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Mostrando postagens de Março, 2017

AUTÔNOMO OU AUTÔMATO? >> Paulo Meireles Barguil

 — Eu quero tudo pronto! — falou-me uma professora, num tom que demonstrava súplica e irritação.

Olhando para ela, respirei lentamente, e expliquei-lhe, pacientemente, que seu pedido contrariava meus princípios pedagógicos, os quais expressam minhas concepções de Homem, de Cosmos. Conforme o dicionário Houaiss, autônomo é um indivíduo "[...] dotado da faculdade de determinar as próprias normas de conduta, sem imposições de outrem.". O autômato, por sua vez, é um "[...] indivíduo de comportamento maquinal, executando tarefas ou seguindo ordens como se destituído de consciência, raciocínio, vontade ou espontaneidade.".

Conforme Paulo Freire, a Educação Tradicional, batizada por ele de Educação Bancária, contribui para a heteronomia, ou seja, a constituição de sujeitos passivos, que se limitam a repetir, a reproduzir, a obedecer sem qualquer questionamento, motivo pelo qual ele propõe a Educação Problematizadora, que visa à humanização, à autonomia e à modificação …

CASA PRÓPRIA >> Carla Dias >>

Teve dois sonhos em uma mesma noite. Eles tinham tudo a ver, apesar dos cenários diferentes. E tinham tudo a ver com um assunto que sempre o incomodou, mais do que o atemorizou.

No primeiro sonho, ele visita uma casa. Um homem, que não lhe convence ser corretor de imóveis, mostra o lugar como se apontasse um palácio no meio da cidade. O olhar dele, acostumado a se desviar das lorotas, observa o óbvio. A casa é antiga, deve haver muitas histórias ali. Enquanto o improvável corretor de imóveis desfila adjetivos infundados, ele observa os cômodos como quem deseja escutar seus segredos.

É a primeira casa de um quintal no qual se enfileiram mais cinco. Em um salto de um cenário a outro, o corretor canastrão mostra as casas por detrás do bem cuidado quintal da casa. Lá atrás, apinhadas casas de concreto sem reboco, cômodos minúsculos, mal iluminados, conversas sussurradas. Há algo tão ruim ali, que lhe arrepia os pelos e dá nó na garganta. O vendedor de ilusões diz lindezas diversas a resp…

ALMOÇO DE DOMINGO >> Sergio Geia

Imagino o que você, leitor, deva estar esperando desta crônica: muita gente à mesa, muita comida, conversas inteligentes e animadas, estimuladas por doses de álcool, gargalhadas, crianças brincando e muita alegria; enfim, a expressão mais colorida da família feliz, pois família que se preza não despreza almoços de domingo. Realmente o quadro é bonito e poderia ser assim; não é. Sinto desapontá-lo, mas o almoço é solitário mesmo, sem conversas inteligentes ou gargalhadas, sem fartura de comida e crianças brincando, mas, honestamente, e em absoluto minto a esse respeito, nem por isso desagradável ou que represente a expressão mais cinzenta da solidão; enfim, estar sozinho num domingo de verão estranhamente chuvoso e frio, não significa de maneira alguma estar sofrendo de solidão. Normalmente saio para comer fora. A chuva, porém, fria e recorrente, os últimos dias, que me foram bastante molhados diante da falta de um simples guarda-chuva, mas especialmente, uma vontade caseira de cozinhar,…

PASSEIO NOTURNO - 2a e última parte >> Zoraya Cesar

CHUCK BERRY>>Analu Faria

Chuck Berry morreu. Sim, eu sei, o presidente disse que mulher tem valor porque sabe o preço do mercado. Mas Chuck Berry morreu. Pois é, um atentado terrorista horrível aconteceu hoje na Inglaterra. E sábado Chuck Berry morreu. A terceirização foi aprovada na Câmara dos Deputados, mas você sabia que Chuck Berry morreu? Certamente a reforma  o desastre trabalhista sai este ano. E quando sair, Chuck Berry, o pai do rock, estará morto. Chuck Berry que fez música como quem mata aula para  beber cerveja num boteco estranho com gente esquisita. Chuck Berry de "My ding-a-ling", canção que me fez chorar de rir quando tudo ao meu redor era sertanejo idiotizante (que resolveram chamar de "universitário").
Chuck Berry morreu, mas foi só isso que se disse dele. Aparentemente, não se fala em seu legado. Sei lá, vai ver que é porque não se fala de cor em época de daltônicos. Chuck Berry revolucionou o mundo ao dar voz a uma era nova, pós-guerra e crente que o mundo seria uma gr…

TEMPOLÁBIL >> Carla Dias >>

Ele é do tempo das cartas escritas à mão. É do tempo de lá, mas não nasceu há muitas décadas. É jovem para a alma que veste. Seu corpo é casa de um daqueles casos de alma antiga em corpo jovem. Talvez por isso os desejos se esbarrem, nem sempre estejam em sintonia. Nem sempre a alma guia e o corpo aceita, e vice-versa. Há essa rusga entre seu dentro e seu fora. Porém, ele gosta de pensar que, apesar de parecer afronta, é na verdade equilíbrio.

Batia cartão no bar para virar copos, travar conversas langorosas e tentar esquecer suas esquisitices. O irmão passou a vida a alertá-lo que melhor era se aprumar, que ele ainda comeria muito capim sendo do jeito que era.

Peculiar.

Eventualmente, perdeu o interesse pelo bar, e até o uísque já não lhe caía tão bem, fosse de onde fosse. Viciou-se em chá oolong, bolo de aipim e analgésicos. Às vezes, sentia-se solitário, de solidão que nem mesmo as cartas que escrevia à mão ajudavam a estancar.

Sua alma antiga que só o deixou de cama, adoecido de …

O CORPO ME PERTENCE, A IDADE NÃO >> Clara Braga

Os trinta não estão mais tão longe quanto já estiveram. Aliás, eles não estão longe de forma alguma. Mas, juro por Deus, isso nunca foi um problema pra mim. Ou pelo menos não tinha sido até muito pouco tempo.
Em uma conversa recente sobre treinos e dietas, comentei que tenho dificuldade para emagrecer. O que tive como resposta? Ixi, se você já está tendo dificuldade para emagrecer agora não queira ver quando ficar mais velha! É quase impossível! O metabolismo é muito mais lento, a prisão de ventre piora e não tem exercício físico no mundo que elimine aquela gordurinha localizada.
Superado o papo da gordura que eu não vou mais perder, em outro assunto, enquanto relembrávamos momentos do passado, mal pude participar da conversa, não lembrava de nada! Então reparei que já tem um tempo que não me recordo de coisas que eram fáceis para mim até pouco tempo como dar recados quando me pedem, saber o número de ninguém de cabeça e decorar letras de música como costumava decorar. Mais uma vez o…

CARÊNCIA AFETIVA >> Paulo Meireles Barguil

– Como se cura de carência afetiva? – indagou-me uma leitora. Esclareço, inicialmente, que alma e corpo necessitam de aconchego, carinho. Devido à natureza distinta de ambos, os cuidados requeridos também são específicos. Nos primeiros meses de vida, o corpo precisa ser alimentado para não morrer. Quanto à alma, ela é bem mais resistente e menos volúvel... O que vivemos durante os primeiros anos nos marca profundamente. Acredito que algumas das inscrições desagradáveis podem ser modificadas, mas para tanto é necessário conhecê-las... Há outras, contudo, que são agradáveis e nos impulsionam, sendo imprescindível que as façamos companheiras da jornada! Não somos apenas o resultado do que (e como) vivemos, pois o corpo e a alma são repletos de memórias de outros espaços-tempos. Quando a maioria diz "Ninguém pede para nascer!", alguns sussurram o contrário... A alma, moradora do Paraíso, sabia que suas férias aqui na Terra não seriam tranquilas, mas aceitou o desafio. Ciente er…

EM ALERTA >> Mariana Scherma

1. Se você não tem nada de bom pra falar sobre alguém, melhor nem falar. 2. As pessoas perdem ótimas oportunidades de ficarem com a boca fechada. Essas duas frases meio que me cercaram a vida toda. Meu pai ama essa segunda. Quantas entrevistas a gente não viu juntos e, quando o entrevistado dizia besteira, meu pai já sentenciava que perder uma chance de falar, às vezes é ouro.
Dia desses, uma vizinha me disse umas coisas que me deixaram com medo. Coisas pequenas, mas que tinham a ver com meu apartamento, um processo e a atual síndica. Coisas que me tiraram o sono, mas, que segundo essa vizinha, era bom eu saber pra ir me precavendo, pensando no que eu ia dizer. Como se fosse normal viver em um estado de alerta. Depois de uns dias e depois de ter digerido o que ela disse, cheguei à conclusão de que ela poderia ter passado sem falar isso. Nada aconteceu. A síndica não me disse nada além de oi-tudo-bom. Ou seja, rugas a mais por nada.
Algumas semanas depois, a mesma vizinha voltou com o me…

CIRCO >> Carla Dias >>

Grande circo, esse. Pena que não tem palhaço que fomente alegria, tampouco trapezista que nos faça sonhar com o voo. Não há alegria nessa tenda de dissimulações e injustiças.

Um circo de horrores do qual não somos mais meros espectadores, mas sim os cruelmente domesticados para serem exibidos como curiosas criaturas. Porque, em algum momento, deixamos a sabedoria, que nos concede o milagre de decidirmos nosso caminho, nas melindrosas mãos-prisões dos que cochicham em nossos ouvidos – manipuladores e indiferente ao desfecho que nos espera – o que queremos escutar para acalmar ansiedade e calar questionamento.

Bem-vindos ao circo dos dissabores!

Aqui há uma grande variedade de tragédias para serem ruminadas em tempo infinito. Uma verdade gritante para se encarar com dolência aguda: somos colaboradores ativos da miséria do mundo. Nós, esses bichos amestrados pelo desejo próprio, e por ele fazemos o que é impossível de se desfazer e que, às vezes, leva o outro à lona, para não se levanta…

MAIS DO MESMO >> Clara Braga

No mesmo mundo no qual viveram Joana D’arc, Maria Quitéria de Jesus e Marie Currie, ainda passei o 8 de março recebendo imagens com piadas sobre as mulheres, como a que dizia mostrar o estacionamento do evento em homenagem às mulheres, então você via os carros todos fora da vaga, uns quase capotados, uns por cima dos outros. Se é para fazer piada vamos pelo menos tentar ser originais né?!
No mesmo mundo de Anita Garibaldi e Cleópatra, li no facebook um ser desejando feliz dia das mulheres apenas para as mulheres de verdade, mulheres vindas de fábrica, como ele mesmo dizia. As trans e as feministas que esperassem seus respectivos dias, pois não eram mulheres. Sério?
No mesmo mundo em que vive Maria da Penha, recebi uma mensagem dizendo que o real dia das mulheres era dias 06, mas como elas não conseguiram se arrumar precisaram passar a data para dia 08. Me pergunto de quanto tempo a pessoa precisou para elaborar esse comentário maravilhoso. 
No mundo de Carmen Miranda, Tarsila, Anita …

EU BEBIA DIARIAMENTE O MAR, E MAIS ALGUMAS COISAS... >> Sergio Geia

Voltei de Ubatuba mais gordo. Se o Carlos da farmácia me visse caminhando pela rua depois dessas férias na praia certamente diria: “Lá vai a jiboia esmoer. Um dia esse cara estoura”. Não estourei; ainda. Uma costela bem-servida na Casa do Norte, um peixe levemente picante no Canele, pedaços de pizzas aos montes na Pizzaria São Paulo e na Caravelas, cerveja, cachaça e beliscos no Saraiva. Tanta gulodice me fez engordar, e me fez lembrar o outro Carlos, também da farmácia, e esse primeiro parágrafo de “O Crime do Padre Amaro”, livro fabuloso do Eça de Queiroz: “Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Migueis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares de sua voracidade. O Carlos da botica — que o detestava — costumava dizer, sempre que o via sair da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado: ‘Lá vai a j…

PASSEIO NOTURNO - 1a parte >> Zoraya Cesar

Estresse agudo, afirmou o médico, dando-me um ultimato: ou larga tudo e vai repousar ou a vida é que vai te largar e você repousará forçosamente – ad æternum.
Pressionado por esse prognóstico terrível, decidi passar alguns dias num vilarejo isolado, de difícil acesso, no meio das montanhas. A natureza, ali, era extravagante. Imensa e profusamente verde de um lado, escarpada e desértica de outro. Da vila, viam-se, ao longe, restos de uma curiosa construção.
Os habitantes recalcitravam em vivenciar os confortos da vida moderna. O lugar vivia às custas de turistas eventuais e exportação de um artesanato peculiar, feito a partir de ossos e terra vermelha, que fazia sucesso no exterior. O comércio se resumia a uma mercearia que fazia as vezes de padaria e confeitaria; um barbeiro; um bar-restaurante e uma pensão. Só.
Nenhum canal de TV ou sinal de celular alcançava a região. A pouca energia que chegava fazia com que a luz, mesmo no interior dos ambientes, fosse baça e insuficiente à leitura. …

FELICIDADE>>Analu Faria

Dei pra escrever um "bulletin journal". É modinha, sim. Aderi. Gostei e, como tudo de que gosto, dou um jeito de fazer pouco. Era pra ser todo dia. O "bulletin journal", mistura de agenda, organizador e diário, deveria ter entradas frequentes. O meu tem entradas praticamente quinzenais. Eu sei, é ruim. Eu juro que no futuro, esse tempo próximo o suficiente para ser afastado, eu vou melhorar isso.
Uma das razões pelas quais eu talvez não escreva tanto no meu "bulletin journal" - fora o péssimo hábito de procrastinar - é que eu não sei bem o que escreveria todo dia (ou, ao menos, com certa frequência). Minha agenda já está no celular e não tenho tantos compromissos assim que precisem de tanto papel. Quanto ao diário...
O que as pessoas escrevem em diários? Penso que, como não escrevo com tanta frequência - e queria muito, muito mesmo, ser daquelas amantes da escrita que arranjam um tempinho todo dia para fazer isso - eu deveria pelo menos ter um diário par…

MAIS AGRO QUE DOCE >> Carla Dias >>

Quem tapa os ouvidos na hora dos tapas, sai para um lanche e deixa o prato dos seus assim, vazio. Disponível para quem se atrever a lambê-lo.

Quem diz o que quer e se nega a escutar, apraze-se ao som das próprias palavras, enquanto ergue paredes projetadas para amparar o exílio alheio.

Quem diz que ali alma não existe, trata-se somente de um depósito de carne e ossos, e então se deita em seu peito exigindo alívio.

Quem renega nascedouro, quer ter nada a ver com a geografia imperfeita que o pariu, esse vácuo criado para gestar infortúnios.

Quem insiste que seu lugar é acima, os pés sob suas cabeças, uma hierarquia existencial baseada na comédia rasgada de uma liturgia distorcida.

Quem ofende, maltrata, violenta, desampara, aponta dedo com tal maestria, que até consegue partir um coração de jeito sem volta, sentindo o deleite a lhe abraçar com tal ternura...

Ternura não combina com esse abismo entre esse quem e o outro... A outra. Ela que leva a vida a carregar rótulos, assumindo posto…

POR UMA VIDA SEM TARJA PRETA >> Clara Braga

Já vou fazer 29 anos e ainda não estou em um emprego que pense em ficar pro resto da vida.
Já tentei começar o meu próprio negócio duas vezes e não deu certo, será que algum dia vai dar? Tanta gente por aí fazendo coisas repetidas e eu com minhas ideias diferentes não cheguei a lugar algum.
Não viajei para metade dos lugares que meus amigos foram. Alias, acho que nem entendo de geografia o suficiente pra apontar exatamente no mapa os lugares para onde fui e para onde ainda gostaria de ir.
Terminei a faculdade já tem um tempo e ainda não entrei pro mestrado, não fiz nenhuma especialização e já tenho amigos indo pro doutorado.
O que aconteceu com meu tempo? Será que eu estou ficando para trás?
São tantas as coisas que a correria desses tempos doidos nos fazem questionar que quase nos falta tempo para respirar. Mas se pararmos por um instante, vamos perceber questões essenciais para não nos deixarmos surtar.
Meus pais foram ter a oportunidade de viajar para o exterior pela primeira vez …

AI, MEU CORAÇÃO! - VI - final >> Albir José Inácio da Silva

Continuação de 20 de fevereiro: (Acidente na estrada. Neném, entre desmaios, pede a presença do padre. Precisa se confessar)
O outro entendeu que era dor no peito, pensou em infarto, e viu que o companheiro estava perdendo muito sangue. Era grave, precisava de ajuda.  Neném levantou de novo a cabeça e suplicou:
- Um padre! Preciso me confessar! – disse, já num fio de voz, e apagou.
Piloto voltou à estrada pensando que Neném ia morrer. Já lhe conhecia os chiliques por causa de sangue, mas dessa vez parecia sério. Escorado num  galho e cheio de escoriações, Piloto não teve dificuldades para conseguir ajuda de um motorista que ia pra cidade, mas recusou-se a ir para o hospital:
- Não, obrigado. Preciso ficar com ele, pode ser a última vez – embora não fosse religioso como Neném, comoveu-se diante da morte - mas por favor, avise também o Padre Antônio na Matriz. Diga que o moribundo implorou pela confissão.
O diligente motorista, depois de avisar os bombeiros, insistiu com Padre Antônio …

JORGE >> Cristiana Moura

Era ainda cedo da noite quando ele tentava explicar a si mesmo o que sentia. Preparou o jantar. Comeu a comida carente de sabor. Os dias estavam assim a se justapor, um depois do outro. Os sons dos carros, das buzinas, dos pássaros— tudo lhe era emudecido.

Jorge queria explicar mas não podia. Era tudo meio sem cor: as flores, os vestidos das mulheres, o cotidiano. Ora, ele já era homem de meia idade e o que vivia nos últimos dias nunca havia vivido antes. Tentava entender mas não podia, não sabia nomear o que sentia. Jorge sofria de ausência.

Abriu um vinho. Bebeu uma taça apenas, como se quisesse que o carmim seco lhe afetasse. Nada. Foi dormir sem cheiros, cores ou sons. Mal amanhecera o dia e acordou num susto, tamanho o aperto no peito. Alguns segundos sem respirar. Era uma tal dor. — Que tristeza! — pensou. E esboçou um sorriso aliviado.

EROS NÃO É AMOR! >> Paulo Meireles Barguil

 Amalgamado é o ser Humano: alma e corpo. Compreender cada aspecto e as intricadas relações é enigma milenar. Não será, portanto, este tosco escriba quem o resolverá, mas me permitirei esfarelar  meus devaneios, pois é possível que eles sejam úteis a mais alguém além de mim... As palavras surgiram na nossa História para expressar o que sentíamos, nomear o que (não) víamos e, talvez, melhorar a qualidade do existir. Considerando que os vocábulos são manifestações culturais, é facilmente compreensível que alguns deles não tenham correspondente em outras línguas. Em relação ao amor, é frequente ouvir que ele se manifesta de três formas: Eros, Filia e Ágape. Entendo ser necessário e pertinente compreender a especificidade e a fonte de cada uma delas, tendo em vista a natureza humana. Eros é a declaração mais pulsante do corpo: desejo, por vezes, incontrolável, de possuir o outro, que é visto como objeto, cuja finalidade é suprir a minha fome intensa. Quero o outro para mim, daí o contro…

IMAGINAÇÃO SITIADA >> Carla Dias >>

Até ontem se imaginou de um jeito, num determinado canto, fazendo uma possível coisa. Imaginou-se com toda a liberdade que a imaginação oferece. Imaginar é de graça, é em segredo, fica no dentro.

Tem gente que joga ao mundo o seu imaginado. E ele se transforma em arte, em catarse, às vezes, em desentendimento, que imaginar é lida de indivíduo, cabe ao autor a cadência da trama. Porém, quando jogado ao mundo, às vezes toma conta de biografia de muitos.

Imaginou-se em outro planeta, certa vez. Mas desconfiado que é, descartou logo a possibilidade, que acha por demais de complexa a ideia de que há seres outros vivendo em planetas outros. Tem medo de não saber entendê-los.

Não à toa, imaginou seu futuro com detalhes explícitos. Onde caberiam seus talentos, os naturais e os adquiridos com estudo e dedicação. Qual frase usaria para agradecer ao agrado, sobre qual regra discursaria para defender o óbvio.

O que não raramente acontece aos que se rendem à imaginação, é que eles acabam à deriva…