívidas.

Sem saber para onde fugir, se esgueirou pelo primeiro beco e terminou à beira-mar. A força das ondas causava um barulho pânico, trancava a respiração. Forçado para dentro da areia cinza, viu com dificuldade, a uma distância curta, um árabe vestido tradicionalmente, carregando um revólver. No entanto seria impossível afirmar com firmeza.

Titubeia ao olhar e ver apenas uma figura de árabe, como no romance do francês que não sabia dirigir, e parece que o confronto é inevitável. A sensação terrível de ver o futuro tomar conta muda também o tempo da ação, de um passado remoto para um presente imediato.

O árabe se aproxima com vigor e, sem hesitar um segundo, avança através e para a além da figura perdida de um protagonista precipitado.

Um tiro e nada acontece. Bom. Uma possível chance de ser mesmo a morte. Nada acontece, mas acontece ainda a areia. Nada acontece, mas é possível reconhecer que chove. Uma chuva escura e jorrada que rompe o espaço entre o corpo e a sorte. E já não há mais árabe. Um jovem passa, muito alinhado em roupas puídas. Ele se aproxima como um Baudelaire perto do fim. A barba rala desnivelada e as enormes bolsas debaixo dos olhos. Ainda por cima aquele crânio sem pêlo que chega a ser indecente.

Ele traz uma folha de papel e se aproxima. É manco e puxa um pigarro doentio de quem acorda muito cedo e não dorme. Olha para os lados e ajeita o cabelo inexistente como se quisesse esconder algo grave. Quando chega muito perto, percebe-se que há nele qualquer coisa de almíscar e vômito recente. Parece ter assassinado alguém há pouco tempo. Mas não parece que tenha força para isso.

- Escute aqui, meu senhor – diz o homem manuseando a carta. – Será que o senhor não percebe?

- Não, não percebo. Não percebo o quê? Mas quem é o senhor?

- Não percebe que não pode?

- Não pode? Com licença, mas, meu senhor...

- Sim, meu senhor, não pode.

- Que não se pode eu percebo. Mas não se pode o quê?

- O senhor me dê licença, tenho um serviço a cumprir.

- Pois bem.

Nosso Baudelaire provisório empunha o pedaço de papel diante dos olhos. Parece disposto a uma sentença de morte. E de repente já não há mais homem ou Baudelaire. É mais como se fosse um espelho refletido noutra dimensão. Ele fala. Uma voz conhecida, uma voz de todos os sonhos mórbidos. Mas não há sonho. O sol arde fundo por dentro já da pele sem refúgio.

- Então muito bem, pois saiba que aqui diz o seguinte, e o senhor sabe muito bem do que eu estou falando... aqui diz claramente que o senhor não pode e, não podendo, não deve ficar a esmo gastando a vida com aventuras insípidas. Diz aqui, veja bem, claramente, “o senhor deve apenas viver o que planejar e, se por ventura não tiver planos, deve recolher-se a um abrigo e definhar vagarosamente”... Muito bem dito aqui, eu digo ao senhor! É claro, nem tudo é uma maravilha de outro mundo... Alguém acaba servindo de exemplo... Uma exoneração pacífica, nada além disso. Portanto, meu senhor, veja bem, o senhor não pode, compreende? O senhor não deveria...

- Mas eu preciso. É necessário.

- É um tiro no peito, meu senhor, um tiro na cabeça!

- Pode ser, mas eu tenho que fazer, não existe outra forma.

- Muito bem, o senhor não vai.

- Como não vou, se estou fazendo?

- Veja bem, por pouco tempo.

Nosso protagonista, uma vez o fugitivo, percebe-se murcho sob a cumplicidade de estranhos. Estranhos a ele que não sabia o que estava procurando, mas que era preciso andar, cair mais adiante, andar outra vez, cair mais, reconhecer a velha gangorra, o rinque de patinação no gelo. A solução das formigas era a fórmula dos homens. A solução das aspas sobre “terras turcas”. A solução era esvair-se em sangue numa terra desconhecida. E como testemunha, apenas um Baudelaire inválido.


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3 comentários:

Antonio disse...

Leonardo, belíssimo conto. Gostaria de ler mais contos teus aqui.
Forte Abraço

leonardo marona disse...

Antônio, fique à vontade. Você pode ler alguns outros contos no meu site pessoal: www.omarona.blogspot.com

Muito obrigado pela leitura, e seja bem-vindo.

Leo M.

Anônimo disse...

Senhor Cronista, volte para o seu divã e continue a choramingar por lá mesmo. Polpe-nos dessa babozeira fantasiosa.
Sou um brasileiro voluntário na Gloriosa Legião Estrangeira Francesa, digo consciente que: tudo nesse seu infeliz rabisco passou muito longe da realidade de todos os tempos da L.E.F .
Seu terapeuta é um incompetente!
stefanruda@hotmail.com (Para sua mãe lhe defender).