quarta-feira, 8 de março de 2017

MAIS AGRO QUE DOCE >> Carla Dias >>


Quem tapa os ouvidos na hora dos tapas, sai para um lanche e deixa o prato dos seus assim, vazio. Disponível para quem se atrever a lambê-lo.

Quem diz o que quer e se nega a escutar, apraze-se ao som das próprias palavras, enquanto ergue paredes projetadas para amparar o exílio alheio.

Quem diz que ali alma não existe, trata-se somente de um depósito de carne e ossos, e então se deita em seu peito exigindo alívio.

Quem renega nascedouro, quer ter nada a ver com a geografia imperfeita que o pariu, esse vácuo criado para gestar infortúnios.

Quem insiste que seu lugar é acima, os pés sob suas cabeças, uma hierarquia existencial baseada na comédia rasgada de uma liturgia distorcida.

Quem ofende, maltrata, violenta, desampara, aponta dedo com tal maestria, que até consegue partir um coração de jeito sem volta, sentindo o deleite a lhe abraçar com tal ternura...

Ternura não combina com esse abismo entre esse quem e o outro... A outra. Ela que leva a vida a carregar rótulos, assumindo postos que não lhe cabem, recebendo chacotas que a ofendem, mas ela sabe que é temporário. Pode não ser para hoje, para a semana que vem, para essa década, para esse século, mas continuará seu caminho, até ser considerada pessoa. Quando desdém não será capaz de mantê-la à margem de seus direitos. Violência física ou emocional não serão ferramentas para diminuir sua significância.

Há palavras novas para enfraquecer a força da jornada dela. São palavras frouxas, debruçadas em um humor barato, fortalecida pela exuberante pobreza de espírito de quem se fortalece ao enfraquecer o outro.

Superioridade, essa coisa vazia, oca. Quem a sente de forma tão pungente pode achar que é prazer e poder o que ela oferece, mas não. É a pura miséria. A ausência corrosiva de capacidade de compreensão de que somos pessoas. E sendo pessoas, meus caros, valemos a vida, o respeito, a consideração, o cargo, o salário, o reconhecimento.

Ao pensar em tantas mulheres e suas histórias distintas e ricas, cada uma delas com sua identidade e uma leva de questões para resolver. Ao pensar nas anônimas, nas que engrossam estatísticas e naquelas admiráveis por seus feitos, as que nos beneficiam por suas descobertas e nos deleitam com suas obras. Pensar nelas é aceitar que há muito caminho no qual gastar sapatos, aplicar sabedoria e encarar duras batalhas. Até se chegar lá, onde esse quem seja destituído do seu poder por uma justiça que enxergue pessoas. Por uma consciência que lide com pessoas.

Sigamos, então.

Imagem © Beatriz Milhazes

carladias.com



Partilhar

Um comentário:

Zoraya disse...

Bonito demais isso, D. Carla! E as frases introdutórias? Ainda vou te convencer a fazer um livro só com essas suas frases geniais. Beijos mil, Princesa do Lirismo!