Pular para o conteúdo principal

MAIS AGRO QUE DOCE >> Carla Dias >>


Quem tapa os ouvidos na hora dos tapas, sai para um lanche e deixa o prato dos seus assim, vazio. Disponível para quem se atrever a lambê-lo.

Quem diz o que quer e se nega a escutar, apraze-se ao som das próprias palavras, enquanto ergue paredes projetadas para amparar o exílio alheio.

Quem diz que ali alma não existe, trata-se somente de um depósito de carne e ossos, e então se deita em seu peito exigindo alívio.

Quem renega nascedouro, quer ter nada a ver com a geografia imperfeita que o pariu, esse vácuo criado para gestar infortúnios.

Quem insiste que seu lugar é acima, os pés sob suas cabeças, uma hierarquia existencial baseada na comédia rasgada de uma liturgia distorcida.

Quem ofende, maltrata, violenta, desampara, aponta dedo com tal maestria, que até consegue partir um coração de jeito sem volta, sentindo o deleite a lhe abraçar com tal ternura...

Ternura não combina com esse abismo entre esse quem e o outro... A outra. Ela que leva a vida a carregar rótulos, assumindo postos que não lhe cabem, recebendo chacotas que a ofendem, mas ela sabe que é temporário. Pode não ser para hoje, para a semana que vem, para essa década, para esse século, mas continuará seu caminho, até ser considerada pessoa. Quando desdém não será capaz de mantê-la à margem de seus direitos. Violência física ou emocional não serão ferramentas para diminuir sua significância.

Há palavras novas para enfraquecer a força da jornada dela. São palavras frouxas, debruçadas em um humor barato, fortalecida pela exuberante pobreza de espírito de quem se fortalece ao enfraquecer o outro.

Superioridade, essa coisa vazia, oca. Quem a sente de forma tão pungente pode achar que é prazer e poder o que ela oferece, mas não. É a pura miséria. A ausência corrosiva de capacidade de compreensão de que somos pessoas. E sendo pessoas, meus caros, valemos a vida, o respeito, a consideração, o cargo, o salário, o reconhecimento.

Ao pensar em tantas mulheres e suas histórias distintas e ricas, cada uma delas com sua identidade e uma leva de questões para resolver. Ao pensar nas anônimas, nas que engrossam estatísticas e naquelas admiráveis por seus feitos, as que nos beneficiam por suas descobertas e nos deleitam com suas obras. Pensar nelas é aceitar que há muito caminho no qual gastar sapatos, aplicar sabedoria e encarar duras batalhas. Até se chegar lá, onde esse quem seja destituído do seu poder por uma justiça que enxergue pessoas. Por uma consciência que lide com pessoas.

Sigamos, então.

Imagem © Beatriz Milhazes

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Bonito demais isso, D. Carla! E as frases introdutórias? Ainda vou te convencer a fazer um livro só com essas suas frases geniais. Beijos mil, Princesa do Lirismo!
Carla Dias disse…
Zoraya, você já me convenceu a escrever um romance a partir de alguns contos. Acho que você é boa em me convencer. :) Beijo!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …