quinta-feira, 13 de agosto de 2015

PARA ANGIE, COM UM NÓ NA GARGANTA
>> Analu Faria

O Google Tradutor diz que “outcast”, em português, quer dizer “exilado”. Não acho que a tradução faça jus à força da palavra na língua inglesa. Quando penso em Angie, sempre penso em “outcast”, não em “exilada”. Exilados são gente expulsa. Angie não foi expulsa. Veio ao Brasil por vontade própria. Mas sempre me pareceu que tinha seu lugar ao sol subtraído, onde quer que estivesse, talvez porque tivesse um coração enorme e as “qualidades sociais” erradas.

Acho que o mundo tem “outcasts” que estão no mesmo país, no mesmo grupo social, dentro da própria família. “Outcasts” são os que não corresponderam às expectativas. Os que estão no mundo da lua, os intensos demais, os que não se encaixam. Os que, muitas vezes, veem o mundo com a tristeza e a alegria que ele realmente tem. Gente honesta demais (e, portanto, frágil demais) e que talvez também tenha a cor “errada”, os gostos “errados”, o peso “errado”, a orientação sexual “errada.” Gente que comete o erro de falar livremente, de não ter a malícia dos “vencedores”. Gente que acredita nos que as crianças acreditam. Angie tinha alguns desses “erros.”

A vida para os outcasts não é fácil. Há uma dor de sentir que não se está onde se deveria estar. Talvez por isso Angie tenha vindo para o Brasil. Claro que encontrar um amor por aqui ajudou. Claro que deixar um passado difícil para trás contribuiu. Mas, mesmo que não fôssemos melhores amigas e eu não soubesse muito sobre a história dela, eu via uma inquietação que a empurrava para frente, para outros lugares, outros empregos, outros projetos. Desconfio que viver no Brasil, mesmo sem documentos, era resultado dessa inquietação. Havia nela uma procura que, aparentemente, estava chegando ao fim pouco antes de sua morte. No dia em que faleceu, Angie publicou em seu perfil no Facebook que estava encontrando uma certa paz em voltar ao catolicismo. Ia à missa todos os dias.

Rhiannon Khrystyan Black, a Angie, era uma americana vivendo no Brasil, lutava contra uma depressão profunda, morreu de infarto, aos 42 anos, no fim de julho deste ano, no interior do Paraná. Sabia o valor da amizade, dava conselhos sensacionais, dos engraçados e dos bonitos. Não suportava que alguém se aproveitasse da vulnerabilidade alheia, torcia o nariz para os preconceituosos, tomava as dores dos outros, era solidária, transparente. Tinha ressonâncias humanas, essa coisa rara e indispensável.  Alguém que sofreu por estar fora da faixa de comportamento “aceitável”, apesar de todas as qualidades humanas maravilhosas que tinha. Uma outcast.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela homenagem, Analu.

Zoraya disse...

Parece ter sido, realmente, maravilhosa,a sua amiga, Analu. Que bom q vc pôde conhecê-la. E longa vida aos outcasts, sem os quais o mundo seria bem menos colorido e muito mais difícil de aturar.