sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O BOMBOM SONHO DE VALSA DE IRINEIDE
>> Zoraya Cesar

Liberdade. Que estranha palavra, aquela, sussurrada pelos desvãos e frestas da casa, como um anátema, maldição, coisa do demo. Uma ilusão, que colocava as pessoas a se perderem pelo mundo, sem eira, à beira do precipício. 

“Mulher com liberdade vira mulher à toa”, dizia o severo e sisudo pai de Irineide. A mãe, tão carinhosa, tão alegre e risonha, não gastava tempo com palavras ou sermões. Preferia brincar com a filha e escondia bombons Sonhos de Valsa para que Irineide os procurasse e depois os comessem, juntas, escondidas, para que o pai não desaprovasse a comilança e a bagunça. Era o momento mais feliz da vida da menina.

Com o tempo, as frequentes e acerbas brigas entre o casal foram minando a alegria da mãe, as brincadeiras, os risos e os bombons. Passava horas em frente à janela, triste, ensimesmada. Para Irineide, a mãe lhe parecia um frágil pássaro desesperado, engaiolado num espaço muitas vezes menor que seu próprio corpo. 

Era tarde de outono, o vento soprava pela janela semi-aberta, soando como uma coruja sonolenta, u-uh-u, levando folhas e flores para dançar ao som de uma música inaudível. Irineide observava, encantada, aquele colorido e alegre bailar, quando a mãe entrou no quarto com um bombom Sonho de Valsa nas mãos. A criança comeu o bombom, o coração exultante, os olhos fixos na mãe, que desamassava delicadamente o celofane, enquanto pedia-lhe que jamais deixasse de procurar sonhos de valsa. A menina não entendeu, mas escutou. 

Irineide nunca mais viu seu pequeno pássaro. A mãe, constantemente reprimida e infeliz, bateu asas, voou, levada pelo vento outonal. 

O pai se vestiu de luto e amargor por anos, nunca mais se casou. Baniu da casa toda e qualquer lembrança da mulher e proibiu que pronunciassem seu nome. Dedicou-se à farmácia, da qual era dono, e a podar, sistemática e calculadamente, todo e qualquer devaneio por liberdade que Irineide pudesse ter. A menina, de personalidade dócil e serena, foi criada debaixo do medo da desobediência e de contrariar o pai, coitado, já tão sofrido. Fazia tudo para agradá-lo e diminuir-lhe a dor de ter sido abandonado sem explicações. 

Assim que ela aprendeu a fazer contas, o pai a colocou como sua assistente na farmácia. E, quando percebeu que os hormônios da adolescência poderiam ameaçar o seu reinado, simulou uma doença que carecia de muitos e esmiuçados cuidados. Irineide não tinha tempo nem ânimo para se ocupar com nada que não fosse o negócio, a casa e os cuidados com o pai.

A vida continuou seu curso. 

Alguns anos depois, cansado de bancar o doente, o pai engendrou outro golpe para manter a filha sob seu tacão. Convenceu-a a se casar com o sapateiro, um hipocondríaco que não saía da farmácia — por motivos óbvios. Irineide não sonhava com liberdade, nem sabia o que era isso, mas gostou da ideia de ter a própria casa, ser dona de seu tempo, voltar a estudar. 

Casou-se, pois. E a vida continuou seguindo — como sempre o faz, até ser interrompida. O marido, assim como o pai, acreditava que mulher ocupada não pensa bobagens. E Irineide, ensinada desde sempre a ser submissa e obediente, jamais questionou os dois homens da casa. A liberdade levara sua mãe embora, não devia ser coisa boa mesmo. 

Quem puxa aos seus não degenera, dizem. Irineide podia ser uma marionete nas mãos do pai e do marido, mas não nascera estúpida. Herdara inteligência e sensibilidade suficientes para perceber que havia algo errado em sua vida, muito errado.

O outono dourava a tarde lá fora. Irineide estava inquieta, incomodada por uma angústia indefinível e poderosa, que não cabia em seu peito. Batia com o corpo nas paredes, como se tivesse perdido a noção de espaço, tal qual um pássaro grande em uma gaiola pequena. 

Resolveu faxinar o escritório do marido, aquele ser que não lhe dizia nada e a entediava de morte. Lá encontrou, camuflada embaixo de um móvel, uma pilha de revistas pornográficas, de viagens, carros, tudo o que o marido dizia abominar. Moralista hipócrita, pensou. 

A súbita consciência de que havia vida além daquelas paredes, de que fora usada pelo pai e pelo marido por todos aqueles anos, abriu, no coração de Irineide, um abismo insuportável. Em seu quarto, pegou, escondida atrás do espelho, a embalagem daquele último bombom Sonho de Valsa que a mãe lhe dera. Amassou-a com as mãos e chorou, chorou, chorou. De ódio, pela vida perdida; de nojo, pelas noites de sexo sem amor; de raiva da mãe, que a abandonara nas mãos de um pai obtuso, egoísta e, tinha ela certeza, mentiroso; de sua própria passividade. Nesse momento ela compreendeu a atitude da mãe: às vezes, a fuga é a única saída.

O vento soprava pela janela, um som de coruja sonolenta, u-uh-u. Irineide  teve ímpetos de sair porta afora e ser uma folha ao vento, sem rumo e sem sentido. Sua mãe pagara um preço alto pela liberdade. Teria valido a pena? 

Arrumou uma mochila com poucas roupas e o essencial. Pegou todo o dinheiro que conseguiu, do pai, do marido e do caixa da farmácia. Deixou um bilhete simples: “Vou sumir no mundo, que nem a minha mãe. Não me procurem, que eu não volto. Adeus”. 

E saiu ao encontro do vento, uma folha de outono, solta, dançante. 

Na rodoviária, comprou uma passagem só de ida para o Nordeste. Viveria sem amarras invisíveis. Venderia peixe na praia. E bombons Sonhos de Valsa. Muitos sonhos de valsa.


Amigos, estou de férias, volto a publicar no dia 11 de setembro. Até lá!



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8 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bons sonhos, Irineide! :)

Ana Luzia disse...

É, para tudo há um preço...

essa crônica continua? queria ver Irineide valsando seus doces sonhos...

beijos

Erica disse...

Fala sério. Essa mãe da Irineide... Humpf! Como ela larga a filha com esse pai castrador? Que ela não levasse quando fugiu não digo nada, mas não voltar pra buscá-la foi o fim da picada. Fiquei revoltada. Rs

Clarisse disse...

Voa,voa, Neide, vai viver seu sonho (de valsa?)...

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Boas férias!

Anônimo disse...

parece a introdução de um romance... ;-)

albir silva disse...

Voa também, Zoraya, mas volta em setembro!

Zoraya disse...

Pessoal, obrigada! Acho que vou aproveitar as dicas de vocês e transformar Irineide num romance. Obrigada pelos desejos de boas férias! Beijos em todos.