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Mostrando postagens de Novembro, 2012

FIM DE ANO COM OBSTÁCULOS... E PASSAS >> Mariana Scherma

Duas aventuras nada bem-vindas na minha vida: supermercado e shopping no fim do ano. São os dois lugares em que só vou porque preciso, mais ou menos a mesma coisa que a ida periódica ao médico. Talvez eu até prefira o médico, se tiver certeza de que ele não vai me deixar esperando duas horas na mesma sala que uma porção de revistas Caras mostrando as “notícias” de um ano que já passou faz tempo.

Moro numa cidade quente e (suspiros de tristeza...) sem praia. Ou seja: adivinha onde todo mundo vai passar o fim de semana! Lógico que no shopping, ainda não sei se pra comprar os benditos presentes ou se pra curtir o ar condicionado. Mas eles estão lá: sábado na hora do almoço, sábado à tarde e domingo a partir da hora que acordam, fazendo uma caminhada normal virar A Interminável Caminhada Com Obstáculos. Ãham. Andar num shopping lotado, com as pessoas paralisadas pelas vitrines (acho até uma cena meio de zumbis) é bem pior que uma corrida com obstáculos. O obstáculo tá lá parado. As pessoas…

UMA PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS
>> Carla Dias >>

I'm on your side When times get rough And friends just can't be found Like a bridge over troubled water I will lay me down Da canção “Bridge Over Troubled Water”, de Paul Simon
Ela caminha pelas ruas da cidade com suas ruas entupidas por carros, um concerto de buzinas, semáforos avariados, faixas de pedestre esmaecidas. Gosta quando está garoando, nem leva guarda-chuva na ocasião. Acha graça sobre como as gotinhas de chuva deixam seus cabelos esbranquiçados, como se ela fosse, ainda que jovem, uma senhorinha de cabelo ruim, mas bonito.

Caminha e sempre atenta às vitrines, mas não porque deseja comprar produtos, e sim porque se interessa pelo o que deslumbra as outras pessoas. Sente-se atraída pelo desejo alheio, pelo o que nutre esse desejo, muito mais do que pelos regalos materiais.

Atravessa a passarela, alcança a avenida. Segue rumo ao shopping center que, até outro dia, era apenas um projeto que tinha cara de que acabaria como um monte bem grande de entulho enfeitando a paisage…

AH, MEUS 15 ANOS >> Clara Braga

Ela é uma menina pequenininha, miudinha, magrinha, de família bem humilde, mas de um coração que se aproxima ao tamanho do tão famoso coração de mãe! Chegou ao grupo há um ano, e facilmente se tornou muito especial para todos. Aliás, especial é uma palavra muito boa para se referir a essa pequena menina, não só por ela ser importante para todos, mas também por precisar de alguns cuidados especiais em alguns momentos, apesar de pouco parecer que precisa.

Nesse mês de novembro, graças a uma dessas pessoas de coração gigante que a gente acha que não existem mais, mas que de vez em quando aparecem para mostrar que o mundo ainda tem salvação, essa mocinha teve a chance de realizar um grande sonho. Ela teve seu tão esperado baile de debutante, com direito a padrinho esperando na beira da escada, vestidos longos com luvas e muita valsa!

Eu confesso que há nove anos, quando eu estava fazendo meus 15 anos, eu fazia parte da turma rebelde da escola, pessoas que ouviam grunge, se vestiam de pret…

OS LIMITES DO ESTILO >> André Ferrer

No feriadão da República, revi um clássico dos anos de 1990, a Trilogia das Cores do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski: Bleu (no Brasil: A liberdade é azul, 1993), Blanc (A igualdade é branca, 1994) e Rouge (A fraternidade é vermelha, 1994).
Senti-me satisfeito por dois motivos quando a maratona de quase quatro horas chegou ao fim. Primeiro: a Trilogia das Cores não desbotou. Em plena crise que a União Europeia atravessa, os argumentos da série ganham a força analítica e a ironia que só a passagem dos anos pode dar ou tirar de uma obra de arte. Além disso, eu constatei como o meu olhar andava contaminado naquele tempo, vinte anos atrás. A mudança, no entanto, deixou-me feliz.
Em 1994, o que eu esperava de uma trilogia literária ou cinematográfica? Reiteração, continuidade e revelação. Eu simplesmente engrossava o rebanho de consumidores da indústria hollywoodiana. Qualquer expectativa em relação a um filme europeu era exatamente igual àquela que eu tivera diante de cada um dos inúme…

O QUE PERCEBEMOS [Heloisa Reis]

As imagens que captamos com nossos olhos vêm imediatamente associadas a significados dos quais muitas das vezes nem nos damos conta. Ao vermos um monte lixo jogado e amontoado pelo vento, depositado ao longo de uma calçada por onde passamos podemos sentir a dimensão da ameaça crescente de sermos soterrados por nosso próprio descarte. 

Imperceptível para a consciência, essa sensação se passa em nossa dimensão do sentir porque o valor daquilo que se observa vai muito além da percepção das formas vistas em primeiro plano.

 O fundo de uma imagem, a composição de seus elementos, a localização dos objetos circundantes na verdade dependem totalmente da nossa posição espacial e principalmente de nossa bagagem de hábitos e cultura.

Que significados apreendemos dessa mensagem dada pelo acúmulo de lixo numa calçada por onde passamos? A interpretação do que se apresenta em nosso campo visual é grandemente determinada por nosso estado de ânimo e nosso envolvimento com…

NOITE DE 6ª-FEIRA ESCURA >> Zoraya Cesar

Saíram do curso tarde, ela e sua timidez, pois o resto do pessoal correu para aproveitar a noite de 6ª-feira, tão curta para alguns, tão longa para outros.
Era um tormento voltar para casa sozinha, com medo de assaltos, da viagem longa, da noite escura, do lugar ermo em que era obrigada a saltar. Entrou no ônibus, cumprimentou o motorista e o trocador – um nem lhe respondeu, o outro deu-lhe um bocejo. Nely sentou-se, discreta, num dos vários bancos vazios, mantendo distância do casal esquecido em si mesmo; do garoto com fones de ouvido perdido no batidão; e do homem gordo, forte, de rosto bexiguento e olhos de porco que sorriu-lhe, mostrando dentes amarelados e tortos, causando-lhe arrepios.
Casal, garoto, Nely, homem, todos saltaram no ponto final, numa rua de postes quebrados e lâmpadas baças. O grupo seguiu junto, uma pequena manada silenciosa, em direção ao cruzamento. Nely estava se sentindo uma boba, seus temores infundados, o tal homem nem chegara perto dela. Esperando o sina…

CADA ESQUINA, UMA HISTÓRIA >> Fernanda Pinho

Sempre que vamos ao supermercado passamos por uma rua chamada Armando Jaramillo. Eu já tinha observado o fato algumas vezes porque tenho particular apreço por ler nomes, embora não utilize essa informação para nada útil (se você me perguntar onde fica tal rua eu saberei que conheço esse nome mas dificilmente poderei localizá-la). Meu interesse é por nomes, não por endereços. Gosto de ler as plaquinhas dos logradouros e imaginar quem será que foi aquela pessoa digna de tamanha honraria.

Mas, pegando um retorno e voltando à rua Armando Jaramillo, aconteceu que um dia veio um amigo que eu não conhecia para o jantar. Seu nome? Armando Jaramillo. Fiquei empolgadíssima, seria ele o “dono da rua”? Não exatamente. Seu pai e seu avô também eram Armando Jaramillo e este último foi quem recebeu a homenagem de dar nome a uma charmosa rua de Santiago. Animado pelo meu interesse, o convidado – que, por sinal, vive na tal rua – tratou de me contar todos os feitos do seu avô na política chilena.

Fo…

DE FOTONOVELA NA CABEÇA >> Carla Dias >>

De fato, é muito difícil manter a paciência em determinados dias. Sabe aqueles em que nos levantamos e só de colocarmos os pés no chão um desafio é gerado? Dias assim...

Ao mesmo tempo, são dias como esses que nos fazem repensar nosso papel como seres humanos e suas profissões, seus comprometimentos, suas escolhas, enfim, tudo o que trazemos como bagagem por sermos as pessoas que somos.

Em dias como esses, repensamos até onde iríamos por determinadas pessoas, se realmente é necessário sustentar certas opções ou se há, sem grandes melindres ou injustiças, uma maneira de mudarmos de opinião, porque errar faz parte do repertório da vida, e às vezes há sim como melhorarmos nossas escolhas.

Nesses dias, nós direcionamos nossa atenção aos assuntos menos debulhados, como o questionamento sobre os tão bem delineados planos para o futuro. Em fato, pensar que planejamos o que seja, enquanto o dia tende a lhe impor tantas provações, nos leva a percebemos a fragilidade do definido.

Tudo parece d…

MALDITO HORÁRIO DE VERÃO >> Clara Braga

Outro dia eu li, não me lembro onde, mas foi em uma dessas revistas tipo Super Interessante, que uma das piores invenções do mundo foi o horário de verão. Confesso que não me lembro exatamente o porque dessa afirmação, parece que de fato o horário de verão não economiza tanta energia assim, mas garanto que muita gente concorda que esse maldito horário não foi uma das melhores ideias do mundo.

E a verdade é essa, economizando energia ou não, basta aquela voz super animada da globo anunciar que o horário de verão vai começar que as redes sociais bombam de reclamações, eu mesma faço parte da turma que não gosta muito! E com razão né, de fato é um saco acordar para ir estudar ou trabalhar e ainda estar escuro, parecendo madrugada! Fico lembrando da minha época de escola, às 7 horas da manhã já começava a aula, então eu tinha que acordar pelo menos às 6 horas para chegar na hora certa, o que significava que eu acordava na verdade às 5 horas da manhã! Isso não deve fazer bem a ninguém, não …

GENTILEZA GERA GENTILEZA. E UM POUCO DE CHOCOLATE.
>>Sílvia Tibo

"All you need is love. But a little chocolat now and then doesn't hurt." (Lucy Van Pelt)


Andei pensando sobre como são interessantes e úteis algumas das ferramentas existentes no mundo da informática. E imaginando também como as pessoas se viravam antes da existência delas.

Refiro-me àqueles atalhos do tipo “control+t”, “control+c” e “control+v”, que facilitam muito a vida da gente.

Vez por outra me pego conjecturando como seria o mundo se pudéssemos aplicar alguns desses comandos na vida real: em casa, no trabalho ou na fila do banco (para aqueles que, como eu, ainda vão ao banco).

Imagine, por exemplo, poder dar um “control+alt+del” naquele atendente de telemarketing que insiste em ligar oferecendo mais um cartão de crédito, além dos três que você já tem? Ou aplicar um “control+z” para desfazer aquela briga feia com o namorado? Ou, ainda, valer-se do “control+y” para refazer aquele jantar delicioso que acabou passando do ponto?

E que tal seria poder dar um “control…

CARTA À AMIGA [Ana González]

Saí do cinema após ter assistido Tropicália com uma forte sensação, as mãos tremendo, as faces queimando. Um documentário bem feito com informações tanto culturais como do contexto político do final dos anos sessenta.

Mas, havia muito mais no assunto tratado. Havia parte de mim. E eu fiquei desperta com uma necessidade imensa de falar sobre o que eu tinha assistido. Era a história de um momento de nosso país que se fazia na tela, mas era também parte de minha vida e da vida da amiga que me acompanhava.

A primeira das sensações foi de alegria perturbadora, que me puxava um sorriso nos lábios e um encantamento nos olhos. Tinha sido tudo verdade: tudo o que havíamos vivido. Você sabe, amiga, foi incrível e estava tudo lá, com riqueza de detalhes, que a memória já não guarda e vão esmaecendo no tempo.   

Foi bom rever as pessoas que apareciam nos festivais da Record, as músicas que eram aprendidas da noite para o dia, o que ocupava a nossa mente e ainda não sabíamos se ia permanecer. Não f…

ACIDENTES >> Kika Coutinho

Acidentes acontecem. Na marginal Pinheiros, então, todos os dias, muitos. Alguns com vítimas, outros saem ilesos.

Acidentes também acontecem no banho, no piso molhado, um escorregão ali e pronto, está caracterizado o acidente.

Porém, se tirarmos esses típicos, as motos e os retrovisores estilhaçados, há acidentes positivos, cujas marcas não são arranhões ou capôs amassados. Aconteceu comigo.

Estávamos perto do nossa aniversário de casamento e, numa noite qualquer, naquele silêncio escuro e calmo que só os velhos casais compactuam, ele me perguntou: “O que você vai querer de presente?”. Eu não tive dúvida. Sabia a única coisa que me faltava nessa vida. Para além das calças jeans, dos sapatos de salto e dos relógios, ainda depois das duas filhas, das flores e dos brigadeiros, apenas uma coisa me faltava nessa vida e eu anunciei, num sussurro: “Quero outro filho.” Ele, meu doce marido, ali tornou-se amargo: “Você está louca? A gente não dorme, não vive, não para um minuto com essas duas …

SEMPRE EM CRISE (DE RISO) >> Mariana Scherma

Eu estava de bobeira num desses domingos preguiçosos quando meu celular tocou. Era uma amiga muito querida, daquelas que fazem você perceber que a distância não significa grande coisa, do tipo que você elege como sua irmã e tem certeza de que vai levá-la no coração num pra sempre que não acaba, não. Toda vez que ela me liga ela já vai pedindo desculpas por me atrapalhar, mas “é que eu preciso desabafar e sei que você entende”. Eu já cansei de dizer que ela nunca atrapalha e nossas conversas são sempre divertidas, com uma pitada de melancolia, outras vezes de esperança, com comentários ácidos... Na verdade, acho nossas conversas inspiradoras.

Mas nesse domingo ela estava indignada com a nossa falta de sorte... para o amor. “Por que onde já se viu aquele fulano se dar tão bem, Mari? Ele escreve derrepente! Ele se descreve como um cara auto-astral!”. Não, nós duas não temos nada contra aqueles que escrevem errado por falta de oportunidade de estudar. A gente só fica indignada mesmo com a…

JARDIM E IMPROVISO >> Carla Dias >>

Ele que não sabe da missa a metade, do verso o avesso, do destrambelho a consequência. Está fadado ao desnudar impropérios, ao desvendar ilusões sem a menor intenção de fazê-lo. Mas é assim que as coisas funcionam.  A catarse vem sem que estejamos esperando por ela, por isso chega carregada de importância.

Rabisque aí: “caminha por um jardim desconhecido, passos lentos, cadenciados”, e depois de apontado o cenário, digno de um livro de banca de jornal criado para liberar suspiros de mulheres que engolem suspiros em público, complemente: “pisando em flores, sem perceber a beleza delas.”

Mas não pensem que ele pisa em flores por mero desinteresse por elas ou por pura indiferença. Ele simplesmente não as enxerga, porque seu olhar se agarra ao adiante, ao que lhe desperta uma agonia incessante. Aponte aí: “suspira fundo, suspiro de homem que nunca suspira em público, suas sobrancelhas arqueiam em sinal de preocupação.”

Ontem à noite ele se preocupava com não chegar atrasado à reunião imp…

ISADORA FABER CONTRA A POLITIZAÇÃO EDULCORADA >> André Ferrer

Assusta-me saber que uma estudante de 13 anos teve, há poucos dias, a casa apedrejada porque opinou - e reivindicou melhorias - a respeito das condições estruturais do seu segundo lar: a escola.
Horroriza-me o viés que o Fantástico adotou na matéria exibida ontem, dia 11, quando mostrou professores e gestores da tal escola reunidos ao redor de uma mesa, como se a “ameaça” não fosse Isadora Faber e a sua página no Facebook, mas um serial killer. Uma professora ouvida na matéria beirava a histeria. O telespectador que ligasse o televisor naquele instante pensaria logo em ameaça de morte por bandido ou traficante.
A minha geração – que, pela aparência na tela do televisor, é a geração da tal professora – cresceu ouvindo que era alienada e, de certa forma, desenvolveu mecanismos compensatórios, ou melhor, uma carapaça frágil e superficial. Na verdade – vamos lá -, um engajamento hipócrita.
Eu procurei acompanhar Isadora Faber durante dois meses. Ela faz a política que qualquer cidadão deveri…

VIAGENS MUSICAIS >> Whisner Fraga

A caminhonete F-1000 era para isso mesmo e, em dois anos, já havia rodado cem mil quilômetros. Eu costumava ir com meu pai para as fazendas de Mato Grosso e, principalmente, Goiás, que ele gerenciava havia meia década. Íamos em três, se contarmos o patrão. Eram viagens longas, de seis horas, para Goiatuba e de dezessete ou mais para Barra do Garças. Eu não me importava, pois nada era mais empolgante do que a companhia dos velhos.

É claro que não me lembro do que falavam durante o trajeto, mas sei que não contavam com  assunto para tanto minuto, de maneira que tinham de dar um jeito de espantar o sono. Nada mais hipnotizante do que o ruído de um motor diesel ao longo daqueles quilômetros. Assim, eles escolhiam suas fitas cassetes e seguiam cantarolando asfalto afora. Se eu afirmar que me recordo das músicas que tocavam, estarei sendo leviano, mas, no caso de meu pai, penso que poderia ser muito bem um Nat King Cole ou alguma banda cubana. Havia também a música sertaneja, evidentemente.

“ALÉM DO HORIZONTE... [Maria Rita Lemos]

,,, deve ter um lugar bonito pra viver em paz” - diz a canção do Roberto Carlos, tão bela quanto antiga. Não só gosto muito da música, como concordo inteiramente com o autor. A vida moderna, agitada e tensa, faz com que sejamos diariamente bombardeados, além de nossos próprios conflitos inevitáveis, com notícias de crimes e violências que nos levam ao temor e à ansiedade pelo futuro.

Os consultórios médicos estão lotados de gente que gasta fortunas com calmantes, antidepressivos, analgésicos e outros fármacos. A maioria das pessoas, no mundo atual, vive estressada, sem notar que, bem pertinho delas, há certamente um lugar de paz e tranqüilidade.

Algumas vezes, experimentamos esse gosto maravilhoso de Paz quando paramos por alguns instantes, na correria diária, para integrar-nos à natureza. Isso pode acontecer no contato com o verde de um bosque, numa estrada florida, numa caminhada à beira mar, ou mesmo em nosso trajeto habitual para o trabalho. Basta apenas que estejamos ate…

PLANOS MACABROS >> Zoraya Cesar

Quando o novo vizinho chegou, todos ficaram curiosíssimos com a novidade. Há muitos anos não acontecia nada de relevante, a não ser a doença de D. Adalgisa, que piorava a olhos vistos, mas que não morria nunca.

O vizinho, um cinquentão bem apessoado, no entanto, era avesso a intimidades. Sem ter como saber quem ele era ou o que fazia, os moradores perderam o interesse, decepcionados. No entanto, sendo a opinião pública mais móbile que piuma al vento, muta d’accento e di pensiero, do desapontamento surgiu uma espécie de temor respeitoso por sua seriedade, seu hábito de falar baixo, olhando nos olhos do interlocutor. Nas reuniões de condomínio, sua palavra era sempre acatada, encerrando qualquer discussão.

A vida seguiu, ele foi absorvido pelo cotidiano do prédio e ninguém mais pensava nele em especial.

Ninguém, eu disse? Não exatamente. Havia alguém que pensava incessantemente nele. Alguém tão despercebido, que se fosse invisível talvez chamasse maior atenção. Quase, mesmo, uma ningu…

TÊTE-À-TÊTE >> Fernanda Pinho

Outro dia me deparei na internet com o vídeo de Jeremiah. Um cara criativo que, aos doze anos, gravou uma VHS para que ele mesmo pudesse assistir no futuro. Nessa filmagem, ele propunha um diálogo entre o Jeremiah de doze anos com o Jeremiah versão 2012, com 32. Confesso. Senti uma pontada de inveja por não ter tido a mesma ideia, e quase gravei uma vídeo para minha versão anciã. Mas, sem querer me gabar, a inveja passou rápido. Quem precisa de VHS quando se tem uma memória excelente? Posso imaginar exatamente como seria minha conversa com minha versão 12 anos...

- Oi, então você sou eu no futuro?
- Sim, sou você.
- E agora eu uso óculos???
- Há muitos anos. Pode se preparar. Daqui a pouco você vai começar a ter dificuldade em enxergar o que os professores escrevem no quadro e a partir de então nunca nos separaremos de um par de óculos.
- Credo. Já chegou dando notícia ruim. O que você me conta de bom?
- Depende do que você chame de bom, Nanda.
- Nanda? Ainda me chamam de Nanda?
- …