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Mostrando postagens de Julho, 2018

SÃO PAULO, 20 DE JULHO DE 2018 >> Sergio Geia

Sentei-me à mesa para escrever a crônica que havia dias estava pensando. Ela, como sempre, formava-se devagar na minha cabeça, completando-se aos poucos, sem pressa. Eu, como um bom médico das letras, sentindo que ela estava pronta, já me preparava para o parto quando me lembrei do nosso último encontro aqui, no Crônica do Dia. Pensei: “esse parto fica pra depois”, e que seria meu dever agora, falar alguma coisa a respeito da semana que passei aqui em Sampa. Para você que não me leu na última quinzena, eu disse que iria para São Paulo participar de uma oficina de crônicas. Pois é. Fui. E conheci gente talentosíssima e bacana por lá, tipo João Rachid, Renan Procópio, Ana Pimentel, Diego Martinez, Thais Barbeiro Lopes, Clarissa Vilar, e a generosa nova-amiga Ivana Arruda Leite, que nos aturou, conheceu nossos trabalhos, deu seus pitacos, melhorou nossos textos. Tínhamos que escrever três crônicas por dia sobre temas diversos, inventados na hora pela Ivana; depois, ler os trabalhos, e agu…

VIDA E MORTE DE D. VIDINHA >> Zoraya Cesar

Vidrianácia era seu nome. E muito lhe agradava ter sido batizada a partir do nome do pai Vidriano e da mãe Engrácia. No interior, interiorzão mesmo, de onde viera, isso era motivo de orgulho e honra. 
No entanto, não teve jeito. Por ser muito miúda e franzina, à medida que a idade foi avançando, com seus tentáculos cobiçosos e insaciáveis, “D. Vidrianácia” parecia pomposo demais, e, aos poucos, passaram a chamá-la de D. Vidinha. Por mais que ela fizesse cara feia, o apelido fixou-se de maneira irrecorrível. 
Disse ‘cara feia’? Disse e repito. D. Vidinha, forçoso dizer, não fora exatamente abençoada por Hator ou nenhuma outra deusa da beleza – antes, parecia ter sido amaldiçoada por todas elas. E se, como dizem, a beleza está nos olhos de quem vê, ninguém viu em D. Vidinha que não uma carola de maus bofes e amarga feito carqueja - um arbusto que, na época da seca, desfolha totalmente, aparentando estar morto, e somente no período das chuvas volta a florescer. D. Vidinha era um pé de carq…

NADA A OFERECER >> Carla Dias >>

Tenho nada a oferecer. Não insista. Tenho nem como colaborar. Não me cobre. Sou um nada nesse mundo de tudos maximizados. Não me importa se lhe importa quem não me tornei. Não me interessa se quem eu sou lhe desaponta por não ser o quem você imaginou que eu seria.

Nem pense que desejo lhe ofender sendo. Trata-se apenas de explanação: quem eu sou não cabe nesse rótulo, nessa área dedicada a moldar à forma e semelhança do que o seu imaginário criou. Não vou dizer as palavras que espera que eu diga, ao menos não na ordem que dê na consequência que você espera.

Agora que já sabe que não vim ao mundo para atender aos seus decorosos critérios, preciso dizer o seguinte: o mesmo serve para você. Como seria se todas as suas certezas desaguassem em revolta dúvida? E se o que você tem como garantido naufragasse no inesperado a operar pequenas tragédias cotidianas? É uma questão de tempo e destempero do próprio. Vai acontecer, por mais que você se negue a aceitar e siga com a determinação de um …

POSSO TE DAR UMA DICA? >> Clara Braga

Outro dia comentaram comigo que uma conhecida está grávida. Então, foram logo perguntando: e ai Clara, você teve filho recentemente, o que você teria de dica para compartilhar com essa nova mãe? 
Automaticamente fui transportada para um passado recente e lembrei da chuva de dicas que recebi até quando não pedi:
- Aproveite que está grávida e coma tudo que você quiser, essa é a única fase da vida na qual você vai poder comer e engordar sem ninguém falar nada!
- Muito cuidado com o que vai comer, pode ter diabetes gestacional!
- Nada de bebida alcoólica!
- Lembra de tomar cerveja preta,  é bom para dar leite.
- Não coma comida gordurosa, mas coma muita canjica!
- Se te falarem pra comer canjica não leve à sério, canjica não é saudável do jeito que alguns dizem.
- Você vai sentir muito sono, aproveite para dormir bastante e esteja descansada, pois depois que nascer você nunca mais vai dormir.
- Você vai sentir muito sono, mas não vai dormir demais, aproveita e faz tudo que você vai fica…

HISTÓRIAS BONITINHAS >> Sergio Geia

Estava pensando em escrever algo bacana para vocês. Na verdade, estou aqui, sexta-feira 13, sentado à mesa, na mesa onde costumeiramente trabalho, com a tela do computador aberta, com a sacada aberta, com esse céu cinza, esse frio matinal que faz doer o corpo, essa ressaca de Brasil pós-Copa, imaginando algo bacana pra dividir com vocês.

Mas sabe que nada me vem? Ando pensando: estou com uma dificuldade enorme de encontrar assunto. Talvez ande mais exigente (e estou), e hoje, não é qualquer coisa que me faz sentar à frente do computador e escrever. Também não sou do tipo que pega uma tela em branco e começa a escrever, a história flui, em pouco tempo está lá, nascida, vivíssima da silva. Eu sempre preciso de um esboço, uma ideia, saber o que vou contar. Aí sim, eu sento e escrevo.

Semana que vem estarei em Sampa participando de uma oficina de crônicas com a Ivana Arruda Leite. Vou aprimorar minhas habilidades cronísticas, e aproveitar pra passear um pouco, comer bem, dar umas voltas, qu…

RISCOS E RECOMPENSAS >> Zoraya Cesar

O clube era pequeno, escondido por uma porta sem letreiros em uma rua de pouco movimento. Só algumas dezenas de pessoas sabiam onde ficava e seus frequentadores não faziam parte da sociedade comum.   
Piso e mobiliário de madeira, estofamento de couro, luminárias vintage. Tudo caro e de boa qualidade, mas, ainda assim, o ambiente era sóbrio e discreto. Um sofá ocupava todo um lado da parede, deixando espaço, no salão, para a circulação do único garçom e para um ou outro raro casal que se arriscasse a um cheek to cheek ao som que saía dos alto-falantes embutidos. A música era alta o suficiente para evitar que se ouvisse a conversa alheia, mas não tanto que impedisse o colóquio entre os ocupantes de uma mesma mesa. 
Os móveis estavam dispostos de modo a não comportar mais que duas pessoas em cada mesa, seu diâmetro pequeno sugerindo que ali não era lugar para lautas refeições ou pratos elaborados; no máximo, um drinque, uma taça de vinho, uma flûte de champagne e, apenas para matar a fome…

DESCONSTRUÇÃO >> Carla Dias >>

É um engasgo dos mais engasgados que já sentiu.

Está ali, olhar fixo no dele, aquele que passou a vida a cortejá-la em silêncio. Sabe como? Com os lábios secos, pelos eriçados, olhar que já encontrou o alvo dos primeiros toques, eles que nunca aconteceram. Foram calados pela espera. E ela foi corrosiva, imperdoável, rancorosa.

Agora, ali estão: sentados um de cara com o outro, à mesinha capenga do bar da Dona Odete. Entre eles, cerveja e suco de caju, mais uns petiscos que não a interessam em nada.

Ele ainda olha para ela daquele jeito profundo, cativante e, em tom de desnudamento, de fazer muitas corarem. Não ela. Não mais.  Ela dá de ombros, explicitando o desapontamento empoçado em seu espírito que, por tanto tempo, sentiu-se pronto para aceitá-lo.

Agora, sente-se antiga demais para tal aventura.

Então, que desengasga e engata um “não”. Ele murcha, como ela costumava murchar a cada vez que eles se despediam sem que ele pedisse para ela ficar.

Ela sorri, infeliz.

Imagem: Sous les Ol…

BYE BYE BRASIL >> Clara Braga

Acompanhando a copa do mundo, vi muita gente comentando que já não aguenta mais as pessoas que ainda tentam nos convencer de que o Brasil ainda tem o melhor futebol do mundo e também não concordam com a afirmação de que o time brasileiro seja realmente brasileiro já que quase nenhum jogador ainda joga no Brasil.
Entendo pouco ou quase nada de futebol, mas achei as reclamações coerentes, já que desde a copa passada lembro dos comentaristas dizerem que era difícil entrosar o time brasileiro já que cada um jogava em um canto e, por isso, tinham formas diferentes de jogar.
Logo depois de assistir a um debate desses em um programa esportivo, o Brasil foi eliminado dessa copa de uma forma muito menos trágica do que na copa anterior. Uma eliminação quase injusta se futebol fosse um jogo que ganha quem jogou melhor, mas como vence quem faz gol, voltamos para casa sem o título. E junto com o título parece que perdemos o respeito, a coerência, o "patriotismo" e também aquela vontade …

VÔ GERÂNIO>>Analu Faria

Gê quase lambeu a vitrine. Só de olhar podia sentir o cheio de borracha queimada num dia quente, num meio de estrada qualquer. Deserta. Acima dele, só Deus e a roda da frente. Pedro deu um tapa no ombro do primo. 
"Não dá pra empinar uma moto dessas não, ô animal!". O que é que o primo sabia? Só havia pegado  DT200, XR200, CBX200... E ainda que na real não desse mesmo para empinar uma Fat Boy, nos sonhos de Gê ela seria leve como uma daquelas lambretinhas nacionais fajutas e se encaixaria direitinho nas mãos e nas pernas dele, era só fazer um pouquinho de força com o abdomên e pá... empinadinha. Errado era o Pedro com aquele mania de travar as coisas na mente.

- Tu pensa pequeno demais, Pedrão!
Chegou em casa ainda com a Harley nos olhos. Visita no sofá, como sempre: hoje eram a tia, um outro primo, o vizinho. A mãe contava pela milésima vez a história de vô Gerânio, que tinha nome de flor e era mesmo conhecido por ser educado e culto como uma rosa.
_ Gê tem o mesmo nome do…

A MULHER NO SOFÁ >> Carla Dias >>

Fecha a porta, atrás de si. O silêncio da casa é acolhedor e a faz respirar fundo. Joga-se, contida, porém eficazmente, aos afazeres do lar, às distrações pessoais, aos devaneios sobre finais preferidos para séries preferidas. Nunca acerta desfecho.

A comida de ontem, sobre a mesa de hoje, parece tão fresca que ela não consegue evitar o pensamento: seria pecado não ter fome? Peca, então, que seu estômago se nega a se render ao desejo do paladar. Quer ficar só, com suas incômodas dores que doem miúdo, mas com constância irritante.

Um banho de no máximo cinco minutos, presteza que desde a infância a faz sentir culpada quando se demora mais que isso, debaixo no chuveiro. Economizar água, antes, porque a conta era quase impossível de se pagar. Hoje, porque a conta continua pesada, mas ainda há a culpa: banhos longos podem acabar com a água do planeta.

Desde sempre, a culpa a conduz. Sabe que isso não é bom, mas o que fazer com o que foi colocado dentro dela, antes mesmo que ela soubesse …

VAI BRASIL ... ou não... >> Clara Braga

O que a maternidade tem a ver com a copa do mundo? Nada, você deve estar pensando! De quebra ainda deve achar chato essas mães de primeira viagem que tudo relacionam com a maternidade. Eu entendo perfeitamente, também era exatamente assim, achava chato tudo se tornar motivo para as mães falarem de seus filhos, mas eu assumo: é inevitável!
Desde que comecei a assistir aos jogos achei que eu já tivesse determinado, pelo menos superficialmente, para quem eu ia torcer quando o Brasil não estivesse jogando. O meu critério de escolha seria torcer para times da América Latina. Mas como esse critério pode ser facilmente furado, pensei outros dois: vou torcer para aqueles times que raramente avançam mas que desta vez estão surpreendentemente bem e, por último, torceria para que os grandes rivais do Brasil ficassem para trás.
Tudo ia bem quando a Argentina entrou em campo. Confesso que não me lembro muito bem contra quem estavam jogando, mas sei que entre os critérios que eu poderia usar acabe…