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POR UMA VIDA SEM TARJA PRETA >> Clara Braga

Já vou fazer 29 anos e ainda não estou em um emprego que pense em ficar pro resto da vida.

Já tentei começar o meu próprio negócio duas vezes e não deu certo, será que algum dia vai dar? Tanta gente por aí fazendo coisas repetidas e eu com minhas ideias diferentes não cheguei a lugar algum.

Não viajei para metade dos lugares que meus amigos foram. Alias, acho que nem entendo de geografia o suficiente pra apontar exatamente no mapa os lugares para onde fui e para onde ainda gostaria de ir.

Terminei a faculdade já tem um tempo e ainda não entrei pro mestrado, não fiz nenhuma especialização e já tenho amigos indo pro doutorado.

O que aconteceu com meu tempo? Será que eu estou ficando para trás?

São tantas as coisas que a correria desses tempos doidos nos fazem questionar que quase nos falta tempo para respirar. Mas se pararmos por um instante, vamos perceber questões essenciais para não nos deixarmos surtar.

Meus pais foram ter a oportunidade de viajar para o exterior pela primeira vez na vida com mais de quarenta anos de idade, dois filhos criados e a família ajudando.

Minhas avós fizeram muita coisa depois de se tornarem viúvas. Uma delas tirou até carteira de motorista e ganhou medalhas por terminar corridas de rua, as vezes era a única em sua categoria.

Lembro do meu pai fazendo especialização, acompanho ele fazendo curso de inglês, vi minha mãe fazer mestrado e doutorado e também a vi sair de um emprego que ela gostava para algo que parecia ser uma oportunidade muito maior, e foi.

Vejo hoje meu pai aprendendo a tocar percussão e minha madrinha, depois de aposentada, abrir seu negócio e parecer estar, nesse momento, mais preparada do que nunca para enfrentar esse desafio e realizar seu sonho.

O melhor disso tudo? Fizeram suas coisas quando tiveram que fazer, sem a pressão desse mundo doido que manda você ser e saber tudo muito cedo ou então te convence de que você não é bom o suficiente. Mas não tem problema se sentir a pior pessoa do mundo, já temos remédios diversificados o bastante para tratar qualquer mal causado pela eterna busca de ser cada dia "O" melhor.

Foi assim que passei a mudar meu pensamento: já vou fazer 29 anos e ainda não fiz muitas das coisas que queria ter feito. Que bom, afinal, ainda tenho uma vida inteira pela frente.  

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