segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

TÁ LIGADO? >> Albir José Inácio da Silva

Embora não tenha a menor ideia do que seja isso, Uélito acordou estremunhado. Braço dormente embaixo da cabeça, barriga que dói e pescoço duro. A mãe já o sacudiu duas vezes, enquanto se veste pra trabalhar. Parece que ela está falando há horas na cozinha, no banheiro, às vezes bem pertinho, no quarto que também é sala:

- Levanta logo, menino, vai pra escola que tu já faltou ontem e eu acabo perdendo o bolsa-família de novo. Pede pra diretora te deixar entrar, que hoje eu não posso ir, mas eu vou falar com a patroa pra ver se dá pra ir amanhã. Toma leite do Juninho que eu peguei ontem no Posto e tá em cima do fogão, não sai sem comer que tu tá magro que nem pau de virar tripa. Toma também água da garrafinha que eu trouxe da igreja pra te curar dos vício e te livrar daquele processo na Vara da Infância. Ainda bem que só foi uso, mas da próxima vez a mulher já falou que tu vai assinar artigo 33 de tráfico. Tu precisa tomar rumo na tua vida, se não vai morrer de tiro que nem teu pai, teu tio e teu irmão.

Não para de falar mais nunca, já está no beco e ainda se escuta a voz. Ele levanta meio arrastado e pega a camisa da escola que a mãe deixou na cadeira, não vai pegar água nenhuma pra tomar banho, não vai tomar leite nenhum que está enjoado, vai sem meia mesmo que não sabe onde está, tira remela com água da chaleira. Agora é a irmã que fala, fala não, grita com Juninho que não deixa botar roupa pra ir pra casa da vizinha que toma conta de crianças. Barulho de tapas e Juninho chora mais alto, não quer ir pra casa de ninguém, quer ficar com a mãe que já está atrasada pro emprego de babá e a patroa tem que sair pra trabalhar. Uélito não gosta que bata no moleque e grita da janela pra Rachele:

- Quero ver se você bate assim nos filho das madame.

A irmã se irrita mais:

- Toma conta da tua vida, oh... chincheiro!

Uélito sai pelo beco meio cambaleando que já é mesmo o seu jeito de andar. Tem que dar a volta pela rua de cima porque não pode passar pela “boca”. Depois da escola vai até lá desenrolar aquela parada de ontem que deu ruim. Levou um bote e perdeu a carga praquele PM nojento que está de olho nele há muito tempo. Não gosta de vender, mas, sem dinheiro, pegou dez pra passar sete e ficar com três. Dessa vez rodou com tudo, bagulho e dinheiro, e o polícia ainda disse que queria mais. Por isso ficou injuriado e foi procurar o Birro lá na contenção porque precisava dar dois pra se acalmar. A erva tava malhada, devia ser quase tudo bosta de burro. Agora a cabeça dói e as pernas ficam bambas.

No portão da escola tinha que estar aquela vaca gorda que não gosta dele:

- Todo dia, né, Uélito? Qual a mentira de hoje?

- Mentira não, tia, meu sobrinho acordou com febre e eu tive que ir lá em baixo comprar remédio.

- Quem não te conhece que te compra. Por mim tu voltava pra casa. A culpa é da diretora que passa a mão na cabeça de vagabundo.

Na sala, a professora até que gosta dos alunos, faz dinâmica, pergunta a profissão dos pais. E tem muito motorista, mecânico e pedreiro, mas Uélito diz que o pai era bandido e já morreu, e todo mundo ri, e a professora briga porque não se pode rir da profissão de ninguém, ela mesma teve um tio que era bandido antes de se converter na igreja. Mas agora queria falar do futuro, - O que é que vocês vão ser quando crescerem?

Uélito tinha que passar na “boca”, mas a polícia está lá embaixo. Melhor não ficar na rua. Amanhã vai. O gerente é marrento, mas foram criados juntos, dá pra desenrolar. O problema é que ele anda bolado porque está a fim da Raquele e ela fica fazendo doce. Sinistra essa Raquele, dá de graça pros moleques do surf e faz jogo duro pro cara que podia fortalecer o irmão dela.

Os fogueteiros avisaram que os homens estão subindo. Daqui a pouco começam os tiros. A mãe já forrou as cobertas no chão e todo mundo fica deitado - o que é uma bobagem porque tijolo não segura bala de fuzil - mas ninguém pode fazer nada mesmo, o jeito é ver televisão com chiado e chuvisco.

Juninho acorda assustado com os fogos e Raquele grita porque ele está chorando. Uélito pega o menino antes que ele apanhe e põe em cima da barriga. Ainda soluça muito, mas vai se acalmando. Suspira e suspira. Uélito também suspira, a vida está uma droga e ele está contristado, acachapado, acabrunhado, embora não tenha a menor ideia do que seja isso.

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tocante, Albir!

Zoraya disse...

Muito bom, muito bom! A gente sente a doçura escondida no coraçao do menino.

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Albir, está do jeito que eu gosto. É assim: quando escrever mais parece uma briga de rua com a vida. Poder de observação e de descrição da realidade impecáveis! abraços!