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Mostrando postagens de Agosto, 2015

RUA 7 DE SETEMBRO >> André Ferrer

A história que eu tento escrever se passa em Brasília. Isso, de fato, tem se revelado uma das experiências mais terríveis para mim porque a capital do nosso país não têm ruas. Brasília tem códigos criptografados no lugar de ruas.
Para quem não é leitor contumaz de contos e romances — e muito menos escritor —, pode parecer tolice. Não é.
Trata-se do tipo de coisa que interfere diretamente no legado de uma obra literária. Meses, anos, décadas depois de uma leitura, personagens e cenários memoráveis acabam sendo decisivos sobre o que, realmente, permanecerá.
Itinerário e gastronomia são o que há de marcante para mim numa história. A textura e os aromas de ruas e alimentos têm sido responsáveis pelas minhas melhores recordações. Ponto este que, sem dúvida, depende de um fator emocional e estilístico. Não basta, simplesmente, que se enumerem toques, cores, nuanças, ruídos, jogos de luz e sombra. Bem entendido: ruas e pratos devem ser peças e não acessórios da narrativa.
Livros de viagem nã…

VELHO >> Sergio Geia

Era só o que faltava. Se não bastassem os poucos cabelos a denunciar. Se não bastasse que esses poucos cabelos são poucos cabelos brancos e querem transformar sua cabeça numa Groenlândia. Se não bastassem os vincos que invadem sua cara por conta do afrouxamento da musculatura. Sem contar que esse afrouxamento muscular infelizmente não se limita à cara, mas se estende a outras partes do seu corpo, até aquelas que você só de pensar sente um calafrio. Se não bastassem os dentes que já não conseguem dar conta de um inofensivo amendoinzinho. Se não bastassem os amigos dos seus filhos te chamarem de tio. Agora até jogador de futebol denuncia que você está velho!?
Eis, amigo, a notícia do jornal que me chamou a atenção essa manhã: “25 jogadores que mostram que você está velho”. Que petulância! E o primeiro parágrafo desta crônica foi se desnudando na minha cabeça na mesma proporção em que a vontade de jogar a notícia no lixo crescia. No entanto, minha autoestima não iria se abalar com uma not…

NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAÍS
>> Analu Faria

Todas as vezes que um veículo de comunicação anuncia coisas alarmantes do tipo “A inflação deste ano... / A seca que castiga o sertão nordestino... / A taxa de desemprego na região sudeste é a maior desde...”, eu fico imaginando o fim da frase como algo do tipo “… 1938 / a Segunda Guerra Mundial / a Revolução Francesa / a crise do petróleo/ o descobrimento do Brasil / sempre”. A frase então ficaria assim, exemplificadamente: “A inflação deste ano é a maior desde 1938”. Mas as frases ditas com entonação de quem soa as trombetas do apocalipse terminam  mais ou menos desta forma: “… desde o ano passado / ... da última quinzena / ... de 2011”, como em “A taxa de desemprego deste semestre já é a maior desde 2011.” Deveria haver um comentário final a cada reportagem dessas: "Rápido: corram para os bunkers.".
Há algum tempo, um estudo polêmico de um ex-missionário americano mostrou que uma tribo brasileira, os Pirahãs, não guardavam em histórias a memória coletiva ou individual qu…

REPETÍVEL >> Carla Dias >>

Tudo se repete... Nós nos repetimos.

Até sonho que foi sonhado há pouco cai fácil no loop da existência. Você empresta o seu sonho ao outro, contando a ele os detalhes dos quais se lembra. Se não for sonho sonhado, mas sim construído, você desfia minudências, mas algumas guardadas somente para si, até que algum biógrafo — de profissão ou janela — o desvende.

Quando você escuta alguém dizer “mas conheço alguém que passou exatamente por isso” é como se morresse o ineditismo da sua história. O jeito é sorrir e compreender a complexidade da sua experiência com a versão de um contador de histórias de vida de outra pessoa.

Não à toa as pessoas buscam por quebrar recordes, ultrapassar limites, atingir o cúmulo da superação. Aliás, “superação” é uma palavra que não me cai bem, de tanto que vem sendo usada para justificar o óbvio. Acabou perdendo o cabimento, o sentido ficou esgarçado. Superação anda coisa digna de ibope, sempre inspira compartilhamento, após ler a manchete. Raramente a pesso…

ALGUÉM INDICA? >> Clara Braga

Lembro de entrar na faculdade e começar a conviver com aquelas pessoas que você admira pelo conhecimento que elas dominam. Eram professores que, a cada palavra que você dava, tinham um livro para lhe indicar ou algo interessante que você deveria ver já que gosta disso e daquilo. Guardo até hoje listas de livros e filmes que tenho que ver. Sem contar as ementas das disciplinas, que vinham recheadas de indicações bibliográficas. Nossa, aquilo era uma delícia, ir à livraria atrás de um livro com cheirinho de novo, pronto para ficar todo marcado com anotações, não tem preço.
É claro que alguns livros são caros, principalmente os de artes, não dava para cumprir as listas de bibliografia de todas as matérias todos os semestres. Mas não tem problema, fui aos poucos montando minha humilde, porém amada, biblioteca. Biblioteca que me auxilia muito na preparação das minhas aulas. Cada novo tópico a ser tratado é uma nova pesquisa nos meus livros. Pego uma informação desse, complemento com uma i…

INIMIGO PÚBLICO Nº 1 >> Eduardo Loureiro Jr.

Sei que o leitor não aguenta mais escândalo, que vem até o Crônica do Dia desejando um refresco das notícias estarrecedoras que circulam pela grande mídia. Mas é meu dever noticiar um absurdo...

O Mar. O Mar continua lá. Entra governo, sai governo. Entra esperança, sai esperança. E o Mar continua lá, absoluto, intocável. Dele ninguém fala. Ninguém atenta para seu líquido latifúndio. Ninguém se indigna com a sua desfaçatez: faz de conta que está tudo azul, mas logo se percebe a fortuna que guarda em verdes esmeraldas.

O Mar vadia o dia inteiro e a noite inteira. É um vaivém sem fim. Puxa o que quer puxar, força o que quer forçar e ninguém fala nada. Fazemos de conta que ele não existe. Diante de nossa indiferença, ele atrai para si os mais ociosos e odiosos tipos: surfistas, pescadores (de vara e de rede), andarilhos que tramam ardilosas e crônicas ironias.

Enquanto se discute esse ou aquele projeto de lei, enquanto se emenda a constituição aqui e ali, enquanto se bate panela, enquanto…

TRAIÇÕES EM TERAPIA >> Cristiana Moura

Ontem mesmo eu conversava com este colega, trocávamos experiências profissionais. Rodolfo é um terapeuta renomado por esta terra. Discutimos alguns casos. O compartir profissional com ele é sempre muito rico e só nos vemos vez em quando — há de se aproveitar. No entanto, mais do que a riqueza de experiências, o colega sempre me surpreende com sua atuação. Falo daquelas surpresas parecidas com aqueles sustos em que a gente para de respirar por alguns curtos, porém longos segundos.
É que Rodolfo, quando foi para o Sul, foi aluno do analista de Bagé. Vocês já devem ter ouvido falar. Trata-se de um amigo do Veríssimo,  terapeuta controverso mais que conhecido por aquelas bandas. Bagé é um sujeito sem papas na língua, um tanto rude e com métodos, vamos dizer, de certa forma diferenciados.

Pois meu colega contou que o que mais tem ouvido no consultório, nos últimos tempos, são histórias de traições. Pacientes que haviam sido traídos, mas principalmente, pacientes que traíram seus companhei…

O BAÚ >> Paulo Meireles Barguil

Engana-se quem pensa que o baú era usado somente em viagens.
De fato, ele se constituía num guarda-roupa portátil. Além da praticidade, outras virtudes suas eram a durabilidade e a discrição. Vários modelos e tamanhos, no passado e no presente. Baú da felicidade: bilhete premiado para um futuro melhor. Felicidade no baú: músicas, lembranças, sentimentos... Cadeado, chave, segredo, lacre: tentativas de proteger quem está fora. Melhor é deixar o baú aberto: quem quiser que olhe.
Quem tiver coragem que mexa.

SOBRE ENVELHECER E SER FORTE >> Mariana Scherma

Se o problema fosse só envelhecer, beleza. Uma coisa é superar o seu cabelo branco, as suas marcas de expressão, aquela ruga que só engrossa perto dos seus olhos e o seu bumbum que, por mais que você faça os agachamentos mais torturantes na academia, não é o mesmo de um tempo atrás. Com esses “problemas”, a gente se acostuma. Descobre outras qualidades e segue a vida. O autoenvelhecimento é isso. Mas e quanto a ver seus pais ficarem cada dia mais velhinhos e ter que admitir que eles não são eternos?
Essa resposta aí eu não tenho. Bem que queria. Uma coisa é aceitar o tempo passando pra você, mas para eles? Poxa, Deus e demais senhores aí da cúpula de cima. Encarar que o ser humano, em geral, tem suas fraquezas em relação aos anos que só correm é quase poético. Mas notar que seus pais enfraquecem com a idade é tenebroso, dói na alma. Essa sinceridade de agora é porque, mais uma vez, meu pai (que também faz bico de meu ídolo, meu grande amigo e meu mestre) precisa encarar mais uma cirurg…

AOS QUE PERGUNTAM >> Carla Dias >>

Vento me leva, inquietude me engoda a alma, e se às vezes tenho vontade lancinante de sumir, assim, sumida, de desejo de colocar pés em Marte — ou no Suriname — é porque me falta repertório para estrear shows particulares aos órgãos competentes.

Não sei sambar obediência cega. Desapegar do respeito — o recebido e o concedido. Às vezes, parto de mim, porque preciso de trégua. Quando volto, inteira, com direito a todos os ângulos da minha benfazeja rotina de acolher silêncios... Antes de dizer o que — respiro fundo, depois vem o dito. Daí que abraço canções e preces. Deito-me com amores vãos e me enrosco em ciladas emocionais.

Às vezes, falta-me delicadeza ao engolir sapo. Descabelo-me, então vou ao cabeleireiro. Ele reclama que quase nunca apareço, enquanto sorri ao contar dinheiros; eu pronta para enfiar meus cabelos cuidadosamente ajeitadinhos debaixo do chuveiro, assim que pisar em casa. Então, chorar fascínios.

Às vezes, falta-me traquejo.

Como naqueles minutos — quase vinte e set…

AQUELES NOMES >> Clara Braga

Neon teve um rolo com a Pólen, pena que não deu certo, imaginem só os nomes dos filhos! Provavelmente seria algo como o nome da filha daquela outra mulher, a Floresta!
A amiga grávida sempre quis ter uma filha para chamar a menina de Adrenalina. Como? Adriana Lina? Não, Adrenalina mesmo! Imaginem o alívio quando ela disse que sente estar esperando um menino e o nome será João!
Aquele colega antigo de escola que eu nunca mais vi parece que teve uma filha, não vejo a hora da menina ter idade para ter Facebook e eu possa descobrir o nome dela. Lembro que o sonho dele era ter uma menina linda para batizá-la de Feia!
O Letisgo e a Madeinusa nunca chegaram a se conhecer, graças a Deus!
Aqueles alunos com muitas consoantes juntas no nome fizeram a professora repensar, chamada para quê? Juro que estou vendo todos aqui!
A Primavera só é Clara porque não pôde ser Primavera Prateada!
A Raquesh, por intervenção da avó, se chama Ágatha. Se ainda estivéssemos na época do ICQ ou do mIRC, provavelme…

ALGUNS MILÍMETROS >> André Ferrer

Você conhece os Beatles. Acha os caras incríveis. Depois, descobre George Martin.
Esse tipo de coisa sempre me fascinou. A maneira como as pessoas se manifestam, boas, más, geniais, medíocres, nunca se esgota em si mesma. Todo relógio esconde um mecanismo perfeitamente explicável no interior da carcaça. Seja qual for a maravilha do comportamento humano e da técnica, malgrado a dissimulação e o orgulho do artífice, pode ser explicada, analisada, sintetizada e aprendida desde que alguém se disponha a fazê-lo.
Entretanto, abrir o relógio e desvendar o seu mecanismo é, muitas vezes, visto com estranheza pela sociedade. Qualquer santo, mártir ou gênio, afinal, merece todo o respeito e reverência.
Não! Nada disso. Todo Niemeyer tem atrás de si um Lúcio Costa.
O espírito revolucionário da maior obra de Stendhal (1783-1842), O Vermelho e o Negro, é exatamente esse. Julien Sorel, o protagonista, ousa abrir a carcaça da elite a fim de elucidá-la. Claro, para depois empregar o conhecimento em benefí…

MAIS UMA PASSEATA >> Whisner Fraga

Como não achamos passagem aérea a preços razoáveis e como tínhamos de conhecer o sobrinho de dois meses, resolvemos encarar os seiscentos quilômetros de distância de carro mesmo. Claro que viajar na melhor rodovia do país ameniza todo o stress que a direção pode causar, principalmente quando vencemos longos percursos. O paulista adora dizer que tem as melhores pistas do Brasil a seu dispor. Não é mentira. Mas a que custo?

Os valores dos pedágios na Bandeirantes, na Anhanguera, na Castelo Branco, na Ayrton Senna, são abusivos. Gastamos, de São Paulo a Uberlândia, aproximadamente cem reais. É muito dinheiro. Claro que isso se deve ao modelo de concessão do estado, que foi malfeito às pressas. Os paulistas, normalmente cidadãos de classe média, no mínimo, não se queixam. Pagam com gosto, pois podem se deslocar com segurança e conforto. Ora, eu gostaria de segurança e conforto a preços justos!

O que estou tentando explicar é que a conta invariavelmente cai nas costas do consumidor, mas nã…

SEBASTIÃO, O SACRISTÃO >> Sergio Geia

O Bastião daquela cidadela tinha um metro e meio de altura, cabelos raspados nas laterais com um tufo acinzentado no meio — no melhor estilo milico —, a simplicidade valiosa de um camponês. Quando a bagunça atingia níveis estratosféricos no salão paroquial, ele aparecia, mas não dizia nada. Sua presença impunha respeito, apesar do tamanho, talvez um pouco pelo medo que sentíamos daquele baixinho e do que ele seria capaz, tudo num começo de andança pra muitos. Depois nos tornamos amigos.
O medo vinha mais de suas rugas. Bastião já devia ter passado muito aperto nessa vida, pois tinha nos olhos, escondidos atrás de lentes garrafais encaixadas numa armação antiquada, a expressão cascuda de quem já desbravara densas matas, uma espécie de Villas Boas suburbano. Ficávamos a imaginar, sentados nos jardins da Santa Teresinha, como deveria ter sido a vida daquele sujeitinho de pouca fala, de olhar sério e de raros amigos.
Lembro-me de uma vez em que os coroinhas foram denunciados por um jornalis…

O BOMBOM SONHO DE VALSA DE IRINEIDE
>> Zoraya Cesar

Liberdade. Que estranha palavra, aquela, sussurrada pelos desvãos e frestas da casa, como um anátema, maldição, coisa do demo. Uma ilusão, que colocava as pessoas a se perderem pelo mundo, sem eira, à beira do precipício. 
“Mulher com liberdade vira mulher à toa”, dizia o severo e sisudo pai de Irineide. A mãe, tão carinhosa, tão alegre e risonha, não gastava tempo com palavras ou sermões. Preferia brincar com a filha e escondia bombons Sonhos de Valsa para que Irineide os procurasse e depois os comessem, juntas, escondidas, para que o pai não desaprovasse a comilança e a bagunça. Era o momento mais feliz da vida da menina.
Com o tempo, as frequentes e acerbas brigas entre o casal foram minando a alegria da mãe, as brincadeiras, os risos e os bombons. Passava horas em frente à janela, triste, ensimesmada. Para Irineide, a mãe lhe parecia um frágil pássaro desesperado, engaiolado num espaço muitas vezes menor que seu próprio corpo. 
Era tarde de outono, o vento soprava pela janela sem…

PARA ANGIE, COM UM NÓ NA GARGANTA
>> Analu Faria

O Google Tradutor diz que “outcast”, em português, quer dizer “exilado”. Não acho que a tradução faça jus à força da palavra na língua inglesa. Quando penso em Angie, sempre penso em “outcast”, não em “exilada”. Exilados são gente expulsa. Angie não foi expulsa. Veio ao Brasil por vontade própria. Mas sempre me pareceu que tinha seu lugar ao sol subtraído, onde quer que estivesse, talvez porque tivesse um coração enorme e as “qualidades sociais” erradas.

Acho que o mundo tem “outcasts” que estão no mesmo país, no mesmo grupo social, dentro da própria família. “Outcasts” são os que não corresponderam às expectativas. Os que estão no mundo da lua, os intensos demais, os que não se encaixam. Os que, muitas vezes, veem o mundo com a tristeza e a alegria que ele realmente tem. Gente honesta demais (e, portanto, frágil demais) e que talvez também tenha a cor “errada”, os gostos “errados”, o peso “errado”, a orientação sexual “errada.” Gente que comete o erro de falar livremente, de não ter …

MENINA DESCALÇA NO PÁTIO >> Carla Dias >>

A primeira vez que a viu, sentiu que sua vida começara a fazer sentido. Antes dela, tudo parecia meio sonso, uma longa espera em alguma antessala de casa desconhecida. Quando a escutou recitar aquele poema de autoria desconhecida, como se a ela pertencesse autoria não somente daquele poema, mas de todos os já escritos nessa vida, rendeu-se à constatação: para respirar, precisava dela por perto.

Tinha treze anos de idade na época. Ela participava da Feira de Artes da escola, recitando poema no pátio. Era menino quieto, de quietude que inquietava até aos inquietos de sua turma. Mas ele não se importava com isso, que tinha mais o que fazer do que dar crédito à sua incapacidade de ser como esperavam que ele fosse, como planejar a felicidade que conheceria em breve.

“Em breve” tornou-se um tempo longo e arrastado. Mas ele se deu conta, lá pelos vinte e poucos anos de idade, que paciência é a ciência de viver a vida com os pés na realidade. E a realidade proporcionara a ele uma vida distin…

TECNOLOGIAS, APLICATIVOS E ATUALIZAÇÕES
>> Clara Braga

É o que eu sempre digo, as pessoas são criativas, isso é um fato, o problema é que nem sempre sabem utilizar a criatividade de maneira positiva. Se pararmos para pensar, muitos objetos/utensílios que temos hoje são frutos de desenvolvimentos tecnológicos de guerra, ou seja, já tiveram como objetivo auxiliar a destruição em massa. Mas vai dizer que a pessoa que criou tais objetos não foi criativa?
Em uma era na qual o mundo evolui mais rápido que a velocidade da luz, as pessoas tem se aproveitado disso e criado cada vez mais coisas que vem facilitando o nosso dia a dia. Das ideias mais simples às mais complexas, não interessa, quem tem interesse por tecnologia já deu graças a Deus por ter um GPS em mãos ou já passou um bom tempo brincando de tentar bater papo com a Siri.
Seguindo a mesma linha do GPS, existem aplicativos como o Waze que também são uma mão na roda. Não, não digo isso para poder sair, encher a cara e voltar para casa fugindo das blitz, mas saber onde tem trânsito, fugir…

ATÉ BRUTUS >> Albir José Inácio da Silva

Ando com saudade das ameaças. Sei que o leitor pensa que eu deveria estar com saudade da minha sanidade. Mas é que a ameaça apresenta a violência, prepara-nos. E traz uma alternativa. Ou isso ou aquilo, “ou me dá a carteira ou te espeto a barriga”. E nesse caso sempre se pode preferir ficar sem a carteira.
Mas já ninguém ameaça. Atira-se, esfaqueia-se para depois solicitar a vantagem. Felicitávamos as vítimas de assalto: “ainda bem que foi só o dinheiro!”, hoje felicitamos: “ainda bem que não atingiu nenhum órgão vital!”. Está faltando a clássica ameaça: “A bolsa ou a vida!” As facadas têm vindo antes, e atira-se pra depois perguntar.  Quebram-se as regras também nos assaltos. Eu queria de volta os ladrões sorrateiros, que preferiam o dinheiro ao sangue. A cara e a roupa identificavam o assaltante, e a gente podia entregar o dinheiro ou correr e pular o muro da embaixada.
Agora os malfeitores participam do jogo avisando desde logo que vão descumprir as normas quando lhes aprouver. Qu…

EU NÃO SEI >> Eduardo Loureiro Jr.

Semana passada, não sei por que, reassisti ao filme "Rain Man", que eu havia visto há mais de vinte anos. O que mais me chamou a atenção foi a expressão "não sei", dita na maioria das vezes pelo personagem principal, mas também repetida, aqui e ali, por outros personagens. Usando das facilidades da internet, localizei o roteiro do filme, fiz uma busca por todas as vezes em que a expressão "não sei" foi usada e fiz a montagem abaixo. Não sei se fará sentido para um leitor que não viu o filme recentemente. Também não sei se fará sentido para um leitor que viu o filme recentemente. Muito menos se fará sentido para qualquer leitor. Eu não sei.

Eu não sei por que me meti nisso tudo. Eu não sei o que isso significa. 

— O que você teria feito se eu tivesse lhe dito antes que você tem um irmão?
— Eu não sei.

— Você leu isso tudo?
— Eu não sei.
— Você leu MacBeth?
— Eu não sei.
— Você leu todas as histórias deste livro mas não sabe se leu o livro?
— Eu não sei.
— Você gosta…

FECHADO PARA BALANÇO >> Paulo Meireles Barguil

Essa frase é bastante utilizada quando um estabelecimento comercial está verificando o seu estoque, ou seja, os funcionários são mobilizados para checar se as mercadorias informadas no sistema existem.
Às vezes, esse momento antecipa uma promoção, quando alguns produtos são oferecidos com preços menores aos anteriores.


Uma variação da 1ª versão refere-se àquelas situações em que alguém, após o término de um relacionamento, firma o propósito de ficar um tempo indisponível para avaliar o que aconteceu.

Essa faxina emocional proporciona melhores resultados quando o foco se concentra em si e não no outro, por incentivar a responsabilidade pessoal de suas escolhas em detrimento da opção de se colocar como vítima.
É possível, também, utilizar a sentença para expressar a decisão de uma pessoa de se desligar, temporariamente, de suas responsabilidades e, assim, poder oscilar corpo, emoções e pensamentos. Essa digressão contribui para que o indivíduo, ao experimentar situações distintas das h…

FAZ FALTA UM INTERLOCUTOR >> Mariana Scherma

Morar sozinha tem suas grandes vantagens. A cama de casa que você ocupa do jeito que quiser, pode dormir na diagonal sem receber chutes suaves (ou não) na madrugada. Pode deixar o livro perto, ou vários livros. Sabe que, quando chegar do trabalho, as coisas vão estar do jeito que você deixou. Inclusive seu chocolate importado vai estar lá, intocável e esperando pacientemente por seus dentes ferozes. Tem o espaço do guarda-roupa todo para suas coisas e aí pode se dar ao luxo de comprar uma coisinha ou outra desnecessária. É bom morar sozinha. Mas tem dia que não.
Bem nos momentos em que não é legal viver by yourself é que as coisas mais bizarras, engraçadas e atrapalhadas acontecem. Não sei se com todo mundo é assim, comigo é. Morar sozinha deixa de ser bom quando você desliga o chuveiro e percebe que a toalha está no varal, você grita mãe no pensamento e nada acontece, sai pingando água pelo apartamento, resgata a toalha e percebe que, ops!, estão pintando o prédio por fora, bem perto…

AINDA SOBRE MÚSICA >> Carla Dias >>

Música pode ser delicada e também de protesto. Pode ter letra ou não, e neste caso, espero que os amantes de refrão se acomodem para apreciar o feito. Tem música regional que não sai da região e tem aquela que ganha o mundo. Tem músico que faz sucesso no bairro e aquele que faz sucesso em praticamente todos os bairros de muitos países.
Orquestra Filarmônica de Viena | Star Wars


Há tanta música nesse mundo. Você já deu uma escutada por aí?

All the Same | Vieux Farka Toure convida Dave Matthews © Vieux Farka Toure e Dave Matthews



Além dos reality shows musicais, dos espetáculos grandiosos. Em tempo... Tenho nada contra espetáculos grandiosos, dos grandes palcos e milhares de ingressos vendidos. Mas garanto que já vi alguns tão grandiosos quanto — se não ainda mais grandiosos, em salas menores —, até em sala de casa. 

Permitido | Kleber Albuquerque © Kleber Albuquerque



Abaixe a câmera, deixe o clique e o record pra depois. Aprecie o show, a capacidade de estar presente.


Since I’ve Been loving…

BOA TARDE, SENHORA... >> Clara Braga

— Senhora, você gostaria de fazer o cartão Renner?
— Não, obrigada!
— Senhora, se você fizer o cartão Renner você vai ter 10% de desconto na primeira compra. Tem certeza que não quer fazer?
— Muito obrigada, eu até já tenho o cartão Renner, só não gostaria de usar agora.
— Tudo bem senhora, você poderia me passar o CPF então?
— Claro!
— Senhora, aqui consta que você não tem o cartão Renner, você gostaria de fazer?
— Eu tenho!
— Senhora, o cartão é para a vida toda, ele não desativa por falta de uso. Se você tivesse, iria aparecer aqui!
— Eu tenho, não sei por que não aparece para você, mas isso não é um problema já que eu não quero mesmo usar o cartão para efetuar a compra.
— Senhora, pode ser que não esteja aparecendo aqui pois você não é a titular. Caso você faça um cartão como titular, você tem 10% de desconto na primeira compra.
— Então agradeço bastante, mas não! Vou passar no cartão de débito, já posso inserir o cartão, digitar a senha e ir embora? Obrigada.
Enquanto isso, eu ai…