quarta-feira, 5 de outubro de 2016

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Ao Endric, alguém que valeu a pena conhecer

Há coisas que eu não lhe contei. Por exemplo, eu e minha mãe falávamos secretamente sobre você. Bastava surgir seu nome na conversa, e as nossas falas eram as mesmas, não por falta de criatividade, mas por reconhecimento à verdade.

- Mas esse menino, mãe...
- É mesmo...
- Fico feliz de eles serem tão amigos.
- E também... Ele é um menino muito bom.
- É sim...
- O irmão também...
- Sim!

Apreciávamos que o neto de minha mãe, meu sobrinho, tivesse um amigo como você e os outros desse seleto grupo de irmão e primos e primas. Um pequeno grupo de pessoas muito bacanas.

Sabe, eu cresci com sua mãe, sua tia e seus tios. Somos primos, mas também somos irmãos, que é nisso que dá frequentar o mesmo quintal durante a infância, e aprender a perdoar os puxões de cabelo, palavrões e chutes nas canelas.

Sua avó, minha tia, cansou de fazer coalhada para mim, quando eu os visitava e você ainda era um molequinho. Quando não coalhada, manjar. As horas sentadas à mesa, café sempre presente, conversas sobre quem fomos, quem nos tornamos e questionamento sobre aonde iremos parar, bem, isso nós herdamos da nossa família predominantemente feminina. Praticamente tudo se resolvia à mesa, com altas doses de café. Muito disso se estende aos dias de hoje.

As mulheres dessa família são complicadas, dramáticas, mas completamente apaixonadas pelos seus filhos.

Sua mãe, sua tia e eu somos amigas-irmãs. Construímos esse afeto desde o início de nós. Por isso mesmo, os filhos delas, assim como os dos primos, eu considero meus sobrinhos.

Não deu tempo de lhe contar que morro de medo de pombas, porque elas adoram voar em minha direção. Acho sempre que uma delas vai me arrancar um olho. E não é medo de sustinho, não. Falta-me o ar quando estou diante de pombas. Eu travo.

Aposto que você se divertiria com isso.

E nem contei - porque em um dia você estava trabalhando, no outro trabalhando e no outro eu me esqueci - que finalmente fiz uma tatuagem. Depois daquele bate-papo sobre as suas, achei que você gostaria de saber. Eu gostaria de lhe mostrar, porque ficou mesmo bonita, e me traz sim a memória das árvores que viviam aí no fundo do quintal, onde hoje vivem casas e mais casas. Traz-me a lembrança da música da chuva e do vento passando por elas. E doeu muito fazê-la. Mas eu estava acompanhada de uma grande amiga, dessas que, assim como você, faz bem aos seus, quem me deu a tatuagem de presente de aniversário adiantado – sete meses adiantado! –, e ainda bem que o tatuador era agradável aos olhos.

Eu sei que a vida lhe deu alguns fardos para carregar, e os ditos não eram nada leves. E você, tão jovem, seguiu com espírito elevado, sendo amigo e companheiro de muitos, e um pai para sua filha que alguns filhos por aí gostariam de ter. Eu o admiro profundamente por isso. Eu nunca disse, porque eu sou dessas. Eu não digo, escrevo. E se tiver algum membro da minha família lendo esse texto, que fique claro e não se confunda com arrogância: sou péssima em dizer. Eu escrevo.

Não posso negar que você deixou as coisas meio complicadas por aqui. Nunca liguei para você, mas seu número de telefone está na minha agenda de contatos. Vai ficar lá. Mas o que realmente pesa é a ideia de silêncio. Eu adoro silêncio, sou completamente a favor do silêncio, eu diria que necessito de silêncio. Só que não dos que não podem ser quebrados.

Outra coisa... Abraço. Eu me lembro dos abraços demorados que eu lhe dava, e ainda tinha a cara de pau de comentar algo que costuma fazer adulto recebedor de abraço se envergonhar: eu o peguei no colo. Você nem ligava, sorria e ficava lá, disponível para o abraço por quanto tempo fosse. Seu irmão também é assim, seus primos são assim. Nasceram nessa família em que as mulheres abraçam e se perdem nesses abraços e protegem em abraço.

Mas sabe o quê? Eu o peguei no colo. Cada abraço que lhe dei, quando ficou impossível pegá-lo no colo, foi como acalentá-lo novamente. Não há nada que eu respeite mais nesse processo de experiência e passagem de tempo do que observar uma pessoa se transformar. Foi uma experiência muito especial vê-lo se transformar em um homem de alma gentil, pronto para o trabalho, com bom humor, pai dedicado e com uma tendência absurda a cometer gentilezas.

Obrigada.

Sei que, neste momento, é a dor que impera, entre aqueles que o amam. O que fazer com o tempo que parou, com a ausência das palavras ditas e do som das gargalhadas? O que fazer com um futuro sem você nele?

Eu sei: é a vida. Sim, é clichê, mas eu acredito na importância de alguns deles. É a vida, temos de lidar com a sua ausência, o seu silêncio, a sua passagem curta por esse mundo. É a vida, mas nem por isso é tarefa fácil.

Tenho de lhe contar que observei a todos no dia da sua despedida. E em meio a tanta tristeza, percebi que você foi a alegria na vida de muitos. Em tempos confusos como este, a clareza do benquerer o outro é de uma lindeza indecorosa. Foi triste vê-lo partir. Foi lindo ver como você é amado. Foi triste vê-lo partir. Foi lindo ver como aquelas pessoas, familiares e amigos, têm verdadeira admiração por você. Eu me incluo nessa turma.

Sua passagem por esse mundo foi admirável.

Dizem que acabamos nos apegando somente ao que é bom de uma pessoa quando ela se vai. Não nesse caso. Você não é perfeito – também me esqueci de lhe contar que não acredito em perfeição –, o que significa que é humano. Você é um dos meus seres humanos preferidos.

Sempre o achei, como diria alguns das antigas, um boa-praça. E apesar da tristeza que a sua ausência inspira, devo dizer a você o que disse a sua mãe, enfiada em um daqueles abraços sem fim, mas dessa vez acompanhado por um engasgo: não, você não perdeu seu menino. Você teve o privilégio de tê-lo em sua vida por quase vinte e cinco anos.

Sabe o tempo? Ele toma outras proporções, de acordo com o olhar que lançamos a ele.

Também quero dizer que sim...

Sentirei imensamente sua falta, mesmo não tendo lhe contado mais algumas coisas com as quais, tenho certeza, você se divertiria. Naquela mesa de café, lá da sua casa, com minhas primas-irmãs e tia, sua avó, os primos-irmãos e a leva de primos que amo como amo meus sobrinhos, lembraremos de você como a pessoa que ficou no nosso coração e de lá jamais partirá. Uma pessoa que vale a pena conhecer e amar.

Sentirei falta de acalentá-lo em um abraço. De ser acalentada por você.


Eu avisei... Eu não sei dizer. Eu escrevo.

Sei que a foto não é atual ou está nítida. Não está nítida, porque fui eu quem a tirou, sempre fui péssima com fotografias. Gosto da ideia de ele olhar em minha direção, e de que, nessa época, eu ainda conseguia pegá-lo no colo.




Imagem: El somriure de les ales flamejants © Joan Miró



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5 comentários:

Pra Adriana Dias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pra Adriana Dias disse...

Nem todas as palavras do mundo poderiam descrever, com excelência, a doçura, o amor,amizade do Endric, um destes seres humanos raros, que algumas vezes, temos o privilégio de conhecer. Mas,você conseguiu, com a maestria de quem tem olhos n'alma, reafirmar a verdade deste que viverá para sempre nas histórias, memórias e corações daqueles que o amam e seguirão amando por toda vida...

Vera Figueiredo disse...

Carla, que inspiração hein! A partida é sempre difícil e principalmente quando é definitiva. É triste entender isso. É muito triste entender isso. É muito triste aceitar isso. Ele deveria ser realmente uma pessoa maravilhosa. Restam as lembranças e fica a saudade!
Um beijo
Vera Figueiredo

Zoraya disse...

Carla! O que dizer diante dessa dor? Silêncio respeitoso diante de suas perfeitas palavras de amor.

Carla Dias disse...

Pois é, Drikota, ele foi, mas ficou, e com toda sua doçura. Beijos.

É difícil mesmo, Vera. Porém, ele deixou muito a ser celebrado, e acho que isso é valioso, não?
Sim... O Endric era uma pessoa maravilhosa. Sorte a nossa por tê-lo na família. Beijo.

Zoraya, obrigada pelo seu silêncio. Beijo.