Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Outubro, 2016

MÁGUINO II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 17/10/16 - Máguino foi preso num grande mal entendido e tentava, com telefonemas aos Labac, resolver a situação. Para tanto contou com a ajuda do rigoroso Pedrada que num gesto humanitário concedeu mais de uma ligação).
Salário atrasado, contas vencidas e mulher cobrando pensão, não custava arriscar. Trouxe o telefone.
Quem visse Máguino assim algemado na delegacia poderia supor que se tratava de um meliante qualquer. Mas ele estava longe disso. Aquela prisão era apenas um incidente do tipo que acontece na vida dos grandes homens e, longe de abatê-los, serve para ilustrar no futuro suas ricas e inspiradoras biografias.
                                                              O COMEÇO
Máguino bendisse a hora em que o destino o colocou como motorista na empresa dos Labac, empresários a quem admirava e defendia das más línguas. Foram anos vestindo a camisa, defendendo os patrões e aguentando o desprezo dos colegas que o enxergavam puxa-saco. E tudo terminou num “muito ob…

EIS-ME ONDE, TEMPO? >> Paulo Meireles Barguil

Visão que arrebata.
Cheiro que extasia. Voz que (des)congela.
Som que delicia.
Textura que inebria.

[Pedro e João correndo para o túmulo de Cristo - 1898. Eugene Burnand - 1850-1921]

PAU QUE NASCE TORTO OBEDECE QUEM TEM JUÍZO >> Mariana Scherma

Esses dias, virei pra minha mãe e falei “enganei o bobo na casca do ovo”. Na hora parei e pensei “oi?”. De onde eu tirei essa frase de mil novecentos e sei lá quanto?! Como se engana um bobo na casca do ovo? Tira todo o conteúdo do ovo por um furinho e entrega o ovo vazio para a pessoa? Ou só entrega um ovo podre. Nesse caso, a gente entra na questão “por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento”. Existem violas com pão embolorado dentro? Por que justo viola para embalagem? Eu me divirto com esses ditados populares, mas, como jornalista, morro de medo deles por deixarem o texto pobre quando utilizados só pra encher as linhas necessárias. Ah, só pra constar: o Google me avisou que o ditado do ovo tem a ver com a princesa Isabel dizendo ser impossível manter um ovo em pé. E aí toda a corte foi tentar deixar o ovo em pé, até que um sujeito cozinhou ovo antes e conseguiu.
E quando você guarda um segredo às sete chaves? Eu tenho três ou quatro chaves e já me enrolo inteira com elas. Se t…

SUJEITOS >> Carla Dias >>

Fosse acostumado ao mundo, colhendo histórias jogadas ao vento. Mesmo se fosse dos que se aprazem a ver tempo passar, com a paciência de quem entende silêncios. Será que se sentiria assim? Tão acuado diante do universo. Solfejando saudade do desconhecido, demorando o olhar no perder de vista.

Fosse capaz de praticar a vida, sem aprisioná-la em tantos segredos, o que seria de suas máscaras? Quantos atos teria sua existência? Como seguiria com seus inéditos desejos?

“Quem sou?” é pergunta que a resposta insiste em ignorar. Há quem floreie seus dramas com muitas versões de quem é, apenas para ocupar o silêncio que se segue, após tal questionamento. Ele não sabe viver de versões, ainda que seu eu, na necessidade de sobreviver aos infortúnios e confusões, disfarce-se recorrentemente, a fim de sobreviver aos delírios do destino.

É sujeito simples, com emprego honesto, carteira assinada, aluguel em dia. Não lhe falta comida, tampouco diversão. Gosta das gargalhadas que, mesmo diante de trag…

A TELA BRANCA >> Clara Braga

Esse fim de semana tive um momento muito agradável ao assistir Mário Prata e seu filho Antônio Prata em um bate papo sobre suas crônicas, suas inspirações e os casos pelos quais os dois passaram juntos e separados na Bienal do Livro que está tendo em Brasília.
No momento em que a platéia começou a fazer perguntas, um rapaz questionou os dois sobre o chamado pânico da tela branca, se eles já tinham passado por isso e como resolviam o fato do cronista parecer estar sempre devendo uma crônica, sempre correndo atrás do seu próximo texto.
Muito bem humorados, os dois disseram que não existe no mundo um cronista que não tenha passado por esse pânico, assim como não existe um cronista que não tenha escrito sobre o fato de não saber o que escrever. Isso me deu um alívio e uma angústia ao mesmo tempo, logo pensei: minha vida de cronista ainda é muito curta pra eu já ter tirado essa carta da minha manga, eles usaram esse artifício depois de anos e anos de trabalho, tendo que escrever semanalme…

A MULHER DAS BANANAS >> Sergio Geia

Há uma mulher fazendo ginástica; utiliza-se, vez ou outra, desses aparelhos primários instalados pela Prefeitura nas praças da cidade, pra receber especialmente a velha guarda, mas que não discriminam ninguém, principalmente quem queira cuidar da saúde. Enquanto movimenta as pernas cansadas com melodiosa suavidade, come bananas; vejo que o ímpeto de comer bananas é mais forte do que o ímpeto de mover as pernas; tem mais vigor nos músculos mandibulares que trabalham avidamente triturando bananas, do que nos músculos das pernas. Os cabelos são brancos como guardanapos, fofos como algodão; a epiderme do rosto possui vincos, o olhar meigo esconde o viver de uma vida duradoura. Mesmo longeva na experiência do continuar, e mais cansada do que em outros tempos, ela se dedica com imenso gosto à tarefa diária de fazer exercícios, ao pedalar, à troca constante de aparelhos, ao sorriso com ledice, ao comer de bananas.  A imagem é doce e me traz a vívida lembrança de minha avó, saudosa Lourença (ou…

A MOÇA NA VARANDA >> Zoraya Cesar

Cristof era poeta. Era romântico. Era solitário. 
Morava numa área pobre e mal afamada. Vivia de bicos, enquanto esperava, cada vez mais em vão, que suas poesias arcadianas fizessem sucesso. Seu maior desespero, porém, era nunca ter vivido uma verdadeira e trágica história de amor. Um poeta, acreditava, que não estivesse prestes a cair do abismo da paixão não era digno desse nome.
Uma fina lua crescente aparecia, ainda menina, em seu primeiro dia de céu. As três horas da manhã chegavam silenciosas como o defunto em seu caixão, e  Cristof se perdia na escura alameda dos desesperançados, recostado à janela do quarto da pensão barata em que vivia.
Ouviu, então, um suspiro fundo, vindo das profundezas de uma caverna de amores desfeitos. Sentiu arrepios, como se asas de aves agourentas roçassem sua pele. Um cheiro enjoativo de rosas pisadas invadiu seus poros, entorpeceu seus sentidos e atraiu-o irresistivelmente para a janela do prédio em frente, de onde viera o som.
Linda além das palavras d…

É JUNTO OU SEPARADO? >> Analu Faria

Ontem, ouvi uma professora doutora  (esses títulos são com letra maiúscula?) confessar que, mesmo com a extensa formação em Letras, não sabia se "sanguessuga" era junto ou separado (essas aspas estão certas?). Contou a história de quando haviam perguntado a ela, como se a coitada fosse um VOLP* ou um dicionário ambulante: "Sanguessuga tem hífen? É separado? Como escreve?"e, diante da resposta: "Não sei", teve que ouvir: "Noooossa mas você é doutoooora em Letras...". 
A professora acabou dizendo que não estava nem aí com isso. Nunca, nunquinha na vida havia precisado ("tinha precisado" não é melhor aqui?) escrever a palavra "sanguessuga" e não se lembrava  de como se escrevia. Não era obrigada.
Eu me senti menos E.T. (será que eu deveria escrever isso por extenso?). Sendo formada em Direito, muita gente me pergunta coisas como: "Qual é o prazo para eu pedir de volta os documentos que deixei lá na imobiliária, daquele meu…

UMA HISTÓRIA QUALQUER >> Carla Dias >>

Norma chegou ao mundo há muitas décadas. Não é das que têm problemas com a idade, mas isso não significa que distribui a informação a troco de nada. Já não bastam as várias vezes em que a burocracia a faz praticamente gritar sua data de nascimento?

- O que disse senhora?
- ... de mil e novecentos e...
- Entendi nada, minha senhora. Pode repetir, de preferência mais alto?
- 2 de julho de 1935.

O que realmente a aflige não é ter oitenta e um anos de idade. É quando isso é declamado em público, em um ambiente com uma quantidade considerável de desconhecidos. Há sempre entre eles alguém que vai desejar se achegar:

- Nossa, mas a senhora está ótima pra idade que tem.
- Quanta sabedoria deve ter acumulado, hein?
- Tenho certeza de que já viu muita coisa nessa vida.
- Seus filhos devem estar orgulhosos de a senhora sair sozinha.

O tempo lhe ofereceu, além de momentos inesquecíveis, para o bem e para o mal, uma artrose de teimosia sem fim. Andar se tornou desconfortável, o que nunca foi moti…

PELO SÁBADO QUE PASSOU >> Clara Braga

Um dia ele reclamou, disse que não aguentava mais se apegar às pessoas e se decepcionar com elas. As pessoas nunca respondiam positivamente às suas expectativas. Ao mesmo tempo que reclamava, sentia um alívio, tinha achado a solução para o próprio problema: nunca mais iria esperar nada de ninguém, dessa forma não teria como se decepcionar. Ali estava a solução, parecendo tão simples quanto ligar e desligar uma luz. Apego mode on, apego mode off e vamos ser feliz.

Já o outro foi bem direto. Não queria um relacionamento sério, por isso só sairia com a mesma pessoa no máximo três vezes, sendo que um encontro nunca poderia ser na mesma semana do outro. Essas regras pareciam básicas para o não apego. Quem não se apega não se relaciona intimamente, logo ele estava no caminho certo.

Ela ouvia e concordava, queria apenas um P.A., alguém para estar ali no momento certo, resolver os problemas íntimos e ir embora o mais rápido possível.

Não acompanhei de perto o desenrolar da história de cada um…

MÁGUINO >> Albir José Inácio da Silva

O primeiro telefonema não foi difícil porque era previsto em lei. E Máguino encheu-se de dignidade:
— Senhor! O meu constitucional telefonema, por obséquio!
Sempre achou que os adjetivos devem preceder os substantivos, como no inglês, porque fica mais distinto. E, apesar da angústia , distinção ele ainda mantinha.
Demorou muito, mas veio o telefone e um detetive para fiscalizar-lhe a comunicação. Máguino não tinha o que esconder e foi logo cobrando providências, com intimidade e firmeza próprias de um orgulhoso acadêmico de direito:
— Pedro, venha rápido! Esclarece logo isto, que tá ficando desagradável!
Mas depois de alguns minutos já implorava:
— Dr. Pedro, o senhor disse que era meu amigo! Faz alguma coisa, o senhor conhece tanta gente importante. Se quiser, com um telefonema resolve isso. Diga-lhes de quem é a mercadoria, mostre os documentos.
Há duas horas tinha sido tirado do seio da família, algemado, sob o olhar divertido dos vizinhos invejosos do seu sucesso e rápida ascens…

TRAGA SEU PRÓPRIO LIVRO, O JOGO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Jogos normalmente criam um ambiente à parte em que os jogadores interagem por alguns minutos ou algumas horas. Mas e quando um jogo pede que os jogadores tragam seus ambientes para a mesa? É o caso do jogo "Traga seu próprio livro" em que cada jogador é convidado a trazer um livro de sua preferência para jogar com ele.

As regras são simples... Cada um com seu livro, todos sentam em círculo. No centro, uma pilha de cartas com assuntos. A cada rodada, uma pessoa será o selecionador. O selecionador pega uma carta e lê o assunto: por exemplo, "Título de um romance de mistério" ou "Um slogan político" ou "Uma frase num biscoito da sorte chinês". Todos, menos o selecionador, começam então a procurar, no livro que trouxeram, um trecho que possa corresponder àquele assunto. Quando um dos jogadores consegue achar algo, avisa a todos. E o selecionador começa a marcar um minuto num relógio ou ampulheta. É o tempo que os demais jogadores têm para terminar d…

CRIANÇA >> Paulo Meireles Barguil

Então, trouxeram-lhe algumas crianças,  para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas.  Os discípulos, contudo, os repreendiam.  Mas Jesus lhes ordenou:  “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais,  pois o Reino dos céus pertence aos  que se tornam semelhantes a elas." Mateus 19, 13-14
Entre aromas e espinhos, ela cresce.

Entre pega-pegas e esconde-escondes, ela brinca.

Entre pedras e abraços, ela floresce.

Entre pega-pegas e esconde-escondes, ela sobrevive.

Entre medos e tristezas, ela definha.

Entre pega-pegas e esconde-escondes, ela agoniza.

Entre coragens e alegrias, ela ressurge.

Naquele momento os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram:  “Quem é o maior no Reino dos céus?”.  E Jesus, chamando uma criança,  colocou-a no meio deles. E disse:  “Com toda a certeza vos afirmo que,  se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças,  de modo algum entrareis no Reino dos céus.  Portanto, todo aquele que se tornar humilde,  como esta criança, esse é o mai…

BILHÕES >> Carla Dias >>

É assim o mundo. Bilhões de pessoas. Raramente, a maioria está na mesma página do livro da vida. Assim, nascem guerras e grandes ideias. Despertam os menestréis, os sábios, os artistas, os cientistas, os revolucionários... E os genocidas. Ganha espaço o que há de pior, mas também o que se baseia no amor, mas não naquele amor para emplacar comercial de televisão. Amor.
Aprendemos muito, quando nos dispomos a isso. Nós, parte dos bilhões. Há quem coloque bilhões de dinheiros no bolso por conta de uma grande ideia, ou uma ótima lábia. Ainda assim, e amém a isso, não existe quem coloque os bilhões que somos, de uma só vez, no bolso, e a troco do que seja. Isso não significa que não tentem. Diariamente, encontra-se uma forma – fórmula? – de nos manter em um mesmo plano, como se fôssemos bibelôs de colecionador austero. Somos mantidos o mais silentes e ignorantes possível – não se iluda, que seus gritos não estão sendo ouvidos, e as palavras escritas em CAIXA ALTA espantam leitores. Somos út…

QUEM VIVER, SOFRERÁ >> André Ferrer

Outro dia, revelei o desejo de comprar um Escort XR3 conversível. Entre os presentes, que acharam graça naquilo (não, eles riram), estava o meu pai. Seu conselho foi que eu comprasse, também, uma caixa de ferramentas e um bom sortimento de peças (não, ele disse, com todas as letras, que eu ficaria na estrada mais cedo ou mais tarde). Desafiado (sim, eles gargalharam), tomei o exemplo do Fusca e levantei a ideia de que um retorno do XR3 não constituía nenhum disparate. Sim, eu compraria o carro mais cobiçado pelos rapazes da minha geração.
1984 foi o ano das Olimpíadas de Los Angeles e do movimento Diretas Já. Michael Jackson, pela primeira vez, era chamado de Rei do Pop. Airton Senna, garoto propaganda do novo esportivo da Ford (sim, o Escort XR3), estreava nos Grandes Prêmios da Fórmula 1. Em todo o país, as rádios tocavam os enervantes “hits” do grupo Menudo. Eu tinha 11 anos.
Curiosamente, a nostalgia pode ser a grande arma do mercado. Crises econômicas já foram vencidas graças a um …

CLEUSA >> Sergio Geia

Silencioso como uma igreja, invisível como a alma humana, assim é o meu telefone. Às vezes até esqueço que tenho um. Não passo o número para ninguém; quando me pedem para que conste em algum formulário, preciso consultar a agenda. Na verdade, confesso que o instalei meio a contragosto. Não queria um telefone aqui em casa; sucumbi, contudo, à conversa de uma boa vendedora. Quando liguei, minha intenção era fazer a assinatura de internet e televisão; nada mais. Ocorre que se incluísse no pacote o telefone, a assinatura sairia mais barata. Perguntei duas vezes à garota do outro lado da linha se era isso mesmo que eu tinha entendido: que se incluísse mais um produto na compra, a conta ficaria menor; se, ao contrário, resolvesse não adquirir a linha, pagaria mais. Ela, rindo da minha inocência de camponês, repetiu bem doce que sim: “Isso mesmo, seu Sergio! Um combo! Compensa!”. Se compensa, não sei. Só sei que aceitei o tal combo, e por isso, por esse excelente negócio, estou agora a escrev…

MINHA VIDA COM AMELINHA - PARTE II - Zoraya Cesar

Leia Minha vida com Amelinha - parte I
Amelinha fazia o diabo com minha vida. Resolvi mandá-la para casa, o Inferno, que era seu lugar. Embora eu não acredite nessas coisas.
Talvez Amelinha sobrevivesse ao próprio desleixo por muitos anos ainda. Eu é que não aguentaria. Por isso resolvi comprar-lhe uma passagem de ida sem volta dessa vida para outra melhor (se você acredita nisso. Eu, não), inoculando ricina em seus cigarros.
Acho que fui muito corajoso. Afinal, a polícia poderia juntar H2 com O e meus planos irem por água abaixo. Ser preso por assassinato não era meu objetivo. Ver-me livre daquele estrupício, sim. Era isso ou enlouquecer. Acabaria fazendo alguma besteira. Como atirá-la pela janela. Quebrar-lhe a cabeça. Algo assim. (Não foi falta de vontade. Mas sou homem controlado).
Tudo deu certo, no entanto. Não herdei grandes fortunas, apenas uma módica pensão. Meu comportamento após o enterro foi absolutamente low profile. Amelinha não se cuidava e tinha saúde comprometida. Acho qu…

ME ENGANA, QUE EU GOSTO >> Analu Faria

Segundo o Cal Lightman, do seriado 'Lie to me" (em português acho que ficou"Engana-me se puder"), polígrafos não funcionam. Ainda assim, ouvi falar que uma empresa aérea que atuava no Brasil usava a máquina para detectar mentiras de seus candidatos a funcionários.

A razão pela qual Dr. Lightman - um personagem fictício delicioso (debochado, desafiador, sarcástico) - desabona o polígrafo é simples e largamente conhecida, não só na ficção: o equipamento detecta se a pessoa analisada está tensa ou nervosa, mas não por quê. Não é fascinante, isso? Damos às máquinas o poder de saber uma coisa e achamos isso o máximo, mas não as ensinamos a analisar a origem daquilo que ela "sabe". (Bem, isso está mudando um tanto, com coisas como o deep learning, mas, para fins desta humilde crônica, vamos deixar essas coisas high tech de lado). Aí usamos o julgamento de uma máquina, sem qualquer contextualização, como base para algo tão importante quanto a aprovação em um proc…

ATÉ MAIS VER >> Carla Dias >>

Ao Endric, alguém que valeu a pena conhecer
Há coisas que eu não lhe contei. Por exemplo, eu e minha mãe falávamos secretamente sobre você. Bastava surgir seu nome na conversa, e as nossas falas eram as mesmas, não por falta de criatividade, mas por reconhecimento à verdade.
- Mas esse menino, mãe... - É mesmo... - Fico feliz de eles serem tão amigos. - E também... Ele é um menino muito bom. - É sim... - O irmão também... - Sim!
Apreciávamos que o neto de minha mãe, meu sobrinho, tivesse um amigo como você e os outros desse seleto grupo de irmão e primos e primas. Um pequeno grupo de pessoas muito bacanas.
Sabe, eu cresci com sua mãe, sua tia e seus tios. Somos primos, mas também somos irmãos, que é nisso que dá frequentar o mesmo quintal durante a infância, e aprender a perdoar os puxões de cabelo, palavrões e chutes nas canelas.
Sua avó, minha tia, cansou de fazer coalhada para mim, quando eu os visitava e você ainda era um molequinho. Quando não coalhada, manjar. As horas sentadas à mesa,…