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Mostrando postagens de Fevereiro, 2014

UM DIA DEPOIS DO OUTRO DEPOIS DO OUTRO >> Zoraya Cesar

De segunda a sábado, chovesse ou fizesse sol, com ou sem greve dos transportes públicos, Jocineide não faltava ao trabalho. Limpava, passaava, lavava e arrumava para seis patroas diferentes, uma para cada dia da semana. Patroa não, corrigia ela, cliente. 
Jocineide tinha classe. Falava em voz baixa, era discreta, vestia-se, em qualquer ocasião, como quem iria a um compromisso social importante. Os cabelos jamais estavam em desalinho e só andava cheirosa. Era um capricho só com a própria aparência, com as casas nas quais trabalhava e com tudo em que pusesse as mãos – cujas unhas estavam sempre pintadas e bem cuidadas.
As clientes pagavam-na regiamente, pois preferiam a morte a perder uma diarista de confiança, competente, e que jamais as deixava na mão. Guardar algum dinheiro, ela até guardava, a duras penas, mas nunca sobrava o suficiente para arrumar seu barraco e sua vida do jeito que tanto queria. 
Jocineide nasceu princesa num ambiente plebeu. A começar pelo marido, que era porte…

SOBRE DIÁLOGOS, CONVERSAS, BATE-PAPOS E AFINS >> Fernanda Pinho

Tem uma frase que diz que devemos nos casar com alguém com que gostamos de conversar, e o texto segue dizendo que tal característica será muito importante quando a juventude tiver se esvaído e restar apenas bons momentos de conversa.
Eu sempre gostei muito desse texto e foi determinante perceber, logo quando conheci meu marido, o quanto eu gostava de conversar com ele. Claro, separados por uma distância de mais de três mil quilômetros, o único que nos restava - ainda que com muita juventude e todas as vontades inerentes a ela - era conversar. E como conversávamos. Teve uma fase que eram praticamente umas 16 horas por dia. Sério. Só não falávamos um com o outro enquanto estávamos dormindo, obviamente. Mas todas as outras atividades conseguíamos conciliar com os diálogos apaixonados, repletos de planos e revelações entusiasmadas. 
Em alguns momentos houve um certo temor, ao menos da minha parte, de que faltasse assunto durante nossos encontros no mundo real. Que nada. Quando duas pesso…

ONDE CABE A ALEGRIA >> Carla Dias >>

Alegria deslavada é essa, de atenuar lonjuras, pacificar inquietações, embarcar nas nuances de comédia romântica dos anos trinta. É alegria própria dos colecionadores de esperança, que mesmo diante de tragédias, não se curvam, como se ser esperançoso fosse profissão delegada pelos deuses.

Alegria boba, injustificada, que entrega sorrisos à toa ao florista, ao jornaleiro, ao vendedor ambulante, à mulher emburrada, ao menino travesso, ao homem do tempo, ao colecionador de saudade, a todos os passantes, e até mesmo aos invisíveis, eles sempre escondidos atrás do medo de serem escolhidos para frequentar vitrines.

Alegria é um tipo de dança, que a sentimos borboletear no estômago, sapatear nos pensamentos. Não há consumidor de alegria, apenas o assumidor, pois ela nos coloca na posição de nos tornarmos, ainda que somente durante a sua duração, bobos da corte. Em estado de seriedade, rareados de alegria, essa ideia nos mete medo.

Há alegria em coisas cotidianas, que passam despercebidas ao…

REDENÇÃO DA GELEQUINHA >> Clara Braga

Lembrei de uma vez que me peguei pensando em coisas. Tá, tudo bem, todo mundo pensa em coisas a todo momento. Eu me peguei pensando nas coisas, literalmente. Pensando nas cadeiras, nas mesas, nas mochilas, nos carros, nos sapatos etc.
Lembro de pensar que deveria ser muito difícil ser um sapato. Imagina, pisar no asfalto quente todos os dias, caminhar na brita, escorregar na lama, ser afogado na água em dia de chuva, pisar em dejetos de animais etc… E ser uma cadeira? Nossa, não sei nem por onde começar…
Foi então que lembrei de um dia, quando ainda era criança, que ganhei aquela gelequinha de presente. Não sei se lembram, mas era uma gosma que grudava em alguns lugares, principalmente no nosso cabelo. Junto com a geleca tinha um manual de instruções, que era a própria gosma explicando que ela gostava de ser puxada, de ser jogada na parede para grudar e descer escorregando devagar, gostava de ser repartida para que várias pessoas pudessem brincar com ela. Mas não gostava de ser coloc…

TÁ LIGADO? >> Albir José Inácio da Silva

Embora não tenha a menor ideia do que seja isso, Uélito acordou estremunhado. Braço dormente embaixo da cabeça, barriga que dói e pescoço duro. A mãe já o sacudiu duas vezes, enquanto se veste pra trabalhar. Parece que ela está falando há horas na cozinha, no banheiro, às vezes bem pertinho, no quarto que também é sala:

- Levanta logo, menino, vai pra escola que tu já faltou ontem e eu acabo perdendo o bolsa-família de novo. Pede pra diretora te deixar entrar, que hoje eu não posso ir, mas eu vou falar com a patroa pra ver se dá pra ir amanhã. Toma leite do Juninho que eu peguei ontem no Posto e tá em cima do fogão, não sai sem comer que tu tá magro que nem pau de virar tripa. Toma também água da garrafinha que eu trouxe da igreja pra te curar dos vício e te livrar daquele processo na Vara da Infância. Ainda bem que só foi uso, mas da próxima vez a mulher já falou que tu vai assinar artigo 33 de tráfico. Tu precisa tomar rumo na tua vida, se não vai morrer de tiro que nem teu pai, teu…

ENTRE O PORTÃO DA GARAGEM E O SOFÁ DA SALA >> Sílvia Tibo

Nunca fui o tipo pessimista. Aquela espécie de gente abominável, que só enxerga nuvens no céu, por mais claro que esteja o dia. 
Ao contrário, quem me conhece um pouco sabe que reclamar das coisas não é meu passatempo preferido. A despeito de suas tortuosidades, penso que a vida tem sempre um lado bom. A gente é que, na pressa, nem sempre consegue enxergar. 
De uns tempos pra cá, porém, está cada vez mais difícil me manter fiel a essa filosofia do “tudo bem”. À medida em que o medo entra pela porta, parece que a fé em dias melhores tem saído pela janela, sentindo que já não há mais lugar pra ela. 
Há pouco mais de duas semanas, mataram um rapaz na porta da academia que frequentei durante meses, há poucas ruas do apartamento onde morei por mais de um ano, no momento em que ele tirava o carro da vaga onde, certamente, também já estacionei o meu. 
Soube, dias depois, que um conhecido fora vítima de roubo em um dos semáforos que dá acesso ao meu bairro, quando voltava do trabalho, numa t…

MEDITAÇÃO >> Carla Dias >>

Tentei de um tudo, mas confesso que de um tudo nem tão tudo assim, que a cabeça sempre vence o corpo. Fico exercitando pensamentos como se estivesse fazendo esportes radicais. Dentro de mim, as ideias e percepções se movimentam alucinadamente. Então, quando vem um pensamento mais manso, é assim, como se conseguisse dormir oito horas por noite, sem acordar nenhuma vez, sem me lembrar de sonho que tive.

Desde sempre, meu hard-disc-drive-cuca-nada-fresca faz estoque de urgências. Mesmo quando a coisa é para daqui a um tempo, fico esbaforida por causa dela, até chegar ao então. Procurei na astrologia a resposta para esse comportamento sem noção, mas depois de ler várias menções aos escorpianos, quase todas não assim tão positivas, decidi parar com a leitura, antes de desejar assumir de vez o meu ascendente.

Mas preciso dizer que disfarço bem a minha ansiedade. Não sou de, por exemplo, mandar mensagem por e-mail às 18h30 e ligar às 18h31 para a pessoa, para saber por que ela ainda não me r…

CRIME PERFEITO >> Zoraya Cesar

Sou muito bom no que faço, admito sem falsa modéstia, pois não gosto de hipocrisia. Sou bom. Pronto.
Há poucos como eu por aí, reconhecidos, admirados, invejados. Confesso que isso mexe com meu ego, mas, e daí? Integrar uma força especial do Departamento de Homicídios e ser um dos mais eficientes policiais em campo não é para qualquer um. E eu gosto muito do que faço - o jogo de inteligência entre mim e os assassinos me excita. Saibam que, para cada crime perfeito, existe um policial perfeito, que descobre a rachadura no muro de concreto aparentemente intransponível que nos separa da verdade. 
Muita coisa pode ser observada nas vizinhanças de um crime. Rotas de fuga, câmeras de segurança, velhinhas fofoqueiras, o pipoqueiro da esquina. Assim aprendi com um dos melhores investigadores, e nunca falhou. 
Ele também me ensinou a subir sempre de escada, não importava quantos andares acima - o exercício clareava a mente e tornava o raciocínio mais rápido. Corre uma lenda no departamento qu…

OLHA QUE OLHAR ESTRANHO TEM O ESTRANHO QUE ATRAVESSA A RUA DO MUNDO DA LUA >> Carla Dias >>

Olha que olhar estranho tem o estranho que atravessa a rua do mundo da lua. Ele que sabe de cor o verso e o esconde do mundo por medo de o tempo lhe roubar a clareza do sentimento.  Que estranho esse estranho de olhar estranho atravessando a rua dos sentidos e dos ressentidos. Suas largas passadas tão lentas, maratona em slow motion.

O infinito lhe angustia de um jeito, que só lhe resta apertar o passo para alcançar quem lhe queira, ainda que estranho de olhar estranho e ainda mais estranho destino. Quem me quer? ele berrou no meio da rua do mundo da lua, em tom esganiçado, em dia de desespero descarrilado. O silêncio ecoou fascinado por ele, o estranho de olhar estranho, de andar estranho, de mãos enveredando pelos cabelos do vento, pensamento tentando catar explicação para essa solidão de homem de olhar estranho, que almeja afeto que lhe ofereça beijo.

Mas veja que o olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua, busca palavra no muro que lhe salve da solidão, que …

PREPARANDO A TELA >> Clara Braga

Todos os dias, quando acordo, me pinto de branco para começar a pintar o dia. É com uma frase mais ou menos assim que começa o espetáculo Corpo sobre tela. Ao longo da performance, acompanhamos, entre outras coisas, a angústia do ator em encontrar aquela cor que o representaria, aquela que seria a sua cor.
Achei isso tudo um tanto poético, afinal, será que não podemos interpretar essa questão como uma metáfora para uma angústia universal? O que faz nossos olhos brilharem? O que nos faz feliz? O que nos move? Qual é a nossa cor? Estamos sempre nos perguntando isso. E quando não somos nós nos perguntando, os outros se encarregam de fazer isso. Aposto como você perdeu as contas de quantas vezes respondeu à pergunta: o que você quer ser quando crescer? Essa pergunta nada mais é do que uma forma mais direta de perguntar quase a mesma coisa.
Acredito que os adultos fazem essa pergunta pois na resposta encontram a inocência e a sinceridade que já não se dão ao luxo de ter. O que não percebe…

IRMÃOS, GATOS E OUTROS BICHOS >> Albir José Inácio da Silva

Quando viemos para o Rio de Janeiro, ficaram na roça os bichos. Cavalo, papagaio, cachorro, gato, coelho e outras espécies que se revezavam na nossa vida. Pai e mãe só trouxeram os filhos, e as trouxas.

Eu não gostava do motivo pacientemente repetido de não haver espaço no trem. - Por que não levar os bichos e deixar as trouxas? – perguntava.

Na cidade compreendi o que era falta de espaço. Mal cabíamos os quatro mais as trouxas no lugarzinho que chamavam de casa. Eu, acostumado à largueza do mato, tentava entender porque é que as pessoas vivem assim.

Cezinha com cinco anos podia esperar, mas eu já tinha sete, e na roça não havia escolas. A cidade era inevitável. Apertada mas obrigatória.

Cães ficam se forem convidados e bem tratados. Mas não são assim os gatos. Não pedem licença, ocupam seus lugares, dispõem dos espaços e dos súditos, como suseranos. A gata chegou magrinha e se instalou. Recebeu leite e outras refeições a que tinha direito. Engordou, engordou, engordou e teve cinco ga…

MAIS HONESTIDADE, SOLTEIROS >> Mariana Scherma

Porque não é fácil ser solteira e porque é superdifícil encontrar alguém legal, o mundo anda cheio dos aplicativos pra facilitar esse caminho. Não sei bem se facilitar é a palavra, mas talvez tornar a busca um pouco mais divertida, um pouco mais cheia de história pra contar. Eu sempre desconfiei de quem apela pra internet pra encontrar alguém, quem fazia isso pra mim até então eram pessoas tipo o personagem Raj, de The Big Bang Theory, bem nerd e bem incapaz de conversar com quem lhe interessa. Mas depois que tive preguiça de sair de casa (a idade sempre chega) e algumas amigas me estimularam a baixar o tal aplicativo, arrisquei ué. Não tinha nada a perder mesmo.
No primeiro momento, você acha que resolveu sua vida amorosa foi resolvida. Sim, chove caras interessantes e interessados em você. Aí você checa as afinidades, vai conversando e se enche de esperança. Tipo uma bexiga de aniversário bem gordinha. Até que sai pra uma cervejinha ou cinema e descobre o quanto os gostos em comum po…

PODE SER QUE EU LHE MANDE UM BUQUÊ DE GIRASSÓIS >> Carla Dias >>

Uma amiga me perguntou, ainda outro dia, sobre aquele moço. Antes dela, um amigo comentou que sempre pensa naquele moço.

Eu já escrevi uma crônica sobre o moço, há tantos anos, que nem me lembro de quando. Mas diante das menções a ele, a lembrança veio inspiradora.

O moço em questão era atendente da videolocadora que eu frequentava. Pense em alguém com ar de tristeza... Era ele. Um moço alto, bonito, mas com essa feição triste que me cortava o coração.

Eu gastava um bom tempo na videolocadora, que eu adorava ficar conferindo os filmes, lendo sinopses. Decidir quais cinco filmes eu levaria para casa era algo que me aprazia. Como eu assistia a muitos filmes, às vezes eu pedia indicações aos atendentes da videolocadora. E desde que o moço começou a trabalhar lá, era ele que me atendia. Não houve filme que ele me indicou que me desagradasse. Sendo assim, concluí, em poucas locações, que o gosto daquele moço e o meu eram perfeitamente compatíveis.

Mas ele não sorria. Era educado, conversa…

DESCULPEM, MAS VOU FALAR SOBRE O ÚLTIMO CAPÍTULO DA NOVELA >> Clara Braga

Acredito que as redes sociais tenham possibilitado que mais e mais pessoas possam se expressar. Tornou a questão da denúncia e do debate mais democrática, já que agora é mais fácil colocar a boca no mundo. Porém, devido a essa facilidade, muitas pessoas estão esquecendo de digerir as coisas, refletir sobre, pensar, para só então expressarem suas opiniões. Resultado disso tudo: muita besteira rolando pela internet!
Entendo a angústia das pessoas que gostariam que o mundo assistisse menos televisão e se informasse mais, fosse para as ruas lutar pelo seu país e todas essas coisas, mas acho que nós não podemos tirar o "mérito" que a televisão, por exemplo, tem. Sabemos que a globo em muito ajuda para alienar as pessoas. Mas se ela tem esse poder de alienação, ela também tem poder de ditar padrões, ou seja, uma vez que ela usa esse seu poder para o bem, todos nós podemos ser beneficiados.
Vocês já devem ter entendido aonde eu quero chegar com esse papo. Sim, no beijo gay do últi…

A TAL DA BICICLETA >> Sílvia Tibo

Quando se tem entre dezesseis e dezessete anos, não há nada que se deseje mais do que entrar de vez na casa dos dezoito e, então, fazer os testes para conseguir a carteira de motorista. Ou, para os mais corajosos e aventureiros, de motociclista. 
No meu caso, a carteira de habilitação não veio aos dezoito. Nem aos vinte. Nem aos vinte e cinco. Nessa idade, pensava eu que de nada adiantaria ter a tal da CNH sem um emprego com remuneração razoável, capaz de cobrir, com folga, ao menos o valor do seguro anual, do combustível e do IPVA. 
Decidi, então, que não era tempo de pensar em carro, mas de estudar e conseguir um trabalho. E quando o trabalho chegou, decidi que era hora de sair do aluguel. E quando saí do aluguel, decidi que era preciso reformar a casa nova (já que, afinal, ela não era assim tão “nova”). 
O fato é que, durante um bom tempo, o projeto-carro esteve no finalzinho da minha lista de prioridades e desejos. Aquela que se faz a cada virada de ano...
Nessa época, cogitei várias …