segunda-feira, 31 de agosto de 2015

RUA 7 DE SETEMBRO >> André Ferrer

A história que eu tento escrever se passa em Brasília. Isso, de fato, tem se revelado uma das experiências mais terríveis para mim porque a capital do nosso país não têm ruas. Brasília tem códigos criptografados no lugar de ruas.

Para quem não é leitor contumaz de contos e romances — e muito menos escritor , pode parecer tolice. Não é.

Trata-se do tipo de coisa que interfere diretamente no legado de uma obra literária. Meses, anos, décadas depois de uma leitura, personagens e cenários memoráveis acabam sendo decisivos sobre o que, realmente, permanecerá.

Itinerário e gastronomia são o que há de marcante para mim numa história. A textura e os aromas de ruas e alimentos têm sido responsáveis pelas minhas melhores recordações. Ponto este que, sem dúvida, depende de um fator emocional e estilístico. Não basta, simplesmente, que se enumerem toques, cores, nuanças, ruídos, jogos de luz e sombra. Bem entendido: ruas e pratos devem ser peças e não acessórios da narrativa.

Livros de viagem não são contos nem romances. Definitivamente, guias de qualquer espécie entram naquela categoria de coisas evitáveis ou, no mínimo, sujeitas ao adiamento até que sejam tão necessárias, por exemplo, quanto uma ferramenta de trabalho. Um guia, no meu caso (e, sempre espero, no caso de qualquer autor de narrativas), não passaria de um esboço.

Eis a questão: o plano sensorial de um texto só dá conta do recado se a sensação fizer parte do repertório do leitor.

Já disseram que Brasília é outro mundo. Repetiram à exaustão. Eu concordo. Mas há de existir um eco qualquer de universalidade capaz de unir um leitor brasiliense que nasceu, cresceu e amadureceu na Shis Q1 7 Conjunto 2 ou, então, na Q10 Conjunto BD, e todos aqueles brasileiros que vivem numa das centenas de ruas 7 de Setembro espalhadas pelo país.


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3 comentários:

João Paulo disse...

O sistema de endereços de Brasília é uma das coisas mais irritantes que existem. Quando trabalhei em empresas de Call Center, passei inúmeros transtornos por conta deste sistema, pois em algumas casos é difícil de entender, de encontrar no mapa. É um saco!

Os endereços não se referem às ruas, mas às quadras e/ou setores — que equivalem aos quarteirões tradicionais em todas as cidades. Parece um jogo de tabuleiro. Sei lá!

Parabéns pela crônica, André! Excelente!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Não vejo muita diferença entre "7 de Setembro" e "213 Norte". Aqui perto de onde moro, tem a Rua do Amor. Aí, sim, faz diferença. :)

pacecamillo disse...

Parabéns André voce me remete às crônicas de Machado de Assis.. e outra conotação com Brasilia é que minha cidade também os endereços se localizam por quadras ...rua 7 Setembro 7-77. Manda ver meu amigo..